O que o cérebro tem para contar / V. S. Ramachandran

ATÉ AGORA EU os conduzi por uma viagem evolucionária que culminou na emergência de duas habilidades humanas: linguagem e abstração. Mas outro traço da singularidade humana intrigou os filósofos durante séculos – a saber, a ligação entre a linguagem e o pensamento sequencial, ou raciocínio em passos lógicos. Podemos pensar sem verbabilização interna silenciosa? Já discutimos a linguagem, mas precisamos ser claros em relação ao que entendemos por pensar antes de tentar nos atracar com esta questão. Pensar envolve, entre outras coisas, a capacidade de se engajar com manipulação irrestrita de símbolos em nosso cérebro seguindo certas regras. Em que grau essas regras estão relacionadas às da sintaxe? O termo-chave aqui é “irrestrito”.

Para compreender isso, pense numa aranha tecendo uma teia e pergunte a si mesmo: terá a aranha conhecimento da lei de Hooke relativa à tensão de fios esticados? A aranha deve“saber” disso em certo sentido, de outro modo a teia se desintegraria. Seria mais preciso dizer que o cérebro da aranha tem um conhecimento tácito, em vez de explícito, da lei de Hooke? Embora a aranha se comporte como se conhecesse essa lei – a própria existência da teia atesta isso –, seu cérebro (sim, a aranha tem um) não tem nenhuma representação explícita dela. Ela não pode usar a lei para nenhum outro propósito a não ser tecer teias e, de fato, ela só pode tecer teias segundo uma sequência motora fixa. Isso não é verdade acerca de um engenheiro humano que utiliza conscientemente a lei de Hooke, que aprendeu e compreendeu a partir de livros de física. A utilização humana da lei é irrestrita e flexível, disponível para um número infinito de aplicações. Ao contrário da aranha, ele tem uma representação explícita de seu funcionamento em sua mente – o que chamamos de compreensão. A maior parte do conhecimento do mundo que possuímos recai entre esses dois extremos: o conhecimento irracional de uma aranha e o conhecimento abstrato do físico.

O que entendemos por “conhecimento” ou “compreensão”? E como bilhões de neurônios os alcançam? Essas coisas são completos mistérios. Reconhecidamente, os neurocientistas cognitivos ainda são muito vagos no tocante ao significado exato de palavras como“compreender”, “pensar” e, de fato, da própria palavra “significado”. Mas o trabalho da ciência é encontrar respostas passo a passo por meio de especulação e experimento. Podemos abordar alguns desses mistérios de modo experimental? Por exemplo, o que dizer sobre a relação entre linguagem e pensamento? Como poderíamos explorar experimentalmente a elusiva interface entre esses dois elementos?” (p. 153-154)

Poemas / Wislawa Szymborska

RETORNOS

Voltou. Não disse nada.
Mas estava claro que teve algum desgosto.
Deitou-se vestido.
Cobriu a cabeça com o cobertor.
Encolheu as pernas.
Tem uns quarenta anos, mas não agora.
Existe — mas só como na barriga da mãe
na escuridão protetora, debaixo de sete peles.
Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase
na cosmonáutica metagaláctica.
Por ora dorme, todo enroscado.

Wislawa Szymborska

4178. A angústia de um afásico

Um momento que não vai mudar tudo.

(lânguido: desprovido de energia)

Preciso pensar no mundo real.

(inerte: sem atividade ou movimento próprios)

O poeta é um fetichismo baseado na palavra.

(cansado: desprovido de objetividade)

A metamorfose está na inconstância da última hora dizendo que está disponível.

(prostrado: sem ânimo)

Então, quebrar essa percepção das coisas enquanto, desacelerar.

POESIA E PROSA SELECIONADAS / WILLIAM BLAKE

Provérbios do Inferno

No tempo de semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
Conduz teu carro e teu arado sobre a ossada dos mortos.
O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela Impotência.
Aquele que deseja e não age engendra a peste.
O verme perdoa o arado que o corta.
Imerge no rio aquele que ama a água.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio vê.
Aquele cuja face não fulgura jamais será uma estrela.
A Eternidade anda enamorada dos frutos do tempo.
À laboriosa abelha não sobra tempo para tristezas.
As horas de insensatez são medidas pelo relógio, as de sabedoria, porém, não há relógio que as meça.
Todo alimento sadio se colhe sem rede e sem laço.
Toma número, peso & medida em ano de míngua.
Ave alguma se eleva a grande altura, se se eleva com suas próprias asas.
Um cadáver não revida agravos.
O ato mais alto é priorizar o outro.
Se o tolo persistisse em sua tolice, sábio se tornaria.
A tolice é o manto da malandrice.
Prisões se constroem com pedras da Lei; Bordéis, com tijolos da Religião.
A vanglória do pavão é a glória de Deus.
O cabritismo do bode é a bondade de Deus.
A fúria do leão é a sabedoria de Deus.
A nudez da mulher é a obra de Deus.
Excesso de pranto ri. Excesso de riso chora.
O Rugir de leões, o uivar dos lobos, o furor do mar em procela e a espada destruidora são fragmentos de eternidade, demasiado grandes para o olho humano.
A raposa culpa o ardil, não a si mesma.
Júbilo fecunda. Tristeza engendra.
Vista o homem a pele do leão, a mulher, o velo da ovelha.
O pássaro um ninho, a aranha uma teia, homem amizade.
O tolo, egoísta e risonho, & tolo, sisudo e tristonho, serão ambos julgados sábios, para que sejam exemplo.
O que agora se prova outrora foi imaginário.
O rato, o camundongo, a raposa e o coelho espreitam as raízes: o leão, o tigre, o cavalo e o elefante espreitam os frutos.
A cisterna contém: a fonte transborda.
Uma só ideia impregna a imensidão.
Dize sempre o que pensas e o vil te evitará.
Tudo em que se pode crer é imagem da verdade.
Jamais uma águia perdeu tanto tempo como quando se dispôs a aprender com a gralha.
A raposa provê a si mesma, mas Deus provê ao leão.
De manhã, pensa. Ao meio dia, age. Ao entardecer, come. De noite, dorme.
Quem consentiu que dele te aproveitasses, este te conhece.
Assim como o arado segue as palavras, Deus recompensa as preces.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.
Da água estagnada espera veneno.
Jamais saberás o que é suficiente, se não souberes o que é mais suficiente.
Ouve a crítica do tolo! é um direito régio!
Os olhos de fogo, as narinas de ar, a boca de água, a barba de terra.
O fraco em coragem é forte em astúcia.
A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão ao cavalo como apanhar sua presa.
Quem reconhecido recebe, abundante colheita obtém.
Se outros não fossem tolos, seríamos nós.
A alma imersa em deleite jamais será maculada.
Quando vês uma guia, vês uma parcela do Gênio; ergue a cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para pôr seus ovos, o sacerdote lança suas maldições sobre as alegrias mais belas.
Criar uma pequena flor é labor de séculos.
Maldição tensiona: Bênção relaxa.
O melhor vinho é o mais velho, a melhor água, a mais nova.
Orações não aram! Louvores não colhem!
Alegrias não riem! Tristezas não choram!
A cabeça, sublime; o coração, Paixão; os genitais, Beleza; mãos e pés, Proporção.
Como o ar para o pássaro, ou o mar para o peixe, assim o desprezo para o desprezível.
O corvo queria tudo negro; a coruja, tudo branco.
Exuberância é Beleza.
Se seguisse os conselhos da raposa, o leão seria astuto.
O Progresso constrói caminhos retos; mas caminhos tortuosos sem Progresso são caminhos de Gênio.
Melhor matar um bebê em seu berço que acalentar desejos irrealizáveis.
Onde ausente o homem, estéril a natureza.
A verdade jamais será dita de modo compreensível, sem que nela se creia.
Suficiente! ou Demasiado.

Os Poetas antigos animaram todos os objetos sensíveis com Deuses e Gênios, nomeando-os e adornando-os com os atributos de bosques, rios, montanhas, lagos, cidades, nações e tudo quanto seus amplos e numerosos sentidos permitiam perceber.
E estudaram, em particular, o caráter de cada cidade e país, identificando-os segundo seu deidade mental;
Até que se estabeleceu um sistema, do qual alguns se favoreceram, & escravizaram o vulgo com o intento de concretizar ou abstrair as deidades mentais a partir de seus objetos: assim começou o sacerdócio;
Pela escolha de formas de culto das narrativas poéticas.
E proclamaram, por fim, que os Deuses haviam ordenado tais coisas.
Desse modo, os homens esqueceram que todas as deidades residem no coração humano.

Por Willian Blake

Uma biografia da depressão / Christian Dunker

SAÚDE MENTAL

Christian Dunker: Neoliberalismo e depressão à brasileira

Segundo psicanalista Christian Dunker, discursos neoliberais de meritocracia — em que sucesso e fracasso tendem a ser individualizados — e crise dos últimos anos em que os horizontes prometidos deixaram de ser cumpridos ajudam a agravar o quadro geral do transtorno no Brasil

Por Redação RBA

Publicado 21/03/2021 – 10h34

São Paulo – A depressão é um problema sério no Brasil. De acordo com dados da OMS, a Organização Mundial da Saúde, a doença afeta 5,8% da população, um índice maior do que a média mundial de 4,4% e a maior da América Latina. Para falar sobre esse tema, o programa O Planeta Azul conversou com o psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker, que acabou de lançar o livro Uma Biografia da Depressão, pela Editora Planeta.

No livro, Dunker narra como a depressão, que por muitas décadas ocupou uma posição menor entre os transtornos mentais, se tornou, a partir dos anos 1970, a grande protagonista dos discursos sobre o sofrimento psíquico.
De olho nesse fenômeno, o professor da USP resolveu esmiuçar as origens, a história e o contexto atual da depressão. Ele encontrou diversas explicações contemporâneas para o agravamento do transtorno: dos discursos neoliberais de meritocracia — em que sucesso e fracasso tendem a ser individualizados — à crise dos últimos anos em que os horizontes prometidos deixaram de ser cumpridos. Deparou-se também com questões como a ascensão do neopentecostalismo, com igrejas vendendo a ideia de prosperidade.

Ao longo do livro, Christian Dunker refaz os passos genealógicos do transtorno a partir dos conceitos da tristeza e da melancolia para mostrar que a depressão é “um nome demasiado pequeno para tantas formas, que reúne coisas que não andam juntas”. O autor faz uma viagem no tempo para mostrar que o surgimento da depressão é contemporâneo ao romantismo nas artes e que sua estabilização como quadro clínico acompanha o modernismo nas artes visuais.

Dunker concorda que as redes sociais contribuem para, ao expor imagens e histórias perfeitas, agravar a depressão. Mas reconhece também o seu papel positivo. “Não devemos demonizar as redes sociais. Porque elas estão fornecendo práticas de reconexão de contato e de narrativização de sofrimento, isso tudo está disponível”, diz ele.

https://www.redebrasilatual.com.br/blogs/ planeta-azul/2021/03/neoliberalismo-depressao-christian-dunker/

Bitcoin – A utopia tecnocrática do dinheiro apolítico / Edemilson Paraná

https://play.google.com/store/books/details?id=8VzwDwAAQBAJ

Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico

Acervo Online | Mundo
por Rodrigo Santaella Gonçalves
17 de março de 2022

Confira resenha do livro de Edemilson Paraná, Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico (Autonomia Literária, 2020)

O livro busca captar, a partir de uma análise acurada sobre o bitcoin, aspectos fundamentais da dinâmica do capitalismo em sua forma neoliberal, no contexto de sua crise contemporânea. Se em Finança Digitalizada (2016) Edemilson Paraná analisou a relação entre o desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação e a reconfiguração do capitalismo contemporâneo, sobretudo no aspecto referente à intensificação do processo de financeirização da economia mundial, em Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico, a criptomoeda aparece como um sintoma dessa dinâmica, como um produto de sua instabilidade estrutural. Concebida com uma radicalidade utópica das ideias que fundamentam o neoliberalismo, a criptomoeda entra em choque com o neoliberalismo do establishment, aquele “realmente existente”, e, nesse cenário, traz luz às contradições estruturais dessa forma de funcionamento do capitalismo.

Com uma análise marxista do bitcoin, o autor oferece uma definição precisa da criptomoeda, que contém em si a explicação para muitos de seus limites: o bitcoin não representa a superação da política no que diz respeito à administração monetária porque, justamente pelas características que são aventadas como propulsoras dessa superação, ele não cumpre as tarefas às quais se propõe. Em vez de substituir o dinheiro mundial, tem baixo volume e alcance de circulação; em vez de produzir estabilidade monetária, é altamente instável por causa do seu papel como ativo especulativo; e, por fim, em vez de garantir uma tutela descentralizada, a concentração de poder relativa entre seus usuários só cresce.

A crítica aos limites da criptomoeda e à crença em soluções puramente técnico-científicas para os problemas do capitalismo não significa uma perspectiva tecnofóbica ou conservadora. O livro discute e deixa em aberto a possibilidade do uso de algumas das tecnologias presentes no bitcoin – especialmente o blockchain – a serviços de interesses populares e até de perspectivas revolucionárias. Se isso será possível, não sabemos: a única certeza, reforçada pelo livro, é a de que qualquer transformação social relevante passa por novos valores, novos mecanismos de decisão democrática, por outra forma de organização socioeconômica e por outra relação do Estado com a sociedade. Fora dessas perspectivas, qualquer bravata que defenda a ideia de que é possível atingir mudanças relevantes a partir de soluções “apolíticas” ou puramente tecnológicas, como o bitcoin, fracassará.

A leitura de Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico é imprescindível não só para aqueles que querem entender o funcionamento e as perspectivas relacionadas à criptomoeda, mas sobretudo para todo o público que busca compreender melhor – a partir de elementos concretos – a dinâmica do capitalismo contemporâneo.



Rodrigo Santaella Gonçalves é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) e do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará. E-mail: rodrigo.santaella@ifce.edu.br.

Quente.

Noite quente. A muriçoca zumbi infernal sua busca por sangue e eu continuo com meus abscessos mentais. O suor escorre pela testa e se acumula também no nariz. O sono não vem nunca. A muriçoca continua. Há um misto de cansaço físico e mental e angústia pelo levantar cedo de manhã. A cerveja de ontem não caiu bem no estômago e a azia rompe ainda mais a madrugada. Eu poderia mudar de emprego, eu poderia fazer algo, eu poderia estar lendo alguma coisa e me deixar vencer pela insônia de vez, mas eu ainda brigo, ainda reluto, ainda continua sentindo o calor fluir em suor jorrado aos borbotões, sentindo essa ânsia de querer dormir, sentindo o zunido próximo da muriçoca. Sentindo. Parece que Descartes não tem sentido algum agora e meu sentir é o que é, à revelia de que eu pense agora. Noite passada foi a mesma coisa. E noite antes da passada também. E noite antes da antes da passada. E eu nem consigo lembrar quando foi a última vez que eu dormi. Lembro que Paulo está ao lado e dorme tranqüilo. Hoje ainda, agora há pouco, ele trocou meu nome. Já devem ser umas quatro horas da manhã. Daqui umas duas horas eu tenho que me levantar. Minhas olheiras são dois poços terrivelmente fundos e sei que lá dentro flui um oceano. Paulo chamou-me de Beth ou Bete, não faço idéia de qual seria a grafia, mas o que importa agora é o som: Beth. Fui Beth por um lapso de segundo. Creio que ele nem tenha se apercebido do fato, afinal, foi apenas uma palavra dita entre o meu gozo e o seu gozo, num sexo necessário aos dois e pelos dois. Foi exatamente assim: eu me contorcia em êxtase tencionando meus músculos e arranhando suas costas e ele apertava a minha bunda pingando seu suor em meu rosto, quando copiosamente nós dois gozamos e ele disse: “Caralho Beth… Caralho…”. A muriçoca ainda continua sua lida em meus ouvidos e eu me questiono porque diabos o Paulo nem se atina com ela. Como ele consegue dormir com esse calor e essa maldita muriçoca? Eu o invejo por instantes. Eu: Beth. Não me incomoda o fato de ter sido Beth para ele. Tudo está meio letárgico e eu apenas sigo junto com as horas. Puta que pariu, devem ser já umas cinco horas. Talvez eu durma agora, é sempre assim: faltando meia hora para levantar o sono me toca. Parece que ele se aflige em pensar que não veio até então e resolve me afligir com sua presença já não mais quista. Eu condigo com ele e se caem minhas pálpebras. Durmo ali minha meia hora, intensa, sofrida, quente, zumbida, sonho com nomes e cores, sonho com palavras querendo dizer algo e eu sendo enfiada em um tacho cheio de buchada fervendo. Acordo com o despertador mostrando que o mundo toca o foda-se para a minha falta de sono, ou para o meu sono problemático que anda a odiar-me esses tempos. Paulo levanta assustado. Olha pra mim por entre a penumbra já meio clara do advir das horas de verão, sorri tonto como todas as manhãs só ele consegue, esfrega as mãos nos olhos e tira a remela, estrala todos os ossos das costas e das mãos, sorri de novo com cara de bocó pra mim e faz uma careta, chega perto, me olha nos olhos e me beija na ponta do nariz, belisca minha bochecha, levanta devagar, vai ao banheiro. Escuto o barulho do xixi na água da privada, escuto o som da descarga, escuto a torneira se abrindo e a água caindo na caneca, escuto o barulho das escovas nos dentes freneticamente denso, escuto o cuspe, ele entra de novo me olha, pula em cima de mim, me abraça forte, beija meus seios, lambe meu umbigo e diz: “bom dia”, eu sorrio devagar e digo: “bom dia”, ele diz que tem que chegar cedo no colégio “pois vou ter que organizar um material pra oficina de teatro ainda hoje”, ele se levanta, se veste, me beija de novo, eu faço cara de dengo, ele se despede: “inté senhora moça… qualquer coisa me liga” e se vai embora. Eu ouço o som dos seus passos na sala, a porta se abrindo e se fechando. Isso é Paulo. E que coisa absurda pensar que esse ser que fez tudo isso é Paulo. Paulo nesse exato momento quer dizer isso tudo que eu senti. Isso é Paulo. Mas Paulo é também, além disso, outras coisas: é Leminski, é cerveja barata, é história sem fim, é piada sem graça, é filosofia barata, é desejo de corpo, é um puta tesão, é uma puta tensão, é um fim sem precedentes, é um acaso, é um destino, é um asco, é uma sina, é Paulo. Aí fico só eu novamente, como a noite inteira. A noite estava quente, o dia continua e eu estou meio angustiada. Faço o meu proceder: levanto, vou ao banheiro e cago, ligo o chuveiro e me banho, escovo os meus dentes, olho o espelho e vejo um recado feito em batom de uva com a letra de Paulo: “mão e luva”, eu sorrio leve, vou até a cozinha, faço café, acendo um cigarro, como um pedaço de pão, bebo o café, volto pro quarto, visto uma calcinha, uma saia, uma blusa, calço um tênis e vou pra redação. Faz calor ainda ou talvez mais. As minhas olheiras parecem um poço, de petróleo agora. Beth. Ele me chamou de Beth ontem a noite, em meio ao nosso gozo, em meio ao nosso suor. Se eu levasse a sério Freud como ele leva diria que foi um ato falho: Beth, a grande encarnação do prazer reprimido e posto pra fora num desligar da consciência. Mas não sei, pode ser apenas um lapso. Freudianamente pode ser que Beth seja prazer e naquele momento ele simplesmente tenha dito: prazer, quando gozou comigo. Mas afinal o que um nome quer dizer? Eu continuo sendo… peraí… sendo… eu continuo com o meu nome mesmo, é… continuo… Que estranho, não lembro do meu nome. Será o calor? Será esse ônibus que não vem? Será que meu nome é Beth e só agora eu entrei em desencontro com o mesmo? Diabos, como eu saio dessa? Meu nome é qualquer coisa que me é, mas, só também e não sempre. Meu ser sou eu e eu tenho um nome, que por acaso esqueci, mas ainda o tenho, ele está aí em algum lugar. Em mim mesma talvez. Eu podia olhar os meus documentos e ver se me chamo Beth mesmo, ou perguntar pra alguém na redação, mas prefiro não arriscar. Se eu me chamar Beth realmente não sei se vou gostar. Será que isso condiz comigo? Será que alguém me vê assim: acorda, caga, banha, escova, sorri, faz, acende, come, bebe, veste, calça, sai: Beth? Eu coube Paulo numa rotina, mas não sei se caibo em algum ser assim com esse nome: Beth. Tenho a impressão de que não me chamo Beth, mas não posso afirmar tal. É confuso. Será que alguém cabe em algum nome? Ou nós sempre somos para além de nossos nomes? Um nome é uma palavra, uma palavra é uma conjunção de silabas que formam sentido, uma sílaba é feita de letras, uma letra representa um som, um som que quando junto a outros sons forma uma idéia: um simples “hum…” já diz mais do que se é possível imaginar, uma entonação diferente muda tudo, uma figura de linguagem e aí já era, tudo alterado. Beth. Seria de Elisabete, Lisabete, Elizabeth, Bethânia ou de Beth realmente? Não importa mesmo, cada um desses nomes é apenas uma figura de linguagem, um signo para o som do meu ser. O significado fica para além dele mesmo, fica para além de mim. Fica para quem se arriscar ver em calcinha rosa, saia vermelha, blusa branca, tênis preto, meias brancas, pele morena, cabelo vermelho: Beth e sua metafísica nominal. Mas não é Beth. Não pode ser, nunca fui Beth, não me recordo disso, não consigo me lembrar disso, mas também não consigo me lembrar do comum, do acostumado, do porto seguro dos nomes, do meu nome. Entro no ônibus. No primeiro outdoor aparece: Lojas Marisa. Será Marisa? Alguém fala ao meu lado: “pois é, e Carla não deu pra trás?”. Carla? Não… O melhor é continuar assim mesmo, sem saber meu nome, uma hora me chamam e eu descubro. Só espero que não seja tão terrível a descoberta de que é algo pior do que Beth. Não que Beth seja um nome feio ou coisa parecida, mas é que meu ser não está cabendo nele e se o for realmente, estou precisando de cuidados médicos, pois pra mim este nome não me assenta. Mas o que afinal se assenta em um nome? Uma palavra cabe algo? Provavelmente cabe, pois senão eu não estaria conjeturando tantas elucubrações por meio de palavras. Creio que o que sobra é só aproximações mesmo, tudo não consegue ser dito por meio destas santas. Tudo se aproxima. Meu nome é só um pequeno refúgio para mim e para os outros que insistem em se comunicar. E seriamente penso que Platão é idiota. Onde estará essa Beth no mundo das idéias? Algumas noites sem sono e basta pra mandar ele pro saco, não tem luz nenhuma. Só tenho eu, neurótica compulsiva a não lembrar meu nome. A minha palavra. Desço do ônibus, caminho até a redação, subo as escadas, pego café, deixo a minha bolsa na cadeira, vou até a área de fumantes, fumo, sento de frente ao computador, o ligo, entro na Internet e digito alguns comandos e descubro: Elisabete, Elisabeth, Elizabete, Elizabeth: Significa consagrada a Deus e indica uma pessoa extremamente ativa, que, graças à sua persistência e à sua força de vontade, sempre alcança os objetivos a que se propõe.Uma de suas virtudes é a capacidade de planejar tudo com muito cuidado”. Fonte: Mulher Virtual. Putz, que merda, de fato eu não posso ser Beth. A Deus? Com essa maiúscula ainda por cima? Putz, putz, putz… Como eu faço pra me aliviar e lembrar que isso não sou eu, porque se for eu vou tentar um processo para mudança de nome. Invento que sou transexual e que me conhecem por Jorjão e que devo mudar meu nome pra isso, prefiro Jorjão a Beth, ainda mais um diminutivo de um nome como este. Minha chefe chega e me olha: “Suas olheiras estão cada vez piores, heim Eliane? Anda trabalhando muito, é?”. Eu sorrio sem graça: “hoje eu tava mesmo era sem nome”, “como assim?”, “esquece, esquece que é viagem mesmo…”. Volto ao computador, procuro de novo: ELIANE – “TALVEZ SEJA DE ORIGEM GRECO-LATINA (HÉLIOS). SOL, SOLAR, DE BELEZA RESPLANDECENTE”. Fonte: Os Nomes. Melhorou um pouco, mas me deu mais calor ainda, provavelmente hoje à noite eu não durmo de novo.

