3016.
01/12/11
essa sua saia verde
não sai da mente
queira que ela lá ficasse
e eu visse você,
sem ela, aqui na frente
3015.
01/12/11
é que me acometeu uma dor estranha.
onde?
parece que é no amanhã,
como se o risco de ser flor
se abrisse inteiro ao medo da fruta.
mas se nutre…
só que ainda que cor, sacia.
3014.
30/11/11
controle o ciúme
em cio em si
e sujeite o outro
ao vislumbre
de procurar
amor no estrume
enciumar não,
só desbunde
3013.
29/11/11
a bela plácida
ao longe
mágica, lânguida e lépida
de perto
mácula, ácida, frenética…
toda ela proparoxítona
demais para um
oxítono monolítico
só
3012.
29/11/11
diz qual o pedaço
que ainda é meu
que eu o despedaço
por que inteiro,
quando toda parte
me resta caco?
3011.
29/11/11
o silêncio,
eu supunha,
tinha algo
que ver com
outra carne
e sua unha
a pele minha
é que sutura
3010.
29/11/11
se ela não te nota
é fácil a troça
imagina a figura
e cálido, se toca
3009.
29/11/11
pra que lamúria?
que me rasguem a carne
eu quero a fúria
3008. domingo é do ego
06/11/11
domingo
inteiro
dormindo
comigo
dó de mim
e do meu umbigo
3007.
06/11/11
o medo
me dita:
é entre
ampliar a
vida e
suportar
a lida
3006.
06/11/11
pela terra eu erro
por ela
entre ela
enterro
o certo encerro
em si erro
incinero
incerto certo
erro mero
meu neurônio
torto
atinado no ego
3005. Teleologia da moral marginal
06/11/11
Todos os horizontes foram dilacerados
a última fronteira é inteira interna
a beira, o fora – há uma folga?
Quando você tenta ir à forra
o dentro jorra por dentro
e a noite é alta, tensa,
a calma mora longe
A sensação é dez vezes pior
existe um lamento, uma lamúria
se fosse uma floresta com frestas lumiadas
entre cada folha uma sensação de luz
até poderia fazer sentido o batuque incendiário
a festa
Farsa nenhuma chega aos pés
força alguma lhe demove da cama
são os rastros químicos e eletrônicos que ditam
a pulsação do que ainda pode ser enquadrado na categoria vida
e tome mais doses de imagens
mais tânatos de tons
além possibilidade de pequenas mortes
Seu veneno posto à mesa
seus tóxicos para a alma
Provérbios sábios e uma efusão mística destroçando a visão
Todos os horizontes foram dilacerados
e a luta é para conservar o casulo primeiro e último
recluso
Você cava trincheiras
mas o mal vem dos céus, das frases
de dentro
A esperança maior é por ânsia
por vontade, desejo e pulsão
Transtornando a expectativa em fim
Todos os horizontes foram dilacerados
a carne exposta, o corte
é qual cor de espelho
Corte a dor pela raiz
e ela brotará de novo
Calma, a culpa não é sua
3004. Se
27/10/11
se tivesse agora a pausa do riso
e as formas fossem essas do contorno
aprendido no tato e na língua
se pousada em mim a presença entrasse
com predicado de ser mesmo a eternidade
e ocupar todo o espaço bruto e leve
se debruçar no pescoço fosse então
o apelo único vigoroso arfar em sobressalto
passeando pausadamente até o baque
se tivesse você agora não em ideia
mas no todo das minhas mãos miúdas
elas se agigantariam desde todo o seu prazer
ao infinito da minha vontade
3003.
