Essa quentura incômoda
nas têmporas e no umbigo
poderia dizer que
deve-se deixar tremer
todos os nervos
até esvair-se a aflição,
mas o medo impunha seu
sussurro e exige
que sejam contidas
as fibras por debaixo da pele.
Categoria: Poesia
1137. Anotações II (Paráfrase)
Do mesmo modo como falseiam os pensamentos quando querem ser palavras,
Desse mesmo jeito falseiam as palavras quando querem ser mais do que pensamentos.
E, desta feita, como o pensamento e a palavra não podem ser mais que eles mesmos,
Desse mesmo jeito, o que os são, os são, existência ainda.
“Assim tudo o que existe, simplesmente existe”:
As intenções são assim só um estado de despertar que se sente,
O anseio de que todos saibam da existência quando se precisa dela.
1138. Anotações III
“Suave é viver só”
e em suavidade batem
as folhas umas noutras
e solitárias tocam-se
sentindo com os pés
do vento que suas
vivências são
só os encontros
das suavidades que
as solidificam
e vivas as folhas
umas sobre as outras
sabem que suas
vidas são só
suavidades vivenciáveis.
1139. Anotações IV
Colar-me os cacos
e retirar de todos
os peitos cada
pedaço afiado do
meu ser que ficou
entalhado nalguma
parte obtusa entre
o cérebro e o coração.
Reunir minhas
partes e selar cada
fresta que pode
haver com solidão
e clausura.
Fechar a tampa
do vaso por fim
e não derramar
mais gota alguma
por conta de
fraturas expostas.
1134. …digressões e mais nada…
do vazio fez-se o nada
do nada, nada fez-se
tão vazio quanto o nada
é começar um blog…
1135.
Amizade e
Amor.
Âmago de um
Amálgama?
Amanhã, quem sabe?
Amante,
Amigo,
Amena sensação de
Amador.
1131. Vai viver a vida Ivana
Eu vi que Ivana vinha
Eu vi Ivana vir
Eu disse: aí, vá na
tarde e viva
Viva Ivana a vida
e deixe-a vazia
pra mim
Pois que a ti a vida vaze
pelos vazios da pele
Vá Ivana, viva
1132.
O tosco te soa doce
E se fosse doce
Adrianna?
Sonoro seria?
1133.
o macio do sol toca os prédios
e quase tangenciando suas formas
ilumina a cidade e dá cor ao céu
em cada canto da cidade
uma flor se esconde
e sempre há o cigarro salvador
pronto a aliviar um bom tanto
a humanidade demasiada
até gosto de Brasília
1128. Passiflora
Minha calma
Flor d’alma
Meu tremor que
passou já
Anjo decaído
sobe minha palma
Meu acre-doce
maracujá
1129. Otávio
Chamei-o de Otávio
por saber-te não
Hoje procuro seu nome
e você, para lhe dar
razão.
1130. Hunf
O pior martírio
é quando nem escrever
é um alívio.
1125.
O acaso é isso
do nada, um
precipício.
1126.
Senti saudade tua
Saltei
Solucei
Sorri por fim
Você sem mim
E eu sendo assim,
Saudade
Sensível soco
No meu estômago.
1127.
A chuva demora
mesmo um veranico
parece uma hora.
1124.
Eu vou pra esse mundo
Um raro prazer
Uma questão de bom senso
Eu fumo
1122.
Definição
Definir a ação é
destruir a ação.
Defino então,
não.
1123.
Novembro
me lembro
não vem o
novo, mas o
marco do
velho.
1119.
Se o π é o número
de Deus, seria o
pigarro uma prova?
1120.
Tua cantada
trouxe-me o
encanto de
teu canto novamente.
Canto nosso
reencontro.
1121.
Morde os lábios
e teso o piercing
abaixo
deixam teso
do umbigo a baixo.
1116.
Limiar
Ali, em mim, o ar.
1117.
Aunque no
comprendo,
cada beso
es un recuerdo.
1118.
Pessoas plásticas
prá lá da ética.
1113.
Morri à míngua
Renasço agora
palavra e língua
1114.
Acabou como
sempre e antes,
agora nem mais
amantes.
1115.
Eu até buscaria
palavras se essas
bastassem.
Não busco: escasseio-as.
1111.
Há mentes amantes
amam mais e antes
do que física mente
1112.
Eu fali com os
preceitos fálicos.
Hoje eu falo com
os fatos firmes
no meu feminino.
1108. Fio
Bom foi ver que ao
tirar a camiseta
havia o mais fino
resquício visível de
teu ser preso em
meu corpo.
1109.
Na minha infância o que
eu queria era comer do
chão toda porcaria
e você não conseguia
esconder que comia
o giz com quem alguém escrevia.
1110.
Amantes
Lógicas confidentes
Sorrisos dementes
Numa madrugada
cúmplice
Amantes
Lógicas ausentes
Sorrisos na mente
Numa tarde
qualquer
1105.
Trezentas sensações num dia,
se não é loucura,
é pelo menos agonia.
1106.
Amendoim
Amor e do in
Amar dói em mim
1107.
De tanto ter Minduim
como exemplo, constato:
amar dói em mim.
1102.
Minha roupa é a
de ontem,
minha existência
também.
A revelia de minha
processualidade.
1103.
A moça foi embora
e o rapaz ficou
com essa cara de
demora.
1104.
Não me olhe além de mim.
Que só o que existe
é o começo do meu fim.
1101.
Uma mesa pára.
Quatro dores.
Talvez seja essa
a lógica dos amores.
Guilherme Carvalho e Nella Bueno
1100.
Uma mesa para
quatro dores,
talvez seja essa
a lógica dos amores.
1098.
O mundo não existe.
Nem esse, talvez
o de Paulo Leminski.
1099.
Conto os minutos
em copos e cigarros.
São dias as garrafas
e os maços.
1096. Cerveja
De 4,9 em 4,9
eu ainda completo
meu 100%
1097.
Tire essa íris
de cima de mim
que eu não
regateio assim.
1093.
Por acaso
o descaso
é meu caso.
1094.
O mundo não existe.
Ele é que insiste
que eu seja.
1095.
Um corpo derrubado
A embriagues ao chão
Um cigarro molhado
A embriagues não
1092.
Eu servo já.
Eu sirvo já.
A cerveja.
1091.
Após alguma coisa.
Um dia aposto que
a pós-modernidade
me pega de jeito.
1088.
Inexistir é fato.
Existir é que é fardo.