3044. Cocos aos povos
04/03/12
Quando do coco da cabeça
se faz a ponte ao todo
do corpo,
quando o inteiro do ser
bloqueia a inércia
de não ter,
quando a totalidade
da fé se completa com
flechas e raízes,
quando a independência
é solução diluída
e sorvida na água da luz,
é quando o horizonte
repousa circundante
dentro de si:
no meio dos cocos, como chaves para uma libertação.
3042. A casa dos mortos
22/02/12
quem há de dizer quem existe?
só o segredo da salvação
apocalipse 16 ronda a boca
há interesse, há alma
o mundo esqueceu e a página é morta
cada vida louca assaz louca restando grade
grande emaranhado para a salvação
do tamanho do corpo moído
três anos de reclusão inconclusos
para todo o sempre
amém.
preto
pobre
louco
ladrão
mortos desde a sua fatídica construção.
pedra
pela cabeça
pela forca
preto
pobre
louco
ladrão
guardados a sete taças, trombetas e esquecimento.
pausa: uma pescaria
04/01/12
pausa: trevas antes e depois [?]
30/06/11
“[...] a credulidade, a aversão à dúvida, o receio de contradizer, a parcialidade, a negligência na pesquisa pessoal, o fetichismo verbal, a tendência a dar-se por satisfeito com conhecimentos parciais, essas e outras causas semelhantes impediram que o entendimento humano fizesse um casamento feliz com a natureza das coisas e foram, em vez disso, as alcoviteiras de sua ligação a conceitos fúteis e experimentos não planejados: é fácil imaginar os frutos e a prole de uma união tão gloriosa.”
Francis Bacon, falando sobre os arautos fanáticos das trevas de uma idade média, ou Francis Bacon, falando sobre os arautos fanáticos das trevas de uma contemporaneidade?
pausa: ter o domínio…
15/05/11
Dominium Remixus
Parteum
Apesar dos pesares corro pra ver se anda
não pra saber quem manda ou comprar o que vi na propaganda
sigo meu próprio rumo, me arrumo com minhas condições
pro meu consumo sem maiores ambições materiais
quero minha paz, meu lugar
me livrar das correntes pra mente respirar
coloco ordem no meu caos pessoal
pra encontrar um sentido no qual possa me inspirar
meu motivo pra acordar em qualquer horário
abrir os olhos pra enxergar o itinerário
me guiar mesmo quando embaçar a visão
minha intuição diz que é temporário
e que eu posso bem mais do que imagino
quanto mais tento mais tenho noção
de que depende só de mim pra traçar meu destino
pra trilhar meu caminho com a vida na mão
ter o dominium, mente matéria
coisa séria, jogo de gente grande
minha vez, minha verdade
minha versão, meu modus operante
Prefiro os demônios que me conhecem
quanto mais me aborreço mais crescem
quando mais me despeço mais pedem pra eu ficar
a quem tente duvidar do que faço chover na rima
eu ando pela mente desses, feito enzimas
quando cataliso a oportunidade
domínio do latim, controle de propriedade
verdade seja dita, eu esperava mais da minha geração
concedo a informação
que falta aos mesters pra mudar de direção quando é preciso
talento eu vejo um monte, falta um pouco de juízo
faço dívidas maiores que o salário do seu pai
totalmente iluminado feito filme da Lakai
Parteum, Kamau e Rick
casa de pau-a-pique com essência de mansão
a beira do precipício fazendo meditação
Davi versus Golias todo dia na indústria da adoração
dominium, mente matéria
coisa séria, jogo de gente grande
minha vez, minha verdade
minha versão, meu modus operante
Desde a época de épicos, a época de réplicas
fiéis autenticadas de levada, estilo e métrica
não há mais ética no jogo, to esperto com quem me queima
e por quem eu ponho minha mão no fogo
boatos querendo status de lenda
novatos querem contatos na agenda
querem respeito imediato com frases de efeito imediato
mas não existe jeito imediato pra aprender
nada de supletivo pra compreender
qual o motivo que me tornou autodidata por necessidade
nessa ciência que me pede paciência pra manter a sanidade
será que vale a pena essa dedicação?
será em vão se for pela metade
dou pela verdade pra cumprir a função
pra seguir na missão com o microfone na mão
ter o dominium, mente matéria
coisa séria, jogo de gente grande
minha vez, minha verdade
minha versão, meu modus operante
pausa: porque poesia toca
27/04/11
[a cada dia que passo tenho mais certeza de que no rap é que tem ocorrido a maior revolução poética da contemporaneidade]
O Tempo e Os Sonhos
Elo da Corrente
Tem coisas que ficam no ar não por acaso.
as caixas te confundem quando batem com atraso.
Meus pés descalços n’água rasa e transparente,
me dão a sensação de liberdade ao consciente.
Mas não, o chão é cinza assim como horizonte,
aqui a água é não potável, não tem fonte.
A gente almeja o que não pode ter sem agradecer,
por tudo que temos e não nos deixa perecer.
Aparecer alguns quiseram… se perderam,
vieram outros; os mesmos erros cometeram.
Não se trata de jogar o jogo, é diferente,
quem fala realmente do que sente?!
O tempo é louco não desdenha eu desenrolo,
sempre pondo em prática os planos que eu bolo.
Descolo por um triz um jeito de burlar e ser feliz,
sendo constante e com caráter de aprendiz.
Coerente com o que vivo, entendo e observo,
interessante às amizades que conservo.
Vagando num pedaço de mundo feito de sonho,
às vezes musicando a tal vivência que eu disponho…
As horas passam, os dias correm,
os anos morrem, os sinais não disfarçam.