19/10/11
ai, me bateu
um banzo quente
como se fosse
uma nostalgia infusa
em brigadeiro fervente
3002. Onironauta II
19/10/11
anunciavas as estrelas
detrás do cinza chumbo
que planava por debaixo do azul
e tu dizias que depois
dessa ilusão de céu
só havia escuridão
e eu comia essas palavras
como pudim de tapioca
a tua proposta era torta
decaída e rota
e eu mediava cada intensão
no intento da realidade:
o amor cabe nas mãos
ranzinza e risonho
agora vá
traz para mim o sem fim da bruma
em noite alta
e me afirma com a altivez
de conduta insana:
é só um encontro
entre a traição do desejo
e o atrito da felicidade
Antigamente, bastava um rasgo de céu
e meu peito já se ampliava até o infinito
Um fresta de sol ou um pingo na testa
e tudo se carreava em descarga elétrica
lavando e levando o que havia por descarregar
Naquele tempo em que eu tinha ainda
o pouco de vida necessário para encantar
Foram naqueles dias em que o habitual
era a poesia no espelho a encarar
Quando todo ontem era viva marca do agora
e o todo inteiro do anseio do que virá
Antigamente, era preciso apenas uma carta
vinda de mala, mula, longe quilômetros
Para arrepiar a espinha e tornar a vida
coisa que valia, como se regar plantas
fosse o suficiente para cuidar
Tempo em que abrir um livro fazia sentido
e as histórias pautadas na páginas eram um ornar
Momento em que o sentido não era mero
desencantamento, poeira de quasar
Lonjura de tempo onde a mística do sol grosso
era só pra encosto e não pra remodelar
3000. …essa arriscosa função
28/09/11
“Bandeira branca enfiada em pau forte”,
cavalo de Troia brincando com a sorte:
eu sou é a guerra, eu vim trazer foi a morte.
2999. Na cara
28/09/11
cabelo bem engomado
cheira creme rinse barato
bíblia debaixo do braço
saia comprida não mostra o fato
das coxas nem pouco bocado
rosto redondo, liso, marcado
segue a lida com fé
na velocidade de um fado
sustentada por um corpo cansado
ao sol na cara em pleno metrô lotado
anjo torto sem ser alado
redentora, salvadora do vosso ocaso
2998. Quem?
28/09/11
Corações destroçados
pelos sem-limites das possibilidades
readequando no peito
o hibridismo das alegorias
e o peso do real
a ditadura da alegria
e o charme da depressão
amores inflacionários
em franca crise
paixão fetiche
fica pastiche
entre a roda e o piche
avistado e tentado
em meio ao timbre eletrônico
e a cadência do repique
amor temerário do sem fim
depositário do humor
vira piada.
- Alguém sofrerá?
2997. Meu não-lugar meu
28/09/11
Esse não-lugar em que passo,
corpo meu por mim habitado,
já foi algo.
Havia nele ali vivo fato.
Território de opostos disputado:
o partido da felicidade
contra um movimento desolado.
Hoje é só um não-lugar,
outrora tão de mim espaço demarcado.
2996.
28/09/11
Em outro mundo até poderia,
o toque da mão ríspida
sob a tez cristalina.
Desses toques que ficam
tatuados na pele da alma.
Tipo pecado.
Ornado arrepio,
pousado no momento da derme,
delgado.
2995.
28/09/11
com você
não tenho medo
do silêncio
quando a gente
se cala
é só o amor
se assentando
no sorriso e no olhar
com o tempo
2994. Quas’ de carroça
28/09/11
metros e mais metros
de pólis percorrida
metrópole parecia
não fosse essa roça
chamada Brasília
2993. Passagem
28/09/11
São essas rugas,
como rimas do
tempo sobre a pele.
2992. Vice-versa
28/09/11
enternecido
o choro
em fado
tido
como
riso
em choro
o fado
enfurecido
2991.
28/09/11
o fado
dado
em fá e dó
dá dó e
enfado
ao peito
inflado
de fado
atordoado
2990. lida
04/09/11
descortina a rima
destrincha
desestabiliza a poesia
destina a palavra
ao fardo de sua
própria sina
dizer só o seco som
da vida
2989. 102 Sul
04/09/11
na estação vazia
nada se espelha
o piso chega reluzia
o coração na mão
que a começar inexistia
2988. Por todo el largo
04/09/11
El amor se acerca
en la velocidad
de un pétalo cayendo,
y los rasgos en el ayre
son los mismos:
mientras camina
sólo el toque
de colores invita
la extensión del
horizonte en su cuerpo.
