são invisíveis
esses que teu medo enxerga
e te faz correr
elas não existem
essas para os quais tu fechas o vidro
os órfãos de casas
as improprietárias das ruas
aquele que no teu íntimo pensas
em atear fogo para lhe dirimir a dor
elas são o teu incômodo
que te faz segurar mais forte a bolsa
a tua falta de culpa
são as que são sombras e sobras
do que tu dejetas
os inexistentes das calçadas
as que carregam 600 quilos de ferro
os bêbados que estão assim porque querem
todas craqueiras fantasmas
assombrações para o teu saque no caixa eletrônico

essa massa amorfa torturada
violada e volante
carne que sente
que se junta e se ajuda
na fome e na cólera
no riso e no gozo
no sangue e no suor
na loucura e na lombra
na vergonha e no que resta de esperança
qual tu,
tu que não vês nada que não caiba dentro das margens
da tua própria imagem
como Aquele Umbigo onipotente de Quem cria

preto
pobre
louco
ladrão

quem há de dizer quem existe?
só o segredo da salvação
apocalipse 16 ronda a boca
há interesse, há alma
o mundo esqueceu e a página é morta
cada vida louca assaz louca restando grade
grande emaranhado para a salvação
do tamanho do corpo moído

três anos de reclusão inconclusos
para todo o sempre
amém.

preto
pobre
louco
ladrão

mortos desde a sua fatídica construção.

pedra
pela cabeça
pela forca

preto
pobre
louco
ladrão

guardados a sete taças, trombetas e esquecimento.

3041. Corda

16/02/12

Manejar as cordas que compõem a realidade
não é lida fácil depois que você cerrou as
portas que lhe conduziam à percepção.
O mundo fica rude, puro concreto,
armado.
Reflexo bestial.

A transcendência vira mero mixtape
e bricolagem de auto-ajuda.
E as cordas invisíveis que teiam o além
da realidade, viram forca.

O que religa lhe sufoca,
o horizonte ideal lhe afoga
e no fim você só quer que lhe afaguem o ego,
lhe lambam a glande e o clitóris.

É preciso, isso posto, uma paulada na cabeça
para que o além em você desça,
rodando tudo em si,
até que corda, corpo, ego se fundam no ar
e você vire vibração de um batuque sincopado
solto, girado.

Assim, como o sentido se sentindo.

Ela disse:
“não deixe que o arame farpado
de uma realidade cerque seus
olhos que anseiam por tocar
o encantamento do mundo”
e, por amor, fiz a cerca boiar
nesse mar feito em minhas retinas,
detidamente parado
qual duas lagoas de sal. Admirando,
antes de serem admiradas,
os passos maravilhosamente calmos
daquele largo senhor ao lado.
Tudo na velocidade de ficar.

3039. Mira

16/02/12

Se você já viu tantos
discos-voadores assim,
não se preocupe;
seus genes não são especiais,
você não é o escolhido,
não é louca
e nem usa psicotrópicos,
é só que você ganha
tempo demais fitando
a vastidão das alturas.

3038.

16/02/12

fiquei naquela
de que me baixou
foi um saci,
porque redemoinhou
tudo dentro aqui.

3037. CME

10/02/12

talvez tudo
provável nada
por hora eu só
espero a máxima
ejeção de massa
coronária
que me arda

3036. Àquele

30/01/12

É aquele charme
de tristeza nublada
um ar de filme noir
soma um jogo
complexo de reflexos

(as horas vermelhas
inversas, versam melhor
percorrendo a face)

É um rosto fosso fosco
e ermos olhos de
sertão desolado

O semblante agreste árido
os vidros que mosaicam
como a calmaria
de um açude parado:
verde musgo barro
pincelado de nuvens,
o momento mesmo
daquele charme

Água-chão salobra
esse rosto moreno
que chama e chora
escorrendo pelo vidro,
vermelhas, as horas

3035.

