4044. Carvão ativado

sob meus poros
luz calor e pressão
diamante bruto brota

Anúncios
4044. Carvão ativado

4043. OU

Sem cascos nos olhos
o branco do lado escuro da Lua
desentranha o arranha-céu
pulverizado em pétalas de cravos
e o galope da vista dilata as premissas
de enxofre e metano
que se sentem com as costas das mãos
e com o dentro do trabalho de outrora
o sangue cerca o eclipse solar em marte
halo de labor afetando os vales
e meu amor se estaciona num avarandado
de 1935
cá nas brenhas dos trópicos
dum intento de arrancar corações
e costas dos pombos negros das mesas redondas
de gravatas borboletas e helicópteros
que capturam a aurora da vida

Mas se em cascos d’olhos
em trote e pupilas diante do barlavento
a escuridão do solar lado lunar
e suas flexões de uma fluida chama
que antecede as órbitas dos seres
e desorganiza as águas moventes
descampa as folhas monolíticas
e puxa a seiva da raiz mais magmática
magneto que conclama o ar à vida
e a água à morte
como toda pedra abre-se ao gosto acre da flor
e toda casca silencia-se num grito de humos
numa gargalhada de terra
num silvo de solo
que me livra o amor a ser sertão
quando da chuva betuminosa se preciso
ou se precioso mandacaru de flor lilás
e teiú caxinguelê anil laranja
cuspindo o fogo a chama a brasa
de manter corações
e costas dos caburés vermelhos das rodas
de batas brancas e nuvens
que arregaçam a aurora da morte

4043. OU

4039. Significante flutuante

Cá nos pós Equadores tropicais
a trupe-tropel-tropa
troca a liberdade
pelos livros do mercado
a traz no peito o espírito libertário
da pátria amada não idolatrada,
pois para ela não cabem ídolos,
só Deus.

E aspiram à sublimação
igualitária na ânsia
diferencial de que todos
voltem para o aperto de seus armários.

Mar de indivíduos únicos à deriva
é uma massa inerme e armada,
inerte tsunami
– “A ONDA” –
que não transpassará a costa, o litoral,
apenas o submergirá
em grades e frames,
desejosa prisão.

E no final desse poema
não esqueça de dar o seu like
e se inscrever para receber
as atualizações do meu canal.

4039. Significante flutuante

4038.

um mundo de sinais
os dedos de pólvora
cavalo louco sem papas
os mano preto aos bardos
pipoca é dois real
ela loira no palanque
o sol salgando o couro
as paradas repletas
de peles pintadas
querendo a morte
dos pele pintadas

sinais e mais sinais
dos ermos dos tempos
que a terra percorreu
até aqui, os sinais

4038.

4036.

Eu,

enquanto dor
           morrerei
conquanto corpo
           morrerei
como árvore
           morrerei
entanto marca
           morrerei
portanto futuro
           morrerei
enfim camada
           morrerei
todavia liberdade
           morrerei
senão movimento
           morrerei
porquanto além
           morrerei
entretanto pássaro
           morrerei
consoante tricerátops
           morrerei
tão trôpego
           morrerei
embora deus
           morrerei
porque macaco
           morrerei

eu.

4036.

pausa: leituras 2018

Foram 18 livros lidos em 2018, informações sobre é só perguntar:

1) XY sobre a identidade masculina (Elisabeth Badinter)
2) Habibi (Craig Thompson)
3) Ou o poema contínuo (Herberto Helder)
4) Ao encontro da sombra (Connie Zweig org.)
5) Relato de um náufrago (Gabriel García Márquez)
6) A astrologia no mundo (Peter Marshall)
7) Agonia de Eros (Byung-Chul Han)
8) Outros jeitos de usar a boca (Rupi Kaur)
9) A vida secreta das plantas (Peter Tompkins & Christopher Bird)
10) Awô – O mistério dos orixás (Gisèle Omindarewá Cossard)
11) O túnel (Ernesto Sabato)
12) Normas práticas para interpretação do mapa astral (Stephen Arroyo)
13) O ódio como política (Esther Solano Gallego org.)
14) O que é ideologia (Marilena Chauí)
15) Manual de astrologia (Rene Fleury)
16) O buda do subúrbio (Hanif Kureishi)
17) 1993 (Charles Trocate)
18) O fabuloso quadrinho brasileiro de 2015 (Rafael Coutinho & Clarice Reichstul orgs.)

pausa: leituras 2018

4035.

vivíamos entre as massas
e se olhássemos o horizonte
lá estava a linha
entre o chumbo e o sangue
que produziria o por do sol
mais tóxico que já existiu

honradas as gerações
que viram as chagas e os cancros
e agora ensinam que o horizonte
tem de ser sempre cinza
para se cumprir a palavra

desonraremos todas as histórias
que nos coloquem em fumos
o avanço das auroras
diante do sol
que sempre será vermelho

4035.