Os tempos passam, os homens correm,
os sonhos não morrem, as lágrimas não disfarçam.
Eu me aprumo e toco a vida sob caminhos melódicos,
nesse mundo sem harmonia e de valores tão módicos.
Espaço nada lógico pra quem não crê no trabalho duro,
eu já traçei meu rumo a gente se vê no futuro.
Os apuros que passei me fizeram ser quem sou,
quase tudo que hoje sei foi o tempo que ensinou.
Eu caio mas me levanto, cada vez mais forte.
Meus medos os expulsei, de certo já tenho a morte.
E isso é o bastante pra eu buscar em cada instante,
as respostas pras perguntas desta vida angustiante.
Inquieto eu sigo adiante, calo-me ao que é relevante,
só quero o necessário e não cifras exorbitantes.
Mas não há porque fingir o mundo é torto e confuso,
e a cada dia que passa mais nele me sinto intruso.
Eu recuso os seus atalhos, sei bem como é o trabalho;
faço das minhas linhas uma colcha de retalhos.
Caio e PG comigo nesse árduo caminho,
ninguém falou que ia ser fácil enfrentar o mundo moinho.
As horas passam, os dias correm e nem vemos;
é como Leminski disse: Distraídos venceremos!
As horas passam, os dias correm,
os anos morrem, os sinais não disfarçam.
Os tempos passam, os homens correm,
os sonhos não morrem, as lágrimas não disfarçam.
pausa: Paula Taitelbaum
08/04/11
Tem coisas que são mais que murros na cara, são quase chute nos ovos. Ok, péssima metáfora, ainda mais para alguém que, como eu, não é partidário de experiências masoquistas, esse papo de uma dorzinha aqui, o limiar do prazer, sei não, nunca consegui entender. Ou nunca consegui sentir o tal prazer na dor. Então tá, mudo a história: tem coisas que são mais que lambida nos ovos, são quase um gozo inteiro.
Eu estava no aeroporto (calma, infelizmente não consegui nada com alguma aeromoça dentro do quiosque da Infraero), o avião atrasaria sabia-se lá quanto tempo, papo pro ar, sem nenhum emepetreizinho pra dar uma estia, viagem pá e bola, nenhum livro também. Trouxa. Isso nunca se deve fazer, mesmo que não se vá ler nada durante os dois dias e meio em Vitória – o que se tem pra fazer mesmo em Vitória? – deve-se sempre levar um livro a tira colo, nem que seja só pra tirar uma chinfra com a mina: segura o seu Ao Farol, enquanto relaxa na cadeira do aeroporto com aquela cara de “isso, eu trabalho, viajo de lá pra cá, mas ainda assim, dou um tempo e leio Virgínia Woolf no avião”, enquanto olha pra ela por cima dos óculos… Clichê do clichê total. Mas, tudo bem, às vezes cola.
Aí eu resolvo dar uma olhada na revistaria. Afinal, aeroporto não tem banca, tem revistaria ou, na maioria dos casos, livraria. Enfim, entrei nesses mercadões de papel impresso estabelecidos nos portos aéreos e comecei a procurar algo pra ler: Carta Capital? Puts, sem chance, sem análises macroeconômicas keynesianas por alguns dias. Piauí? No way! CQC em papel não é minha praia… Caros Amigos? Hum, claro que não. Veja? Opa, to brincando! Le Monde? Aff, texto demais, sem saco total hoje. Quase comprei uma palavra-cruzada, o problema é que você não pode tirar uma onda com as meninas com uma palavra-cruzada, mesmo que seja o Super-Desafio Cobrão…
Continuei a tarefa de me distrair. Aquilo de olhar revistas estava ajudando a passar o tempo. Fui até a coleção L&PM Pocket e passei o olho: Receitas Vegetarianas, Pablo Neruda, Eduardo Galeano, Eça de Queiroz, Agatha Christie, enfim, gosto da L&PM, eles tem um critério randômico interessante para suas publicações, ao lado do A Paz Perpétua do Kant, e abaixo de Aline 2: TPM – tensão pré-monstrual do Iturrusgarai estava lá, isso:
Decididamente gostei do título e da capa, e a contracapa também era de um singeleza ímpar, apenas notava: “Desaconselhável para puritanos e menores de 18 anos”. Na orelha do livro uma grata surpresa:
Taitelbaum, Paula
poeta de renome
tem pau até no nome.
A biografia poética era de Claudia Tajes, de quem, graças à L&PM, eu havia adquirido o delicioso Dez (quase) amores, um livro de contos sobre uma mulher que tenta amar e acaba apanhada pela rude realidade desse nosso universo masculino obscuro… Mas tudo bem, isso é papo pra outra hora, o objeto de estudos delimitado aqui é outro, o recorte epistemológico é em Taitelbaum, Paula, que abre seu pocket assim:
Eu abro as pernas
para perpetuar
a tênue
ternura
do infinito
da Fênix
e seu rito.
De cara ela já se abre toda, mais ainda assim, um tanto receosa: tentar e se dar. Renascer a cada novo rito de de novo abrir as pernas exige, pelo menos, alguma ternura, pois que, senão, a faca em nossas cabeças seria fácil. Mas aí, logo na sequência, página seguinte mesmo, ela desata qualquer perspectiva de se conter:
Eu abro as pernas
para enrijecer
o grelo
descontrolar
o grito
gotejar
a gruta
e me perder
no atrito.
