4065. Cê lembra?

No meio do processo nos encontramos
              – pausa para as bombas
              aquilo fora apenas uma demonstração,
              Herba Life para os não alinhados
              saborearem o gosto da pimenta aérea

Eu te vi de mão no queixo
e de pernas n’água
Cê me viu me vendo,
montado num elefante

Eu cheguei mostrando as parte,
cheguei me despindo
Algumas partes em regeneração
outras puro sangue

Cê tava de poesia
Eu portava alguns poemas
e uma prosa trôpega

Mas cê me deu a mão
em meio às possibilidades
e eu vinha com a ilusão
e todas elas a salpicar meu corpo

Mas cê foi o possível que se abria
e o impossível a ganhar tônus

Nos encontramos no meio da reverberação
e vibramos tantos tons rubros
tantos sons
e essas coisas que não ocorrem cotidianamente,
tampouco inesperadamente

Cê veio filme europeu
ou cena de algo assim dialogado e imagético
Senhora de mil faces
em mil luzes e sombras miúdas
encostando as cortinas

E daí nos encontramos
dentro d’água donde o sal limpa e benze
As correntes do mar
e o magnetismo que nos encaixava
eletrificavam as pulsações do horizonte,
uma festa de espaços chumbo
e o sol de arrebentação

Coincidimos no meio das estações,
como dois sequiosos por todas as frutas
de todas as épocas
e pelo nosso sumo a escorrer
ávido e vívido entre os lençóis de cambraia
e os edredons de algodão
Vergando as possibilidades a virarem
o agora num e numa,
além dos braços mais indianos e oferecidos
e as faces tão perto, tão perto, tão perto
que ciclopes de Cortázar se faziam nos travesseiros

Corremos matas, matos, pontes, pontas
e até céus de morros verdes
em sinuosidade avoada

Caminhamos para um pouso orbital,
nossas casas que se conectam no lirismo
dos sonhos transponíveis

Nos encontramos
a cada encontro
quando nossas palas lavram
campos de flores e palavras e toques

Minha mão pousando em tua coxa,
a tua se enrolando nos pelos do meu peito

A presença contínua

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4065. Cê lembra?

4062.

Ela tinha tentáculos espiralados
que saíam da cabeça
e eram dezenove
Nunca compreendi a numerologia,
mas ali fechava um
O mundo lha dissolvia em sal,
ela vertia
Mas havia um buraco em nossa frente
e falei para pularmos
Ela recuou três passos atrás,
o buraco era escuro e muito,
fundo
Abriu as ventosas dos tentáculos
e pregou-os numas raízes de fícus
que rasgavam a calçada
Eu descarreguei meu carretel
e me empinei,
a linha se prendeu nos galhos do fícus
Ela mexia seus tentáculos
e a árvore balançava,
eu embicava no ar e o rasgava

Sempre haveria aquele buraco
em nossa frente
Ele tinha uma escuridão bonita e vermelha
da matéria de sonhos

4062.

