4160. o demônio

dentro do antagonista
mora uma anta que aflita
goza e agoniza

paranoica e hedonista

4160. o demônio

4152. pânico

na zona sul, na zona norte
ao longo do caminho azul para a morte
ao largo do cru da carne exposto ao corte
tá aqui a cardia do músculo
atacando o nervo e o pulso
cair em si num repente é sorte
cair de si num vórtex
a mente qual entulho torpe
o corpo estica e o peito encolhe
e treme a base e a razão escorre

ao sinal de ataque

não entre

se solte

4152. pânico

4151. como aprender sem o youtube

primeiro é preciso saber ler
de bom alvitre escrever
mas para ler bem, tem que se ler
e para escrever, também

depois deve-se ter livros
e lê-los
e discernir metáforas
e entender as proposições lógicas
e encadeá-las:
uma coisa leva a outra, logo, pois

há que se atentar para o acúmulo:
antes do quadrado
há a reta
antes da reta, o ponto
– ainda que sem definição coerente não representacional –
e dessa feita, chega-se, alhures,
ao que gravita,
nalgum momento se chega
achega
– nesse ponto, paciência e perseverança
são adjuntos

uma abertura para o que rodeia
é preciso tanto quanto:
a pena branca que despenca da janela
o atrito da serra na madeira
o cacho do cabelo dela que deságua
a luz que incide na folha,
uma coisa que mora lá além da fachada
– tem algo ali, pressinto!

daí se investiga e sopesa
e pesa e mede
e se atina
e retoma a lição dada
e se encaixa,
momentaneamente mesmo,
que nada tá dado ou decidido,
tá na beira da definição
e da indefinição, tudo

daí se saberá algo
transitório que seja e belo ou feio,
até a próxima surpresa
que não surgiu de um feed

mas tem que ser com o que te encanta
e dentro de si, canta
em algum canto, ainda que escondido
recôndito dito só a si,
seu

aprendido e solto
como tudo o que se nos apresenta
e esconde

4151. como aprender sem o youtube

4150. do que a gameleira falou amanhã

a sapopema da samaúma
engordou quem nem boi gordo
depois da desumanidade
e os bichos que já eram só visage
se espraiaram em corpo morando até
no meio dos estrave de concreto
até bicho novo se avolumou
de dentro das eras
um após o outro
de desdita em desdita
sabedor dessa herança de forma
e impiedosamente rompentes
de qualquer ordem encefálica maior

tudo no pulso e na desordem
que se auto-organiza

4150. do que a gameleira falou amanhã

4149. Homilia viral

a quem a grade protege?
a quem a parede separa?
quem tá dentro?
quem tá fora?

quem mais encarcera,
como resposta para seus prantos
e afago para suas porradas,
é quem não quer se meter
com o seu próprio umbigo,
prefere-o livre, leve e solto
para agrilhoar milhões em massa

a quem a grade protege?
a quem a parede separa?
quem tá dentro?
quem tá fora?

o amontoado de gente
corpo em cima de corpo
criminosos e facínoras
é de se bater palmas
anos depois das panelas
e seguir a toada do apresentador
“é pau nesses bandidos,
cancela esse cpf,
enjaula! que animal tem que estar preso”

e agora, a visão de si na cadeia
preso com sua família
a sagrada família
a santa família
a benção mais nobre
é o saco de aguentar a fala
do esposo, a sorte da esposa,
o choro do biel
a boneca cor de rosa linda e loura da maria eduarda
e o perpétuo d’até que a morte os separe
em vida
e dentro de um retângulo de duzentas
e setenta e nove prestações restantes
com gente em cima
em baixo
num lado
no outro
na diagonal de baixo e lado
na diagonal de lado e baixo
na diagonal de cima e lado
na diagonal de lado e cima
e o pet moro herói brasileiro
mordendo seu pé pra sair e dar uma cagada

respira fundo
e se afunda
lá fora
e volta
e abre seu retângulo mágico
de onze prestações restantes
e descobre a verdade de que isso não dizem por aí
e recita a receita do filósofo que rejeita os astros
e reifica quem te oprime como massa de manobra
e retuíta o banana diminuto
e se desespera com o perigo vermelho nascente
e vai para o banheiro se masturbar em paz
com um vídeo de teenager
e reza antes de comer com a sagrada, a santa, a abençoada
família
e antes lava as mãos não por medo do vírus
mas pelo gozo pegajoso que escorre pelos dedos

menos liberdade para mais segurança,
não era isso?

a quem a grade protege?
a quem a parede separa?
quem tá dentro?
quem tá fora?

4149. Homilia viral

4148. Condicionamento proposicional

E se…
minha mente comanda
por todos os lados.
É uma hipótese aventada
toada insone que não
dialoga com Hypnos
(ou só debate)
e que treta com Morfeu.

E se…
ela vem de novo
como se fosse algo
urgente e emergente,
dalgum canto emerge:
às vezes da superfície
– qualquer fio de pele
já sabe o percurso.
Às vezes vem de um clausuro
que nem me adivinhava
– masmorra-me.
Claustro do que me defina
(um h e tudo resoluto).

E se…
vem mais uma vez,
talvez porque falar de si
deva ser o melhor,
mas sem falar dela
para não ser invasivo
– e como se fala
dalgo que é duplo
e dúbio?