Ufa. Na cara essa. Ok, na cabeça, direto, sem preliminares, no máximo dois beijinhos de “prazer em te conhecer” e crau, já era. Li mais alguma coisa e fiquei pensando num adjetivo, naquele momento nada me veio a mente. Taí, agora veio. Taitelbaum, Paula, tem uma poesia friccionável:
Meu lugar preferido
é perto do seu ouvido
nas dobras da sua orelha
onde minha língua passeia
sem sair do lugar
é lá que enfio bem fundo
o verbo mais imundo
que consigo encontrar.
Dá pra esfregá-la em várias partes do corpo:
Ele traduz meu silêncio
reescrevendo com saliva
minhas saliências
no instante do refluxo
no reflexo das quatro pupilas
os pensamentos
são como palavras
ele pode me ler.
Tem quem tenha problemas com o pornográfico, como se o sexo representado para o deslumbramento – na maioria das vezes – solitário, fosse algo apenas intermediário, sem mérito, mas em grande medida, eu penso o contrário:
Na vulva vibra a larva
que logo será borboleta
sairá de seu casulo
vai virar uma boceta.
Há também os moralismos, que hoje se alfinetam em várias ordens possíveis e imagináveis, e ainda se flagelam com espinhos no cacete. Tem gente bem nova – e o pior, bem próxima – que até parece, se vê como a próxima vinda de Cristo, os arautos da moral e dos bons costumes, aqueles que vão trazer a novíssima boa nova. E recriminam o baixo, o impuro, o vil, como se falar palavra de baixo calão fosse melhor que os pensamentos demoníacos que os percolam dia a dia. Prefiro quem bota pra fora a palavra, sublima toda essa porra e diz em alto e bom som, eu trepo e gosto dessa zorra:
Tô cansada
de foda
cronometrada
queria horas
e mais horas
de cravada
depois dormir
em concha
encaixada
com a xota
cheia
e toda
inchada.
A poesia da Paula é paulada na moleira contra mitos. Às vezes o machismo cultural introjetado fala mais alto e eu até penso que essa poesia toda é meio miragem, coisa que não existe, tipo “mulher escrevendo isso?”, mas aí eu dou uma mordida no meu machismo e relaxo, que que tem uma mulher falar que gosta de dar o rabo?
Quando teu dedo
passa perto do meu cu
eu me sinto um pouco tu
tudo turmalina.
Quando teu dedo entra
atrás e através
eu arrepio o dedo do pé
pena perpétua essa minha.
Quando nossas pernas
formam um nó de nós
viramos corpos celestes
não te veste me traveste.
Quanto tua língua busca
o meu maremoto
eu morro subitamente
peixe preso na rede.
Tá, tem mesmo quem falará que ela é que é machista. Se enquadrando em estereótipos sexistas e realizando a fantasia de homens que querem as mulheres vadias, principalmente quanto ao sexo, desses mesmos caras que querem, na verdade, as minas castas para casar. Mas qual o quê, século XXI, porque a gente não deixa as pessoas gostarem do que gostam, principalmente quando o quesito é foder? (Ok, argumentos sobre pedofilia não estão sendo computados, beleza?).
Desenhe círculos
sobre meu clitóris
infinitos pontos finais
um pra cada um
dos meus ais.
Gosto de poesia puta. Gosto de sexo nas palavras. Cheiro de tesão em cada verso. Foi bom pra mim encontrar essa mina na prateleira da revistaria, orgasmo sem pudor. Talvez, foi bom pra ela, se esse lance de publicar livros der alguma grana, ela pode ter pagado um jantar que a levou para uma cama dividida com a minha ajuda…
Bom, sem problemas, que atire a primeira pedra quem nunca gozou:
De seus lábios surgem plumas
que me transformam em plasma
viro puro pleonasmo
pluma plasma pleno
orgasmo.
PS: Sítio dela mesma não encontrei, mas percebi – via Google – que tem muita coisa dela no blog da L&PM (como aqui e aqui). Aqui temos o perfil de autora dela na editora.
pausa: Shakespeare
25/03/11
Sonnet LX
Like as the waves make towards the pebbled shore,
So do our minutes hasten to their end;
Each changing place with that which goes before,
In sequent toil all forwards do contend.
Nativity, once in the main of light,
Crawls to maturity, wherewith being crown’d,
Crooked eclipses ‘gainst his glory fight,
And Time that gave doth now his gift confound.
Time doth transfix the flourish set on youth
And delves the parallels in beauty’s brow,
Feeds on the rarities of nature’s truth,
And nothing stands but for his scythe to mow:
And yet to times in hope my verse shall stand,
Praising thy worth, despite his cruel hand.
Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta:
Soneto LX
Como as ondas se arremessam contra as pedras,
Aproximam-se os minutos de seu fim;
Cada um ocupando o mesmo espaço,
Num incansável e destemido movimento.
Do nascimento, após vir à luz,
Engatinhamos até a maturidade, e somos coroados,
Vencendo estranhos eclipses perante sua glória,
E o Tempo, dado, que hoje nos lega seu presente.
Os dias firmam seu passo na juventude,
E cavam suas sendas sobre a fronte da beleza;
Alimentam-se da raridade da verdade da natureza,
Mas nada impede o firme corte de sua foice.
Porém, às vezes, espero que meu verso prevaleça,
Elevando teu valor, apesar de seu cruel desmando.
[lindo: ele no poema, ela na poesia, eles no fundo e ela na versão]
pausa: Ana C.
