4123. super capitalismo totalitário

me pediram um poema doce
como suspiro e pão de ló
e o que veio foi esse conto em foice
a martelar a corda e quebrar o nó

que pendurava a morte

– a bicha tava que já não se aguentava,
pensava em morte todo dia, a morte.
até que não guentou e se pendurou
na própria morte, a bichinha.

antes saiu por aí a desdita
revigorada de vida, a morte
colada com uns parça sinistrão
que metia os loko nas quebrada
interplanetária do globalismo
antiglobal

a morte surfava e espreitava
chamava o guedes e dava uma dica
chamava os messias e rezava uma estória
e começou como falseamento
da lógica mais temerária

soltou fantasmas passados aos montes
e aos poucos
cada fantasma a trazer mais dezessete
trinta e oito
e deixar tudo no ponto do doido
fissura de crackudo
o cuco da história como o elemento definidor da antihistória

38, depois 48, depois 58 horas semanais de trabalho
no talo e com relho no lombo
e um sorriso brilhante olhando o quinto mandamento
insanamente
do alto do morro que desceu a morte
e aliciou as polícias da morte
para as milícias da morte

e um pib aumentando 0,6%

4123. super capitalismo totalitário

4122. Conjuro

Minha primeira reminiscência
na esquizoanálise foi um aboio:
mil tretas nuns paranauê sinistro,
lokão tipo fogo nos zói da venta.

Na sequência veio uma anamnese
vindo nas veia
gradativa feito um dub;
peguei na mão da lembrança
e disse: isso me encaixa, tem graxa
eu escorrego corredeio
e cadencio: há água irrefletida
que margeia e inunda.

       Despacho para a síntese
       intersubjetivamente objetiva:
       – sete tipos de miúdos de centauro
       – dois litros de dendê
       – farinha de puba suficiente
       – cinco tipos de balas perdidas encontradas
       – nove fios de cabelo de axila feminina
       – um alguidar número nove
       – um raio laser
       – um strobo
       – camarão du bom um bom tanto

A integração se deu num rasgo de anunciação
– com um pacto entre as partes
que se achavam estranhadas, embora entranhadas.
Chamei as paradas que se diziam escrotas
trombei com o sumo da bondade que escorria
e trôpego me arrastei

e me arrasto. Mas invocado.

4122. Conjuro

4121. Panema

A desdita começara de véspera
numa partida partida entre duas bandas:
uma avante outra retrovisora,
mas parecia mesmo era que a bola
é que tava malassombrada.
Quem mantinha a pelota sob domínio
era afetada por um enfado tal
que zicava toda condução:
perdia-se num ensimesmado irredutível
à realidade,
inação plena – quebraram alguns bancos, alguns.
Outras tantas ficaram no twitter. –,
mas de junho pra cá foi essa coisa
que nem vai e nem foi
fica sendo sem saber que tá,
cara de empanzinado ou enfezada,
mas o certo é que é quase uma maleita d’alma,
cabeça de burro enterrada dentro do peito
mandinga venenosa de traído pela atração
da outra banda,
que quando se vê cá, o que de lá bombeia,
perde-se o caminhar e só fica
a cara de véspera eterna

partida sem campo

campo sem mato

mato sem

morte desprovida de vida – vida abandonada é esse quase,
 
 
 
uma panema da porra.

Porta de entrada pro ermo.

4121. Panema

4120. Longe demais de Aruanda

Um gosto alcalino na boca,
como se eu tivesse passado
a noite toda chupando pilha,
até me entalar,
como Rafael.

O suor escorre pelo pescoço,
uma quentura lateja
desde ombro a ombro,
kundalini horizontal a queimar
a vida, ou o rasgo.
Schopenhauer quer a minha morte
carbonizada, hoje eu
tenho um problema com meu corpo,
como no meu debute.

Um verme de linhas obtusas
me habita. É um pontilhão de Maria.

Eu sequer saquei,
meu corpo insistia
em produzir umidade,
meu semblante certamente é gay.

A aurora da vista.
Eu tô indo pra onde?
E se ela me desse?
e descêssemos no meio do matagal
até os charcos da mata
e molhássemos os pés
no regato e arregaçássemos as mangas
por entre o arroio
e capinássemos e plantássemos
e curtíssemos
sem botões?

Eu lembro do rosto das pessoas
e dos detalhes dos sonhos quando sonho,
como os traços dela vendendo os traços
e seu dente que falta e o outro torto
e que eu não tinha um puto para comprar os traços.

Cada pé de árvore agora me faz querer chorar.

Não me olha,
eu quero plantas e águas
e o silêncio dos sons
e ela que não existe,
entre as folhas das primaveras em flor
sem o meu medo
reflexo
e uma atração desatraída.

E eu tenho vontade de chorar
a cada sopro de imagem que não esqueço.

Quem caberia por entre as folhas?

Quem teria a cor dourada
e o suor caindo pelo rosto,
um sorriso de esforço para o buraco
da muda de cupuaçu
e o bico do peito à mostra
por entre a folga do vestido,
sem a minha significância sabotando
o prumo e sustentando
um pai em minhas costas?

Quem seria ela que finalmente não seria eu
a me relacionar com meu homem
travestido de mulher?

Eu me cerco de espectros.
Eu me perco no ectoplasma.

Não me olha.

A natureza é perfeita
e o erro tem um sentido evolutivo,
quisera eu saber viver na roça.
Tenho vergonha dos meus peitos.
Queria andar sem camisa
durante a lida e ler
Schopenhauer na rede logo após,
sem camisa.