4061. Para Mao

Toda hora você pensa que pode conseguir sua autonomia de volta
a cada respiro a mesma imagem mental vulto de pensamento
vulgo pensamento
vulgar
volta:
Conseguir as rédeas do próprio cérebro
reconduzir a dinâmica das próprias sinapses
sem pró-bióticos ou alopatia
sem ervas ou espíritos
Mas a morada dos pensamentos insones ocupa mais que a cabeça
– terei o controle! serei o puro equilíbrio!
e num instante tudo retorna ao mesmo ponto de descontrole:
cirza as cuecas, requente o almoço, prepare a aula, passe a roupa
lave a casa, lave o pinto, leve o peso, levante os halteres, lento o movimento
perfeita a conduta, não se atraia, não traia, não tente, não atente
atenção plena, planeje e executa, penteie a barba, paste o dente, pasta de berinjela
não coma a vida, não coma a morte, observe o câncer
frite apenas dois minutos de cada lado para o ponto ideal
acenda uma vela, bata a cabeça, vista branco, ventile a casa
cuidado com a pressão, tome o remédio, olhe o fígado
desopile, fume um, beba uma dose, dance, denso dedo no gatilho contra a cabeça
diásporas que não findam, inquietude de Maya, encarnação furada, deu errado
tente outra vez, password, reset, try again
ame com pureza, dê liberdade, liberte-se, leia a mídia alternativa
veja esta opinião, siga os signos, tautologia, hermetismo, Marx está certo
controle a boca dos outros, imponha respeito, mantenha o respeito
assista à live do louco, é loucura ou perversão? é burrice ou bestialidade?
são as mesmas coisas numa moeda que não vira
e de novo a condução parece simples e fatal:
Conseguir as rédeas do próprio cérebro
reconduzir a dinâmica das próprias sinapses
sem algorítimos ou alegorias
sem endorfinas ou suicídios

Toda hora parece ser a derradeira em que o que você quer
se manifestará plenamente sem nenhum adendo ou pitaco de aplicativo
ou teorema de bem-estar ou pisoteio de filha da puta de farda, bata ou túnica
maçônica ou canônica ou tônica ou biônica ou fônica ou supersônica
– passe de mágica mindfulness; depois de quinze minutos de meditação
por duas semanas consecutivas brotou ou rebrotou o meu eu pleno de seu vazio de eu
com a certeza calma e doce de que tudo perecerá como dor e tambor
saraivada de saravás que direcionam o torto ao reto e à retidão
 
 
 
Mas por onde anda a voz que revelará o que não consegue sair da cama?
– levanta e anda! ele disse –
– como se fosse fácil, filho da puta –
E cega a mente se repete sem seguir caminho algum
dia após dia
noite após noite
num ermo campo de ideias em choque deixando imóvel o corpo
sempre aderente a um rasgo de alma

4061. Para Mao

4060. Sofre de cegurança

“O Rei do universo é o supremo Anarquista criminoso”
(Slavoj Zizek)

Meteu-se ali num cofre
junto aos pisantes
aos possantes
aos diamantes
às peitas
cada qual mais de dois k

Meteu-se ali num camarote
junto à ciroc
ao engov
ao pós-pagode
ao suor da sorte
tudo mais de cinco lives

Meteu-se ali num condomínio
junto à jacuzzi
ao coach influencer
à varanda gourmet
sem nenhum mimimi

Meteu um tiro
no espelho
e adentrou ao paraíso
com sete virgens
quando morreu e o da antena transmitiu:
“mata, mata, mata!”

Viveu tudo o que seu bandido deseja,
numa potência loka

4060. Sofre de cegurança

4059. Mussambê

Solitariamente diluído
falo uma língua inaudita
fruto de uma história que
não se cruza:

flor que nasce do perigo
de empenar a esponja
quando tudo é
Peri
gozo,

onde nenhum
labirinto de lábios
suportaria pelekus
labrys
oxês,

e o ritmo é que
cadencia os passos
e conduz as veias
sobre as contas
dispersas na tábua de Ifá.

Mesmo que seja
o caminho púrpura de Iku,
esse jogo deu Odara,

vamos.

4059. Mussambê

4058. Deseducandário I

Estava com os olhos
absortos sobre suicídios
exemplares,
no abafado enjaulado
do entremeio de fileiras
solitárias e repletas
da sala de – inércia
e panela de pressão –
aula;
duas me inquiriram:
do que tratam as páginas,
professor? – adestrador
de corpos e hormônios
entre conexões desenfreadas.

[Pasmei os segundos
procurando o que dizer,
sem tirar – ou colocar –
o vislumbre de vida
ainda repousante nos
parcos ombros de
doze translações.]

Falam sobre a vida
e o universo de a ter
e a tirar, como Ele,
disse.