Quem dera

Ônibus maldito. Parece que cada minuto é uma hora nesse maldito ônibus maldito. Coletivo. Se a coletividade for isso, prefiro o individualismo. Se coletividade for esse roçar forçado de bundas, pernas, braços, sovacos e cabelos e esse eterno pisar e ser pisado por pés de todos os tipos, prefiro mil vezes a máxima liberal da potencialidade individual. Aqui nesse coletivo a ordem é: cada um por si e bundas, pernas, braços, sovacos e cabelos para todos.

Paradoxal. O coletivo lotado é paradoxal. Cada um quer apenas ver o seu lado e salvar o mínimo que seja dos seus míseros trinta centímetros de campo de ação. O pior é quando o sujeito, cônscio plenamente da luta selvática por seu espaço único, avidamente desejoso de ter para si mais que trinta centímetros de campo e ação e poder repousar a planta de seus pés livremente no chão do ônibus, solta, às vezes lépido e em outras mais, tenso e confuso, um gás qualquer de suas entranhas. Uma arma letal nesta intensa luta territorial dentro do ônibus lotado.

Quinze para as oito. Ainda faltam pelo menos mais vinte quilômetros até a minha parada. Pela atmosfera do trânsito que circunda o ônibus, a velocidade média do fluxo veicular é de dois postes por minuto. Meu Deus, dois postes por minuto, beirando o um e meio. A missão de tentar chegar no horário do trabalho é em vão. A primeira batalha perdida.

Alguém puxou a corda, fez o sinal para o ônibus parar. a parada está a apenas cinco postes de onde o sujeito puxou a corda. Vê-se o ar tenso do cara. Cinco postes, um minuto para cada dois postes, dois minutos e meio para descer. O cara não agüenta. Está quente, está seco, como já é fato nesse planalto central brasileiro pelos idos de abril. O sujeito não agüenta, pede tréguas, bate freneticamente na parte de cima da porta do ônibus e assovia para o motorista abrir logo a porta. O motorista, como bom general desta insana batalha de todos contra todos e do alto de seu sadismo, finge não ouvir. O cara berra mais: “Pô, abre aí motorista!!”. O motorista, depois de fingir não escutar os cinco gritos do cara, berra lá da frente: “Só posso abrir na parada!!”. Sua pouca, mais ainda, autoridade, faz o cara se calar, rendido, desarmado, não pode fazer nada. Só espera impaciente, xinga baixo, fala “que absurdo”.

Ninguém se esquenta muito com o cara. Afinal, essa é a luta dele para sair do ônibus. No fundo, todos sentem um pouco de inveja do cara por ele estar descendo logo, de estar se livrando do campo de batalhas do ônibus, ainda mais que agora, para os que estão de pé, uma nova batalha surge. Agora a busca é por conquistar o espaço que o sujeito que desceu deixou “livre”. É a árdua disputa por uma mísera parcela territorial que garanta o mínimo do espaço vital ratzeriano dentro do ônibus.

Olho para o lado e vejo que posso ter uma chance, é só eu conseguir tirar o meu pé de baixo das sacolas da moça ao lado, passar pela bunda avantajada do sujeito atrás de mim, segurar firme no apoio do ônibus e impulsionar meu corpo contra o cara que está dormindo em pé ao lado da porta. Meu território vai ser conquistado. Olho pra trás e vejo que um cara lá do fundo pensa o mesmo. Eu o olho no olho. Ele me encara com ar desafiador. Que vença o melhor. E esse vou ser eu com certeza. Não posso pensar na derrota. Mas é claro que, como experiente perdedor que sou, já vislumbro que, caso a missão não seja bem sucedida, posso tentar ainda ficar pelo menos no canto direito da porta, ali só tem um estudante meio bocó que eu posso me impor tranqüilamente e deixá-lo esmagado contra a tiazinha que não para de falar com a outra que está sentada.

No três eu vou. Um, dois… Merda, tenho que ir logo o meu adversário já começou o seu percurso. Me livrei das sacolas, passei a bunda gigante, estou quase lá, é só jogar o meu corpo pra frente e pedir desculpas e… Merda! De onde surgir essa tiazinha? Caracas, fomos vencidos, nós dois por uma tiazinha! Agora ficou ainda pior estou de cara, com o sujeito. Ambos com o olhar cúmplice de exímios perdedores. E o pior é que agora, ao invés de ter uma sacola em cima dos pés e uma bunda gigante me atacando, estou completamente torto, apoiado unicamente em um pé, enquanto o outro tenta não roçar nas coxas da moça ao lado, afinal, tomar um tapa no ônibus lotada de manhã cedo é demais para um perdedor só.

Aflição. Quentura. Ar seco. Uma gota de suor corre lépida e fagueira em minhas costas e eu sinto um pequeno arrepio. A questão é se concentrar. O meu adversário e agora irmão de desgraça percebe o meu plano B e o executa exemplarmente. Nesse momento eu não o vejo mais como meu adversário, agora eu queria cumprimentá-lo, ele é um como eu. Que teve o apreço dos céus de lhe dar a oportunidade e a capacidade de conquistar um pouco mais de espaço nesse coletivo lotado.

Se eu acreditasse em Deus poderia até rezar por mais espaço, eu até tento, mas meu espírito cristão cristalizado culturalmente em meus atos policialiscos mentais não me deixa orar para algo em que eu não acredito. Mais um paradoxo dentro do coletivo: não acredito em Deus, mas sei que sou cristão.

Não sei se pela minha franqueza, ou pela minha fraqueza, de não ter rezado, Deus me achou um cara bacana e providenciou o meu momento de paz. Um cara que estava do meu lado dá o sinal. Eu fico tenso, daqui há pouco eu devo estar em paz e com os dois pés no chão do ônibus. Espero, agora realmente o ônibus parece ir a um poste e meio por minuto. Tudo lento, tudo parado. Parece um desses filmes experimentais europeus que eu não entendo nada e digo no final que achei a fotografia muito bonita. Tudo em outro modus operandi.

Enfim, o cara desce e leva consigo mais duas pessoas. São três a menos agora. O fundo do ônibus fica em polvorosa, é uma exasperação pela tranqüilidade que pode vir agora. Eu coloco os meus pés calmamente no chão e olho pela janela. O dia ficou até mais bonito. Passamos o primeiro semáforo que engaveta todo o trânsito, só faltam mais três pela frente. Lá fora uma barriguda explode em rosa e contrasta com o azul mais que azul do céu. Parece que uma poesia ainda cabe mesmo neste campo de batalhas móvel.

Olho para as pessoas que sentam no banco à minha frente. Um cara dorme e baba com fones de ouvido. Acho que ele escuta algum rap. Do lado dele há uma moça. Ela lê alguma coisa. Sempre que posso, tento ler o que as pessoas estão lendo nos ônibus, normalmente é a Bíblia, algum livro religioso, tipo “Ele veio para libertar os cativos”, alguma coisa sobre concursos públicos ou então “O código da Vinci”.

Já li capítulos inteiros sentado ao lado de outras pessoas no ônibus, até partes inteiras da Bíblia. Gosto mais do Antigo Testamento, tem mais cara de gente, parece mais com seres humanos falando, tem um ar de fábula maior, tem um gosto de lenda. O Novo Testamento é mais poético, mas também, mais piegas.

Olhei de novo o que ela estava lendo, torcendo para que, se fosse a Bíblia, pelo menos não estivesse em Mateus. O ônibus estava lento, dava para ver calmamente o que ela lia. Eu tinha acabado de consertar a minha miopia mais uma vez e estava com olhos de lince com minhas novas lentes. Demorei para me concentrar no que ela lia. Por fim, consegui:

“Sabe, Johann, disse Hemingway, eu também não escapo de suas eternas acusações. Em vez de ler meus livros, escrevem livros sobre mim. Parece que eu não gostava de minhas mulheres. Que não me ocupei suficientemente de meu filho. Que quebrei a cara de um crítico. Que fui pouco sincero. Que fui orgulhoso. Que fui macho. Que me vangloriei de duzentos e trinta ferimentos de guerra quando tive apenas duzentos e seis. Que me masturbei. Que fui mau para minha mãe.

– O que você quer é a imortalidade, disse Goethe. A imortalidade é um eterno processo.”

Em algum momento da minha vida aquelas palavras eu já havia lido. Certo que não na Bíblia. Imortalidade não se fala assim, com esse tom sério e possível, é sempre algo por vir, por se ter, por se querer e ao lado de Deus. Fora que, Hemingway e Goethe, ao que consta em minha parca lembrança do catecismo que fiz, não foram personagens bíblicos. Mas, onde eu teria lido aquelas palavras antes?

Pensei em perguntar para a moça o que ela lia. O nome do livro, quem escreveu… Sei lá, qualquer dica para que o fantasma de uma memória deixasse de ser fantasma e ganhasse os contornos de uma idéia certa. De algo que não está disperso em seu ser.

Desisti rapidamente da idéia. Não quis atrapalhá-la em sua atividade. Afinal, ler é uma atividade como outra qualquer e deve ser respeitada.

Li mais alguns parágrafos tentando descobrir o que era. Afinal, um diálogo entre Hemingway e Goethe é algo que não está em qualquer livro, mas em algum muito específico e do qual, infelizmente, eu não conseguia recordar. Talvez pudesse ser Sartre. Hum, não. Sartre não teria tido uma idéia dessas, creio que ele não comungaria assim com um encontro entre o romantismo e a aspereza. Talvez alguém aqui do Brasil? Não, isso não tem cara de literatura tropical. Quem sabe o velho safado? Não. Bukowski não teria saco para falar sobre a imortalidade e se houvesse menção à Hemingway deveria ser para meter o malho.

Nossa. Agora sim, me atinei. Imortalidade. é “A imortalidade”. Milan Kundera. Boa leitura, heim moça? Difícil isso, ver alguém ler um romance desse tipo num ônibus. Eu sei que eu leio e conheço pelos menos umas seis pessoas que fazem o mesmo, mas eu nunca as vi fazer, só sei que elas fazem por me dizerem que fazem e saber que elas realmente leram muitos livros. Muito interessante isso, uma moça lendo Milan Kundera num coletivo lotado. Será que ela faz Letras? Não sei porque, mas sempre que alguém fala de Kundera, penso que essa pessoa faz, fez ou quis fazer Letras.

Não, acho que não. É melhor retirar os amálgamas dos estereótipos possíveis e só acompanhar a leitura com a moça. Será que ela percebe que eu leio o livro junto com ela? Não, acho que não. Normalmente as pessoas se incomodam com o ato de alguém ler algo que elas estão lendo ao mesmo tempo e meio que às escondidas. Parece que o ato de ler é algo sagrado e sacramentado pelos auspícios da solidão. Talvez solidão não, mas sim individualidade. Algo para si. Guardado a si e incorporado a si. O desconforto quando pegamos alguém lendo o que estamos lendo deve se dar no momento em que pensamos que outra pessoa pode estar discordando de você naquele seu momento tão único. Afinal, alguém falar outra posição que a sua sobre um livro no momento após a leitura ou mesmo anterior a esta, é tranqüilo, difícil é pensar que no mesmo lapso de segundo que você lê algo, alguém também o lê e pode estar em completo desalinho com o seu pensamento. De fato, isto pode incomodar, tira um pouco a magia do ato de leitura. Fora o fato da intimidação que ocorre quando você quer mudar a página e não sabe se a pessoa já terminou ou não. E como o ato de leitura da outra pessoa é clandestino, ela também não tem coragem de falar “espera um pouco, só falta esse último parágrafo”.

Sei que pode ser desconfortável ter alguém lendo o que você está lendo ao mesmo tempo e de canto de olho. Mas admito, eu o faço (em verdade, é quase um vício).

E lá estava a moça lendo seu Kundera e eu tentando acompanhá-la. Árdua tarefa posto que o ônibus já começa a andar numa velocidade média de dois postes por trinta segundos. O ônibus esvaziava conforme aumentava a velocidade do mesmo e bancos começavam a ser desocupados. Eu ficava tenso novamente por saber que em algum momento um banco próximo a mim ficaria livre – afinal, em meio a uma batalha territorial móvel, haver um lugar para se sentar e não se sentar é um desrespeito às regras clássicas da guerra – ou que a moça fosse descer na próxima parada.

Tempo, tudo é uma questão de tempo. Se eu pudesse ter tido mais tempo para ler teria lido mais, talvez, por isso, eu fique mendigando letras em bancos de ônibus.

A minha viagem vai terminar, na próxima parada eu desço. Puxei a cordinha. Voltei a ler novamente o máximo que eu pude, queria terminar pelo menos aquele pequeno capítulo. Se eu não estivesse atrasado desceria uma parada depois da minha. Terminei, consegui ler até o fim do capítulo. Pelo menos uma vitória nessa manhã torpe. Dei de costas para a moça, parei em frente a porta do ônibus e momentos antes de a porta se abrir atinei-me de olhar o rosto da moça que lia Kundera. Virei o rosto e olhei a moça, ela levantou os olhos e me disse: “Bom livro esse, não?”.

Meio em estado de choque eu desci do ônibus e não consegui falar nada à moça. No máximo eu arregalei um pouco os olhos e dei um meio sorriso de canto de boca, nem amarelo ao menos. Foi tão estranho o comentário da moça para a minha cabeça mareada pela batalha do ônibus, pelos vacilos da memória, que eu não me atinei muito no que eu estava fazendo e sentei na parada de ônibus. Fiquei um tempo pensando e cheguei a uma conclusão banal, mas que me tocou por pelo menos dois segundos antes de me levantar e correr para não me atrasar ainda mais para o trabalho: meu espanto se deu não pelo fato de que não se lê nesse nosso mundo de hoje, mas sim, pelo fato de que a moça, mesmo não me conhecendo quis compartilhar comigo um momento único incrustado em sua leitura: “Bom livro esse, não?”.

Talvez, se a gente lesse mais, esse mero comentário não me fosse tão estranho, pois seria como um “bom dia”. Talvez, se lêssemos nos ônibus, nas paradas de ônibus, nas filas de banco e supermercados, nos banheiros, antes de dormir ou mesmo nos intervalos comerciais da TV, seria tão normal o comentário que até veríamos crianças e adolescentes lendo nas escolas e comentando suas experiências uns com os outros como se fala do corpo da colega de classe.

Talvez houvesse até mesmo um ar mais bonito uma manhã difícil.

Projeto da natureza

Quando a natureza possibilitou as condições ambientais e biológicas necessárias para que a pressão evolutiva permitisse o surgimento de espécies homínidas com uma massa encefálica tal, uma postura tal, uma habilidade tal necessárias à existência de um sistema simbólico e lingüístico que se perpetuasse de geração em geração sem a necessidade da intervenção da manutenção da espécie por meio da perpetuação de certos genes, ela – a natureza – conseguiu perceber-se. Foi esse o sentido da natureza criar o ser humano: contemplar-se. Um projeto narciso e suicida. A contemplação narcisa não está completa sem o mergulho infinito em busca de si. A partir da contemplação da sua própria imagem busca-se a integridade, sua manutenção plena, que só pode ser conseguida através do suicídio. O ser humano fica assim, pois, o espelho e a arma.

O sentido do ser humano baseia-se, assim, em sentir antes de tudo e findar após. Sentir a si e (quase que) a sua criadora: a natureza (ou quase que ele mesmo). A cultura é um mero produto para a natureza se perceber para além de si mesma e manter sua integridade. O ser humano é a natureza transcendendo a si própria. A cognição, a racionalidade, são elementos não estanques da sensibilidade, são processos para a percepção. Dizer que o mundo não é natural e que a cultura é que comanda a realidade é uma contradição, pois que a cultura é natureza.

O ser humano não controla a natureza. Nunca controlou. O ser humano por ser apenas um duodécimo da natureza, não tem essa potência. A vontade humana de controlar o seu resto é apenas a inveja da potência que não possui. É um detalhe ainda não tido de que ao controlar a natureza, controla-se a si mesmo. A vontade humana ainda não encontrou o anseio da natureza, não encontrou a lógica de que é refém da natureza.

Desde os assim chamados estágios de barbaridade até os tão louvados estágios de civilização, o ser humano não fez mais do que sua missão: admirar e finalizar. Não digo destruir, pois que destruir demanda uma intencionalidade que não cabe ao ser humano – apenas uma marionete da natureza –, o projeto é finalizar. Dar fim à natureza, numa assertiva teleológica mesmo: contemplar-se plenamente em sua integridade, saindo da existência.

É sempre assim: estudar, analisar, metaforizar, florear, desvendar, construir, transformar, erigir, até que a natureza toda esteja contemplada e então, findada. Não existir. Pode ser que alguém identifique alguma deidade qualquer, mas o projeto da natureza deve ser bem esse mesmo.