Cada luz que vem difusa
eu penso que pode ser um milagre.

E pra onde é que eu tô indo?

4120. Longe demais de Aruanda

4119. A vergonha te dispõe?

Não é paradoxo,
é paroxismo:
amar a beleza flutuante
de paisagem em corpo
em forma,
longitudes que nos alcançam
as vistas;
ser indiferente à beleza
– sempre invisível –
antes da opressão suprema
até a morte da vítima,
quiçá sua loucura.

Matá-los todos,
sem nenhum amor,
apenas o amor
filogenético à espécie
da vida.
Desigualá-los de quem
importa manter a vida
e dispô-los a ser adubo
às espécies – turba –
que mais vibram:
nossas irmãs plantas.

E a cada um que derrubarmos
com seus sangues em nossas mãos,
desonrando tudo o que
eles acreditam,
comprovará não a nossa paranoia
– ela é apenas a percepção
de uma realidade diluída
nos espetáculos deles –,
mas sim a nossa
pronoia.

Sincronicidade da morte para a vida.

A cada um derrubado,
uma nova estrela
surgirá no céu,
não em suas homenagens,
mas para as novas constelações
que ornarão os céus e os signos
de nossas infinitas possibilidades,

enquanto espécimes
da vida.

4119. A vergonha te dispõe?

4111. ventolalia

são milhares de vozes
que se fazem

e te dizem quem tu és
ou que te dizem tu és
ou que te dizem tu deverias
ou que te dizem tu serás
ou que te dizem tu fostes
ou que te dizem o quê
ou que te dizem sem dizer o que te diz
 
 
e o que tua voz te fala
e o que que tua voz carrega

quando só o vento se ouve?

4111. ventolalia

4110. Machine poeting

Falávamos ao vento
ninguém ouvia absolutamente nada
que não tivesse vindo
de um nó aplicativo

Nossa voz não reverberava
em ninguém, em nada
Comprimíamos o nosso próprio
atacanhado tamanho em nada

Sem adesões e sem gostares
e o mais enfadado: sem interlocução,
falávamos como araucária no meio da soja
ou pequizeiro no meio do pasto
Uma linguagem de outros modos
ao pé de ouvidos com fones

Não falávamos,
berrávamos para nós
e nem nós nos escutávamos

Apenas insistíamos em ponderar a loucura
de tentar falar uma língua morta-viva
para zumbis surdos

E os poemas pipocavam como
uma glossolalia sem anjos,
só ciborgues a assaltar todo significante
todo símbolo
qualquer signo
e todo significado

E olhávamos com pasmo
aquele blindado big data de figuras de linguagem
e um novo algoritmo poético
a despejar belas canções que jamais serão lembradas

4110. Machine poeting

4109. ciclotimia, ou tratado matinal das próprias cores, ou da travessia quando no mergulho, ou do despertar dor para que finde

logo mais haverá cores, sei
cada travessia do sol, cicla – re
e quando ele sair do ar da balança pendulária
e adentrar as águas do inferno,
profundo lamaçal de esfregar bicos
de seios e fazer unguentos,
o céu vai clarear pelas manhãs
em pequenos caleidoscópios fractais
dourados nas gotas dos dias,
feixe de raiar corpos

por enquanto, como a lua, como o céu,
eu cresço e minguo e eclipso,
como cá estou cinza – s
pronto a rebrotar desde as águas
até ser lenha para a fogueira
que há de arder bem no fim dessa
travessia pelo firmamento

mais uma vez

4109. ciclotimia, ou tratado matinal das próprias cores, ou da travessia quando no mergulho, ou do despertar dor para que finde

4108.

A fagulha só pega
quando há corpo a queimar
e calor pro ar passar
feito rastro de meteoro no peito

Todo fogo queima
de doer e até entender
tatuagem-queimadura
a estampar lições

A primeira passagem
é a das notas contidas
nos sinais de fumaça
no toque de tambores:
há que se saber os códigos
para decifrar epigramas de amor

Os sinais tem de ser claros
mesmo na escuridão:
por quais ruas deambulam
danças ou fugas
que farão o próximo passo

Do fogo a luz
que cadeia no céu
se faz sombras e lê-las
dá o enredo

Há encruzilhadas
que deságuam em todo o futuro
E o corpo sente

Amar-se as dores,
outra conta para as pagas da vida
E as lições do fogo continuam
ainda que em barco naufragado
mar livre do peso de se sustentar
a liberdade de ser os próprios sinais

Respira

Descobre o que assombra
Ali nos corais há habitação infinita
E nenhuma regra há de impor
quantas casas se erguerão no fundo abissal

Despede do que te veste de incerteza
fique nua, do avesso ao verso

Escuta o canto:
melodia pura de sensação ébria
um tritão ergue a voz
e chama,
no mar há fogo

Não respira, pira

Se despedaça em cada parte que alcançar
e se recompõe, regenera

de prazer

dê-se

4108.

4107.

A corredeira dos dias
anda tão farta
que o cimo das melhores horas
já se perdeu nas têmporas
e tempestades das cabeceiras
das manhãs,
rolaram trombas e águas e elefantes
erodindo a memória.

Nas depressões dos vales
que roubam terras das montanhas
é que se reflete:
e nesse horizonte de sol,
quais foram os melhores dias?

– Foram os dias.

4107.