16/03/11
Os ventos da idade vinham calmos, mesmo que transtornados, e anunciavam as limitações e a intensidade desejada. Já transcorridos alguns meses de quando larguei o futuro até então mais redondo encontrado para minha vida: tudo seria simples e bom, os moleques correriam pelo quintal ou azucrinariam todo o apartamento, dois financiamentos – um pro carro e um pro imóvel – devidamente aprovados pela Caixa dado os concursos já passados, um amor leve e redondinho abençoado por algum sacerdote. Joguei tudo pro alto naquele então. Definir o motivo é coisa complexa, que se incrusta no interior de anseios tortos e certos pela angústia e pela indefinição.
Só sei que larguei todo aquele e tudo aquilo que poderia advir. Mas logo na pancada, na sequência do então, o amor já me socou na esquina. Amor ciborgue, abençoado por eletrodos e acordes certeiros feitos em guitarras e pandeiros. Amor doce e azedo que me deixou mais poesia, que me mergulhou no emaranhado dos tecidos de palavras que encobrem a banalidade da vida. Livramor libertário e libertino cheio de metáforas, que me conduziu a amar o possível e todas as suas possibilidades.
No meio daquele momento de livramor e coisa e tal, no após lampejo daquele que fora um passado mais-que-perfeito, entre uma construção poética-internética coletiva e outra, foi que me apareceu Ana Cristina Cesar. Quem me introduziu de fato àquela poeta, me fora um amor crítico literário virtual-quase-presente.
Senhorita D. dizia (chamemo-la assim) que Ana Cristina Cesar (alcunhemo-la por Ana C. somente), era a poeta que mais lhe entendia em todo a vastidão e que fora seu objeto de estudos na graduação e seria na pós, ou podeira na pós e seria na graduação, não lembro agora a ordem das coisas. Naquele então eu ainda não havia lido em profundo Ana C., apenas havia passado os olhos por sobre alguns versos, espaçadamente, diletantemente, casualmente. Havia pouco espaço para ser preenchido por quem quer não fosse Paulo Leminski ou Mário Quintana, mas sei que Ana C. não me atinava de todo. Foi nesse contexto que me chegou:
E chegou chegando como mulher que não tem meias-palavras (só meia-bruxa e meia-fera) e te pega no solavanco:
Samba-canção
Tantos poemas que perdi
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…
“Ah, filha da puta”. Foi bem assim que pensei. “Se continuar desse jeito, me apaixono, à revelia de seu suicídio… Ou por dentro de todo o choque e charme de seu suicídio… Se continuar assim, serei seu verso exercício post mortem, a fagulha do seu indício…” arrematei o juízo enquanto bebia um copo de café às altas do dia vindouro, sentando em frente ao monitor com o comunicador instantâneo ligado mostrando que estava em linha. Alguns duzentos quilômetros além, Senhorita D. me guiava:
Senhorita D. diz:
e aí? como anda nossa Ana? rsrs
Chinaski diz:
então…
Chinaski diz:
to, tipo, criando coragem pra continuar…
Senhorita D. diz:
pq?
Chinaski:
bem, pq tenho medo de me apaixonar rápido demais…
Senhorita D. diz
;-)
Senhorita D. diz:
vai na página 59
Chinaski:
peraí…
Senhorita D. diz:
se livra da verdade, se apaixona logo de uma vez…
Senhorita D. diz:
se quiser facilitar, posso pousar a mão no teu peito… ;-*
Aí então eu fui, já sabedor de que algo iria acontecer que me marcaria para sempre:
Minha boca também
está seca
deste ar seco do planalto
bebemos litros d’água
Brasília está tombada
iluminada
como o mundo real
pouso a mão no teu peito
mapa de navegação
desta varanda
hoje sou eu que
estou te livrando
da verdade
Ok, não sou nenhum amante profissional de Brasília, mas tenha cá com ela meus encantos e tenho cá com ela minha relação topofílica específica. Gosto do determinismo ambiental e geográfico que ela me proporciona. Gosto dessa seca e dessa chuva, desse concreto, dessa lonjura, desse céu desmedido e desse tanto de pau torto e barro vermelho, tudo isso sempre me foi matéria-prima poética para lapidar, mas minha relação com ela vai além de sua geografia…
Quando eu vejo alguém escrever algo sobe Brasília, que seja melhor do que ser superquadra na cama do Nicolas Behr, ou luzes das cidades satélites que o Oswaldo Montenegro e o Dom Bosco enxergam – não citarei Renato Russo, me recuso a isso, de merda já bastam as acimas citadas –, já me comovo um tanto. E essa Brasília de Ana C. era muito mais a minha Brasília. Não apenas uma conjunção espacial planejada para a urbe poesificada na plástica aparência além da existência, mas o lugar em que me acometeram algumas vezes esse pouso da mão no meu peito: cidade viva. E o lugar em que ela havia livrado alguém da verdade. Simplesmente lindo – coisa que não uso tal adjetivo à toa, fique desde já sabendo, uso-o, pois, com a devida intenção de transpor a experiência estética sublime diante de algo que mereça se “perder o tempo” em contemplar.
Lá pelas tantas do dia já quase sendo, com a pequena cara vermelha do sol se apresentando para o horizonte, vi que Senhorita D. já não mais estava em linha pelo comunicador instantâneo, mas continuei a ficar aos pés de Ana C.:
EXTERIOR. DIA. Trocando minha pura indiscrição pela tua
história bem datada. Meus arroubos pela conjuntura.
MAR, AZUL, CAVERNAS, CAMPOS e TROVÕES. Me encosto
contra a mureta do bondinho e choro. Pego um táxi que
atravessa vários túneis da cidade. Canto o motorista. Driblo a
minha fé. Os jornais não convocam para a guerra. Torça, filho,
torça mesmo de longe, na distância de quem ama e se sabe um
traidor. Tome bitter no velho pub da esquina, mas pensando em
mim entre um flash e outro de felicidade. Te amo estranha,
esquiva, com outras cenas mixadas ao sabor do teu amor.