Olharam-se e se riram contidas,
aliviei-me aflito,
ainda não percorreriam essas sendas.

4058. Deseducandário I

4055. Desabrigo

Deglutir e mascar
o que te condensa
e depois o que te condena,
o que te coordena
e comanda.

Uma após a outra
parte que te encontra
e entranha.

Eu me perdi de tudo
e o vislumbre que
aproxima é o amargor
de uma paisagem sem
palavras complementares.

As fantasias que colecionam
são diálogos imaginários
e pedaços de esperanças,
farpas travestidas de dedos
e desespero em verso e versa.

ME matem num descampado
e coloquem um boneco
para me substituir
e soquem sua cara todo dia
e se lembrem de mim
a cada soco
e me enterrem em areia
e coloquem faias em minha
cobertura
e defequem por cima,
ao terceiro dia
ressuscitarei no corpo
do boneco sem carma
e farei desafios como
os da baleia azul
para jovens de trinta anos.

Há que se deixar a dor
e o odor falar, flanar, estampar
a cara e a carne.

Ondas de valor débil
e aspecto hostil
a qualquer cidadão de bem.

A sobrancelha tensa,
a testa franzida
e a fronde como um bife
batido a marreta.

Regurgitar, como gado.

Ser a ovelha, o novilho
e o cordeiro para o abate
e o arremate no leilão,
arrebatados os corações destituídos
da lição menos efêmera de todas:

a vida é um desabrigo.

4055. Desabrigo

4053. sem oferendas

aparelhos ativados
sensores ativos
monitores ligados
câmeras focadas
microfones capturando em três, dois, um

palavras ditas na penumbra
ganham luz sob o verde e o azul
armados verbos das palavras
douradas no amarelo
te dizem no espalho:
teu segredo é falso
tua imagem é falsa
tua mente apagou, sem backup

modulações eletroestáticas
mágica pura e telepatia

todo patuá banhado de metais nobres
em oferta, sem oferendas

4053. sem oferendas

4052. a chave

primeiro foi a liberdade do amor
cortei-a na base do machado
depois vieram os orgânicos
e se achegou a yoga e o crossfit
agora abandono a barba e o cigarro
com o beiço em bico
amanhã deixarei a bebida
e virá kant, meu pet cão ético
e christ-cat, meu pet kant felino
e o fim etílico

daí meu corpo destilado
pronto para estar ao lado
da direita e de deus pai
atento e forte
para a segunda

vinda

da militarização evangélica

sentido!

não pelo a, mas pelo te

mor,

te

4052. a chave

4047.

Te amo,

como as nuvens ao encontro do lamaçal;

como o pântano esbarrando em beijo o arco-íris vindouro após o temporal;

como a chuva irradiante de clarões solitários dentro do estrondoso encontro das paragens solares que esfacelam o lodo, o limo, o lume, o brejo e o adentram em ondas fluidas de espessura e cor;

como o movediço manancial de plantas derretendo ao ácido dos alagadiços pegajosos de visgos de terra e barro e matos feitos betume incorpóreo e denso diante do céu límpido e azul de aprofundar-se nos vastos retalhos fractais que engendram engrenagens invisíveis até a escuridão do profundo sideral que é teia e movimento e espelho daqui e de além.

Te amo,

e é livre.

4047.

4046.

Para que esse estertor torto todo?
O controle te controla: trave!
Tolde e molde e tolha.
Aceite essa trolha
que tudo te prende
te ata.

Carvalho, o carnaval
é só orvalho, o aval da carne
para os nódulos das grades cinzas,
caralho!

Um cala boca loka
no grito efusivo e explosivo
da turba turva confusa.
Não há desbunde,
só controle
só consolo
como troll, freak control,
fucking trolha.

Abaixe a guarda, Carvalho,
não existe voz interna,
só o aglomerado urrante
das expectativas outras
marchando na sua cabeca,
mexendo nas suas têmporas:

sentido!

4046.