Possibilidade

Quem vem à cidade grande, aos grandes centros urbanos pela primeira vez, se depara com um labirinto estático de concreto. Espanta-se mesmo não aparentando. São gigantes de vidro e luz, infinidade de vias, amontoados de homens e mulheres sobrepostos a concreto e metal, fios e mais fios por onde escorre o sangue elétrico e informativo que mantém vivos os homens e mulheres sobrepujados desse labirinto, carros e mais carros cortando o córtex asfáltico da cidade.

Quem chega à primeira vez vê que a cidade é labiríntica e estática, mas de uma estaticidade diferente, ela é caótica, é confusa, é agitada. Um labirinto estático onde a vida ferve. Onde tudo acontece ao mesmo tempo. Onde, aprisionado a concreto, metal, fios, vidros, asfalto e luz o mundo não pára. Tudo se combina em labiríntica estaticidade de infinitas possibilidades. Os mundos são sobrepostos e todos são possíveis.

Quem vem pela primeira vez se assusta e se encanta. São todas as possibilidades, e tantas…

Num contexto próximo a esse, seu José chega com a família pela primeira vez a uma cidade grande. Ele, sua esposa Adelina e seus cinco filhos – Wanderley, Waldison, Walton, Waldênia e Waldenice – pisam todos juntos nos solos dessa Brasília, vindos de algum lugar entre a bissetriz de norte e leste, dos interiores desses brasis possíveis, e perdem juntos suas virginais e castas impossibilidades de possibilidades.

Mundos e mais mundos se sobrepõem a suas faces logo na rodoviária. Após rodovias de pó ou piche chegam juntam a esse universo insondado de caras e mais caras visíveis uma única vez na vida e nunca mais –- embora sempre exista a vastidão de possibilidades do reencontro.

Seu José e sua família chegam em Brasília a convite de seu irmão Jessé, que há muito debandara de sua terra natal – aquela vila pequena onde as possibilidades se amofinavam em continuar ou continuar, de um jeito ou do mesmo jeito – e se fizera nesta “capital da República Federativa”, como ainda gosta de pronunciar, deixando para trás seis irmãos dos dez que ainda estavam vivos em seus marasmos bucólicos de impossibilidades e ajudou a erguer a infinidade de mundos que viria a ser (e é) Brasília.

Jessé era homem forte, desses que não se fabricam mais, movido a suor derramado e pouco sono. Na época do nascimento de Brasília, se fez na construção civil e até hoje, com seus cinqüenta e oito anos, se dedica a erguer concreto, dando mais carne ao mundo em que vive, fabricando mais mundos.

Há sete anos largara a cachaça – hábito que cultivava desde os quinze – e se dedicava à vida espiritual em uma comunidade evangélica que o acolhera de braços abertos e lhe dava o conforto espiritual necessário a uma vida de labor. Vivia com sua esposa Maria e seus três filhos numa casa concedida por seu enaltecido governador na expansão de uma cidade satélite do Distrito Federal, para não dizer favela.

Enquanto isso seu irmão José morava com sua família como caseiro de uma fazenda de um figurão da capital no interior da Bahia. Casinha de tapera simples e pouco confortável. Há dois meses havia sido mandado embora de sua choupana, uma grande empresa de frangos havia comprado a fazenda. José desesperou-se. A vila mais próxima não tinha condições de abrigar um indivíduo que nada possuía de tão extraordinário que pudesse alterar a estaticidade da cidadela. Só tinha contato com uma pessoa da família: Jessé, que de quando em quando lhe escrevia uma carta. Na última dissera: “Deus quer que você compartilhe conosco as bênçãos que temos conseguido aqui. Asseguro que moradia nosso homem garante…”.

O “homem’ a quem Jessé se referia era o governador. Sujeito totalmente deslocado no tempo, que possuía um discurso antenado com os mais pobres e servia-lhes de ”pai-patrão”, numa alusão clara às épocas de coronelismo que por aqui, todos sabem, longe está de acabar. Dava lotes, dava leite, dava pão e só disfarçava ao dar esmola: dava “ajuda”.

José viera. Juntara os poucos tostões que seu antigo chefe lhe concedera como prova de sua boa conduta (e para um sono cristão mais tranqüilo é claro) com algumas economias que possuía com o intuito de adquirir uma mula nova, e comprara passagens para Brasília. Durante a viagem somente algumas petas duras que uma amiga de Adelina compreensivelmente lhe concedera era o que lhes servia para forrar o estômago (a única possibilidade). Na cabeça de José giravam confusamente o medo e o dilúvio de possibilidades contido nas palavras “capital da República Federativa”, como seu irmão gostava de pronunciar.

Ao desembarcar na rodoviária José se espantara. Espantara-se tanto, estava com tanto medo, que ao mesmo tempo se maravilhava, se inebriava com aquela confusão de gente correndo de um lado para o outro, gritando, esbarrando nos outros…

José não percebia que a confusão e a correria que acontecia na rodoviária não era um fato normal. Ele olhava todos aqueles homens de azul e a polícia se confrontando e não entendia o porquê da briga. Havia uma infinidade de possibilidades para o que acontecia, eram tantas e tais que José não podia ver que ali ocorria uma luta por causa de uma greve. E que os homens de azul eram rodoviários lutando por condições mais humanas de vida. E que os polícias naquele instante eram extensão dos braços do “nosso homem” do qual lhe falara seu irmão, e que estavam ali também tentando garantir suas condições humanas de vida, nem que para isso tivessem de matar outros seres humanos.

José não compreendia. Sua euforia inicial fora abafada por uma agoniante sensação de descontrole. Os concretos da rodoviária se fechavam em trincheiras e complicavam mais o labirinto ao qual Deus queria que José compartilhasse. José se desesperava. Queria sair dali, mas não via possibilidade alguma – quem diria?! Ele está no mundo das possibilidades!

Mais confusão. Ônibus queimado, vidros quebrados, cassetetes, cavalos, sirenes, fumaça, água… De repente, um tiro. Mais um, outro e muitos outros.

No meio de um desses tiros o alvo fora José. Um tiro em cheio no meio da testa, fulminante. Mais uma bala de borracha que matava outro inocente, mais uma viúva, mais cinco órfãos de pai, mais um que se vai em vão (“e agora José?!”. Mais alguns indivíduos a serem acolhidos por um “pai-patrão” qualquer, perdidos no mundo de vastidão esperançante.

José morreu. Não morreu sereno. Morreu tenso, confuso. Tentando proteger sua família, tentando proteger a si, tentando sobreviver. Querendo paz. Querendo o vasto horizonte de opções que ele tanto almejava na “capital da República Federativa”. José morreu com o medo em seu coração, cravado de dúvidas e de possibilidades.

Agora eram mais seis. Mais seis seres humanos que teriam de lutar por suas condições humanas de vida em meio a um labirinto. Seis seres que a qualquer momento poderiam voltar à animalidade. Perdidos nas paredes de concreto do labirinto. E não só mais seis, mas sim dezenas, centenas (todos os dias chegam aos montes), milhares quem sabe! Adentrando no mundo dos mundos sobrepostos, na inércia veloz das vias desse labirinto. Aptos a escutar “homens” quais deuses e imersos numa vasta bruma de possibilidades e dúvidas infindas.

Pós?

“Pastor, eu andava vazia, com essa sensação de que me faltava alguma coisa. Andava com esse pessoal do rock que bebia, fumava droga. Eu mesma nunca usei essas coisas, mas bebia bebida alcoólica, com calmante, mas droga eu nunca usei. Mas era tudo vazio, sabe pastor? Eu não tinha amigos de verdade, eu não tinha nada de verdade, me faltava alguma coisa…”

E foi aí que surgiram os rappers levando um peso denso, carregado de swing, levando a vida para o canto mais ermo do que fosse carregar qualquer coisa idiota, o peso deles era suave. Depois é que a coisa ficou difícil de entender, ou fácil em demasia também, foi quando os punks começaram a tocar um forró e os skatistas dançaram animadamente. Talvez o errado ali fosse eu e essa minha conduta mendicante de amigos, mas eu vi ali, naquele ínterim, uma coisa absurdamente interessante, mas creio agora que a coisa ficou realmente maluca mesmo quando aquele ser androgenamente mulher foi constatado. Não havia culhões, ou só os havia. Só sei que rolou um comentário sobre o hip-hop latino-americano feito por mulheres e tinha também aquele cara em mangas de camisa, bermuda justa e um capote a la Gogol, num calor de 28ºC. Quem sabe ele tinha realmente uma gripe em vista, mas o mais certo era que sua mãe o obrigara a levar o capote para um passeio e ele – o capote – devia pesar uns três quilos pelo menos.

Mas era certo também que a caracu quente foi uma coisa à parte e os cigarros um atrás do outro prejudicaram um pouco a fala e o diálogo, mas eu bebi e fumei ainda. Tinha aquela crise de relacionamento rolando também, o cara com cara de bravo, a mina com cara de tacho, uma bunda que passou coberta por um pequeno pedaço de pano preto e a quase mão na cara do cara e mais cara de tacho depois. Aí a hippie sentou ao meu lado e perguntou “vai querer?” e eu respondi “por amor ou por besteira?”, mas ela me disse que a carruagem já virava abóbora e falou que não era ela e sim ele.

Os dois carros com o som às alturas, mandando ver no rap, pareciam discos-voadores em formato de GTI. E o pior é que deveria ter entre quinze a vinte extra-terrestres no meio da gente. Mas foi doido. A parada tava muito louca mesmo. E o cara pediu para eu ajudá-lo a mijar porque ele tinha medo do escuro, aí eu falei que urina não era o meu esquema, mas ele levou numa boa e conseguiu que uma garota colorida o levasse até a árvore mais próxima.

Tinha também aquelas prostitutas muito gente boa tentando descolar um troco e o moleque de rua cheirando cola do meu lado e dizendo qualquer coisa sobre “a coisa”. Não peguei a parada, mas dei uma badagada no lance e entendi depois o que ele tava querendo dizer, porque “a coisa” tava lá mesmo, paradona e rindo da gente. O foda mesmo eram os PMs tirando uma chinfra e rodando que nem um bando de pombos movidos pela inércia do bigodudo que ia na frente. Mas esse nem parecia pombo não, lembrava mais uma morsa. Mas tava divertida mesmo a parada.

A harmonia tava massa, eu dizia z e o pessoal sacava todas as outras letras do alfabeto, só quem captou o z mesmo foi aquela garota que veio de bicicleta e queria dar uma de qualquer forma na noite. Eu disse que ela era muito doida e que a coca-cola dela tava quente, mas ela “e o pior é que nem era coca-cola”, mas eu “tudo bem, o que vale é o calor mesmo”.

Quando os punks começaram com o Bezerra da Silva é que a coisa pegou fogo mesmo, todo mundo levantou e começou a seguir em marcha rumo ao pagodão que tava rolando na 203. Eu peguei aquele pedaço de pau que tava jogado no chão, tirei a camisa e fiz nosso porta-estandarte. Fui no guidão da bicicleta da garota segurando o porta-estandarte e o pessoal entremeava algumas loas e lundus entre um Moreira e um Bezerra, porque ao grupo já havia se misturado, também, o pessoal do maracatu.

Pois é, quando a gente chegou na 203, aquele bloco coesamente incoerente, parecia um baile de máscaras de 1930. A gente chegou botando fogo no pagode e todos juntos cantando em coro:

Angústia, solidão

Um triste adeus em cada mão

Lá vai meu bloco vai

Só desse jeito é que ele sai

Na frente sigo eu

Levo o estandarte de um amor

Do amor que se perdeu num carnaval

Lá vai meu bloco e lá vou eu também

Mais uma vez sem ter ninguém

No sábado, domingo, segunda

E terça-feira…

E quarta-feira vem o ano inteiro

É sempre assim

Por isso quando eu passar

Batam palmas pra mim…

Foi lindo. O pagode não parou, todo mundo sambou e rolou aquele beijo inesquecível entre o vocalista do grupo de rap e a punk de cabelo rosa bem no meio da rua. E os aplausos e a caracu quente sendo jogada em cima de todo mundo. E a feminista dançando o funk, e o pagodeiro cantando o hino da internacional comunista junto com aquelas vegetarianas. Foi lindo. Realmente foi lindo. Foi o bloco da solidão acompanhada mais belo que eu já vi na minha vida.

Não fiquei com ninguém, nem teve tempo, a vida precisava ser vivida daquela intensidade, sem papas na língua, sem porém, portanto, nem talvez. E no fim eu disse mesmo pro pessoal que tava fumando um: “passe livre já, passe livre já!!!!”.

“Aí pastor, eu tava me sentindo amarrada mesmo, uma coisa estranha, esse pessoal do rock parecia que me sugava toda força, aquela coisa de fumar droga mesmo, sabe? Eu não tinha mais ânimo pra nada, queria mesmo era morrer, tomei até q-boa, sabe pastor? Mas quando essa minha prima me chamou pra conhecer a igreja dela, tudo começou a mudar na minha vida…”

Platonismo

Uma história sempre começa de um ponto. A não ser a própria História que não se pode principiar, mas que invariavelmente teve um início. Essa história que ele começava, aparentemente não havia começado. Poderia ter sido uma frase dita sem pensar, ou um olhar que cativasse o fragmento de um segundo qualquer, mas até o momento não era possível identificar o começo, o alfa dessa história.

Havia ela e havia ele. Um bom começo já, mas não “o” começo. Poderia ter sido no dia do festejo de uma criança qualquer, mas não. Não teria se principiado algo naquele dia. Ela ainda deveria estar imiscuída que fosse com sua vida sem ele e ele era só uma completude despretensiosa com alguém bem pequeno.

Quem sabe teria sido no contemplar de uma vida nova e entre algumas cervejas e uma amiga? Mas também não. Aquele dia não merecia tanto sentido para começar algo, aquele dia era algo como um simples dia, desses que não se principia nada.

E o terceiro encontro dos olhares? Haveria algo naquele dia em que a inteligibilidade ficou bem lá atrás? Um pedido de socorro estranho, um convite aceito sem paixão, um encontro surgido às vésperas da madrugada. Teria este conjunto de fatos iniciado a história que se passava nele?

A uma análise mais atenta, talvez pudesse ter sido o início, principalmente pelos fatos ocorridos após o encontro (ou a própria continuação do encontro): o diálogo, o riso, o pensamento, a audição do silêncio, a cama e o sono compartilhado, o enlace de pernas… Mas não, não era aquele o início. Aquela já era uma continuação de algo feito.

Talvez tivesse sido durante o beijo. Um encontro planejado, o desencontro grupal e o pedido providenciado: outro sono compartilhado, o sexo tenso e frustrado, a noite ao lado e a manhã de afago. Mas não era aquele o início ainda. Com certeza não.

Ele lembrou-se então da noite continuada em que o máximo contato foi o pedido: “Posso segurar a sua mão?” e que durara não mais que dez segundos – e ele se lembrava bem que havia sido dez os segundos passados entre o contato sugerido de uma mão sobre outra mão. Nesse dia foi forjado o mito do perigo e não havia chance alguma de querer ver nesse a aurora dessa história. Esse dia já era a própria história se elaborando, se completando, se trançando em vias inesperadas.

O ver-se casual de uma manhã atípica poderia ter tido muita coisa de um primeiro raiar, mas ainda sim ele apenas se silenciava. Vê-la em trajes simples, vestida de verde tinha sido algo muito bom para ele: sabê-la de outro jeito. Mas a ela o fato não havia sido bom e poderia até ter se configurado em experiência traumática. Disso tudo já se pode tecer que essa casualidade não seria o ponto nevrálgico de toda essa história.

Ele se esforçava por tentar lembrar – ou quem sabe sentir – onde estaria o início. Pensou então no último. Só conseguia ver novamente o estado de perturbação plena sentida num misto de corpo falido e álcool nas veias. Muitas coisas ditas e um universo de coisas mais sentidas e caladas. A mudez dos sentimentos consciente, pois que o perigo de desestabilizar o mundo dos outros é um fardo por demais grande para se carregar. Daí ter sido esta última uma noite falada e muda.

A constatação desse último encontro nas palavras ditas por ela, onde a maciez de um passado ainda vivo se fez tão doce, acolhedora e afetuosa, foi tal, que ele acreditou findo o fato supostamente não iniciado – ou pelo menos não encontrado até então – e, ao mirar o passado frente a frente, foi como se o início não pudesse ter sentido algum e foi justamente nesse dia que ele começou sua história.

Ele chegou em casa cansado, um corpo inerte sobre o chão, um som qualquer passando despercebido por seus ouvidos, a cabeça tentando compor uma história que fosse plausível e a revelia plena de um significado possível.

Escreveu um bom tanto nesse dia e viu que realmente era esse o início de sua história: um porvir de sentimentos que se desenrolava só nele, enquanto ela se ia com seu passado – vivo.

E logo ele que era existencialista.

Pesar

Ela sempre sentia aquilo quando ele se aproximava. Era uma dor aguda no átrio direito e uma angustia profunda no canto das unhas. A dor surgia de uma mistura havida entre o sangue venoso e a aproximação deste que a apagava por inteiro. A angústia era algo como um constante pesar da vida sobre o canto de suas unhas.

A dor amainava fácil se ela pensasse na cor verde, mas a grande questão – posto que era sim uma questão e não um problema, afinal, não existia uma solução, mas sim, ainda outros apontamentos – era a da angústia.

Tal sensação começava bem nas cutículas e ao final apoderava-se de todo o canto de suas unhas e esta região parecia ser orientalmente ligada a qualquer coisa de sua alma. Um canal que fluía tudo que fosse o latejar de uma condição insuportável e insustentável: uma melancolia absurda.

Ele se aproximava devagar, quase a vagar entre o escondido das horas. E cada passo dado era mais um centímetro galgado ao encontro do precipício definitivo encravado no canto de suas unhas.

Às vezes parecia que a angústia supurava a dor do átrio direito, mas fato era que a dor continuava junto à angústia. A intensidade é que era algo diferente. A dor não era insustentável, ela tinha seu quê de possibilidade, a angústia não. A dor era até bem quista, parecia com algumas lembranças da infância, a angústia já lhe remetia algo particular a sua maior-idade e até mesmo à sua pós-maior-idade.

Quando ele chegou, cantaram-lhe parabéns e ela ficou bastante triste. A tristeza até cortou a dor do átrio direito, deu-lhe a máxima contenção de algo já findo. Aí deram-lhe presentes e alegria e ela só a sentir suas unhas.

Quando ele chegou, deu-lhe mais um ano, mais um engodo existencial e ela começou a comer todos os cantos de suas unhas, até que sua angústia foi parar em seu estômago e não demorou a ela se misturar ao sangue venoso e ir completar a dor de seu átrio direito, que já havia passado.

Aí ela pensou em verde e ficou feliz.

Paulo e a música

Paulo andava querendo falar com Eliane há algum tempo. Queria falar sobre o CD novo que havia comprado. Assim que o comprou, quis que ela conhecesse seu conteúdo, foi algo instantâneo: música boa: Eliane. Neste CD, havia uma música em especial que trazia Eliane até Paulo de uma forma sutil e leve, a letra falava acerca de um sentimento fácil, de uma vontade de tocar o coração bem simples. Talvez, por isso, Paulo receasse aprochegar-se de Eliane e só falar: “olha que CD maravilhoso, escutei e me lembrei de você”. Não que fosse o fim do mundo – pois ele não era uma pessoa tão tímida –, mas sim, porque após a lembrança tida, veio-lhe a mente uma dúvida brutal: por que diabos boa música trazia-lhe Eliane?

Uma investigação minuciosa foi iniciada em sua mente. Repassava todos os rincões possíveis de sua cabeça para saber o que demovia sua memória a pensar em Eliane quando escutava boa música. A primeira constatação foi a de que música era algo extremamente caro a sua pessoa. Lembrou-se de certa vez em que falara que era preferível perder qualquer sentido a perder a audição, não conseguiria viver sem música. Rememorou sua infância em que nada lhe dava prazer tão particular quanto pegar um vinil qualquer de sua mãe ou de seu pai e descobrir que som sairia dele, aventurar-se em conhecer sonoridades possíveis, extasiar-se com o áudio chiado que saía da vitrola. Realmente, escutar música era um de seus grandes quadros do porquê de viver.

Lembrou-se de mais coisas. De como cada momento de sua vida era acompanhado de uma música. Uma eterna trilha sonora compondo-se em torno de seu caminhar. Cantarolar sempre foi para ele mais do que preencher os momentos vazios com uma atividade qualquer. Cantarolar era para ele por pra fora um sentimento tido, uma emoção contida, um pensamento formado. Cantarolar era dizer para si mesmo sua condição momentânea.

Sua vida se fazia assim mesmo: musical. Um dia feliz conseguido: um samba de João Nogueira, uma apreensão incontrolável: um Chico comedido, uma paixão irrefreável: um blues enternecido, um sentido de tristeza: um bolero antigo. Música por música ele passava seu dia, uma após outra, uma levando a outra. Música era seu amor maior, seu grande amor nunca abandonado, nunca desmerecido.