Como yo a mirarte
casi asi mismo:
pétalo volando
hasta el horizonte
2987.
04/09/11
ai o meu neurônio em rede
já não sabe que conexão dá
se ateia pela ciência
ou se vai pro terreiro rodar
2986. Faz que fez-se a luz
04/09/11
Fake faith
a hole gate
to the haven’s
rape
to the master
boss of all the
takes.
Fake face:
be straight.
2985. Onilírica I
04/09/11
Procedimento número único
para se lançar ao espaço:
não, não é alto
é só um pulo no vácuo.
2984. Onironauta I
23/08/11
a ignição foi dada ainda sem transe
do tapa ao ar em questão de minutos
tudo flutuava dentro do som em
movimento
não sei em que hora fui além de dentro
e desabei tudo de uma cachoeira
quando dei por mim já estava lá
dentro do sonho
aqueles quadros derretidos não haviam
nem labirintos
faunos
nada
lá no sonho era escuro e claro
dois bocados diacrônicos
dei a mão comigo e fui até a floresta
que não havia
um grito longe se fez perto
gritei
e do lado houve o eco
na voz que vinha vi o reflexo
acordei em frente ao espelho
e na realidade tudo era escuro e claro
detrás de mim não havia nenhum fauno
saí do banheiro
atravessei o corredor
quando cheguei ao quarto e me vi lá
deitado
pensei que dormia
mas eu disse para mim: já acordei ainda ontem cedo
resolvi ficar por ali mesmo
o sonho estava por demais acordado
2983. Légua
16/08/11
E eu segui o horizonte.
Fui dar não sei onde,
só sei que fui ontem.
Hoje, sou esse lá longe.
2982. Vá!
16/08/11
Quando o veneno da ansiedade
se mistura à saudade
e o devaneio da idade
diz ande logo, não tarde,
isso só se resolve
indo à fonte antes que acabe
e com a saciedade
de degustar tudo lento
parte por parte
com um quê grande de arte:
sem aparte, aperte,
entre, bata, jogue, abarque.
2981.
16/08/11
saudade dos meus poemas
que refletiam no espelho d’água
cada palavra meu reflexo
e no conduzir do banzeiro
eu ali deitado boiando n’água
escrito nela, em verso
2980.
14/08/11
perdi as metáforas
pelo caminho real:
o gosto da pele
o tato com o toque, seda
aroma que entorpece
a ideia flui antes
que o corpo penetre
histórias pautadas
entre ofegantes manhãs
incidências confidentes
por quatro paredes
perdi as metáforas
ganhei esse pulsar
2979. d’amor
04/08/11
nada se avista
que não seja amor
nada que não seja
me transbordam pelos pêlos
os apelos da apatia
mas só me infiltra o amor
entre as partes
e antes mesmo delas
o amor me beira o caos
e forma a carne encefálica
penso amor e vibro cordas
me percorro amor em som
por todas as frestas
pelo corpo do que é vão
nada se avista que não o seja
– isso
o amor
é bom e me abarca
até o mundo abraça
o amor que avisto em tudo
se salva
se serve
se salga
não vale a saliva gasta
é amor em tudo
e de nem bastar
basta
2978.
08/07/11
E no 5.000.500.000.000.000º dia da criação,
Deus parou e refletiu:
“caracas, sentei no pudim”,
e um novo mandamento elaborou:
XI – MENOS DEVE SER MAIS
e aí sim o universo passou a se contrair.
2977. “É tipo uma pira, sabe?”
05/07/11
É preciso que a palavra
ganhe contornos na língua
e se lance pelo espaço
reverberada a bater tímpanos
senão uma densa camada de poeira
enterra sua boca,
senão cada ideia vira tato, tecla
e a dimensão do diálogo
acaba num sítio outro,
três linhas do resumo e
contando notícias entre parêntesis,
senão a misantropia
se associa à procrastinação
e o vago de falar,
vaga desconhecido,
na contemplação de paredes.