30/01/12

o dia acordado na pressa de uma página virada
e um parágrafo lido lentamente
com aquela voz na cabeça aos sussurros

foi antes do sonho

como as manhãs que não acontecem nunca
caladas na pausa do sonho, na entidade desperta do dia,
premendo contra o corpo, gravidade, céu

os talhos inertes na boca e a força
pra romper a manhã adiada
consumindo riso em dentes laminosos

o sorriso do sol brotando breve entre uma chuva longe
seus dentes luminosos rasgando a brevidade
da pausa do sonho, afiada luz

durante o dia

durando marcha lenta, abafada, o estampido dos vagões
cada um dragões dentro do seu dia, peito e fígado
todo um jorge, lança e cavalo, simbiótico

chuva longe, agora dentro, légua de mar nos olhos
faz-te bruma, brilha breve um bem-estar
estando como todos, lado a lado, na plataforma, arrepia a espinha

o bolso chia, corredores e pátios longos, o fim longe
aquela voz sussurra na cabeça a brevidade até o próximo sonho
e lá no infinito, um sorriso brota

fácil, ainda que bruto

3034. Do gosto

11/01/12

Como dizer aquela palavra
que cale doce e fruta aberta,
diamante de romã ou pérola de poncã.
Como a polissemia de uma uva única
explodindo plena na boca.
Esse teu gosto todo de cheiro e cor.
E o tato na língua.

demorar na paisagem
delongando a fuga pro
olhar morar na imagem

3032.

11/01/12

pensei que dava
sopesei o nada
me estabaquei de cara

3031.

11/01/12

a extensão das horas
e dos metros
delimita e amplifica
essa disritmia
que no peito implica
a tua falta tida

assim fica
longe e longe
o coração não bate
só vibra e desafina

Houve um tempo em que tudo era o norte,
aquele lugar em que a vastidão do horizonte
pulsava nas veias
e o sem limite do céu se mirava como meta.
Era uma ânsia pelo inesperado
envolvida em súplicas por mais.
Onde não calhava aquele vislumbre de que
o enraizado é parte para o infinito
e que o sólido – que, sim, desmancha no ar –
é arte vivida no aqui e parte pura para partir ao além.

Certo que foi você quem abriu a porta
e de dentro do real deu a deixa certa;
que ao entrar na casa, minha, nossa,
a vastidão se faria em cada cômodo
e mesmo em cima da cômoda,
na escolha do pano de prato estaria ali
– estampa e essência –
uma existência plena, aberta, quimérica, real;
o não lugar mais heterotópico possível:
o amor vívido de dentro do nosso lar.

3029. Diurna*

04/01/12

O mesmo império foi-se, oh torpe!
Desgraça dos agouros, fugida das trevas
De branco despes as noites
De matar estrelas

Ceifa bruta, corta noturna
Sorri o maldito, sensível inferno meu
Favela, espinho que sangra
Infincando as minhas têmporas

Inflama de prostrar, minha bruta
Darks mares que ampliam a tormenta cinza
Peso azedo que acorda
Ante a minha solidão

Abisma-me, salta, trovão das nuvens
Dos olhares geométricos da indiferença
Vestida dos meus pesadelos, neurônio que endoida
Vai, morre em mim

Amaldiçoaria sangue, minha alma com a sua
Carreado de suspense, feudo dos ocasos

O mesmo império foi-se, oh torpe!
Sorri o maldito, sensível inferno meu
Peso azedo que acorda
Vai, morre em mim

Amaldiçoaria sangue, minha alma com a sua
Carreado de suspense, feudo dos ocasos

Voaria esfaqueia, suas unhas entram em mim
Bebe o lodo escuro, vem, suja todo vão

No acobertado da tua pele, precisa
Pobre de mentira e a mim falseou
Que nunca nadara presa, diurna
Pelos escaleres

Mato meia meta, orquídea podre, oh meta!
Dos mesmos impérios de matar estrelas…

*Paráfrase de:

(Junio Barreto – Noturna)

3028. chá

25/12/11

dorme amor
enquanto a chávena
quente de hortelã
chega pra sarar o
afã do seu peito

dorme calma, que
ao apitar da chaleira
levo a infusão com
esse misto de amor
e erva em água fervida
pra esquentar teu colo e
acarinhar teu coração

3027.

09/12/11

lá fora há um mar de luz
inunda a pele de quem ele pousa
com sua própria cor de ainda agora
pelo amanhã quem se molhou dessa luz
há de estar vermelho, dourado, preto

é esse o intento desse mar:
colorir o mundo para que
as pessoas sejam apenas seus matizes,
desde o entardecer até pleno o ocaso

3026.

09/12/11

crise?
não crie,
creia:
crive
cravos na
crosta do
credo,
cresça
criatura e
cromatize-se.

3025.

09/12/11

presta atenção preta
se minha previsão
só é possibilidade
preconcebendo sua
presença, não é que
o pretérito e o
passado não prestem,
é que o presente e
a prévia do amanhã,
sem você, não procedem.

tanto mais o carro valha,
ele vindo com a cara nela,
quero ver quem a melhor leva.

3023.