Sempre teve uma mania um tanto diferente. Gostava realmente de escutar música e acreditava que em nada havia de menor no ato de ficar a ouvir um disco. Recusava-se a ver na música um simples elemento coadjuvante de outras atividades, uma simples trilha sonora de uma cervejada – embora, música de qualquer jeito, até mesmo como mera trilha, lhe fosse agradável. Lembrou-se de uma vez em que estava sentado num sábado à noite em sua casa escutando Vicente Celestino e sua mãe irrompera de repente no quarto. Ela o olhou com ar preocupada e perguntou: “você está bem, meu filho?”. Paulo tranqüilamente respondera: “tudo bem mãe, só estou realmente ouvindo a música…”. É certo que desse dia em diante sua mãe o respeitou mais, seria talvez a constatação de autenticidade em sua criação. Ver que seu fruto era uma persona particular.

Paulo recordava-se também de seu ímpeto de ser músico. Sempre tentara lutar contra seus dons e produzir algo que fosso harmônico, melódico, sonoro e aprazível aos ouvidos, mas tudo em vão. Não saía uma nota bem posta, um compasso afirmado, um ritmo cadenciado, nada. Tentou violão, baixo, gaita, até cantar se aventurara, mas qual o quê? Nada. Tentou tanto até que desistiu, não podia ir contra as tendências de seu ser e forçar-se a produzir algum som que possuísse algo de belo.

Contentou-se assim em escutar música e, talvez, sua desistência tenha dado-lhe o impulso de escutar mais e mais, de se apegar ainda mais a esse ar em movimento. Música tornava-se para ele uma das únicas formas de se sentir bem, de se sentir íntegro. Quase um sentido de suicídio. Escutar música seria a possibilidade de continuar sendo um ser unívoco, de ser completo.

Nesse contexto tido da memória até o próprio alicerçar de seu ser, foi que Eliane retornou a sua cabeça. Música boa: Eliane. Era fato que Eliane possuía um excelente gosto musical segundo as pretensiosas definições de Paulo, mas a relação “música boa-Eliane” não se baseava apenas nisso, pois que apreciadores e apreciadoras de boa música haviam aos montes espalhados pela face da Terra. Havia algo além.

Paulo não se recordava de ter ouvido Eliane falar que sua relação com a música era a mesma dele. Eliane gostava de música e pronto. Nada de definições transcendentes da condição humana por meio de um artefato sonoro. Nada de especulações surreais acerca da musicalidade inerente à humanidade. Nada de mais. Apenas uma ouvinte. Paulo tentava lembrar-se então das músicas que mais lhe remetiam a Eliane, mas era tarefa árdua, pois que quase tudo a trazia para ele. Todas as melhores músicas descortinavam-se em Eliane.

Ficou um bom tempo extasiado com a constatação. Recordou-se do CD que queria mostrar para ela, lembrou da letra tão bonita, acenou com a melodia e cantarolou um pouco. Algo diferente percorria sua cabeça naquele momento. Pegou um disco outro – creio que de Maria Creuza –, pôs na vitrola e ficou a contemplar o som durante muito tempo. Absorto. Novamente, Eliane voltava até ele.

Foi estranho conceber o que se passou nele àquele então. Mas, por fim, descobriu o que sempre a trazia junto à música: Eliane era música. Foi assim que Paulo descobriu seu segundo amor. Na mesma hora pegou o CD e foi mostrá-lo para Eliane. O que aconteceria de então em diante, preferia especular por meio de uma música qualquer – sempre surgiria uma em sua cabeça mesmo.

O surgimento do tempo

“e o espaço sempre foi visto como o morto, o não dialético…”

M. Foucault

Essa história se passa não num tempo, mas num espaço. Passa-se longe de qualquer critério de ontem, hoje e amanhã. Algo em torno de um antitempo. Não se faz conjugando tempos verbais simplesmente (embora como se necessite da gramática para lha escrever não se possa prescindir das palavras e das estruturas). Por isso penso que essa história não se possa ser contada, mas apenas escrita, uma vez que as palavras estão desse modo postas em seus devidos lugares, em seus espaços. Não ficam perdidas em meio ao éter da fala (algo muito mais temporal do que espacial).

Deixo claro que qualquer tentativa de lha situar em um tempo será em vão, posto que a coisa se deu materialmente (e há uma pequena surpresa no final da história para aqueles que gostam tanto assim do tempo). Que me desculpem os historiadores, que me perdoem os físicos, mas a história é essa…

* * *

Há na periferia de um território materialmente imaginário um indivíduo chamado Labarcã.

Labarcã dedica sua vida a estudar o espaço. Suas formas, suas estruturas, seus modos, o seu ser. Estuda-o na busca de sua essência, sem cessar.

Em meio a tantos estudos acerca do espaço Labarcã encanta-se então com sua representação, encanta-se com a sua identificação, encanta-se assim com a cartografia. Observa com apuro as formas de se plotar num plano a realidade, de se projetar e transpor em papel o mundo circundante. Labarcã inicia-se na arte dos mapas. Começa a produzir compulsivamente mapas sobre tudo o que vê: mapas sobre o relevo, mapas sobre as águas, mapas sobre o clima, mapas sobre as cidades, mapas sobre as árvores, mapas sobre os animais… sem se cansar, faz mapas sobre tudo.

Labarcã se apaixona assim por transpor o mundo em imagens e se imiscui ainda mais nessa arte, entende que as representações dependem de suas escalas, da seleção de suas informações, dos tipos de legenda, dos matizes de cores… e em cada um desses ingredientes de produção dos mapas, um novo universo de possibilidades, uma nova gama de meios, um novo cabedal de formas… as combinações são assim infinitas. Labarcã começa então a conjugar informações em seus mapas, relaciona animal com clima e faz uma carta zooclimática, cidade e vegetação e faz um mapa fitourbano… novamente mais mapas, muitos, compulsivamente.

Labarcã mapeia tudo que existia. Labarcã sente a necessidade de criar a mapoteca de todos os mapas do mundo, o lugar em que tudo o que pudesse virar carta estivesse mapeado, estive seguramente representado. O lugar em que todas as variáveis pudessem ser combinadas de todas as formas possíveis e imagináveis (e até o que não pudesse ser mapeado, pois Labarcã faz então mapas sobre os sentimentos, sobre as emoções, sobre o trajeto irregular de um elétron, sobre a expansão do universo, sobre uma idéia, sobre um movimento, sobre os sonhos, sobre a alma, sobre o espírito… sobre tudo o que existisse).

Labarcã observa que cada carta depende da variável de sua representação, Labarcã assimila para si as noções de escala assim. Inicialmente faz um mapa de todo território em que vivia, em escala de representação geral de tudo, uma escala grande por assim dizer. Mas Labarcã não se sente satisfeito. Diminui sua escala e representa mais coisas em sua carta, mais relações, mais informações. Diminui cada vez mais sua escala, representa cada vez mais coisas e relações, mais informações. Labarcã sonha assim com a escala de 1:1, quer refazer todo o mundo num mapa definitivo e começa assim sua empreitada.

Arranja todo o papel que fosse possível e inicia seu projeto audacioso, faz cálculos, projeções, estabelece coordenadas, faz medições. Não pára um segundo, tal tarefa não pode ser feita de qualquer jeito, ele precisa representar o mundo, ele precisa de todo o real referenciado e plotado em carta, na escala do real: um para um.

Labarcã termina seu projeto. Enfim feito o mapa do real em sua realidade. Labarcã contempla assim a cópia perfeita do seu mundo, de seu espaço, de seu lugar. Labarcã vê assim ele mesmo, sentado em frente a seu mapa, em escala real: um para um. Só que ele não entende, está tudo estático, parado. Ele vê seu mapa do tamanho do mundo, mas vê que ele não é o mundo, que há um vão entre o mundo e sua representação, ele fica furioso assim. “Maldito seja esse mapa parco e sem vida!”, grita Labarcã contra sua obra.

Outro plano fabuloso se passa assim em sua mente: criar um mapa que vá além da representação, que seja mais que a imagem do próprio mundo, que vá além do mundo, escolhe então sua escala: um pra um milionésimo. Assim começa: um centímetro em seu mapa seria equivalente a um milionésimo de centímetro no mundo real. E ele relaciona todas as informações com outras mais que possam existir e ele não pára um minuto: cria até um computador para lhe ajudar na tarefa, são cálculos, coordenadas, cores, representações, traços, medições… e ele busca ir além da representação, busca através dela a constatação da essência do espaço, busca traçar até os não-lugares e os vazios, os nadas. Ele não pára.

Mapeia os fluxos, os fixos, as formas, os processos, as funções, e em cada um destes mapeia também seus meta-fluxos, seus meta-fixos, suas meta-formas, seus meta-processos suas meta-funções, e em cada um destes seus para-meta-fluxos, seus para-meta-fixos, suas para-meta-formas, seus para-meta-processos, suas para-meta-funções, e em cada um desses um novo universo de informações, uma nova gama de possibilidades, um novo cabedal de essências. Em cada essência, outra mais e uma nova forma de a representar. E ele não pára, mapeia assim o infinito e todas as suas possibilidades na escala de um para um milionésimo.

Labarcã ao contemplar sua obra vê então plotado em papel toda a dinâmica de seu espaço, todo o seu território e suas possibilidades de acontecimento. Labarcã contempla assim sua nova criação e vê em seu mapa ele mesmo contemplando sua nova criação e vendo em seu mapa sua nova criação…

Labarcã mapeia assim seu próprio mapa, incessantemente. Um moto perpétuo cartográfico.

Labarcã não mais existe. Ele é só ele mesmo representando-se em um mapa maior que o próprio infinito.

Labarcã, não mais existindo, continua assim: eternamente na busca do mapa definitivo e sendo sua própria representação. Seu mapa engoliu ele mesmo e ele não consegue mais sair desse ciclo. Labarcã é então o próprio espaço e seu além.

Labarcã virou o tempo e a sua infinitude se sente até agora.

Qualquer semelhança entre Labarcã e qualquer deus é mera coincidência.

O que será a realidade?

“Não é a loucura que convulsiona o mundo.

É a consciência.”

Malamud

Gabriela olhava um garoto moreno muito lindo que estava sentado sozinho no banco da praça com cinco litros de vinho ao seu lado. O garoto tomava o vinho devagar em goladas muito desesperadas, ele observava as pessoas ao seu redor. Sem pensar, Gabriela seguiu até o garoto.

Gabriel olhava as pessoas ao seu redor até que concentrou sua atenção em uma morena. Ela vinha em sua direção e segurava uma garrafa de vinho de cinco litros. Ela estava muito ébria e cambaleava, mas agia com toda a sensualidade latente a essas morenas que lembram índias. Sentou-se ao seu lado, passado alguns minutos, ele disse:

– Olha aquele tipo ali.

– O que tem ele?

– Nunca parou para observar o comportamento dos outros, como eles são? o que sentem de verdade?

– Às vezes, o que você diz dele?

– Na minha opinião não está se divertindo, só finge. Presta atenção no modo como dança. É só pose, na verdade ele não quer fazer nada disso. Só finge não se controlar quando está embriagado. É daquele tipo: “Vô bebê todas e num tô nem aí”. Amanhã ele vai estar fingindo que sua ressaca é a maior do mundo e que não se lembra de nada. O pior é que toda vez ele faz isso. E todos que estão ao seu redor fingem acreditar e gostar dele.

– Pior que é.

– Arrisca alguém aí. Vai, é divertido.

– Aquela ali, a de vestido hippie.

– Sei, tipo comum aquela, não?

– Com certeza. Na verdade ela é uma patricinha enrustida. Tá aqui no meio dos “doidão” e tira onda de hippie. Divide os lindos, sedosos e tingidos cabelos ao meio, põe um monte de bugiganga no pescoço, uma sandália de tira no pé e fica falando que curte Janis. Mas é só ir numa daquelas boates tecno do Plano e ela vai estar lá com tênis de plástico, saia curtinha, piercing no umbigo e dançando todas as músicas. Só pose.

– Só pose.

– O que você tem a dizer daquela ali?

– A que esta totalmente embriagada?

– É essa mesmo.

– Bem, deve ter tido um namorado mais velho quando ela era apenas uma desbocada garotinha de quatorze anos, mas sem nenhuma experiência. Este namorado, sem dó nem piedade, tirou-lhe o cabaço no terceiro encontro e logo depois a largou na vida. Ela de raiva passou a dar para quem quisesse comer (e vários quiseram), agora ela está ai, a reputação acabada, em vias de virar uma alcoólatra e sem nenhum amor próprio.

– Profundo.

– É, mas e aquele que está olhando ela e rindo com os colegas.

– O bombadinho, de tribal no braço?

– Um deles, o de camiseta azul.

– Ah sim. Tem cara de ter sido um provável responsável por deflorar a outra que você falou. Não deve pensar muito e quando, por milagre, isto ocorre, ele pensa pela ótica do “senso comum alternativo”. Nunca deve ter tomado um porre na vida, mas diz pra todos que é o maior cachaceiro do mundo. Deve comer muitas menininhas. Deve fumar uns baseados quando encontra algum colega “doidão”. Conclusão: um ser desprezível que não merece a existência que lhe foi outorgada.

– Com certeza.

Por instantes os dois se calaram. Olhavam para o céu. A Lua cheia, o céu límpido e estrelado, estrelas cadentes cortavam a abóbada celeste em formas inigualáveis. Os dois não tinham coragem de se olhar, ele disse:

– E a gente?

– O que tem?

– Como somos nós pela ótica dos outros? Você, como você me via quando sentou-se ao meu lado?

– Bem, eu pensei: ‘aquele ali é inofensivo, tem cara de virgem, deve ser um pretenso intelectual que não agüenta mais tanta droga e resolveu dar uma descansada e ficar olhando os outros passarem na expectativa de que alguém pare e converse com ele’. E o que você pensou quando me viu?

– Olhei e divaguei: ‘morena bonita, deve ter levado umas quarenta cantadas absurdas e já não agüenta mais, sabe que é bonita e inteligente e que não merece escutar mais tanta merda, ela vai sentar aqui porque eu não ofereço perigo, se brincar ela é sapatão’.

– É parece que agente não se enganou muito…

– As vezes, as aparências não enganam.

– Você é virgem mesmo?

– Você é sapatão?

– Perguntei primeiro…

– Fisicamente…

– Como assim, fisicamente?

– O ato em si eu nunca fiz, mas a experiência eu já vivi milhares de vezes na minha mente, não falo só de masturbação, mas de saber que aquilo é algo transitório e que não vai me acrescentar muita coisa.

– Como você pode saber se você nunca fez?

– A previsão é fácil, não vejo ninguém que pelo fato de ter transado alguma vez na vida, se mostre mais sábio ou mais despreocupado com relação a esta. O sexo só serve como o primeiro passo para a existência de certas formas de vida. Fora isso é só mais um desejo inútil que te impede de ver o real.

– Bonito, mas falta paixão ao que você diz. Realmente não creio que você acredite em tais afirmações.

– Por que? Você não tem um ideal convicto quanto sua sexualidade?

– Tenho, e penso ainda que nesse aspecto os homens são mesquinhos.

– Mesmo eu que nunca fiz?

– Mesmo você, pois ao invés de super valorizar o sexo como todos os homens, você simplesmente o nega.

– Mas não sou dependente desta felicidade ilusória…

– Acho que pelo menos você devia experimentar para tecer afirmações sobre…

– Tentar eu já tentei, mas para se fazer a coisa é necessário dois.

– Ora, o que é isso? Você é um rapaz bonito, inteligente. Vai dizer que nenhuma garota quis ir até o fim com você?

– Exatamente.

– Não creio.

– Nem eu.

– Ah, então agora eu entendo, esse discurso todo é somente raiva. Nunca conseguiu ninguém e por isso fica dizendo que não vai e nem quer fazer.

– Pode ser. Mas e você, quando você virou lésbica? Foi depois que um cara tentou comer o seu cu sem manteiga ou quando um namorado seu, só de raiva, saiu dizendo que você usava calcinha de bichinho depois que terminou contigo?

– Nenhuma das duas!

– Desculpe.

– Bem eu nem sei direito, mas os homens começaram a parecer para mim um bando de trogloditas que só pensam em sexo. Olha, quando eu tinha quinze anos, eu tive um namorado…

– Não falei! Sabia que tinha um cara. É só orgulho ferido. Na minha opinião todo homossexual é antes de tudo um egocêntrico, que se acha tão dono de si que decide ir contra o senso comum só para se afirmar algo próprio.

– Assim como você, orgulhoso e egocêntrico.

– É, tem razão.

O dia amanhecia e os dois estavam calados. Gabriela aparentava um ar de quem pensa em demasia, Gabriel por sua vez, parecia não pensar em nada. Os dois vinhos tinham acabado. Gabriela falou:

– Vamos comprar mais umas biritas.

– Boto fé.

Os dois compraram uma garrafa de vodca e uns salgadinhos. Gabriel e Gabriela foram ao banheiro e os dois deram uma bela cagada cada qual. Optaram por subir um morro e tomar aquelas bebidas. Gabriel tinha um haxixe e Gabriela disse que tinha uma surpresa. Os dois subiram um morro que dava uma vista muito clara de um vale. O sol já se mostrava forte e os dois se encaravam, enquanto douravam mais suas peles, amorenando ainda mais aqueles dois seres. Então Gabriela disse:

– Há tempos que eu não me lembro o que é um homem.

– Dê-se por satisfeita. Desde que eu nasci que eu não sei o que é uma mulher.

– Eu vou te falar uma coisa, eu tenho uma companheira, o nome dela é Sandra. Mas eu acho que eu perdi o tesão por mulher.

– E por homem?

– Também.

Os dois se calaram. Começaram a intercalar o olhar entre o outro e a paisagem. O vento ia diferente. Fumaram o haxixe. Depois de algum tempo a garrafa de vodca estava pela metade, fumaram outro baseado. Gabriel:

– Agora que eu fui perceber, eu não sei o seu nome.

– Gabriela.

– Nossa, o meu é Gabriel.

– Destino…

– Será? Isso existe?

Gabriela mexeu em sua bolsa, tirou algo dentro dela. Gabriel observava:

– O que é isso?

– Cogumelo defumado.

– E eu não vou passar muito mal não?

– Não, é só não pensar muita coisa ruim.

Havia dois cogumelos e cada um comeu um inteiro. Fumaram outro baseado. Meia hora depois se via o efeito:

– Às vezes eu penso cinza.

– Eu… eu sempre pensei cinza.

– Mas as vezes eu penso lilás.

– Eu sempre pensei cinza.

– Por que será que o amor é azul?

– Sempre pensei cinza.

– “Azul da cor do mar!!!!!!!!!!” O céu é azul ou cinza? Mas e o cinza é cinza ou é branco mais preto? “Ter um sonho todo azul!!!!!” Será que isso tudo é um sonho?

– Eu sempre sonhei em preto e branco.

– O sonho é a continuação da realidade. Olha as lombras como passam, elas dão voltas, caem e gritam. UAUUUUUUUUUUU!!!!!!!!!!!!!!!!!

– Você é você e eu sou eu? Por que eu sempre sonhei em preto e branco?

– Vai querer?

Aí ele disse:

– Por amor ou por besteira?

E os dois fizeram sexo, como os tântricos da antigüidade da Índia. Como no Cântico dos Cânticos. Era um amor violento e suave. Aparentavam figuras do Kama Sutra. Fizeram uma, duas, cinco vezes e não se cansavam. E por fim, quando já era noite os dois dormiram abraçados respirando o suor do corpo outro e só agora eles tinham a noção: eram um só e o sexo estava ali, os permeando, a única tarefa imputada foi ao sincronismo do acaso em achá-lo.

* * * *

Foi neste quadro que Gabriel acordou, caíra da cama. De súbito colocou as mão na genitália, havia melado a cueca. “Foi apenas mais um sonho”, pensou Gabriel acostumado com tal situação. Levantou-se e foi lavar a si e a sua cueca, aproveitando para tocar uma bronha no banheiro e lembrar daquele pitelzinho de morena do sonho. “Será que ela existe?”, pensava ele enquanto o suor lhe descia a face.

* * * *

A vinte graus de latitude sul, Gabriela acordava assustada com seu sonho. Não estava acostumada a ter sonhos eróticos, quanto mais com drogas. Ah, se seus pais soubessem. Arrumou a cama envergonhadamente e foi tomar banho. Logo em seguida foi se confessar. Lembrou-se de que não se confessava há meses. “Acho que ando vendo muita TV”, pensou consigo um tanto quanto arrependida.