Esse me era especialmente injetável nas veias, tipo overdose de possibilidades: “ok, eu deixo mesmo meu ar coquete pelo seu kantianismo, pouso até o que me explode recostada em meu choro, mas ainda eu – desde sempre nascida e decidida –, faço o que quero e o que posso e que você fique aí esperando pela paz perpétua no estribilho de uma metralhadora longínqua; seu sangue e sua carcaça ainda me armaduram e você me ama e eu amo tudo o que me veio depois desde que amo você, ainda que colagens de paisagens no peito”. Corri a continuar mais, agora já, de joelhos, aos pés dela:
Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos
vazios.
Primeiro o soco verborrágico, depois o koan hiper introspectivo. O suprassumo da subjetividade. E a quem, como eu naquele então, doido por sentir além da conta, sentindo tudo o que podia se sentir a cada dia, sendo quase pura sensação, queria apenas encontrar sujeitos que iguais sentissem, existi e residi um quarto de dia naquele um verso quase dois: “volto, para que o vazio se faça inteiro e preciso, lágrima cristalizada num quarto de segundo; basta apenas menos, e eu olharia o que é, para saber que já foi”. Terminei o livro ainda pela manhã e depois poesias me existiram durante um mês inteiro.
É interessante notar que esse é um dos poucos livros “roubados” que estão comigo. Não é meu esse livro, ele é da Senhorita D., pessoa que se encaixaria muito bem nesse poema constante do objeto do “furto”:
Atrás dos olhos das meninas sérias
Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão,
por injunções muito mais sérias, lustrar pecados
que jamais repousam?
O livro me foi emprestado apenas. No entremeio dum dos percursos feitos entre duzentos quilômetros pra lá, duzentos quilômetros para cá. O mais interessante foi a “troca” não planejada havida pelo livro: a sorte o trocou por um agasalho que ficou com a Senhorita D. Naquele tempo, esse agasalho me acompanhava sempre e eu tinha por ele um carinho imenso. Ele era bem parecido com a minha cara, talvez fosse já a minha cara. Era uma das “roupas de uma nova vida” que eu havia adquirido para me manter mais coeso depois da largada que eu havia promovido (lembra-se dela? a do início desse papo todo…). Hoje em dia imagino por onde ele anda, se nas mãos de alguém que precisa dele mais do que eu, ou se agasalhando o peito tocado pela mão de Senhorita D. de um literato ou crítico literário qualquer, mas gostaria que ele estivesse assim:

Noite calma, Jim afina o violão, Caio espera a cantoria, Paulo com "o" agasalho e cara de tacho e Cecília é puro encanto...

No fim da noite tudo é permitido: Paulo já deu "o" agasalho para Charles – e mesmo as calças –, Franz tenta lembrar aquela do Adoniran, Ana toma uma e tenta puxar o samba da memória e Vinícius fica ali meio paradão esperando a galera voltar com mais uísque...
Naquele momento eu estava aberto às sensações. Sentia tudo vindo a mim como um grande continuum de sincronias do acaso predestinadas. Senhorita D. chegou-me num rompante de poesia vivida e compartilhada, trouxe-me a possibilidade do encontro com Ana C., deu-me sua parcela de gosto no mundo e foi-se embora com meu agasalho, deixando-me seu livro – provável que ela levou mais coisas ainda: um gosto ruim na boca, um carrinho-de-mão, pelo menos, repleto de desilusão e um certo rancor pela espécie masculina. Mas isso tudo é conjectura, fico posto com o que posso mensurar: minha própria existência, que hoje, certamente, seria bem diferente se não tivesse topado com Ana C. em meu caminho.
Bom, já me excedi em demasia e a loucura me acompanha. No fim, o livro é mesmo muito lindo.
Senhorita D., caso ainda queira o livro, é só falar que eu devolvo, não sou, definitivamente, um ladrão de livros. E ah, realmente muito obrigado por te me colocado este livro e Ana C. na minha vida. Como ela mesma diz nele:
Este livro
Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É
prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade
que você seduz, charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.
PS: Tem muita coisa da Ana C. na rede, é só dar uma pescada aqui.
pausa: Kuri
26/02/11
Provável que o ano era 1998, momento em que me acometeu essa coisa de “buscar cultura”. TV Nacional no talo, rádio Cultura, Nacional e Senado na veia, embora internet ainda fosse apenas pra procurar coisas sobre ets, magia, religiões e pornografia, com direito a madrugada de chats. O balaio de gato era grande, entre um tombo e outro de skate e uma jogada de Heretic no pc, lia muito: Hesse, Hemingway, Lispector, Assis, Kundera, Orwell, Amado, Wolf, Rego, Queiroz, Castañeda, Andrade. Talvez, 1998 foi ano em que mais li na vida. E ainda havia tempo para as festas trash-punk-hip-hop-raulzito-um-quê-de-hippie taguatinguenses que meus irmãos me deixavam acompanhar. Fora as incursões à Chapada dos Veadeiros e todas as consequências místico-mágicas advindas com os adventos lá experimentados…
Naquela época, durante as tardes de domingo com ar depressivo que arrebentavam a barra do dia sempre, quando eu não estava na calçada olhando o tempo cair lentamente, vendo os moleques mais novos correndo pra lá e pra cá, esperando o momento em que o amor me cairia sobre a cabeça, eu estava no meu quarto escutando rádio. Gostava dos programas da Rádio Nacional e da Senado, sempre havia algo sobre música clássica, sobre jazz, sobre música brasileira antiga. Eram áfricas e asias, portugais sonoros que nunca havia sonhado escutar. Creio que foi num programa do Arthur da Távola, quando ele me apresentava os fados de Amália Rodrigues que eu me atinei em ler poesia. Já a escrevia havia um ano pelo menos, mas não tinha o costume de ler poesia. Fui até a biblioteca de minha mãe e procurei algum livro de poesia, de bobeira, encontrei esse:
Kuri, fiquei pasmando. Será? O nome do livro era bom: “Gueto”. Arrisquei, começava assim:
Gueto
Venha beber conosco, os placidamente aflitos,
pernoitar em nossas pequenas casas sem teto,
partilhar dessa dimensão em que o sonho
e a realidade não se distinguem, não se excluem.
