IA

No começo do ano passado eu tive um surto, em diversos sentidos e significados da minha vida. Recomposição de tudo. No meio disso, por causa e para além disso, dizendo disso e do resto todo, estando no mundo e o vendo ir, tive e síncope de um livro de poesias. Veio vindo de uma vez, vazando por todas as partes. Vi que tudo ia e resolvi dar vazão a esse veio de versos tortos. O resultado foi este IA.

Ia, de Guilherme Carvalho.

Subversão da inteligência artificial num verbo substantivado para demonstrar o que minha constituição percebia que ocorria no mundo, e que ainda ocorre. Não é um livro de amor, não fala de amor, o pensa pouco. É um livro de política, de crítica da cultura, de historiografia geográfica póstuma, de antropologia filosófica besta, feito com algum amor ainda pelo mundo, que flerta com a esperança, através da desesperança plena. Amor tal e qual o que anda no mundo cotidianamente: o que ia por aí.

A sincronia ocorreu plena neste ano, uma Editora da Paraíba, chamada Editora Escaleras, topou a empreitada de publicar meu IA. O resultado é este livro, minha primeira publicação impressa. Feito com muito cuidado, profissionalismo e qualidade pela Editora.

O lançamento será logo mais, avisarei pelos caminhos das redes quando ocorrerá. Quem quiser adquirir desde já o livro, entre em contato nos comentários ou pelo e-mail: gcarvalho.silva@gmail.com.

Axé.

Anúncios
IA

3994.

Meu pensamento sussurrou três emoções
senti que não entendi nenhuma
meditei três dias seguidos
sobre o que não sentira

raciocinei nada
somei sentidos
desabri a procura
desutilizado

Quem morre primeiro
a cabeça ou o coração?

3994.

3993. Journey to dawn

Aquele que inicia
acima como abaixo
– fagulha cintila
centelha binária
dentro da expansão
que implode

O brilho da explosão
nos emoldura
antes do universo
o próprio contraespelho

O silêncio da matéria
reverbera na luz
que só emoldura a beleza
pela beleza do negro

A cada manhã o sol
tapa a imensidão da escuridão
com sua luz
e a mentira do azul
– o brilho e o anil que cegam

Toda noite o sol apaga
a sua razão
para o infinito não visto
enquanto cabeças dormem

O sol mente e trai
– atrai
todos os dias
esconde suas irmãs heliocentricamente
ego

  

Apagar o sol dentro
dois instantes
três
até reencontrar todas as estrelas
aqui embaixo

3993. Journey to dawn

3992. Canto de Akesan

O estado das coisas,
anunciação
Foi a diáspora empreendida
fora de qualquer êxodo

Todo êxodo, agora

A gestação inabitada
no ventre
– o futuro
Milhares de células
segregadoras

Desterro de manada
Deserto de tronos em torno,
disparada
Sete palmos
Sete céus
Sete taças
Sete léguas sempre à frente,
jornada

O horizonte circular
– todo ponto retorna a ele mesmo

Esfera

A imensidão vocifera a luz do início
– ponte entre lá e cá
ponto de ouro para a mudança da prata

O que virá é só
o que vai
é só o que volta

3992. Canto de Akesan

3987.

busão febril
cá dentro
cada baque no
buraco do asfalto
um tiro no
tímpano redundando
em todo o encéfalo

agonizar sem
nenhum ferimento

a ansiedade da virada
sem ter onde apoiar

cada buraco do asfalto
um precipício
hospício
em que nos jogamos

coletivos

3987.

3986.

não por agora,
disse

a máquina da ansiedade
ligada
o motor mercurial de marte alucinado
antecipa o passado
reticências insistentes
passa o futuro

eu não sei o que se passa
só o que passa presente
como em mil novecentos e oitenta e um
ana c e paulo paes,
mora?

saí das redes, não sei o que se passa
se instalou lá onde não estou
eu disse oi para o éter
fiquei com o momento presente
traços cinzas das cinzas sem respostas
não como em mil novesentes e oiatenta e ruim

liberdade, construção caduca ideacional
não sei mais o que se passa
a teletela do desejo como dois animais
não há mais segredos
não há mais degredos
há medo e mote e glosa
nada se mete
nada responde

fiquei no vácuo das redes
afirmado para o quê
contradizendo o quê
te vi de relance
depois sumiu
não tinha mais redes
nem sei mais o que cê pensa

nem sei mais,
mora?
como em 1981

3986.

3985.

eu te quis, como se diz, com todo o ardor
você olhou o buraco do meu assoalho
falou “põe um tapetinho, fica mara”
e me ardeu por meses a fio
eu vi o brilho nos olhos em todos os olhos
o brio
a flama
a flâmula
a chama
encharcada

havia um horizonte azimute estelar
jorro de estrelas pelas beiras
cópula constelar helicoidal no entremeio da galáxia
havia uma doçura dourada persa
camafeu de marian protetura

os séquitos entrelaçados
esbanjavam o alarido hálito árido
compensando a chuva desabrida

lírios bojudos ressuscitavam
o que nada suscitava; a música do ar

e eu te quis, como se diz, como a planta suga
o néctar do sol
fotossintético e fotoanalítico
fótons teus, tons de cor de cachos de cabeça

um pouco mais dos andares da lua
um tanto menos que o percurso do sol

até que o desabrido do começo do céu
da minha cabeça vomitou o urro do breu
e uma brecha para fora de tudo se vomitou em mim
epítome do desaprendido eterno da vida

eu te

3985.

3983.

fiquei de espreita atrás do espelho
quando me vi esgueirando diante dele
e lá me prostrei
quebrei-o em trapos, retalhos
segurei meu próprio pescoço
e me costurei cada fragmento do espelho

com garbo e estilo
sou só esse reflexo ensanguentado

3983.

3982. O grande exército do nada para o lugar nenhum

Uma marcha trôpega
capenga
bracaleônica,
rumávamos um tropel desalinhado
novelo de teias dispersas
dissolvidas no ar

tudo passava imaginário

Nossas armas eram retângulos
abaulados
e dizimávamos a nós no percurso

Cada baixa era policrômica
unicórnica
tergiversante
falaciosa

Enquanto isso o front contrário contava
as adesões e gritava que a vida branca importa

Nossos deuses morriam de inanição
e nossos cânticos de guerra
nos levavam os cus aos chãos

Nosso exército sem exercícios militares
e sem milicias que apoiassem

Rumávamos ao léu
nenhures de nada além

e bem sabíamos

3982. O grande exército do nada para o lugar nenhum