Ode à Ana Clara

Os olhos de Ana Clara possuíam uma suavidade tanta. Era como se de suas íris irradiassem qualquer essência nefelibática e feérica, que envolvia qualquer ser vivente a metros de distância. Fosse bicho, fosse planta, fosse até mesmo vírus ou bactéria. Ana Clara tinha olhos de calmaria. Seu olhar invadia de forma branda e queimava uma paz retida em algum lugar do passado. Seu olhar se dizia tranqüilidade e, até na inconstância de Ana Clara, seu olhar se mostrava o mesmo. Até na frieza, até na loucura, até na dor.

O olhar de Ana Clara era negro, embora seus olhos fossem castanhos. Um negrume que se alocava na alma observadora, um conforto negro, um mar de cor preta que te absorve na temperatura mais amena existente. O castanho de seus olhos era o paradoxo mais intenso, entre o mel de uma sensação momentânea e o sem gosto de uma paz perpétua. Era a absorção de todas as luzes em um estado de espírito leve.

Uma coisa sempre me perturbava no olhar de Ana Clara. Era saber se seu olhar ou mesmo se ela própria tinha noção do quanto que pelas suas lentes pulsava o acalanto mais suave existente. Teriam aqueles olhos percepção de si?

Não me recordo quando fora a primeira vez que me atinei àquele olhar. Teria sido já em seu colo ou no relance de um flerte? Poderia ter sido dentro de um ônibus qualquer, ou mesmo no constatar de uma febre insistente. A questão é que foi.

Olhos de calmaria. Atentos a qualquer subversão de um espírito machadassisniano. Olhos que demoviam o sentido de calma e não o da dúvida. Olhos que se aplainavam as rugosidades da alma. Olhos castanhos de um negror lindo. Ana Clara e seu olhar, Ana Clara e seus olhos. Ana Clara sendo Ana nos olhos castanhos e Clara em seu negro olhar, era Ana Clara, seus olhos e seu olhar.

Ana Clara era meu amor àquele instante ao meu olhar nu em meus óculos diante da roupagem tão linda de seus olhos em si em seu olhar.

Noite de graça

Nove e vinte. Já estou ficando atrasada. Com certeza Paulo já me espera há pelo menos uma hora. Logo hoje o carro foi quebrar. Hum, deixa eu pensar, o ônibus que passa ali… merda, vou ter que pegar um ônibus pra rodoviária. Já estou atrasada. Mas com fé eu consigo chegar na hora e aliviar um pouco a angústia de Paulo. Ô sujeito ansioso, quero ver outro igual.

Nossa. Noite fria essa, vou ter que voltar pra pegar um casaco. Eu podia pegar um pra Paulo, ele nunca leva casaco mesmo e depois fica passando frio e dizendo que é psicológico. Claro que o frio dele é psicológico: ele não leva o casaco por teimosia! É claramente um fator psicológico que o demove: teimosia. Ah se minha amiga Gabriela escuta eu falando isso, me dá um tiro: “Você menospreza demais a psicologia, Eliane…”. É, com certeza eu menosprezo, mas também, deveria menosprezar mesmo. Se bem que ela e Paulo quando discutem sobre psicologia é uma coisa bem interessante. Bom, deixa eu correr que lotação pra rodoviária passa toda hora.

Puta que pariu! Esqueci o casaco pro Paulo. Com certeza ele está sem. Ah, fazer o quê? Ele já é bem grandinho pra saber que não se deve andar sem casaco nessa cidade maluca. Não sei porque Paulo aceitou ir comigo hoje pra esse show. Nunca vi alguém tão velho em tão pouco tempo. Parece que no último ano ele envelheceu pelo menos uns quinze anos. E o pior é a amargura dele. Tá ficando áspero demais. Não ácido, pois que ácido é coisa de adolescente, ele já passou disso, ele está é enrugando mesmo, ficando áspero.

De fato, creio que fiz besteira em chamá-lo pra sair hoje. Ainda mais, porque o Marcos vai estar lá e eu queria mesmo conversar com ele também. Mas ah… que se foda. Como eu disse, o Paulo já está bem crescidinho pra entender certas coisas. Será que até hoje ele pensa em mim? Não pode ser. É claro que eu penso nele, mas definitivamente o meu pensar é outro. Tem vezes que me lembro e sinto vontade de ligar pra ele e ficar com ele, mas só naquele momento, rápido e rasteiro. Beijá-lo um pouco… É, mas deve ser difícil pra ele, sinto que ele não entende que a gente nunca tenha feito sexo, não abstrai o porquê. Ainda bem que não sinto dó dele. E logo ele que é uma pessoa tão legal. Podia tanto ser algo sutil, leve, algo só nosso. Segredo guardado a sete chaves. Mas não, ele sempre aparenta querer mais, ele sempre anseia por algo maior, sempre parece que aquela vai ser a derradeira vez, o momento em que eu vou cair definitivamente apaixonada por ele e jurar fidelidade e outras coisas mais.

Hum, penso que estou viajando demais. Sinto que ele já se resolveu. Na realidade, ele tem que ter se resolvido. Já sei! Se ele aparentar que está resolvido, eu até fico com ele. Nossa, mas como ele podia querer só isso, uma noite qualquer, um encontro qualquer, uma noite displicente! Bom, vamos ver o que dá. Eita, já estamos na Rodoviária! Caramba, já são nove e trinta e cinco.

Eu sabia… É só chegar na fila do box do ônibus e nada. Ele nunca está aqui… Nunca. É infalível. Vou ter que fumar um cigarro. Pelo menos, creio que dá tempo, ele só não pode chegar agora, porque pior do que chegar e o ônibus não estar no box é acender um cigarro pra esperar e ele estacionar bem na metad… merda! Não falei… Quando é pra dar errado é pra dar errado. Esse gosto de meio cigarro aceso é um dos piores de todo o mundo. É o aborto de um alívio. Bom, pelo menos vou chegar no horário, o Paulo nunca diz, mas eu sei que ele odeia esperar. Mas eu nunca entendi, se ele odeia esperar, por que ele sai duas horas antes do horário marcado? Vá entender a cabeça desse rapaz…

Ah, agora sim. Ônibus é bem melhor que lotação, nem se compara. A visão, o panorama da janela, é uma sensação bem mais confortável. Mesmo quando o ônibus está cheio. Gosto de andar de ônibus, eu deveria andar mais. Caraca, agora onde é a parada? Odeio ter de ficar assim, na iminência de descer… Hum… Deve ser agora.

Ai ai ai… parada errada. Que merda. Por que eu sempre faço isso? Pelo menos eu desci antes, não depois. A sensação de que ficou pra trás é terrível, de que você tem que voltar, tem que percorrer o que já andou… Bom é andar pra frente, sentido futuro. Esse lugar é de boa, andei bastante por aqui. Lembro que eu e Paulo almoçávamos ali. Era engraçado, era bom. A comida era uma bosta, mas o preço compensava. Ah, era bem ali que a gente ficava depois de almoçar. Hum, sabia… Paulo já está lá. E sem casaco como eu havia previsto.

* * * *

Beijei seu rosto e falei pra ele que eu sabia que ele estaria sem casaco. Nem falei que pensei em trazer um, ia parecer forçado. Perguntei como estava e fui andando rumo ao lugar do show. Ele me acompanhou e disse que estava bem e – como eu imaginava – nada de emocionante acontecera com ele esses tempos. Eu pensava que a noite poderia ser bem agradável, só não dizia muita coisa.

Perto da gente, começava a passar alguns carros com sons bem altos. Música boa até, pessoas animadas… Insisti comigo que a noite poderia ser bem boa. Vi que Paulo se incomodava, mas tentei dar uma de “animada indiferente”, não ligar pra suas neuras – e nem dar trela pras minhas. Nessa hora aconteceu uma coisa muito cômica, Paulo leva uma porrada de um malabar de uma garota. Não me contive, tive que rir. A garota era muito esquisita e tinha um aspecto hippie-punk-tecno-clubber. Uma figura bem engraçada. Eu não sabia se eu ria do Paulo ou se ria da garota. Percebi que Paulo ficava sem-graça e resolvi maneirar.

Fomos beber. Paulo pediu vodka e eu comprei uma cerveja. Começamos a conversar e eu falei pra ele que provavelmente o Marcos estaria ali. Falei que estava trabalhando com ele agora, mas vi que Paulo estava meio aéreo, parecia meio incomodado ou até mesmo espantando com alguma coisa. Olhava para os lados, não se concentrava em nenhum assunto, só murmurava coisas concordando comigo. Fiquei meio sem-graça de estar falando sozinha e me calei um pouco. De repente chega um indivíduo falando horrores com a gente. De fato, eu não sabia quem era. Tinha uma vaga impressão de que conhecia a pessoa e vi que ele conhecia a gente também, afinal, ele falava coisas do tipo: “E vocês dois, heim? Vão ficar nesse chove não molha, é?!!!”. Reparei que deveria ser algum conhecido nosso da faculdade. Mas, realmente, não me lembrava quem era.

Paulo de fato é uma pessoa engraçada, ele tinha ficado com um certo receio de encontrar mais algum conhecido e propôs que entrássemos no show. Convenci-o de que valia a pena comprar o ingresso que incluía o cd da banda junto. Ele concordou e entramos.

Eu estava bem tranqüila, entramos e fomos andar pelo lugar, eu queria encontrar algumas amigas que tinham ficado de ir pra lá também. O lugar estava cheio, bastante pessoas. Havia um clima de noite razoável que eu não conseguia conter o meu sorriso. Deveria estar parecendo que tinha colocado um botox na cara. Pensei que não queria encontrar mais o Marcos.

Logo de cara, segundos após este pensamento, a gente encontra Marcos. Eu sabia que ele estaria ali, mas quando o vi, gelou-me a espinha de uma forma tal que eu não sabia bem dizer o porquê. Vi que ele estava muito bem, ele passava a mão nos meus cabelos de um jeito que há tempos eu não sentia. Eu apertava a sua mão e só conseguia dizer que estava bem, afinal, eu estava muito bem mesmo. Foi aí que Paulo apareceu e cumprimentou Marcos. Falou qualquer coisa sobre ver alguém e saiu. Não entendi direito, só vi que ele tinha saído bem rápido. Típico dele. Pareceu que ia embora da festa. Ele sempre escapava dos lugares de forma rápida e sorrateira. Não o vi mais durante o show.

Marcos me perguntava se eu estava com Paulo. Entendi o tom da pergunta e respondi que não. Que tinha marcado de me encontrar com ele simplesmente. Ele riu e disse que ainda se lembrava bem dele, afinal, era por ele que o namoro havia terminado duas vezes. Eu fiquei meio sem-graça. Marcos disse que se eu quisesse procurar Paulo pra ficar com ele, tudo bem, ele já “estava acostumado com isso”.

Fiquei meio irritada com ele. Mas, no entanto, não saí de lá. Fiquei ao seu lado um bom tempo até que ele me disse que sentia minha falta, mas que não queria ficar comigo. Eu retruquei a mesma coisa. Era engraçado aquilo, afinal, eu não tinha a mínima vontade de ficar com ele, mas gostava da companhia dele, gostava de como era ele, gostava até do seu cavanhaque. Ele era uma pessoa bem preciosa mesmo, uma pessoa que me tocava alguma coisa. Começamos a bater um papo sobre a vida, sobre como era engraçado o tomar rumos variados na vida, sobre como, uma hora ou outra tudo se esbarra novamente, afinal, a gente, que pensava nunca mais se ver, estava trabalhando junto agora.

Fomos comprar cerveja. No caminho fui olhando para os lados tentando buscar Paulo, mas não o encontrava de forma alguma. A cerveja estava meio quente, mas ainda assim tomamos. Sempre achei curioso esse lance de como uma cerveja pode ser algo extremamente bom com determinadas pessoas e algo penoso com outras. A cerveja é de certa forma um decantador de conforto.

Marcos falava qualquer coisa sobre como ele estava bem com o novo emprego. Disse-me até que tinha encontrado uma pessoa bem legal que ele estava afim de conhecer melhor. Senti, do fundo de alguma coisa em mim, que aquilo era bom, que era agradável saber que uma pessoa que tinha ficado mal horrores quando terminou comigo, podia se recuperar em paz e ainda gostar de ficar em minha presença. Aquilo era alentador.

A cerveja descia bem, a conversa fluía de forma inimaginável. Naquele momento o show era somente eu e Marcos. Não por um ímpeto de apaixonite que pudera ter se abatido, ou por um querer sexo fácil àquela noite. Era antes de tudo, um gostar que se assentava de modo tão leve que, às vezes, eu me perguntava por que eu estava daquele jeito, tão boba.

Foi naquele momento que eu quis beijar Marcos. Beijá-lo só por beijar, sentir aquela sensação de forma mais junta, mais abrasiva. Ele me olhava de um jeito singular, não era a mesma pessoa que eu tinha namorado. Definitivamente era outro. O show da banda começava, mas a gente nem se atinha. Ficamos imóveis olhando um pra cara do outro durante muito tempo. Até que ele deu um sorriso. Aquele sorriso não estava programado, foi um sorriso completamente desarmador, repleto de um querer não falado, de um querer velado.

Sorri também e me aproximei dele até que o beijei. Ele correspondeu. Não foi afoito, não foi frio, não foi distante. Era um beijo ali, encaixado, medido, esperado. Eu não pude fazer outra coisa. Tive de sorrir. Ficamos encabulados. Olhei para o show e comecei a fingir que estava gostando do mesmo, mas na verdade o que me acometia era uma imensa vontade de discutir sobre aquele beijo, de divagar mesmo se aquilo podia ter sido real, se aquilo de fato havia acontecido. Contive-me e o chamei pra comprar mais cerveja.

Quando voltamos vi que ele estava bem tranqüilo e que não esboçava nenhum sentimento mais vultoso. Fiquei meio decepcionada. Um beijo daqueles tinha que ter algum sentido. Tinha que ser alguma coisa. Tinha que ser mais do que um mero estalar de beijos. Vi que ele pensava em nada. Resolvi arriscar e perguntei o que ele tinha achado do beijo. Ele disse “Bom”. Bom, eu pensava… Bom? Só isso? Apenas isso? Bom? Fiquei meio frustrada. Mas comecei a raciocinar friamente: é, de fato, o beijo foi bom, logo, bom é uma boa resposta, na verdade… bom é uma excelente resposta. Olhei-o e o beijei de novo. Foi bom de novo. Vi que realmente eu não podia ficar falando mais que as coisas eram boas da boca pra fora, porque bom, era uma coisa muito boa.

O show continuava e eu resolvi me enquadrar melhor, comecei a me soltar, bebi mais cerveja, entrei na onda de fato. Eu e Marcos pulávamos, dançávamos, bebíamos e nos beijávamos (e era bom). Nada mais de conversa, nada mais de teorias, só um prazer (bom – se é que existe prazer que seja mau) sendo sentido. Conforme o show ia se findando mais eu pensava em conferir como seria o sexo com ele. Se o beijo já denotava toda essa sensação desenfreada de “bom”, eu queria ver como seria o sexo. Novamente eu não me contive e perguntei se ele queria fazer sexo àquela noite. Ele nem pensou, nem titubeou, nem demonstrou dúvida, respondeu na lata: “quero”.

Saímos um pouco depois que a banda havia acabado seu show. Já havia várias pessoas pelo chão, os cachorros-quentes lotados, o chão imundo, a noite se esvaindo, o sol querendo raiar. Marcos estava de carro e parecia estar com algum sono. A gente tinha bebido muitas cervejas, mas eu ainda estava inteirinha. Quando chegamos na casa dele ele pediu pra eu falar baixo que a mãe dele estava por lá e não queria acordá-la. Entramos no quarto dele e já começamos a tirar a roupa.

Fiquei pensando que não tinha a mínima lógica ficar num lenga-lenga de beijinhos e amassos quando o objetivo era único e explícito: trepar. No começo estava bom, não no sentido do beijo, até me contenho pra dizer se algo está bom ou não agora, é melhor dizer que estava razoável, bem razoável. Mas foi aí que descobri que ele não estava muito acordado por assim dizer. Eu pulava em cima dele, rebolava, remexia, apertava os seus peitos, quando percebi que o rapaz não se mexia muito. Fiquei meio perplexa. Parei e vi que ele não se movimentou um milímetro. De fato, ele dormia.

Sai de cima dele, olhei seu rosto dormindo e fiquei com o mesmo gosto de cigarro pela metade na boca. Pensei comigo mesma e acendi um cigarro. Pelo menos aquele não seria abortado. Fui até a janela do quarto dele e fiquei fumando. O dia amanhecia, o sol já esquentava a rua. Lembrei-me de Paulo. Realmente ele deveria estar um bom tanto desolado. Mas a noite tinha sido tão boa. Uma pena ele não entender essas coisas. Talvez, se ele tivesse ficado perto, ao invés de arranjar uma desculpa qualquer… Mas ah… um dia ele entende.

Bom, pelo menos foi uma noite agradável. Acho que pelo beijo valeu a pena o resto todo. Foi realmente um beijo bom.

Na realidade… Enfim…

Era um quadro fácil: duas loucuras postas no chão. Duas faces desarmadas de razão e quietas em suas verdades. Só havia a luz opaca das velas e uma penumbra leve que amainava uma tensão outrora havida, mas que por hora era somente a ávida constatação de algo rompido com um beijo.

Duas loucuras antagônicas deitadas no chão. O rapaz em mangas de camisa e a moça com uma revelação já pressentida. O rapaz com face de novelo de lã negra e a moça com a cerveja presa em suas mãos. Um quadro fácil, despretensioso. A fumaça dos cigarros rompia a velocidade dos minutos e prostrava a realidade uma languidez, uma lentidão e uma sensualidade tais, que a penumbra parecia acolher tudo o que merecia existir.

Na penumbra havia o umbral para outro necessário beijo. Em cada necessidade atingida, o anseio de que mais outra viesse a ser transpassada. Cada beijo era uma existência tal que transformava as loucuras ao menor estalar dos lábios, ao menor toque dos devires labiais.

Um quadro bem fácil. Ele conduzia sua inexistência a um patamar não previsível. Ela dava forma a inexistência dele e se compadecia de sua dor. E quando o lirismo da madrugada os apanhou de cheio, a loucura pôde fluir tranqüila, sem receios, apenas o elemento mais necessário do quadro. Era a loucura dele sobre as coxas dela e a loucura dela a desenhar caminhos nas costas dele.

Foi durante o sono e por meio da linguagem dos sonhos que a inteligibilidade das loucuras fez-se menos necessária e mais sensível. O braço do braço na barriga da mão do colo outro era mais do que razão, muito mais do que uma condição inerte proposta por duas loucuras, mas a liberdade de uma existência condicionada: inexistir como sombras projetas pela luz de uma vela.

O quadro compunha-se assim, bem fácil. Duas loucuras feitas ao chão, imiscuídas as partes, entremeadas as bocas, lentamente iluminadas. Era a confissão dos sentidos a lhes dar a proposição: sair das sombras e ganhar forma. Na realidade… Enfim… Existir.

Monólogo

“Vida, louca vida, vida breve já que eu não quero te levar, quero que você me leve”

Cazuza

Tenho raiva de tudo! Do tudo e do nada. Do tudo, do nada, do tudo! Tenho raiva de ambos pois penso de mais. Paro, penso, analiso. Estou sozinho, sentado numa cadeira, uma mesa à frente e em cima desta, uma garrafa de coca-cola. Ela me chama. Escuto seus gemidos e sussurros: “Venha, beba-me! Consuma-me, saboreie-me…” — cada vez mais forte — “VENHA, EU ORDENO, EXPERIMENTE-ME, vou lhe proporcionar uma experiência muito agradável, uma sensação de frescor e alívio.” Não! Não irei entregar-me ao capitalismo que você representa de forma gigantesca. Não beberei este veneno, com isto não saciarei minha sede! Um xarope transformado em produto de consumo de massas. Inaceitável, algo que foi produzido para ser um remédio e consumido como um simples refresco.

O quê é que estou pensando? O refrigerante fala comigo? Estou ficando louco, insano, demente! Acho… não sei… penso demais. Eu tento parar de pensar, mais não consigo. Eu tento, não consigo, eu tento, não consigo. Acho que o problema é este. Eu penso em como parar de pensar, o certo o simplesmente parar. Assim… agora eu consigo. … HAAAAAAAA!!!!!!!!!!! Eu não consigo! Será que a loucura chegou? Meu Deus. Deus? Será que Deus existe? Não sei, a verdade é que nunca acreditei nele.