4034. todo amanhã é hoje

aproveitamos a brisa quente desses dias
nos encontremos, choremos
suemos o que pudermos
o difuso do horizonte desprovido ainda
é uma imagem embaçada

nos amemos enquanto amor há
como ar
o respiremos por dentro
e piremos
enquanto há

depois de amanhã há de haver
ainda algo
meio não existente 
mas tomemos esse gole
sorvemos essa cerveja

nos amemos
amemos
a mais agora
não a menos

a luta há de ser bruta
e nossas foices cegas serão parcas
mas serão foices
alguma força e ceifaremos
todos os campos brutos

amanhã
enquanto hoje
ainda amamos

4034. todo amanhã é hoje

4030.

a orientação etílica é uma coisa qualquer coisa
não qualquer bobagem
sair de prédios desconhecidos
é tarefa hercúlea
onde o elevador?
seria escada?
depois de uma carteira de cigarros,
não
após aquele baseado infame,
nunca

uma vez passei três dias tentando sair
de um prédio de águas claras
saí do apartamento
desconhecida claridade do dia
infusão de ressaca e desmembramento
pós coito confuso
onde qualquer coisa?
peguei o contato
que nome seria?
celular descarregado
de qual apartamento eu saí?
uma escada
um elevador
outro
uma saída pra dentro

no segundo dia descobri onde punham o lixo
sobrevivi de restos de pizzas
por jah como comem pizzas em águas claras

vaguei por parquinhos e piscinas
salões de festas e halls
fiz amizade com três pets
billy, zinha e jethro
umas lindezas
dormi num quartinho que até agora não sei para que servia
flanco escroto

no terceiro dia, já sucumbido e desistente
depois de brincar de gangorra com o joãozinho
me atinei com um cara de uniforme,
segui-o
e lá estava ela, a saída
bela e espelhada
mármore bem lisinho

nunca senti saudade desses momentos

só insisto neles

4030.

4029.

não estou aí
isto é uma ausência
cada posto tira
daqui desde o agora
e transpõe o
que interna
até o que tem alta
e conduz o impulso
armazenado em impulsos

como se estivesse
mas não está

cada palavra é
uma ausência
construindo uma ponte
eferente
entre um instante e
outro

cada lapso é
uma presença
destruindo a autoria
aferente
entre o tido o dito e
o dado

[consumido consumado]

4029.

4028. périplo XXXVI: fecha VIIII abrindo

“Se não tens fé, olha para o outono.
As folhas amarelecem e caem, caem,
cobrindo ao mesmo tempo a montanha e o rio.”

era baco exu do blues
repetições de padrões energéticos
de matéria translúcida
navegando pelas eras de brahma
stellium de sol mercúrio júpiter
em escorpião na casa IX
ema no céu de novembro
quetzalcoatl vomitando vênus
guiado por viracocha e oxalufã
cajado rompendo a areia branca
as nuvens de algodão
molhadas de chumbo de água agridoce
da célula matter rainha herdada
da avó materna e sempre mãe
yemonjá que era rio que virou mar
que banhou o ar a evaporar
que virou chuva fina de ayrá
e fogo de brasa pisada de pisar

era a repetição magnética
encarnada em alvo manto
a consciência retomada parte a parte
o momento que retorna e retoma
a forma das formas sheldrakeanas
virtualidade da árvore na semente
frondosas faces de uma gameleira
donde repousa guaraci e marabô
de raízes que rompem o barro
desagregado pelas mãos de shiva
remodelado pela própria manutenção
solo seiva dentro das sendas de vishnu

sete campos abertos espiralados
pelas vias das galáxias
um termo desperto que visualiza
osíris em sua barca pelo leito lácteo
no emaranhado da matéria negra
um termo que dorme o pouso
sereno das plumas avoadas
de uma pomba branca envolto num alá
tapete mágico dos sufis do deserto

um eremita ilumina o sol do sacerdote
a solidão súmula do desafio
da iniciação interna e aderente
prenúncio da libertação luminosa
a respiração recolhida da gruta
chama a terra a viver
há que se caminhar com alguma luz
o antigo caminho do mistério

4028. périplo XXXVI: fecha VIIII abrindo

4027.

nesses últimos dias de domingo
falarei dessa massa
definida entre garganta e ventre
redoma dos pesos que saltam
ardidos das costas ao peito

nesses últimos dias de domingo
o sal da terra, de frutas,
fervilhando as imagens
absorvidas pelos dedos,
gástrica emoção não digerida

os solavancos desses últimos
dias de domingo
no refluxo da dilaceração que queima,
amanhecerão segundas e terças
e últimas quartas e sextas
com meios de quintas e brasas

            o eterno retorno das semanas

4027.

4026. coração, o terapeuta de bolso

salgará
calmamente o
estanho do projétil:

    meu amor
    como as farpas
    de uma Transilvânia
    mítica,

        meu amor
        como os solilóquios sequiosos
        de pássaros nauseabundos,

            meu amor
            como um ventre
            cauterizado por filhos
            irrisórios e risíveis,

                meu amor
                como a lua embaçada
                pelo míope clarão
                das órbitas,

                    meu amor
                    como veneno
                    sorvido num pic-nic
                    colorido e colaborativo,

                        meu amor
                        como as marcas dos relhos
                        dos homens
                        pálidos, rosas e vermelhos,

                            meu amor
                            sem nenhum alento

4026. coração, o terapeuta de bolso