4027.

nesses últimos dias de domingo
falarei dessa massa
definida entre garganta e ventre
redoma dos pesos que saltam
ardidos das costas ao peito

nesses últimos dias de domingo
o sal da terra, de frutas,
fervilhando as imagens
absorvidas pelos dedos,
gástrica emoção não digerida

os solavancos desses últimos
dias de domingo
no refluxo da dilaceração que queima,
amanhecerão segundas e terças
e últimas quartas e sextas
com meios de quintas e brasas

            o eterno retorno das semanas

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4027.

4026. coração, o terapeuta de bolso

salgará
calmamente o
estanho do projétil:

    meu amor
    como as farpas
    de uma Transilvânia
    mítica,

        meu amor
        como os solilóquios sequiosos
        de pássaros nauseabundos,

            meu amor
            como um ventre
            cauterizado por filhos
            irrisórios e risíveis,

                meu amor
                como a lua embaçada
                pelo míope clarão
                das órbitas,

                    meu amor
                    como veneno
                    sorvido num pic-nic
                    colorido e colaborativo,

                        meu amor
                        como as marcas dos relhos
                        dos homens
                        pálidos, rosas e vermelhos,

                            meu amor
                            sem nenhum alento

4026. coração, o terapeuta de bolso

4025. baba

o que se quer?
já se quis?
a liberdade contingenciada
nessa máquina de volição
o livro do arbítrio comprimido
nessa cápsula de vontades
livres
a tradicional família cristã
herança de pai e mãe
e domingos de chacrinha
escorregando pela boca
loka
e a falta de potência
canonizando mais um
guru filho da puta
carcomido

4025. baba

4024.

acordei num solavanco
quatro horas se muito de sono
e um sobressalto
suado
havia sido um sonho desses acordados
meio controlado
como visualizar a palma
da mão até o voo desprendido
contudo
não existia mais o resquício
o vestígio
só uma pista:
eu havia dormido
e quando acordei queria
a morte
suada

não sei o que me sabota
se a insônia ou o sopro
raivoso de lá de fora
e ainda tem a possibilidade
do de dentro

meus olhos estão baixos
e tudo me abandonou
como os pássaros diante da noite
repousam o que não dormi

eu quero a morte
como quem se desprende
de todos de todos os pesadelos
somem mais um bom punhado
nessa equação onírica e espiritual:
meu carma não está em coma
é mais como um abscesso
300 gramas esperando
parar para a próxima tentativa.

4024.

4023. Pois, quando quereis?

Fiz trovoar as páginas de notícias
adentrando-lhes as nuvens carregadas.
De pronto
de cada território descolado
soergueu-se um olor de terra
molhada por sangue visceral.
Por dentro do novo milênio
Maiakóvski sampleia
seus estrondos retumbantes.

Estamos tristes,
é certo,
e como nunca por que motivo
poderíamos dançar a ciranda?
O céu do espaço
é diluído chumbo.
As zoeiras
e os relhos
iremos transpassá-los,
dissipá-los aos pedaços,
rasgando-os
como um míssil despedaça
as nuvens.

4023. Pois, quando quereis?

4022.

sereno espero as bombas
no sereno da noite
e o momento em que me
calarão com um clarão
e um estrondo
envoltos em uma bandeira
em coro de torcida
dentro de um barril
de troia de pólvora,
até me subjugarem

com amor me degolarão
a mim e à outra,
outro a eles pois se nasce apenas

minha, nossas cabeças rolando
ladeira abaixo
chutadas como bolas
olhos transitando entre
o céu e a terra,
serenos, pelo sereno da noite,
com a chave decodificadora
do apocalipse que urdem
vazando em nossos peitos abertos

e chacras despertos

até que eles virão e tacarão
fogo em nossos restos
no espelho da fogueira
que acenderá o pavio
dentro do próprio barril
de troia de pólvora

4022.