Às vezes penso que tudo é só imaginação minha. Que tudo é um sonho. Essa divagação é engraçada. De quando em vez converso com alguém fútil e este, querendo ser intelectual e seguindo minha linha de raciocínio, diz que sempre pensou nisso, que ele pensa que de repente pode acordar. É por isso que é engraçado, eu penso com tanta profundidade em certos assuntos e pessoas tão merda vêm com essa. Duvido que elas realmente tenham pensado assim. Algo parecido com o que eu sinto pode lhes ter passado pela cabeça. Mas pensar como eu, não.

Só existe o meu pensamento. Vocês são frutos da minha imaginação, assim como eu sou produto de suas mentes. Credo! Isso é estranho demais, a inexistência, o nada. A existência, o tudo. Bateu um vazio dentro de mim agora que me preencheu, uma insignificância. Estou com medo, medo de estar ficando louco, depressivo, psicótico, não sei. Paranóico talvez. Talvez tudo e talvez nada, ao mesmo tempo. No mesmo lugar, em mim. É disso que tenho raiva, do tudo e do nada. Tudo, nada. Nada, tudo. Tudo, nada. Nada, tudo. O nada não existe e o tudo é tão grande que não merece relevância, ou senão, toda a relevância.

Não sei mais o que eu penso. Que saco, só penso. Não paro de pensar. Eu tento, não paro. Eu tento, não paro. Já estou por aqui com a minha cabeça. Realmente por aqui. Acho que se existisse uma maneira fácil, rápida e indolor de morrer, já teria tentado. Mas não sei… tenho medo. Pelo meu medo, sinto amor e ódio ao mesmo tempo. Amo o meu medo e odeio o meu medo, no mesmo lugar. Um medo bobo, estúpido, idiota, medíocre. Assim como eu, acho que por isso o tenho.

Já pensou se eu falasse tudo o que eu penso? Como seria? Vocês iriam entender alguma coisa, eu ia entender alguma coisa? Com certeza iriam dizer que eu era louco. Logo depois seria um crime. Ai que situação difícil. Não tenho coragem de nada. Tenho timidez de tudo, não consigo me expressar direito. Não consigo me expressar, tenho tanto a dizer, mas não sei por onde começo. Acho que o meu carma entrou em coma. Tenho sentido isso ultimamente. Acho que ando vivendo e renascendo na mesma forma, na mesma pessoa. Tudo começou quando eu fiz uma regressão e só me lembrava de situações que vivi nesta vida. Nunca fui ao menos uma formiga. Sempre do mesmo jeito. Nem melhora, nem piora. Acho que por isso não me matei ainda. Nascer da mesma forma de novo! Meu carma entrou em coma, será possível isso? Meu carma está em coma! Num leito frio em uma UTI e o pior é que ele não tem plano de saúde, vai ficar lá até ser mandado embora por falta de pagamento. Eu sinto. Enquanto isso fico aqui morrendo e nascendo na mesma forma.

Sinto uma dor profunda. É minha alma. Ela está se desprendendo do meu corpo. Lá está ela, lá no céu, numa aurora boreal. Lá está ela se divertindo com anjos, borboletas, vaga-lumes, pirilampos, duendes, fadas e gnomos, numa dança frenética. Por que ela fica ali em cima? Vem logo aqui e fica quieta. Agora entendo, ela está me dando um recado. Me falta um caráter mais humano. Sou uma máquina, um autômato, um simples robô. Que funciona de acordo com um ciclo depressivo, depressivo, depressivo… um moto perpétuo melancólico. Isso está errado. O meu carma era para ser um moto perpétuo, assim como o de todos. Mas ele parou, entrou em coma, não funciona mais e para piorar, minha alma saiu de mim, se cansou.

O que eu faço? Se recorro a Deus me sinto hipócrita. No Diabo acredito menos ainda. Penso em Kardec, Alá, Buda. Um dia, num sonho, vi Buda e perguntei: ‘por que penso tanto?’; ele olhou calmamente para mim e disse: “Tudo é dor”. Tudo é dor? Por que ele foi falar isso? Por que ele não disse que eu penso porque as abelhas zumbem. Sei lá, algo assim. Mas, tudo é dor? Se bem que faz sentido. Vivo sentido dores, angústias, depressões…

Sentado aqui eu vejo várias coisas. Uma janela, um poste, um pinheiro, uma roseira, prédios. Vejo muitas coisas. A maioria é inútil, como tudo e como nada. A mesma importância, o mesmo significado. Então nada importa. A luz de agora é estranha ela me toca e sinto coisas diferentes, uma pequena sensação de solidão prazerosa. Sinto vontade de chorar, mas não consigo tirar uma lágrima de meus olhos. Tenho muita vergonha, sou muito tímido. Sou tão tímido que não consigo chorar sozinho. Escuto um barulho de uma bicicleta ergométrica. Alguém faz ginástica, quer emagrecer para o verão. Corpo perfeito. De que adianta? Vai virar tudo comida de verme mesmo. Mas as garotas gostam. Um cara malhado é motivo de suspiros. Quero que todas vão para o inferno! Não adianta nada, já estamos no inferno. E a culpa não é delas, é do sistema. Valoriza demais o corpo. Por isso elas não me dão bola.

É estranho o comportamento de certas mulheres. Quando tento ser engraçado, elas riem por pena, quando tento ser profundo, me ignoram. Estou sujo, ainda não tomei banho. E daí? Se tomo banho agora criaria mil expectativas e teria a certeza de mil desilusões. Ter expectativas é terrível, ainda mais comigo, que nem 0.000001% destas se concretizam. Que saco só me resta pensar. Mas pensar está me deixando louco. Por que eu não consigo viver como certas pessoas que vivem felizes, sem se importar com porra nenhuma? Tudo para mim toma proporções tão grandes que eu não consigo viver sem estar em permanente estado de paranóia.

Para certas pessoas tudo é tão simples. Só contam histórias, inventam vitórias, bebem, tocam violão, cantam, fumam maconha, vivem sem se preocupar com suas insignificâncias. Sem se preocupar que daqui pouco o que fazem completará uma hora de vida e daqui a três anos talvez nem se lembrem o que faziam. Pense bem, quem se lembrará de nós no ano 3457, no dia três de abril às dezessete horas trinta e sete minutos, vinte e cinco segundos e quatorze milésimos? Quem? Tudo é muito insignificante. Queria de repente parar de viver, nunca ter existido, nunca ter deixado uma marca que seja. Ser um nada, nunca ter pensado, era isso o que eu queria.

Ah! Que tudo (e nada) se foda. A galera ta com um dez litros de vinho lá fora…

Metáfora

(ou Do fim ao começo)

Eram umas dez horas da manhã quando chegamos Miguel e eu ao bar. Dispostos estávamos a beber até a queda se preciso fosse. E preciso era. Sentíamos que necessitávamos beber, pois acabávamos de nos encontrar imersos em tristes e melancólicos fins. Ângela e eu, Marisa e Miguel, se é que vocês entendem: fim. Quando um fim se faz presente n’alma, quando ele se consolida é o momento de senti-lo de todas as formas existentes, para se crer realmente nele. O álcool nos dá outra percepção de um fim. Por vezes místicas, algumas dramáticas, outras tantas depressivas simplesmente e numas mais, indiferente até, não se esquecendo é claro das faces cômicas, trágicas ou tragicômicas quando possível.

Dois eram os fins a serem sentidos pelo amargo do álcool: o meu e o de meu amigo Miguel. Duas mulheres seriam condenadas, apedrejadas ou talvez ovacionadas por nossas bocas alcoolizadas. Ou até quem sabe, nem isso.

Pedimos uma cerveja. Sentamo-nos defronte ao mar – havia mar onde nos encontrávamos. Cada um sorveu seu primeiro gole de cerveja como um católico faz o sinal da cruz ao adentrar uma igreja, num ritual sagrado. Estava estupidamente gelada a cerveja, que mereceu um comentário estúpido saído de minha boca:

– Gelada como meu coração!

– Boa! Esta foi muito boa, merece um brinde: os nossos corações antárticos! – Pediu Miguel. E brindamos àquela estupidez.

O sol já dourava forte nossas costas. O mar quebrava à nossa frente em ondas azuis absurdas e um vento sutil balançava os cabelos, a toalha da mesa e até fez voar um guardanapo. Miguel tendo observado o vôo do guardanapo atentamente quebrava o silêncio aéreo do vento:

– Uma vez Vinícius, há muito tempo atrás, você falou do amor como se fosse o mar em um poema teu, me lembro bem, foi num sarau lá na universidade. Metáfora interessante, elegante talvez… embora um tanto desgastada, mas e hoje? Dez anos depois, ainda acredita nisso?

– Se pergunta é porque discorda ou crê mais ainda. Responde primeiro.

– Talvez por causa da bossa, da poesia em geral, sempre acreditei nisso. Mas hoje penso diferente. Vê esse vento que sopra agora? É assim que vejo o amor.

– Fugidio? Passageiro? Fugaz? – Questionei.

– Possivelmente. Fugaz poderia ser a palavra: vento. – Ele olha para o horizonte. – Amor… é o vento que vai em busca do horizonte e se perde em obstáculos medíocres. Uma hora derruba até prédios, outra não atravessa papel e sempre desejando o impossível, nunca se contenta com a existência que possui. Sempre querendo o infinito.

– Não tinha feito tal comparação ainda – disse um tanto pensativo –, faz sentido…

Pedimos outra cerveja e ficamos perdidos em nossos pensamentos. Eu a interiorizar o que Miguel explanara. Miguel com cara de vazio, de horizonte infinito almejado, pensando em vento.

Ao longe o mar dançava em suas ondas. Parecia que o vento se declarava ao mar e este, estremecia em ondas. Ambos querendo o infinito.

Quebrando tal quadro avistamos uma cena, num certo ponto do início do almejar infindo (ou no mar se preferir) acontecia uma cena curiosa. Era uma imagem de dramaticidade cômica: um bombado, desses grandões malhados, subia e descia à água pedindo ajuda. Provavelmente era câimbra. Logo uma multidão se juntou para olhá-lo e dois outros grandões entraram n’água para socorrer. Tiraram-no com dificuldade – ele devia pesar uns cem quilos –, estava inconsciente ao que parecia. Fizeram-lhe uma respiração boca-a-boca. Sobreviveu.

– Será mesmo que me enganei com a metáfora? – Perguntei a Miguel.

– O cara não morreu…

– Eu também não, mas que o mar pode matar pode. Assim como o amor.

– Assim como o vento…

Calamo-nos novamente. Pedimos outra cerveja e a bebemos em silêncio. E a quarta, e a quinta e a sexta. Quebrei o silêncio na oitava:

– Sabe o que escrevi outro dia? Que estava enganado, que o mar não era o amor e sim, que o céu era o amor.

– Essa eu não vi. Explique.

– Na época em que escrevi não sentia que dizer ser o mar o amor era restringi-lo muito. Aí olhei para o céu e pensei: “isso é muito infinito” e, como estava no auge do amor, disse: “o amor é o céu”. Ele te envolve, te dá o ar, te faz viver. É azul – como o mar –, é lilás, é negro, ou seja, é felicidade, é amenidade, é treva. E creio que agora acertei na metáfora.

– É… – balbuciou Miguel um tanto confuso – desbancou meu vento…

Continuamos a beber. Eram cinco da tarde quando tomávamos a vigésima cerveja. Não conversávamos muito durante as horas passadas. Entornávamos diálogos de olhos encobertos por óculos escuros e monologávamos cada qual consigo mesmo. De quando em quando, uma saída estratégica para verter a cerveja no banheiro era o máximo de movimento brusco que fazíamos, quando não, era o esticar de braços para chamar o garçom.

Olhamos para os cascos amontoados ao nosso lado, os quais pedimos encarecidamente que os deixassem ali, como que para demonstrar a todos que aquelas cervejas bebidas simbolizavam a quantidade de lágrimas que não vertíamos por conta de nossos fins tão nobres quanto nossos egos.

Não estávamos de todo embriagados, apenas mais tontos do que o normal, talvez mais por causa da fome – não comíamos desde as nove da manhã – do que pelas cervejas. Pedimos uma porção de carne de sol e dois caldos verdes. Os devoramos rapidamente e decidimos por consenso que era hora de tomar algo mais forte. Pedimos duas caipirinhas só para adocicar um pouco nossas bocas e para iniciarmos com as bebidas quentes.

Tocava um chorinho no som do bar, afinal havia um revival do choro na atualidade e minha veia poética começava a acordar, desperta pela doçura do sopro da clarineta, pelo elegante espetáculo do pôr-do-sol que se produzia aos nossos olhos e pela sutileza do momento que o álcool provocava. Lancei mão de uma caneta e escrevi num guardanapo:

do mar só resta o espelho ao sol

ao vermelho que desponta

às quinze para as seis

do céu só resta ser o amor

e ser negro agora

ser-me luz difusa a um fim

Miguel leu em voz alta. Olhou para o céu e para o horizonte que ardia em hidroxélica paisagem lilás:

– Engraçado não termos pronunciado esta palavra até agora.

– Qual palavra? – Disfarcei.

– Fim. – Respondeu Miguel. – Será por medo de que não paremos mais de pronunciá-la?

– Não sei.

– Será que ela realmente existe?

– Pode ser como o começo. Será que ele existe, uma vez que pelo começo já se começa algo que vai ter fim? Ou talvez pelo fato de que, para começar, já se infere um fim?

– E o que é o fim, senão um possível começo não percebido?

– É… – Despenquei em nirvanicamente, não saber se pensava algo ou não. Olhava o horizonte (sempre o horizonte!) que se entorpecia de negrume e viajava nas notas do bandolim que chorava um chorinho muito triste, mas irremediavelmente esperançoso, como creio ser o chorinho: uma música triste, mas com uma esperança de que por si, por suas próprias notas, a felicidade há de se tornar possível.

Respirei fundo, engoli junto com um belo gole de caipirinha um choro que parecia querer se formar. Olhei a primeira estrela que despontava ao céu e fiz um pedido, recordando minha infância, onde sempre fazia o mesmo pedido. Pedia para namorar uma certa garota que nunca me dera bola. Como eu era (sou) idiota! Dessa vez pedi paz.

– Ainda fazes pedidos à Dalva? – Inquiriu-me Miguel.

– Não consigo parar de crer no mundo que forjei quando criança, ele ainda me é muito caro.

– É difícil nos livrarmos de nós depois de tanto tempo em companhia própria…

Depois desse lampejo psicanalítico começamos a observar que o bar enchia. Vários tipos: grupos em excursão, casais de todos os tipos, boêmios solitários virando uísques e mais uísques, amigos em férias de uma repartição pública qualquer… vários tipos por fim. Olhei a mesa ao meu lado e reparei duas moças muito simpáticas que tomavam algo que, creio eu, fosse Campari.

Uma tinha o cabelo muito negro e curto, quase raspado. Um rosto fino e pequeno com os traços um tanto quanto índios – uma dessas morenas irreais. Os olhos muito negros eram verdadeiras jabuticabas. Mas a boca é que se destacava naquele conjunto, o lábio superior levemente avantajado em relação ao inferior e ambos curtos. Não era uma boca que irradiasse desejo, mas sim lábios miúdos que denotavam paixão. Por fim, era uma morena dessas que não se vê em qualquer lugar: uma beleza que quase incomodava.

Sua companheira era uma moça deveras branca, sardenta, com um rosto comprido, parecia uma nórdica. Os olhos verdes muito claros e os cabelos ruivos, encaracolados e muito grandes aparentavam uma naturalidade não mais vista nos dias de hoje, onde qualquer um pode transformar-se em qualquer um (basta ter os requisitos necessários – $). Ela possuía um nariz tão perfeito que não cri quando o vi e até ele denotava ser natural a ela. Não posso dizer o porquê, mas tudo nela parecia ser realmente dela, nada implantado, pintado ou levantado e ela era imensamente linda.

Repensei minha primeira impressão e conclui que não só simpatia elas possuíam, mas profunda beleza também. Notem que uso o termo profunda beleza, não querendo dizer que estas fossem bonitas, mas sim que superavam tais conceitos, iam ao âmago, às profundezas da estética.

Fora o espetáculo que produziam àquele contraste, de peles, de bocas, de sorrisos; só se inferia um traço comum: as duas vestiam-se muito simplesmente. Vestidos floridos até a coxa, sandálias de couro e comportados brincos e colares hippies, nada de mais, mas um conjunto lindo com toda a certeza.

Olhei Miguel. Ele as olhava. Dei uma risadinha e perguntei:

– Há quanto tempo elas estão aí?

– Não sei. Realmente não sei. Só fui vê-las agora…

– O pior é que eu não olhei muito para esse canto. – Elas se encontravam ao nosso lado, mas do lado contrário ao mar e como se sabe, só víamos aquele horizonte aquático naquelas horas passadas.

– Será que pensam que somos veados?

– Espero que não… ou melhor, sei lá! Nos dias de hoje…

Comecei a reparar que a morena me olhava de quando em vez e eu fugia assustado quando via que ela me fitava, estremecia com aquele olhar. A ruiva também me encarava com um sorrisinho velado no canto da boca. Estremeci mais, meu ego foi às alturas: as duas me observavam!

Depois dessa pequena euforia inicial dei-me conta de que os mesmos olhares endereçados a mim tinham como destino meu companheiro Miguel, contive-me um pouco e perguntei:

– Será que ainda sabemos flertar?

– Não sei… acho que não se esquece. Né?!

– Sei lá, dez anos de fidelidade até de olhos… é difícil saber agora.

– Mas não é possível! Façamos o seguinte: vamos ficar observando mais um pouco, depois a gente age.

– Certo, mas vamos pedir um vinho também. Garçom! – E o garçom veio e nos trouxe a carta de vinhos. Pedimos um português seco que nenhum de nós dois conhecia. Caro, muito caro, mas felizmente aqueles eram dias de bonança e fartura, como nunca existiram antes ou depois.

Começava no palco o preparativo para um cantor que faria um show de voz, violão e mixers em cima de um repertório puído de MPB de boteco que agora, trinta anos depois de quando ele já havia se saturado, nos dava um repertório idiota, cheio de eletroniqueces estúpidas. Olhei aquele violão e pensei que deveríamos pedir para deixar-nos tocar uma música e em seguida a ofereceríamos às duas vizinhas de mesa. Contei a idéia para Miguel e ele se entusiasmou. Decidimos que ele cantaria e eu tocaria. Depois de um desacordo quanto a música – ele queria “Na ilha de Lia, no barco de Rosa” e eu “Rapte-me Camaleoa” –, optamos pela escolha dele.

Levantamo-nos e pedimos gentilmente para deixar-nos mostrar nossos dotes musicais antes do cantor começar sua apresentação. O moço do som não quis ser deselegante com os fregueses que mais lhe davam dinheiro naquele dia e permitiu que nos apresentássemos. Sentei-me à cadeira e Miguel ficou de pé. Tocamos e cantamos a música sem fitá-las. Por certo que só os músicos idiotas cantam olhando para quem se deseja. O olhar só deve vir durante os aplausos, pois assim se ganha mais pontos, afinal o objeto de desejo é contemplado por aqueles que são ovacionados (percebi que ainda sabíamos flertar). E assim o fizemos, declarando afinal que oferecíamos a música às duas vizinhas de mesa.

Voltamos confiantes. Havíamos tocado bem, não desafinamos, demos até um toque intimista à melodia. Estávamos com nossos egos beirando a imprudência. Sorrimos às moças e elas nos sorriram de volta, levantaram e passaram por nós como se não nos tivessem visto.

Àquele momento não entendi nada, senti uma vergonha profunda e fiquei vermelho qual pimentão. Olhei Miguel e ele estava um tanto desconcertado também. Rapidamente pus-me a pensar se teríamos perdido assim, tão rápido quanto foram nossos minutos de sucesso ao palco. Não, não era possível, estávamos confiantes… Cri que iria entrar numa de deprê, mas foi aí que uma voz feminina fez-se ao ar acompanhada de um violão suave:

– “Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder…”.

Olhei para Miguel e não me contive:

– Olha! São elas no palco!

– Não boto fé! Será que cantam para nós?

– Gonzaguinha irmão! Elas estão cantando Gonzaguinha para nós!!

– Não acredito…

E cantavam. A morena cantava e a ruiva tocava. Ambas magníficas, excelente técnica e apuro no toque pessoal. Eu me extasiava.

– “Não dá mais pra segurar: explode coração!”

As aplaudimos de pé, aí então finalmente elas nos olharam. Sentamo-nos e as duas vieram à nossa mesa:

– Podemos juntar as mesas senhores? – Perguntou a morena.

– E também as contas…? – Completou a ruiva.

– Será um imenso prazer tê-las por companhia – disse eu.