Venha embriagar-se conosco, os anjos tortos,
desatrelar-se, aventurar-se pelo prazer da descoberta
e brindar a loucura com a mesma reverência
com que os outros brindam a coerência
das linhas retas, das quadras, dos quadrantes.
Venha misturar-se a nós, crianças medonhas,
radicar-se nesse gueto entrincheirado
além do território das engrenagens metálicas,
provar a lucidez mágica da poesia
que, de súbito, é uma dor e uma alegria.
Foi uma paulada em minha cabeça de pré-e-te(en)so(´) poeta de 15 anos de idade. Como assim, logo de cara, no primeiro encontro, ela – a poeta e a poesia – já me chamava para beber junto? Como assim, ela falava aquela linguagem diabolicamente ervácea, em tom de tonais e naguais, de partilhar dimensões de sonho e realidade conjuntas? Minha mente já louca de podecresismos, ficou mais louca ainda, quis automaticamente “brindar a loucura com a mesma reverência com que os outros brindam a coerência” e “provar a lucidez mágica da poesia”. Continuei, pois:
Marítimo N.º 5
Não atento ao que os homens
falam de Deus.
Prefiro supor
o que ele mesmo diria
se eu fosse capaz de ouvi-lo.
Alto-mar, maio 75
Estremeci. Lá estava, posta em versos, a minha propensão ateísta, fruto de overdoses e parco entendimento de Raul Seixas (à revelia de que hoje considere-o extremamente teísta e cristão…), paixão por “Cobaias de Deus” do Cazuza e Angela Rô Rô e discussões sobre a concepção de deus com o padre da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro durante as aulas de catecismo. Adorei aquele grito “creio, mas não sinto” entoado na poesia, me vi ali. Era um humanismo denunciante já de um demasiado, um quê de decaído e ao mesmo tempo com uma certeza tão forte, que me tocou de todo.
Quis ir mais fundo, decidi ler o livro de uma vez. Nunca havia lido um livro de poesia inteiro, por vontade própria, até então. Os únicos livros de poesia que havia lido eram um compêndio de Tomás Antônio Gonzaga da coleção “Nossos Clássicos” da Editora Agir e “Poesias Selecionadas” de Gregório de Matos, e tudo por conta das aulas sobre arcadismo e barroco durante as classes de literatura com a Professora Marlene.

Cola para a prova sobre arcadismo, onde se pode observar uma transcrição ipsis litteris das anotações do caderno para o livro que poderia ser usado durante a prova.

Detalhe de cola para a prova sobre barroco. Na cola se lê: “O dilema do poeta diante de tendências opostas e conflitivas”.
Continuei a leitura, eram coisas simples, belas e com um poder de concisão que eu ainda não havia percebido ser possível em se tratando de poesia – somente um ano mais tarde eu descobriria que haviam haikais no mundo… –, cada página me pegava de jeito:
Marítimo N.º 9
Se eu lhe disser a verdade,
estarei mentindo.
Alto-mar, junho 75
Uma coisa estranha explodia em mim, o dispersar veloz e impactante de uma matéria até então não sapiente da existência: dois versos, uma verdade, uma mentira, uma brincadeira silogística. Tudo ali em dois versos simples, provavelmente já ditos por qualquer outra pessoa no mundo, mas colocados ali naquele livro, naquele momento. E os lendo – os versos –, fui descobrindo a possibilidade de falar sinteticamente sobre paisagens, sobre a geografia sentimental de lugares (prenúncios de uma topofilia?):
Cidade (I)
Da janela,
um pedaço de céu,
outros apartamentos
um poste e uma renda
de muitos fios.
Nada mais –
nem mesmo a esperança
de que um pássaro
risque o espaço vazio.
Continuando, fui aprendendo a como se dar diante dos paradigmas internos e como rir de sua própria contradição:
Ironia
Às vezes eu me sinto
como se não tivesse
mais nada pra dizer…
aí me contradigo
e os rios rolam seixos
até a beira do mar.
Me antecipando por meio dela, cheguei um tanto ao sentido daquela pureza boba e leve de Manoel de Barros e daquele saudosismo infantil de Adélia Prado, que só iriam dar com os costados em minha vida tempos depois:
No Quintal
Quando era mais criança
e me deitava no quintal
ao lado das formigas,
das poeiras e das vidas
invisíveis, o sol se estendia
sobre mim: juntos
fazíamos de conta que
viajávamos pelo céu.
Um suor lavava meu corpo,
eu ria o riso fácil da infância
e, mercê de Deus, não entendia
o horror de minha avó.