4021.

não colonizarei
pois não carrego a verdade
e nem anseio percorrer
os mares e enfrentar
os monstros abissais
no lombo de uma 4×4
alada e que fala com
os deuses astronautas

não, não colonizarei
não possuo a lanterna,
a luz, o fogo
a faca, a foice e a bala

se a dor do outro
é puro ardor adormecido
e não adentra
é porque a tua dor
é tão intensa que
nada além perpassa

e quando o corte for perpetrado
no invisível diário
não se assuste
lembre que você não foi
minha colônia
eu te acolho

4021.

pausa: porque eu não sei o que fazer

Ando pela rua com uma certa altivez, querendo que a mensagem do “não vão me matar” se entranhe em seus poros, mas dentro, meu peito, deambula cabisbaixo. Oscilo horrores, entre uma gargalhada despropositada, um sorriso amarelo cujo único verde poderia ser algum resquício de uma alface que não quis ir logo para o estômago e um profundo silêncio, amargurado, tenso, ansioso, aflito. Falo pouco, e quando nesse pouco, explodo. Só não afasto mais pessoas porque a maior parte que ainda se achega está proximamente oscilante o tanto quanto.

Me persegue uma paranoia: esse é dele, aquela também, aquele ali, nem se fala, aquela se incomoda apenas com a minha existência. No meu prédio sinto a tensão em cima, em baixo, aos lados, todos dele. Taguatinga já teve seu charme, hoje é só um amontoado de pessoas amarguradas com algo que sequer sabem botar pra fora realmente e que se apegam ao discurso dele como se fosse uma verdade inaudita.

Às vezes ligo a tevê, o celular e o computador, tudo ao mesmo tempo, na ânsia por uma resposta, por um horizonte, uma indicação, uma orientação. É um mar de lama intrafegável. Noutras vezes silencio tudo e de dentro do escuro do vazio, algo morde o centro do peito, fisga a alma e tudo se apequena e meu espaço de ação se reduz a nada que não seja apenas uma prisão mental pela prisão que se vislumbra.

Penso em ir à reunião, penso que não conseguirei falar qualquer coisa, penso no compartilhar da tensão e na pauta se desvirtuando numa miríade de desconexões sobre o que fazer, penso que não há o que fazer, penso na nossa “vitória”, penso no próximo golpe, penso no instante em que começou tudo isso, penso em não pensar em nada.

Algo explode por dentro de nós, me parece. Algo explode por dentro de quem o admira, me parece. Peitos de pessoas explodem, cabeças explodem às garrafadas, pessoas se acuam, explodidas. São tempos de explosão e um meteoro nunca explode.

Antigamente, eu pensava que deveria ter nascido em 1940 para poder ter lutado contra a ditadura, agora estou eu cá, nascido em 1982, vivendo este 2018, simplesmente sem saber como lutar. Mandar vídeos, frases, fotos, curtidas, estar aberto ao debate, tentar debater, preso em minha bolha. O mundo foi me encerrando dentro de mim e eu fui me acomodando.

Quando escrevi minha dissertação em 2012 era para o mundo ter se acabado – pode até ser que o tenha ocorrido de fato, ainda não sei – e naquele momento eu vislumbrava que esse universo de proto conexões e de pseudo debates políticos em rede ainda estaria por se consolidar, no arremedo de um freak totalitarismo-liberal, sem lastro de fiabilidade alguma. Agora estamos cá, vivendo o previsto. E minha mente não para de pensar que o que virá será ainda pior. E eu não tenho a mínima ideia do que fazer com isso.

pausa: porque eu não sei o que fazer

4019.

onde estará aquela fluidez
das pessoas desamparadas?
hoje qualquer pele vira vício
e uma voz reticente: se você…
todo espírito vira mestre
e um treinador: se você…

onde andarão os desamparados
que vagavam sem esteios e estacas,
ávidos?

morreram nas próximas temporadas
e na cova das fábulas literárias
apregoados no campo aberto
por onde o vento segue em todas as direções
e amparados pelo próprio fim

4019.

4018.

Quando vem e somem
preguiçosas por mover a mão
ou esfumaçadas na semi-lucidez
da penumbra

Olhos cerrados
e as destemporizações
do inaudível

Os mais belos versos
dormem com meus sonhos,
inaudíveis além

Todas as interlocuções
alquebradas na alucinação
do princípio,
finalidade da realidade

Os cânticos urdidos
na esculhambação
embaciada dos horizontes

Só eu os ouvi

Mais que melodias
foram melanomas
manuseados pela mutação
do universo
a cada rajada
da artilharia dos céus

Silencia os sonhos
e só responde quando perguntado:
por que a verdade
é inimiga da realidade?

4018.

4017. vozes

qual seu lado que fala?
fala?
escuta?

quando ouve o que vem,
vem? veio?

quando fala que timbre tem
a voz?

tem voz?
toca dentro, há tom?

é uma repetição
eco de algo sem identificação
sem rosto, tônus, boca, corpo
ou é visível, seu?

vem de montanhas
do peito
entranhas?

por que, então, senão, fala?