Sentamo-nos de maneira que não pensei ocorrer: eu e Miguel um de frente para o outro e as duas também, uma de frente para a outra. Um clima sem graça prostrou a todos e rimos um riso alto, daqueles que exorcizam situações constrangedoras.

– Nos apresentemos, não? – Perguntou a ruiva. – Meu nome é…

– Não! Espere… – Interrompi-a. – Desculpe, mas vamos fazer algo diferente, façamos o seguinte: quem estiver a sua direita escolhe um nome para você e assim por diante. Quando estivermos mais íntimos, se é que isso ocorre, não que eu não o queira, declaramos nossos nomes reais, ok?

– Gostei muito da idéia! – Disse a morena. – Comecemos pela Eli… ou melhor, por ela – aponta para a ruiva – e ele escolhe um nome para ela.

– Bem – iniciou Miguel fitando-a –, esses cabelos, esses olhos. Não sei, vou te chamar, ou melhor, vamos te chamar de Rita.

– Gostei – disse ela –, nunca fui Rita. Rita, Rita. – Ela repetia o nome como se fosse um eco. – Gostei: Rita!

– Agora sou eu. – Disse Miguel olhando a morena.

– Hum, deixa-me ver… que tal Milan?

– Como o Kundera? – Perguntou Miguel.

– Exato! Milan será teu nome. Agora o meu, vamos diga – e olhava no fundo dos meus olhos.

– Iracema.

– Uau! Virgem dos lábios de mel. Adorei! Pegou legal esse nome. Agora é você El… digo, Rita. Escolha um nome para ele.

– Pensei Moacir, quando você falou Iracema, mas não… não combina, esse nome traz muita dor, você não passa isso. – Ela pausou um pouco e depois continuou. – Que tal Menino do Rio?

– Excêntrico, mas confesso que gostei. Me deu até arrepio… – Falei tentando ser engraçado e todos ensaiaram uma risadinha de apoio. – Mi… – quis falar Miguel… – lan? Menino do Rio eu, quem diria?!

Naquele instante tive uma idéia. Peguei quatro guardanapos e escrevi os quatro nomes neles: Rita. Milan, Iracema e Menino do Rio. Sabia que a partir daquele momento, íamos representar um papel cada qual. Coloquei os guardanapos na frente dos respectivos atores e todos concordaram que era uma boa idéia. Olhei Miguel – agora Milan –, e sorri. Tenho certeza que ele compreendeu o motivo de minha risada.

Secamos o vinho e pedimos outro. Suave dessa vez, pois seco só agradava ao paladar de Rita e ao meu, sendo o doce um consenso.

– Vocês estão nesse hotel? – Perguntei.

– Sim. Hoje é nosso penúltimo dia. Só mais amanhã de curtição e domingo vamos embora. – Respondeu-me Rita.

– Pois então hoje e amanhã hão de ser dias de deixar a sincronia dos acasos guiá-las, não? – Perguntei encarando Rita.

– Com certeza – se adiantou Iracema –, o que vier há de ser bem vindo.

– Só uma curiosidade – perguntou Milan –, há quanto tempo vocês duas bebem aqui, digo hoje, nesse bar?

– Creio que chegamos umas duas horas depois de vocês – disse Rita –, porque vimos vocês lá no restaurante tomando o café da manhã e indo para cá.

– Fomos comprar umas lembranças – completou Iracema – e resolvemos vir aqui ver se encontrávamos vocês dois, mas convenhamos… vocês são bem lentos heim?

– Por acaso não nos viram? – Perguntou Rita.

– Não queria entrar nesse assunto agora, porque até a avistarmos, e isso era uma sete horas, nossas cabeças só pensavam em uma coisa…

Calei-me pensando que Milan completaria, mas surpreendentemente foi Rita tomou a iniciativa:

– Deixa eu adivinhar: foi o fim de um relacionamento?

– É tão óbvio assim? – Questionei.

– Só um pouquinho – disse Rita –, o tanto pra sentir o ar de dissabor em suas faces.

Esta Rita tinha alguma coisa de misterioso, um ar bem mais formal do que o de Iracema e aparentava uma sapiência maior que qualquer um de nós. Ainda não sei porque pensei isso, mas tinha quase certeza naqueles instantes. Provavelmente era por causa do seu olhar. Era arrebatador e ao mesmo tempo suave, como se soubesse o que emanar a cada instante, em cada situação.

– Como sabe? – Perguntou Milan, referindo-se ao fato do fim.

– Fora a cara de desengano dos dois, escutávamos a conversa de vocês e ouvimos quando falaram sobre pronunciar ou não a palavra fim. – Explicou-nos Rita.

– Como duas lavadeiras mui atentas! – Acrescentou Iracema.

– E nós, dois burguesinhos idiotas chorando dores de amores! – Riu-se Milan.

Conforme o tempo corria, o papo ia ficando mais amigável, ajudado pelo vinho, pelo bom tempo que soprava uma brisa fresca, pela lua que crescia e principalmente por Iracema que sabia ser muito engraçada. Nunca havia visto uma mulher com tamanha facilidade para fazer os outros rirem. Riamos muito. A noite prometia muita coisa, nem pensava em fim. Tudo parecia começar de novo.

Aquelas duas eram muito especiais, não se encontra uma dessas a qualquer hora e em qualquer local. Tenho certeza de que há dez anos atrás me apaixonaria pelas duas e viveria em constante aflição até que uma decidisse por mim. O engraçado era que naquele momento eu não havia sequer escolhido uma para um flerte mais direto. E mesmo assim, queria que a noite terminasse com uma das duas ao meu lado numa cama, como que para mostrar que mesmo após o fim eu ainda estava vivo, que poderia ter tudo sobre controle mais uma vez.

Eu olhei para Milan e ele parecia dizer o mesmo. O bar já ia fechar e fomos ao banheiro, aproveitei para conversar com Miguel e não com Milan:

– E aí, gosta de alguma?

– Vou te confessar uma coisa, as duas são lindas, inteligentes, interessantes, mas eu preferia ir dormir.

– Não sei. O que ganharíamos indo dormir? E o que perdemos indo?

– Mas e vice-versa?

– É, ta. Vamos fazer assim tentemos nos interessar por uma especificamente, se até as duas não der, vamos embora, OK?

– Eu fico com a Iracema.

– Como?!

– É, já que é assim eu quero a Iracema.

– Tudo bem, tudo bem… acho que a Rita é uma boa companhia esta noite.

Saímos e pedimos uma garrafa de uísque, fomos procurá-las e quando as encontramos elas estavam com uma de vodka em mãos. Rita dizia saber onde haveria um show e que ela colocava todo mundo para dentro. Entramos no carro de Iracema, Milan ao seu lado e eu e Rita brincando de palitinho com a vodka no banco de trás.

Chegamos ao local pretendido ao show, mas não havia movimento algum. Rita desculpou-se, crendo não estar mais certa do dia do evento. Elas então sugeriram uma praia mais longe do burburinho caótico dos centros e nos deslocamos a uma praia a uns vinte quilômetros de onde nos encontrávamos. Não era uma praia muito grande, mas era limpa e bonita. Havia algumas rochas nas proximidades e a água estava calma, mansamente servia de espelho aos céus. Perto de onde estávamos havia restos de uma fogueira, Milan e eu juntamos mais alguma madeira que por perto se espalhava e acendemos a fogueira. Iracema tirava um violão do porta-malas e começava a afiná-lo. Rita molhava seus pés na água. Eu deitei-me ao lado da fogueira e olhei as estrelas, suspirei fundo e me forcei por crer: “a vida ainda é”. Milan sacou de sua gaita e entoou uma melodia deveras melancólica, mas muito linda. Notas límpidas, um som claro, nada de conturbação de iniciante. Com certeza ele estava praticando muito depois de seu fim.

Rita aproximou-se, sentou-se ao meu lado e deitou-se em meu colo. Contemplei aquele rubror capilar e afaguei-lhe os cachos. Iracema acabava de afinar o violão quando disse:

– Tenho uma idéia. Cada um vai cantar ou tocar uma música e depois diz o motivo pelo qual escolheu, OK?

– Boto muita fé – disse Milan –, eu começo. – Ele pegou o violão e começou:

“Eu já esqueci você, tento crer

Nesses lábios que meus lábios sugam de prazer

Sugo sempre, busco sempre a sonhar em vão

Cor vermelha, carne da sua boca, coração…”

Ele cantou como nunca o vira cantar antes. De certa forma entendi o porquê daquela música, mas eu queria ver o motivo que ele daria àquela música. Sabia que quem estava na memória de sua pele naquele instante era Marisa e seja lá o que ele falasse negando isso, seria mentira.

– Uau! Arrepiei até. Não conhecia essa música – disse Iracema em tom de entusiasmo –, quem canta?

– João Bosco, a música é dele e do Wally Salomão – explicou Milan –, eu escolhi essa música porque creio que você pode dizer que vai esquecer as coisas, relegá-las à poeira que se vai com o vento, mas dentro de você, na sua pele, nada se apaga. E eu não quero apagá-las de minha pele.

– Nossa! Profundo… – falou Iracema pedindo o violão –, não conheço muito João Bosco, mas vou tocar uma que, pelo menos para mim, não perde em nada para esta, é mais ou menos assim:

“Já te vejo sair por aí

Te avisei que a cidade era um vão

Dá tua mão

Não faz assim

Não vai lá não…”

Cantou com maestria Chico Buarque. Aplaudimos-na de pé:

– Obrigada! Mas diz se essa música não é bem atual: as vitrines, a luz, a cidade, é só um vão… sei lá, adoro essa música. Acho que hoje, dois mil e dezessete já… está bem atual.

– É uma das minhas preferidas do Chico – disse eu –, se não, “a” preferida. Agora é você Rita.

– Bem – levantou-se de meu colo e pegou o violão –, lá vai:

“Todos acham que eu falo demais

E que ando bebendo demais

Que essa vida agitada, não serve pra nada

Andar por aí, bar em bar, bar em bar…”

Com toda a certeza, essa havia sido a melhor: triste na medida, nem forçada, nem desmedida, nem faltando. Foi o “Demais” mais na medida que já escutei em toda a minha vida. Quase sussurrado, mas ainda assim gritado como uma cantora de jazz dos anos cinqüenta. Genial! Contive-me e disse:

– Nem precisa explicar o motivo. Depois dessa interpretação…

– Eu também nem iria ter mesmo… – disse Rita voltando ao meu colo –, mas agora é você Menino do Rio…

– Hum, deixa-me ver, eu pensava em uma música, seria “Trem das cores” do Caetano, mas pensei outra que, não é que me agrade mais, mas com certeza me marcou a infância. Vou explicar o motivo desde já – me desculpei –, tinha eu uns dez, onze anos quanto me encantei por três cantores em especial: Chico, Raulzito e Cazuza. Minha mãe tinha uns vinis lá em casa e eu os escutava quase todos os dias e uma música me marcou muito, ela é algo assim:

“Perto do fogo, eu queria estar perto do fogo, umbigo de um furacão e no peito um gavião…”

Cantei à capela, sem violão. É óbvio que cantei aquela música em especial não só por me ter feito recordar minha meninice, e sim, pois mesmo com trinta e cinco anos, minha meninice continuara quase intacta. Escolhera aquela música sabendo que o “eu quero ser uma flor nos teus cabelos de fogo” comoveria Rita a ser-me por àquela noite, como certamente ela já era. Assim, necessidade não havia em brincar com o quer dela, mas brincava.

Sentir desejo de a ter realmente eu não sentia, era mais algo de conquista simplesmente, ou de adentrar em relacionamento perigoso só para me machucar e ver o quão vivo me encontrava, pensava em fazer aquela pequena apaixonar-se por mim estando eu indiferente, só para ver do lado de fora o que se passara comigo até o fim que amargava ainda em minha boca. Ah, meu espírito maquiavélico estava prostrando-se em mim, queria ter poder em minhas mãos e usufruí-lo da melhor (ou pior!) maneira possível.

Milan e Iracema levantaram-se e foram para beira do mar, ficamos sozinhos eu e Rita. Ela me olhava estranho, parecia estar triste, mas não uma tristeza de falta de seratonina no cérebro, ou algo como lágrimas de álcool: ela parecia triste por mim. Não me pergunte como sei isso, mas sentia assim. Ela me olhava com olhos de mágoa: cheios de amor, arrependimento, amargura e lágrimas. Algo em mim a deixava triste.

– Você quer ser uma flor em meus cabelos de fogo? – inquiriu-me ela – Ou quer somente brincar?

Engoli o que ela disse e quase ia proferir mais mentiras. Quase lhe disse que ela estava me ofendendo com aquela pergunta, mas me contive. Falei:

– Ia mentir, mas vejo que não merece. Realmente estou aqui como num grande jogo. Há poucos minutos deu-me uma vontade de te ter em minhas mãos, como um bebê, que lhe dá toda a necessidade de amor e cuidado. Queria que você se apaixonasse perdidamente por mim.

– Seu bobo! – Falou Rita já com um sorriso ao rosto. – Não vê que apaixonada eu já estou?

– Como?! – Perguntei visivelmente assustado.

– Não percebe? Desde o primeiro momento em que te vi eu te amo, talvez desde antes, pois já predizia tua existência. – Disse ela ficando cara a cara comigo.

– Você está brincando, não?! Que conversa esquisita…

– Te digo que antes de qualquer coisa, não foi amor à primeira vista. Não creio nestas besteiras. Foi amor à primeira sentida, entende? Assim que te senti, te amei: fácil e indolor. Só doeu agora há pouco, quando senti que me mentia.

– Não estou entendendo… – Pensei que ela estava embriagada, mas na realidade, embora já tivéssemos bebido deveras, ela não aparentava. Então começou a me olhar no fundo dos olhos, parecia querer entrar na minha alma, acariciou minha face e me beijou. Beijei-a também. Entreguei-me. Foi um beijo confuso, intenso. Ela tinha uma boca suave, esse era o termo, não uma boca de lábios macios ou molhados, mas suaves – leves –, e ao mesmo tempo, de uma intensidade tão forte que senti um calafrio na espinha.

De repente ela parou de me beijar, eu continuava de olhos fechados e de boca semi-aberta tentando entender tudo o que passava. Quando abri os olhos, vi um sorriso tão puro que quase acreditei que ela me amava. Deitei na areia e fiquei olhando o céu. Passou uma estrela cadente, tentei fazer um pedido. Não consegui.

– E então? Ama-me agora? – Perguntou ela deitada em meu peito. – Ou pelo menos acredita em mim?

– Não sei, não estou entendendo nada. E também não faço força alguma para entender.

– É, as vezes, não é preciso se entender as coisas – ela falava pausadamente acariciando os cabelos do meu peito. Por vezes só se complica tudo ao meter a razão onde, por momento, ela não merece ter vez. Amo-te. Simplesmente isso basta.

– Sei lá… – balbuciei esta fuga afagando-lhe os cachos.

– Aquilo que você falou um tempo atrás, sobre o amor… acredita daquela forma? O céu, o infinito… até arrepia pensar.

– Sim, a quantidade de mistérios existentes nas profundezas do mar é elevada ao infinito no céu. E amar é um mistério muito grande. Olhe você, por exemplo… embora creia eu – me contive um pouco –, você esteja brincando comigo.

– Assim você me magoa! – Falou ela visivelmente transtornada apoiando-se sobre os meus braços e a me olhar. – Não vê que eu te amo demais para suportar esse tipo de insinuação?

– Não vê que dá medo?!! – Bradei com ela.

– Calma meu Menino do Rio, não quero te assustar, longe disto… só quero demonstra meu amor. Quer que eu lhe dê alguma prova?

– Não precisa…

– Mas mesmo assim eu vou dar. – Levantou-se. – Sabe nadar?

– Sei.

– Dou-te minha vida neste então. – Tirou o vestido e nua foi para o mar. Não entendi nada. Fiquei olhando ela entrar ao mar. Ia adentrando, adentrando… até que sumiu. Assustei-me. Levantei e cheguei mais perto da água. Olhei ao lado e não vi os outros. De repente desponta Rita berrando por ajuda, dizendo se afogar. Hesitei um pouco, mas percebi depois que não era brincadeira e me atirei ao mar. Pensei um monte de besteiras ao mesmo tempo: que uma mulher se atirara ao mar por minha causa, que ela me amava, que ela brincava comigo, que eu era um idiota, que eu que deveria morrer… Quando cheguei até ela percebi que ela realmente havia se afogado, e com muita força a levei até a praia. Meus músculos estavam exaustos e fiquei tonto por instantes. Ela tossia muito e parecia fraca.

– Você é louca?!!! – Perguntei eufórico.

– Desculpa, eu não sei nadar…

– Meu Deus do céu! Por que você fez isso?

– Eu te falei, queria te provar o meu amor. Dei-te minha vida e você a aceitou. Você está a um passo de me amar também.

– Não! Você é louca! Eu nem sei mais o que penso.

Fiquei olhando aquela garota nua, molhada, respingando água, tremendo de frio e dizendo me amar. Beijei-a na boca e ela me abraçou forte. A levei para a fogueira, dei-lhe o vestido e fui ao carro buscar um agasalho para ela e para mim. Quando voltei, ela estava sentada com o queixo sobe os joelhos dobrados e contemplava a fogueira que ainda ardia. Juntei mais alguns gravetos e coloquei também uma tora grande de madeira para aumentar o fogo, ela estava um pouco verde e começou a estalar forte.

– Adoro o fogo. – Disse a ela quando me sentei ao seu lado. – É algo muito forte. – Parei e me recordei de um verso: – “Amor – chama, e, depois fumaça…” – citei Bandeira e a abracei –, tem certeza do que dizes?

– Nunca amei ninguém como te amo agora… cada amor é um amor.

Ela me abraçou e beijou meu pescoço. Arrepiei. Beijei-lhe a boca novamente e seus lábios leves levaram-me a pensar em amá-la também. Que fosse por aquela noite somente, mas amá-la como nunca amei alguém. Foi aí que me lembrei de Ângela. Mulher louca. Mais louca que essa Rita. Ia do amor ao ódio num piscar de olhos. Era assim que eu sentia com Ângela. Ela me amava com o amor mais belo do mundo às segundas e me odiava como o diabo à cruz nas terças e assim se passavam as semanas até que chegava o domingo, dia certo para a indiferença.

Lembrei desse amor louco e fiquei um tanto com raiva de mim. Agüentar dez anos dessa loucura não faz bem a nenhum ser humano. Misturando a essa raiva ouvi essas duas palavras vindas da boca de Rita:

– Te amo.

Tão suaves quanto aqueles beijos que nós produzíamos. Tão leves como aqueles lábios. Tão verdadeiros como seus olhos. Pensei comigo: “acho que a amo”, depois estranhei: “devo estar louco”. Mas depois desdisse: “ah, que se dane, vou amá-la” e a amei deveras. Abracei-a ao meu peito e perguntei em seu ouvido.

– Qual teu nome Rita?

– Elis.

– Nossa… lindo. É o nome da minha terceira filha.

– Você tem quantos filhos?

– Quatro: Gabriel, Ravi, Elis e Lia.

– Não aparenta… onde eles estão?

– Com a mãe.

– Com o fim?

– Justamente. O fim de uma vida vivida, passada e esperada. Ou não!

– Por que “ou não”?

– Porque a vida que vivíamos eu e Ângela, já está dentro de mim, já me faz. Ela não acabou. Ângela já me é.

– Eu não me importo. Sou bissexual mesmo… – E Rita, ou melhor, Elis, deu uma risadinha gostosa e beijou-me de novo. Comecei a cochilar e num clima de sonho, via Elis flutuando e lhe disse:

– Elis… também te amo!

– Eu sei… – disse ela me acariciando a face. – Mas qual é o seu nome?

– Ah sim, é Vinícius.

– Vinícius. – Ela disse meio balbuciando. – Vinícius… Vinícius… – Repetia como um eco.

* * * *

Dormi profundo. Acordei meio zonzo do álcool passado, olhei ao redor e não encontrei ninguém. Sentei-me na areia e percebi então como estava frio. As nuvens encobriam o sol, o mar estava nervoso e o vento forte jogava cinzas em mim. Levantei e fui até o carro. Não estava lá, só vi Milan, ou melhor, Miguel sentado em uma pedra.

– Irmão! Que noite! Que noite! – Bradava Miguel. – Há quanto tempo não vivia uma noite dessas!

– É… – respondi seco. – Cadê as garotas?

– Eu não sei. Saí com a Raquel…

– Raquel? – O Cortei.

– Sim, a Iracema se você quer assim. Saí com ela caminhando pela praia. Trocamos confidências, tocamos violão e gaita. Discuti jazz… você noção disso? – Perguntou-me eufórico. – Discuti jazz! Hoje em dia isso é raro. Cara, estou apaixonado.