Gostei tanto daquele livro e daquela poeta, que senti um ímpeto até de transbordar a arte dos versos à qual estava me atrevendo adentrar, que comecei a rabiscar desenhos no meio de seus poemas, tentando – em vão – reconstituir com imagens no papel as imagens que via durante a poesia:
Certo que nunca fui bom no desenho. Na real, os desenhos eram primários, como bem se pode observar, mas foi bom tentar fazer algo naquele momento e ainda gosto dos garranchos até hoje…
Leio Kuri agora com uma saudade gostosa, uma distância próxima. “Gueto” é um dos únicos livros que já li algumas vezes e nunca me cansei de ler. A poesia de Kuri em “Gueto” é ácida, amena, progressiva, curta e grossa. Como disse Vinícius de Moraes: “Kuri vive no meio do ‘fogo que arde sem se ver’, sofrendo da ‘ferida que dói e não se sente’, para lembrar Camões. Seu destino – ai dela! – é o amor e a poesia. Prosternemo-nos, pois.”
Lutei pra encontrar algo a mais dela que estivesse por aí, posto na internet, mas só descolei esse link a princípio: http://www.adversos.com.br/poe_kuri.htm, em que existem algumas poesias dela e de outros poetas pertencentes a um grupo chamado AdVersos, que está na ativa desde 1968 (!). De qualquer forma, taí a dica. Quem quiser procurar Kuri, que se cure da apatia poética e bons versos!
pausa: Ledusha
25/02/11
Sempre escutava na Rádio Nacional de Brasília uma música do Celso Foncesa e Ronaldo Bastos chamada “Ledusha com diamantes”. Gostava da música, achava bobinha mas, ainda assim, aprazível aos ouvidos. Não fazia ideia de que Ledusha era uma mulher (mesmo a música falando de “Ledusha e seus namorados”, afinal, não só mulheres têm namorados…) e não fazia ideia de que era uma poeta (bom, pelo menos eu acho que é a mesma Ledusha poeta de quem quero falar). Um dia perambulando num dos sebos perto da Liberdade em São Paulo, como sempre olhando o que tinha de poesia no local, depois de ter encontrado “Poesia varia” de Guilherme de Almeida, encontrei esse livro da Ledusha:
Abri o livro e dei de cara com isso:
sinhazinha em chamas
ai quem me dera uma tuberculose
uma overdose
uma carência esplêndida
Gostei, fiz aquele trejeito com a sobrancelha identificando um certo “ok, será?” e continuei:
via aérea
baby
linda tua carta
a fitinha do bonfim cor maravilha
que por azar perdi no cinema
não enforquei mais a análise
depois que comprei o jeep
vou conforme o vento
pelo rio
comi um poeta na sexta
um crítico no sábado
domingo sonrisal
parece que faz muito frio
aí em são paulo
estou bonita de cabelos novos
pelos ombros
ontem à tarde célia trouxe bombons ingleses
daqueles mentolados
e dois fininhos que matamos rápido
assim que puder mando o flaubert
e a blusa de seda para lilia
Achei linda essa coisa meio largada, com um certo tom de largadamente pensado, achei charmoso. Tipo, comer um poeta na sexta, um crítico no sábado e domingo maldizer o estômago – potencialmente devido a uma overdose de porralouquice que a consumiu, levando-a a consumir dois sujeitos num fim de semana ou mesmo ao cansaço estomacal que deglutir dois tipos como esses deve provocar em alguém: poeta ninguém merece, provocam mesmo azia (pô, azia!) e críticos, bem, são críticos, em grande medida cítricos… Mas aí, continuei:
caça à palavra
repleta, minha alma espreita atrás do estrume do mundo:
de onde vêm os versos, que face ocultam entre o amor e a morte?
às vezes os sons são os mesmos, as texturas, o tempo,
o mesmo homem a revolver-me as veias
onde se lacram as vãs repetições, que noite veste o poema?
o sol nos vasos de crisântemos, ecos de um triste país,
largos horizontes onde meu pai passeia verbos nem sempre sublimes.
tudo é memória, sirenes ligadas. a infância sempre ontem, mas aqui.
todo verso sugere uma serpente oferecida.
que na minha caça à palavra (que face ocultam o amor e a morte?)
não haja qualquer vislumbre de repouso.
Segui assim, com aquele belo final em audição interna – essa coisa de enxergar imagens ao escutar as palavras na cabeça –, enquanto alguns segundos perpassavam lentos ao redor: “que na minha caça à palavra [...] não haja qualquer vislumbre de repouso”. Foi paixão àqueles últimos versos à primeira lida. Quis apenas confirmar. Aleatório, cai no fim, página 185:
confissão
sabia os carinhos mais mansos
perdi o hábito
Sorri de leve, matutei cá com meus botões de prender miolos “dura essa moça, bem dura, com um quê de candura, gostei da criatura…”. Fui acordado do nefelibatismo por minha companheira à época: “Então, já se divertiu bastante? Vamos nessa?”, “Sim, claro, vou levar esses dois…” e saímos a descer escadas enquanto eu tentava compartilhar o que desse pra tentar – isso de transpor ao outro sensações que se afirmam no aglutinado da moleira e dilatam o tempo sem qualquer menção palpável da realidade, isso de tentar compartilhar poesia…
Não sei se foi ainda sentado no banquinho de madeira do sebo ou no carro rumo à casa ou mesmo se já em casa, que me deparei com uma dedicatória posta na primeira página do livro:
Achei graça da dedicatória, era para um Guilherme e um Pedro. “Seria um casal?”, formulei. Pensei ainda no lance do livro estar em um sebo e imaginei a separação drástica – coisa de morte física ou morte de amor – que haveria conduzido o livro até a prateleira do sebo: Guilherme pego na cama com outr@ lendo Ledusha em seu ouvido, quando Pedro chega do trabalho. Guilherme morto na sala, após consumir dois vidros de barbitúricos, com o livro da Ledusha na mão direita e uma foto do casal em Angra dos Reis na mão esquerda. Enfim, Pedro explicando para Guilherme: “Gato, essa Ledusha é uma porcaria, tudo bem que ela autografou o livro, mas vamos nos desfazer um tanto dessa trolha de poesia de quinta que você tem! Eu também preciso de espaço na estante!”…
Bom, sei que eu gostei do livro.