           E se ela quiser
           que eu fale mesmo
           dela ou que eu
           fale de mim que
           diz dela ou só
           de mim que a
           mim me diz
           sem parar e que
           se perde em
           dizer nada?

                      E se eu quiser?

E se…
mais uma vez irrompe
e rasga o traço de sono.
Tenho algo?
Digo algo?
Algo diz?

E se…
eu só acordasse
e visse que sono houve,
com sonho e o rol possível,
e que então, vida não mais há
e dúvida se fosse
e dizer desnecessariasse
e dentro, silêncio.

E se…
eu pulasse dessa janela
ao lado
sempre aberta
solitária
e fugisse da solitária
sempre aberta
do meu peito
por dentro
e me enraizasse no nada
sem querer ou vontade
– mas daí ela sobreviveria
quando eu não mais
tiver que sobre viver?

E se…
só for loucura e uma pílula baste
uma pílula de ferro e grade
que me agregue
sociavelmente possível
ou amorosamente aprazível
e irreconciliavelmente indizível
como o sagrado do
nome de Deus.

E se…
a sorte me pega
e um raio me acerta
e me teletransporto
para o meu parto
e me parto
em duas partes:
uma descartável,
monte de lixo que me habita
e outra luz,
donde raio de trovão
me despedaço desde
a nuvem ao chão.

E se…
mais uma vez
me descompassa
e carrega o corpo
trôpego
sonâmbulo em posfácio
preâmbulo de algo inerme
desescudo e descuido
dum observador desatento
do que me atenta
em segredo e me salta
(noite alta madrugada,
a mão fria, a mão gelada)

e se…

4148. Condicionamento proposicional

4145.

Diante do mar, qual gota?
Defronte à perfeição, qual beleza atende?
As escolhas nos engolem
como a lama atravanca
o gargalo dos esgotos.
Mil nuvens se adiantam
em nossa frente,

quando vemos formas,
elas escolhem trovejar
e vertemos águas,

encolhidos,

saco furado, até o vazio
ficar de pé.

4145.

4143. Afasia proposicional

Nosso corpo só fala
de modo incidental
não escuta atentamente
fala sem a gente

Tamo lá, no centro
e sem lá, por dentro
é como se nunca escutássemos
a voz dos braços
das pernas
dos poemas intestinais
que sobem e descem
alturas em sair de si,
no amontoado dos tremores
a gritarem sem culpa
o estertor de um sentimento

Mudos de corpo,
nem sequer temos um
léxico corporal mínimo,
nossas partes são mudas
e os sinais não nos falam

Só há essa imagem-ideia
nuvem-nada
imóvel e cambaleante

eterna

a compor o que dizer

4143. Afasia proposicional

4142. Do famoso fascismo-barba-de-lenhador

1) Biopolítica

Andávamos como se fôssemos quem éramos
apenas corpos caminhando rumo ao futuro
alinhados em fileiras
de coturnos lustrados e de linhas de montagem
e fechávamos as pernas educadamente
e dizíamos, por favor, agradecida, muito obrigado

sorríamos ao carrasco com um flerte masoquista
e no escuro da noite funda
nos afundávamos em uma liberdade esfumaçada
movíamos o corpo loucamente escutando The Smiths

2) Necropolítica

Começamos a nos despir das necessidades
e nos tornamos quem deveríamos ser
descortinamos os palcos e utilizamos toda a nossa potência
passo a passo e par-e-passo para além do capital
seríamos algo vivo que pode

mas com uma bala decidiam sobre nós
e com uma caneta derrubavam goiabas do pé
podres
e escolheram o dia e a hora da nossa quase vida

Morrissey falou que o nazismo era de esquerda

2) Tecnopolítica

Trocamos nossos desejos por dedos
dedos de joia, dedos deslizantes
uma sociedade de dedos, Eliana era uma visionária

abrimos nossas almas como entrada para os corpos
não precisavam nos amarrar, já tinham enfiado a botina na nossa cara
e nós ainda achávamos que era o justo, o necessário
daí para nos entregarmos foi escorregador e tobogã

o filósofo falou que eu deveria usar azul

4) Psicopolítica

Hoje o nosso fracasso é um sucesso de público e crítica
e escorregamos nossas falhas numa lição de moral
como se fosse interna
e jorramos lições e lições
e a cada hora nossos dedos deslizam em busca de uma dose
e do crente ao ateu todos nos monitoramos
nos amamos aos ódios plenos

o pan-óptico mais amado do mundo

não precisa de jaula
não precisa de grade
por entre as micro janelas dos gadgets tudo é insosso

o capitão pulou da janela de guarda-chuva como um paraquedas

todo mundo foi atrás

e ele tinha uma barba impecável com um relaxante top
e coturnos muito bem lustrados com a própria língua

4142. Do famoso fascismo-barba-de-lenhador

4141. Coragem

Coragem para ter medo
e arvorar-se observador
senhor de mil galhos
cientes da sarjeta
e do desarrazoado da vida,
como muros pichados e picados,
como papel queimado
na boca em réstia,

como hóstia.

Desacorda e tira o
nó da corda que enforca.

Coragem é dormir
quando necessário.
Quando a chuva vem.

Sente o vento d’água
vindo da janela?
É um gozo.

Se deixa. Se deita.
Dorme.

4141. Coragem