4017. vozes

4016. Orgônio

Andar por entre esse complexo de átomos é coisa que não depreende liberdade. Os signos tatuam um certo sentido de coesão. Coesão. O eletromagnetismo pós-gravitacional também. Tudo meio, canal, conducto. Conluio. Eu espero e não espero. A prisão de ficar bem, a cadeia de ficar zen, a masmorra de ficar mal, os grilhões de ficar caos. Cada aglomerado de moléculas é uma traição perceptiva. Todo embaralhamento mental cerebral é apenas manifestação desse ponto, desde aqui, que reflete o todo. Engodo. Sombra e luz como ângulos e adentros e porforas. A musculatura é reflexo do estado total, fleuma, fórmula doentia. Eu te espero no fim, ou seja, desde quando começou. Gametas mais gametas, produto não quisto, pau atravessado na buceta, entre líquidos viscosos de tesão e tensão, uma decisão e a coisa dada: existência. Talvez mais, talvez menos, mas do mesmo. Existe postulação mais carregada de fado? É sina. Liberdade não existe. Existir é momento, não escolha. Contínuo do universo. Com ti, nó, nu, de um e verso. Universe.

4016. Orgônio

Cobre

Era um vento constante. Não só vento, pois era mesmo uma ventania. Não parava. Começara num domingo de agosto. Fora uma lufada morna carregada de poeira vermelha. Quem a sentiu pela primeira vez, não se atinou de que ela não acabaria. Já havia três meses desde que o vento começara e não passara. Pouca gente percebia que a ventania era incesante, já havia algo de natural, afinal, naqueles tempos, qualquer desvio da normalidade entrava logo no rol do costumeiro. Mesmo Dona Eulália que passava pano na casa de hora em hora não tinha tomado tino.

A coisa foi se assomando no decorrer do tempo e do vento. Já não se sabia o que era um ou outro, pois que tinham ambos a mesma toada e o mesmo carregar, a poeira que se conduzia em ambos, por dentro de ambos e começava a cobrir tudo por ali. Como tanto quanto era ventania, além de vento, o próprio tempo que a conduzia ao se conduzir, ganhou outra tez diante da cara que já tivera. Era um transcorrimento avolumado, como o vento a correr. O tempo era o vento, e rápido, ganhava tudo, passava imperceptível e irreconhecível, mas veloz, mais veloz.

Poderia ser destino, tudo coberto pelo pó que vinha junto ao vento e ao tempo, mas não se conformava enquanto apenas e uma fina camada cobre ia tomando tudo, vindouro dilúvio de grãos. Dona Eulália já desistira inclusive dos artifícios da vassoura, espanador, pano sobre o pó e via apenas o tempo se aglutinando voraz junto ao pó que vinha com o vento. Sentada à cadeira de balanço de treliça de cordão, balançava na cadência de um tempo que passava como a constatação das dunas.

Afrânio também identificava que a poeira se acumulava ao largo de tudo. Ali no departamento já havia uma crosta de poeira, não mais uma fina camada. Sentado em sua cadeira de repartição, de frente ao computador, a crosta já atingia mais da metade da canela, nada o demovia ao estranhamento conquanto ainda houvesse a posibilidade de se locomover até o café, mas tudo se alinhava no transcorrimento do vento e do tempo, que mesmo o soterramento iminente não chocava nem afligia.

Quando a coisa vem num contínuo intenso, grave, rápido, mas travestido de normalidade, vento, tempo, tudo se capitula. Não há desentendimento, não há preocupação, só percepção, como as árvores sentem as cascas descamando a cada alternância entre a seca e a chuva, impávidas e existentes. Ou talvez não, talvez a impercepção é o que houvesse, como os autômatos que existem computando as esferas já programadas.

Só sei que naqueles dias de tempo e vento, em que tudo se encobriu de poeira, o que sobrou foi uma vida sussurrando sufocada, onde tudo se encobria, desatinadamente.