PS: Fuçando na rede achei isso: http://ledusha.blig.ig.com.br/. Não cheguei a ler direito ainda, mas tem uma ou outra poesia dela por lá, fora alguns insights de diário compartilhado.
pausa: uma tal de tarde tal…
13/01/11
[sim, eu trago uma flor do cerrado pra você...]
pausa: Resgate Cultural, o Filme
30/11/10
[O escritor Ariano Suassuna é seqüestrado pelas Forças Rebeldes, que pedem um resgate cultural para libertá-lo.]
Parte I
Parte II
pausa: licença
19/11/10
com a sua permissão, rainha dos raios, mas eu preciso ver o mar, porque aqui vai desabarágua…
[o vídeo é freuds, mas a música é foda...]
pausa: 30, no mínimo
13/11/10
pausa: porque já são 3:27
06/11/10
pausa: porque cauby
20/10/10
uísque, 10º andar, postes lumiando o horizonte, aquela sensação estranha de que é, visão de futuro quando tinha 13 anos, saudade do que virá
pausa: porque é itamar
18/10/10
“quando você menos espera…”
pausa: para re(s)pirar
12/10/10
“onde estará a rainha,
que a lucidez escondeu?”
pausa: para eles passarem
23/06/10
pausa: melhora.
08/05/10
pausa: procurar e pairar
19/03/10
Dando uma pausa nos trabalhos, buscando matéria poética, conhecendo outras capitais, elaborando elucubrações estéticas, morrendo de amores, e dores e mais, repensando a moral e a ética, vivendo de pós-carnavais…
Até breve com e sem métricas e mais!
Fiquem na companhia dessas mauditivas líricas sonoras:
pausa: pensemos.
02/03/10
“O livro, como um livro, pertence ao autor, mas como um pensamento, ele pertence – a palavra não é tão vasta – à humanidade como um todo. Todas as pessoas possuem este direito. Se um desses dois direitos, o direito do escritor e o direito do espírito humano, tiver que ser sacrificado, certamente o direito do escritor seria o escolhido porque o interesse público é a nossa única preocupação, e todos, eu vos digo, devem vir antes de nós.” (Victor Hugo, Discurso de Abertura do Congresso Literário Internacional de 1878, 1878)”
Mais coisas aqui.
pausa: pausa, pausa, pausa!
26/02/10
Com ela eu casava, lavava a roupa, fazia a comida, cuidava dos filhos, visitava a sogra, passeava com o cachorro e ainda seria o arrimo da família e nem cobraria fidelidade:
Varanda
Armei a minha rede na parede da varanda
Balanço eu vou
Balanço eu vou
Catando eu sou o vento
Dormindo eu viro brisa
Balanço eu vou
Balanço eu vou
Armei a minha rede na parede da varanda
Balanço eu vou
Balanço eu vou
Catando eu sou o vento
Dormindo eu viro brisa
Balanço eu vou
Balanço eu vou
Tá armada a minha rede na varanda
Cantei, o vento já deu
Um sopro de brisa leve
que te governe
quem vai sou eu
Tá armada a minha rede na varanda
Cantei, o vento já deu
Um sopro de brisa leve
que te governe
quem vai sou eu
pausa: várias doses
24/02/10
Engasga Gato
(Kiko Dinucci e Bando Afromacarrônico)
Fui na casa do expedito
Tava cheia de mosquito
Eu num sei se foi macumba
O meus’ói tava esquisito
A urucaca da velhaca
Taca a pata faz trapaça
A danada é das braba
Na arengada de mulata
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
A cachaça venenosa
Cangibrina das maldosa
Abrideira aca açu
Canha pinga engasga-gato
Quando era meia-noite
Era fogo era porre
Carraspana chuva ema
Fogo ganso gata jorna
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
O gole da madrugada
Na penumbra é meu achote
O xinapa e seu novinho
Quando bebe arrota morde
Os meus’ói tá doente
Tá sofrendo de exagero
Vê macumba na cozinha
Diz que é culpa da caninha
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
pausa: Uma pausa, uma oração.
24/02/10
São Jorge
(Juçara Marçal [en]canta, Kiko Dinucci arma toda a prosopopéia…)
Guerreio é no lombo do meu cavalo
Bala vem mas eu não caio, armadura é a proteção
Avanço sob a noite iluminado, luto sem pestanejar
Derrubo sem me esforçar, a guarnição
A guimba e a fumaça do meu cigarro
Cega o olho do soldado que pensou em me ferir
Com um sorriso derrubo uma tropa inteira
Mesmo que na dianteira sombra venha me seguir
O gole da cachaça esguicho no ar
Chorando na labuta ouço a corrente se quebrar
E o golpe do destino esse eu sinto mas não caio
Guerreio é no lombo do meu cavalo
PS: Dispensem os “comentários” do grandioso “apresentador” e ignorem a moçoila bonitinha tentando acompanhar o ritmo da música…