09/12/11

meu cérebro é um diagrama do caos
coexistindo fracionário e fractal
em cada possibilidade quanto e tanto

todo momento meu cérebro
tão relativo e quântico
– quase cármico –
que suportar não quero

3022. deslimite

03/12/11

prefiro a mil
o breque é baque
me arrebenta no anil

3021.

03/12/11

da beira é tão alto
perdi a mão e fiquei
pendido na contramão
do salto

3020.

03/12/11

o problema do felino
é sua delicada
falta de tino

3019. Danação

02/12/11

Diante do diferente
deferi a diferença
devia discordar
deu-se disto a distância
doeu e desviou o doar
deu dó e desmedida
desvalia a despencar
desandou demais em
desdém doido desalinhado
dado a desdizer e desabar
disso desceu dor danada
deixou o dedo ao dom
da dúvida deu a devida
dívida demente e
de si danou a divisar…

3018. norte

01/12/11

pra que o mote das asas,
se a linha que liberta o céu
fica bem detrás da nossa casa?

3017. sorte

01/12/11

o amante, a estrela e o mundo
a pergunta foi você
o meu peito foi o rumo

3016.

01/12/11

essa sua saia verde
não sai da mente
queira que ela lá ficasse
e eu visse você,
sem ela, aqui na frente

3015.

01/12/11

é que me acometeu uma dor estranha.

onde?

parece que é no amanhã,
como se o risco de ser flor
se abrisse inteiro ao medo da fruta.

mas se nutre…

só que ainda que cor, sacia.

3014.

30/11/11

controle o ciúme
em cio em si
e sujeite o outro
ao vislumbre
de procurar
amor no estrume
enciumar não,
só desbunde

3013.

29/11/11

a bela plácida
ao longe
mágica, lânguida e lépida
de perto
mácula, ácida, frenética…
toda ela proparoxítona
demais para um
oxítono monolítico

3012.

29/11/11

diz qual o pedaço
que ainda é meu
que eu o despedaço

por que inteiro,
quando toda parte
me resta caco?

3011.

29/11/11

o silêncio,
eu supunha,
tinha algo
que ver com
outra carne
e sua unha

a pele minha
é que sutura

3010.

29/11/11

se ela não te nota
é fácil a troça
imagina a figura
e cálido, se toca

3009.

29/11/11

pra que lamúria?
que me rasguem a carne
eu quero a fúria

domingo
inteiro
dormindo
comigo

dó de mim
e do meu umbigo

3007.

06/11/11

o medo
me dita:
é entre
ampliar a
vida e
suportar
a lida

3006.

06/11/11

pela terra eu erro
por ela
entre ela
enterro
o certo encerro
em si erro
incinero
incerto certo
erro mero
meu neurônio
torto
atinado no ego

Todos os horizontes foram dilacerados
a última fronteira é inteira interna
a beira, o fora – há uma folga?
Quando você tenta ir à forra
o dentro jorra por dentro
e a noite é alta, tensa,
a calma mora longe
A sensação é dez vezes pior
existe um lamento, uma lamúria
se fosse uma floresta com frestas lumiadas
entre cada folha uma sensação de luz
até poderia fazer sentido o batuque incendiário
a festa
Farsa nenhuma chega aos pés
força alguma lhe demove da cama
são os rastros químicos e eletrônicos que ditam
a pulsação do que ainda pode ser enquadrado na categoria vida
e tome mais doses de imagens
mais tânatos de tons
além possibilidade de pequenas mortes
Seu veneno posto à mesa
seus tóxicos para a alma
Provérbios sábios e uma efusão mística destroçando a visão

Todos os horizontes foram dilacerados
e a luta é para conservar o casulo primeiro e último
recluso
Você cava trincheiras
mas o mal vem dos céus, das frases
de dentro
A esperança maior é por ânsia
por vontade, desejo e pulsão
Transtornando a expectativa em fim

Todos os horizontes foram dilacerados
a carne exposta, o corte
é qual cor de espelho
Corte a dor pela raiz
e ela brotará de novo
Calma, a culpa não é sua

3004. Se

27/10/11

se tivesse agora a pausa do riso
e as formas fossem essas do contorno
aprendido no tato e na língua

se pousada em mim a presença entrasse
com predicado de ser mesmo a eternidade
e ocupar todo o espaço bruto e leve

se debruçar no pescoço fosse então
o apelo único vigoroso arfar em sobressalto
passeando pausadamente até o baque

se tivesse você agora não em ideia
mas no todo das minhas mãos miúdas
elas se agigantariam desde todo o seu prazer
ao infinito da minha vontade

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