Cobre

4015. Dias d’s

dissolvendo digitais
digitando digitanto
digerindo diagramas diagonais
displays distantes dentro
diametrais
dedos duros difamando
diferindo disparando
dharmas deletérios
deletando descomprimindo
dias demônios destemporais
destemperadas digressões
domadas dóceis demais
deduzimos dedos dízimos
dores de dados decimais
dados dados deliberados
delivery de dunas disponíveis
dispersos demais

4015. Dias d’s

4014. Anatomia do desterro

Um corpo grato
aberto opaco, pedra difusa,
ranhuras externas
no semibrilho das lentes quebradas

Alquebrado, o corpo inerte,
reveste-o os próprios cacos;
parte nascida por ali
um pedaço made in Thailand
a junção axial restada alhures
visgo da águia reconhecido
nos tecidos ideológicos
do amor à violência

Digno de nota: o corpo se contrai
ainda passado trinta e duas horas
do dispositivo desligado,
ritmos cíclicos de dez em dez minutos
os dedos deslizam no éter

Massa lodosa à semelhança de
molho pesto receita tradicional
pilada à mão em pilão de pedra,
localizada na terceira interseção
de bílis – negra – e sangue pisado
– à direita do lóbulo inchado
intestinos adentro

Localizados dezenove olhos
todos aos pares
vesgados ao mesmo sentido central
umbílico, denota-se sensitividade
epigástrica morta
neste repositório – quente ainda
por ventura – desfuncionado por
gorduras trans e pans

Nenhum reconhecimento pátrio,
solo desgastado abaixo de um
rasgo de tecido amarelo canário
parecendo haver havido um músculo
involuntarioso sem ciclos ou ritmos,
parado desde antes do desligamento,
notável visualização

Todo o sangue ainda envolvente,
full hd vívido red and blue,
escorre sentido norte
motivo gravitacional plano
para onde vivente almejou

Algo coreano, passível pâncreas,
passivo duodeno, possível pulmão
resfolegado de fuligem
desindexada e livre cambiante,
possui uma bala israelense
terrificada como testemunho testamento

Muito pus, muito mesmo
não havia mais raízes,
só abcessos ancestrais
do proterozoico superior
diluídos por uma camada de
bacon, cheddar e gasolina

O odor dos órgãos ganhava o globo

4014. Anatomia do desterro

4013.

Os ipês tão florindo na chuva
e os mortos enfileirados
cantam para Iku.
E eu amo Jorge, amo o cavalo,
amo o dragão, a espada e a lua.
Eguns comem pipoca de
canjica branca,
eu moro na roda dos coletivos
num agosto frígido,
cativo do coletivo morto
perto da feira que brota
novamente
revigorada e enramada
pela chuva de agosto,
rara,
que expele flores de ipês
aos solavancos de Oyá.

4013.

4012.

a pornografia dessacraliza o ritual
– os ritos eróticos mortos –
poda o processo imaginativo da fantasia
exacerba a expectativa
em desempenho e potência

a pornografia é uma escrita
na memória das horas que rasura
toda tecitura do gozo
destoca o elaborado do toque
desaproxima pela próxima do próximo toque próprio

a pornografia é irmã do moralismo

4012.

4011.

quantas vezes eu me estuprei?
ao me exigir uma potência inexistente
uma voracidade impalpável
e ainda assim ali
mente em estado fantasmático
corpo em modulação mecatrônica
igual à fábula pornográfica

ansiosidade meia bomba
a qualquer momento ele brocha

eu
só partes em animismo esquizoide

caçador de imagens meio afeto
meio objeto
eu
abjeto

nojo interno, bastaria um não:
não precisa, não agora, não

pelo dever composto
de dar substrato aos pelos
e à paisagem pélvica
morro testemunho do macho habitado
potencialmente inerosível

 
a lição do consentimento
inegavelmente vinda da outra
também tem de partir de mim a mim

4011.

4010.

quando desci até o profundo
havia uma disposição enramada,
em cada bifurcação mais uma
e só se avistavam bifurcações

qual das mil me levaria
eu deambulava em digressões

em cada ponto bifurcado
algo que transitava nos dois lados
e um cérbero cobrando do cérebro
um óbulo pela travessia

nada era fácil depois que minha face
havia se estampado no mundo

era preciso retomar o rosto
o contorno da minha imagem
as curvas que transpassaram os anos
e enrugavam ao solavanco dos outros

no profundo da superfície
qualquer jogo te diz quem você é

mas as sendas era múltiplas
e nenhuma era minha, eram marcos
onde eu perdi o trajeto
já não era possível o percurso

nenhuma visão se contempla espelho
quando a luz não vem de si

cada caminho era o calcanhar dos outros
que pouco intuíam do arrazoado
dos passos a serem dados,
apenas formavam faces com os pés

e os pés bifurcavam dedos e dores
que eu seguia no profundo da superfície

para

onde

4010.