– Mas onde elas estão?

– Não sei. Agente fez um sexo louco nas areias, no mar, nas pedras, aí depois eu dormi. Quando acordei não encontrei mais ela…

Caminhamos um bocado e nos certificamos de que nossas carteiras estavam intactas. Confirmado que elas não eram ladras, continuamos a caminhar. Alguns quilômetros à frente, conseguimos uma carona. Miguel não conseguia parar de falar de sua pequena Raquel, tão linda e inteligente e como ele não pudera fazer nada, a não ser se apaixonar. Estava tão empolgado que nem se lembrou de me perguntar como tinha sido comigo. Não liguei. Não estava a fim de falar. Chegamos ao hotel. Só uma coisa se passava na minha cabeça: Rita, ou melhor, Elis.

Fui para o meu quarto e tirei a roupa. Tomei um banho demorado para tirar a areia, as cinzas e o sal do corpo. Quando voltei do banho peguei minhas roupas e vi que no bolso do agasalho havia um bilhete de Elis. Dizia assim:

Meu Menino do Rio Vinícius,

Assim como o amor veio, foi.

Não te amo mais (você já me faz).

Se quiser me encontrar algum dia o endereço está atrás.

Beijos,

Elis (Rita dos cabelos de fogo)

Li o bilhete umas dez vezes. Não acreditava. Olhei o endereço no verso: Salvador. Nesse instante não pensei muito.

* * * *

Metáfora.

Ah viver de mar! Quem dera entrar, nadar, afogar e ficar boiando novamente…

Ah viver de céu! Quem dera voar, cair, levantar, alçar vôo novamente…

* * * *

Peguei o telefone e liguei para o quarto de Miguel. Acordei-o:

– Miguel?

– Fala…

– Arruma as malas.

– Por que?!

– Vamos para Salvador…

Just another day

Aquele dia tudo estava a dar errado. O ônibus meticulosamente adiantado, a chuva no meio do caminho, o outro ônibus quebrado ao longo do percurso, a chuva durante a espera do outro ônibus, o outro ônibus mais que lotado, os dentes sem escovar devido ao atraso, o bêbado a cair no meu ombro, um crente pregando desesperadamente. Enfim, um dia que parecia se perder nele mesmo.

No trabalho um caos normal, o mesmo filho da puta a me maldizer no telefone, o café já findo, a ressaca latejando e o computador – outro filho da puta – me sacaneando. Um dia comum essa parte.

Meio-dia. Correria. Almoço na universidade: fila imensa e desmedida. Dia atípico. Almoço sozinho. Nenhum companheiro saudoso a me amainar os ânimos. Só as mesmas figuras carimbadas de uma intelectualidade acadêmica medíocre.

Peguei minha pasta de soja, que as pessoas insistem em dizer que se chama torta, meu arroz integral e as duas rodelas de tomate e fui comer. Como sempre, nada de farinha ou pimenta. Só aquele suco estranho, pretensamente de goiaba, a amaciar a árdua descida da pasta de soja.

Nada muito diferente até então. Um dia de tudo dar errado, normal. Constatava esse fato quando me deparo com uma figura despretensiosa em minha frente. Cabelos grandes e encaracolados, um tanto molhados, um tanto desgrenhados. Comia devagar e aparentemente num estado catatônico. Cada garfada parecia um divagar sobre o nada. Os óculos grossos e arranhados não deixavam ver ao certo onde estava seu olhar, se a contemplar alguém ou se a se reter no vão dos segundos.

Levantei-me objetivando pegar mais suco e notei sua caneca vazia. Ofereci-me para pegar mais suco. Aceitou. Ao voltar notei sua face quase chorosa. Perguntei se estava bem. Falou que sim. Era uma figura bastante bonita com certeza e sua melancolia trazia algo ainda mais sutil a sua beleza.

Perguntou-me qual meu curso. “Geografia”, falei. Disse-me que era interessante e se iniciou um papo a toa sobre Milton Santos. “Grande figura”, conclusão final. O almoço também se findava.

Lembrei que não havia perguntado seu curso. “Pedagogia”, falou. Sorri no canto da boca. Pensei se teria novamente relações pedagógicas com alguém. Tremi na base. Maria não me era algo bom hoje. Até repensei sua beleza.

Saímos do restaurante e perguntei se fumava. Respondeu-me que tinha cigarro. Tomamos café e fumamos. Notei que sua boca era bem bonita. O cigarro dava ainda outra tez sensual àquela cena. Pouco falamos, olhávamos a chuva.

Perguntei seu nome. “Otávio”, respondeu. Achei que combinava. Foi nessa hora que me recordei que eu era heterossexual. Até então não me havia percebido que flertava com um homem. Estranhei-me. Notei sua barba e seu piercing e me ative: realmente ele era bonito.

Não sabia se estava mesmo interessado nele. Afinal, até onde eu sabia, era heterossexual. Ele começou a me falar que a chuva estava bonita. E na realidade, a chuva estava bem bonita. Recordei-me de uns versos de Drummond: “Maria chuvidia”. Sem sentido algum, recitei-os baixinho, quase para mim. Otávio completou: “E agora Juca? A chuva acabou…” e me fitou nos olhos.

Deu-me um beijo leve na boca e disse: “tenho de ir, a hora é pouca”. Consenti àquele beijo. Enquanto ele se ia, lembrei-me de perguntar: “porque você está triste hoje?”. Voltou devagar, pôs a mão no meu ombro e falou: “terminei com minha namorada ontem e hoje parecia que tudo ia dar errado…”. Sorri e murmurei: “entendo, entendo…”.

Trocamos os telefones, beijei seu rosto e falei: “se preocupa não, o mundo é assim mesmo: humano, demasiado humano” e fui embora.

Quando o dia acabou, deitado em minha cama, constatei: “e o dia nem foi bom”…

Itinerário de uma paixão

A moça estava naquele banco de madeira pequeno, ao lado das crianças debruçadas sobre a rede que as pipoqueava para lá e para cá. Ela olhava lentamente meninos e meninas que ainda eram portadores de uma ingenuidade genuína correndo saborosamente pelo pátio do casarão. Fitei-a por longo tempo, enquanto o sol derretia tudo o que conseguisse pousar. Ela fitava tudo sem se deter facilmente, olhava sem olhar, nem se atinava com o meu atinar. Parecia longe, alhures dali, mas ainda assim, completamente imersa ali.

Era uma moça um tanto morena, calmamente morena, de tez lisa e límpida, de pele brilhante entre sombras e sóis, morena clara claramente de endoidecer. Seus cabelos lisos e pós-curtos caíam pelos ombros nus, como se fossem um colar castanho posto em derredor do pescoço.

Estava sentada em um banco de madeira baixinho que fazia curvar suas costas sem se poder precisar se seria apenas devido à ação da gravidade ou se por teimosia do peso da vida a se abater. As pernas cruzadas dentro da saia branca de florzinha indo até os lívidos pés calçados por chinelinhas, mostravam mais do que seria necessário mostrar. Não qualquer vestígio de roupas de baixo. Não. Nenhuma tara era possível àquele momento. O que surgia do entremear das pernas cruzadas eram panturrilhas redondas, lepidamente redondas, sinuosidade que ia desde as panturrilhas até os ombros nus, passando pelas ancas e quadris. Tudo ali nela serpenteava. Escorregavam facilmente os olhos de cima a baixo, sem nenhum obstáculo plausível, a visão nela fluía.

Havia ainda, talvez antes de tudo, um olhar absurdamente dócil, precisamente bonito, infinitamente azul, indefinidamente possível. Mansamente olhando o mundo, tomando posse de tudo o que pudesse se ater ao seu coração por meio do toque da visão. Seus olhos eram aquela coisa nunca antes vista ou imaginada. Quando por segundos tocavam os meus, abatia-se em mim a sensação de não cabimento e eu esvaecia o olhar até prostrar-se ao chão. Me perdia inteiro, como se chão não mais houvesse e só nuvens se fizessem abaixo de meus pés. Definitivos. Aqueles seriam provavelmente os olhos definitivos de minha existência.

Fiquei ali contemplando ela por uma meia hora de infinitude tal, que não poderia existir mensuração de tempo que desse conta de contar aquele caminhar do mundo rumo ao imponderável. Pensei junto aos meus botões se poderia existir essa tal história de amor à primeira vista. Senti que deveria me abrir às possibilidades e deixar o que a vida quisesse me dar adentrar de qualquer modo. Foi nesse momento que um trem azul desgovernado despedaçou meu coração e minha cabeça em um milhão de pedaços, sem ter noção de que em algum dia pudessem voltar a se juntar novamente. Deixei a entrega condoer todos os rincões possíveis do que eu podia chamar de eu.

Ela entrou de uma vez arrebentando portas, janelas, paredes, tudo o que se encontrava pela frente.

Quando saí do meu estado de frêmito passional, já era noite e as costas do dia viam arder um sol pesado a morrer vagarosamente na paisagem sertanicamente chapadina. Corremos vários e variados a tomar uma cerveja gelada procurando apaziguar o sentido do calor que nos derretia ensandecidos, quando de repente meu corpo sentiu: ela estava chegando. Como numa imagem de milagre, mais do que numa miragem, ela surgiu novamente: emanava um olor de flores frescas, possuía um semblante de calma e olhava o mundo com aquele olhar de que tudo poderia desabar, mas ela ainda estaria íntegra.

Não contive o sorriso em minha face e tudo se fez brisa boa em meio àquele calor de 40°. Ela sentou-se à minha frente e me consumiu com o olhar. Foi um olhar de quem deseja. Não que eu antevisse que ela me desejava, era antes um olhar de quem deseja e sabe que deseja. Eu apenas derretia.

Ela falou amenidades sobre a vida, sobre o mundo e eu não consegui produzir muitos sons que não fossem apenas o murmurar apaixonado e concordante com qualquer proposição. A mesa foi diminuindo, ficando pequena para tanta presença que quando eu me atinei só estávamos nós dois. A conta havia passado dos cem reais, não havia metade do dinheiro na mesa e eu realmente não ligava para aquilo. Só conseguia continuar a concordar e me apaixonar. Era fácil, era doce, essa tanta coisa que o amor faz.

Como o bar havia fechado, propus que passeássemos um tanto pela Lua, até o sono vir calmamente se depositar sobre nossas pálpebras. A Lua estava lenta e pouco movimentada, apenas mais uns dois casais no auge da paixão troteavam enamorados pelos vales e canais.

Lá em cima pousei tímido minha mão sobre a dela e ela aquiesceu com outro toque. Falei pra ela que existia a noite, o breu e mesmo o velado coração de Deus, fazendo minhas as palavras de Hilst, mas insisti que o desejo seria apenas uma asa, sem outro par que fosse necessário para poder voar. Ela passou os dedos em meus cabelos e disse que preferia pensar que a asa só era boa, que assim ela podia se aninhar. Eu sorri longamente para ela e ela, como num espelho, sorriu no mesmo compasso.

Falei pra ela da saudade, como se ficar na Lua eternamente fosse possível para nós dois e burlar a saudade fosse fácil esquecendo-se da distância. Ela me calou apontando a Terra e dizendo: “deixa a saudade e a distância pra quando elas existirem, sente só o vôo”.

Confidenciei que um trem azul havia me arrebentado em cacos pouco tempo atrás e ela me confidenciou que juntou um monte deles e que estavam em seu bolso. Tirou alguns pedaços e me mostrou, vi neles o que era preciso para se re-erguer e a abracei. Ela abriu minha mão e foi colocando caco por caco me mostrando: “olha, toma aqui um punhado de vida, de palavras, de encantamento, de calma, de afeto, de desejo… junta tudo e cola com vontade, eu estou aqui pra te ajudar”. Deitei em seu colo como um pássaro afastado do ninho e deixei uma lágrima de esperança molhar sua perna, tentei falar de algum dia e ela me calou novamente mostrando uma estrela cadente em sua mão. Peguei a estrela e a abracei forte, tentando transpô-la para o dentro do meu peito, quando ela adentrou inteira escutei o barulho da locomotiva acionando e um trem azul vindo cadenciado no rumo da estrela.

A estrela fez-se sol e entrou no trem azul que me veio até a cabeça e ela lá, já no todo da minha cabeça.

Falei-lhe que rasgaria qualquer rodovia para vê-la novamente, disse que ela transpassava qualquer noção de beleza, disse que faria até o que não fiz para que nosso mundo cálido se fizesse. Ela me contou que se emocionava com o meu olhar e eu que era ela quem emocionava todo olhar. Amei-a, pois, com um toque de vistas primeiras e a amei ainda ao lha saber. Dormimos abraçados ali mesmo na Lua, com sorrisos francos e corações já abertos ao fim. Sabedores da distância e pertencentes da saudade, mas não precisávamos falar sobre qualquer coisa, bastava apenas sentirmo-nos presentes um para o outro.

Despencamos da Lua ainda de manhã cedo, caí no meu quadrado de sempre e escutei quando ela pousou em seus morros. Gritei do alto do planalto o mais forte que pude gritar, soluçando a falta por todo o peito e de longe, lá das gerais, ouvi um eco lentamente aproximando-se com um beijo carinhoso no rosto.

Hoje vivemos dessa comunicação primitiva e mágica: eu lanço ventos de acalento e benfazejo daqui e ela me manda faíscas de presença urgente de lá. Encontramo-nos sempre no impossível dos sonhos e nos tocamos ao pousar as vistas nos pores-do-sol.

Espero, sem esperança alguma, o dia que me terá compaixão e me fará revê-la.

Impaciência, nervosismo e duas doses de preguiça

Marta esperava tranquilamente por Caio sentada junto ao balcão. Conversava com Tuco enquanto reparava na foto do Tim Maia que ficava emoldurada junto ao banheiro. Na foto, Tim olhava o bar meio de longe, meio de perto, parecendo que queria sacar o clima do boteco. Pensou longe que a sucessão dos tempos é uma coisa absurda. Esse mesmo bar, àquela época, as pessoas andando com precatas e meias, capangas dependuradas. Olhou ao redor, vários tinham capanga e precatas ainda. O tempo passa, mas a humanidade fica, pensou. E o espaço é só uma aglutinação de marcas humanas sujeitas a uma retroalimentação constante, completou.

Caio estava deveras atrasado. Marta já olhava com um ar de pouquíssimos amigos. De tanto cansaço resolveu pedir uma cerveja. Bebia tentando controlar a impaciência, o nervosismo e um pouco da preguiça. Esse cara nem é tanto assim, mas sei lá, parece ser razoável e tem uma barba boa, meditava enquanto dava uma ou outra olhada para o celular em cima da mesa procurando observar quantas horas seriam. Não tinha cara de quem faria a barba constantemente, Marta avaliava Caio mentalmente enquanto acendia um cigarro, buscando uma forma de estabelecer se tinha feito a escolha certa ao convidá-lo para o encontro.

Ainda fui eu a tomar a iniciativa. Que pelo menos tivesse sido ele. O mané deve estar se achando. Eram frases que pululavam à cabeça de Marta de quando em quando.

No meio do segundo cigarro, Caio chegou:

– Oi princesa, desculpe o atraso, falou Caio beijando o rosto de Marta.

– Tudo bem, nem estou aqui a tanto tempo. Mentiu Marta agora mais aliviada, mas um tanto ainda nervosa e com preguiça daquilo tudo. To aqui nessa, eu que me enfiei e ainda fico impaciente com a situação? Pensou enquanto pediu um outro copo para o Tuco. E o cara nem pede o seu próprio copo? Arrematou mentalmente.

Toda vez que Marta ficava nervosa sentia os nervos de suas mãos ficarem tensos e relaxados ao mesmo tempo. Era uma sensação estranha que lembrava um tremor, mas também parecia uma quentura, o problema era que começava a suar.

– Então, nem esquenta não que eu acho que vou tomar uma coca, disse Caio acendendo um cigarro.

– Você não bebe? Perguntou Marta.

– To dando um tempo. Tava bebendo demais, aí sabe como é, é melhor uma pausa e coisa e tal…

– Claro, claro. Mas você não se importa se eu continuar bebendo?

– Numa boa – Caio falou rindo um pouco – to dando uma pausa, mas não sou alcoólatra não. Não to em nenhum AA ou coisa parecida, se tivesse teria saído com você pra um restaurante, cinema e não para um bar…

– Claro, claro, repetiu Marta em conflito mental se o “oi princesa” inicial seria o mote da conversa ou se o papo ia se conduzir mais pra leveza do “não sou alcoólatra” final. Ela ainda estava com preguiça.

A conversa fluía razoavelmente, o cara no final era boa prosa mesmo, a cerveja descia fácil, o cigarro entrava e saia macio, as ideias se entrosavam. A barba dele era realmente boa, pensava Marta, já se sentindo sem preguiça alguma.

No meio da segunda cerveja, Caio resolveu tomar “só um uísque pra dar uma descolada na garganta”. Nesse mesmo momento vários conhecidos de Caio apareceram, o cara conhecia o bar inteiro na verdade, praticamente todo mundo. Não que aquilo fosse realmente incômodo para Marta, dava até um charme razoável ao sujeito, meio Don Juan, um certo arzinho vagabundo. Sempre aquela coisa das mulheres se encantarem por um anjo decaído, ela relativizava enquanto prestava atenção à conversa de Caio com o dono do bar.

A noite avançava, no amanhã ainda existia uma sexta-feira antes da redenção e o “só um uísque pra dar uma descolada na garganta” já tinha se transformado em cinco. A língua de Caio ficara num tal de grau de moleza que ela desacreditava um tanto, mas ainda assim um certo desejo pelo cara mantinha-se num alto grau de constância.

Ainda era cedo da noite, e o cara bebia bem, quando Marta reparou nas horas percebeu que se ela quisesse algo àquela noite com o maluco era melhor ela se arranjar logo, senão ela corria o sério risco de ficar sobrando na mesa, enquanto Caio trocava ideia com cada ser humano que adentrasse ao bar.

– Mas e então, esse bar tá ficando meio chato, não? Perguntou Marta com um olhar altamente desafiador para Caio e com as mãos pingando de suor.

– É, a gente pode ir pra algum outro lugar melhor mesmo… Concordou Caio.

– Tem um hotel meio vagabundo mas sem manchas estranhas nos lençóis ou nas paredes aqui perto…

– Nossa, esse convite eu aceito com toda a certeza, Caio disse com a língua parecendo o silvo de uma cascavel.

Pagaram as contas e foram ao hotel. O ambiente era bem decadente, ficava em cima de uma loja de tênis e a escada que dava acesso à recepção, que se constituía apenas de uma singela mesa, tinha uma luz parca que falhava. Quando chegaram à recepção o cara que cuidava dos quartos quase soltou um “Caio, a quanto tempo…”, mas se controlou assim que viu a cara de poucos amigos de Marta.

Entraram no quarto com um abrasador senso deslocalizado de não reparar em nada. O cara tem uma pegada boa pelo menos, Marta internalizava o processo querendo vencer o nervosismo ou a impaciência, afinal, preguiça naquele momento não havia. Rapidamente estavam nus, ela por cima dele, corpos arfavam num quarto vagabundo e desejavam um ao outro.

Puts, tava precisando mesmo disso hoje, Marta se agraciava enquanto percorria lentamente o corpo de Caio.

– Esse hotel só podia ter um isolamento acústico melhor, não preciso de forma alguma ficar escutando essa professora de orgasmos aí do lado, disse Marta esperando uma risada ou um “não esquenta com isso e presta atenção aqui”, vindo forte e bruto de Caio enquanto lhe agarrava. O estranho foi que nada aconteceu, o cara nem ao menos deu um sorrisinho. Ciente do que poderia ter acontecido, Marta olhou para o rosto do sujeito e viu a merda que acontecera: Caio estava dormindo.

– Puta que pariu, que merda, sentenciou Marta.

Marta ainda tentou em vão dar uma sacudida no cara, mas Caio apenas começava um ronco baixinho, meio tímido ainda. Com certeza aquilo viraria uma motosserra a qualquer hora, pensou.

Com a calma que Deus lhe deu, foi até o banheiro e tomou uma ducha enquanto resolveu algumas questões que haviam ficado em fulgor em seu corpo. Saiu do banho, fumou o último cigarro do maço de Caio olhando pela fresta do outdoor que tampava a visão da janela e maldizendo seu processo de escolhas, vestiu-se e saiu. Caminhou um bom tanto à esmo procurando internamente o seu processo bruto de novo. Sem autopiedade Marta, dizia de si para si.

Entrou no primeiro boteco que encontrou. Só tinha uma mesa com dois casais e um sujeito barbudo com um simpático ar de melancolia de fim de noite sentando junto ao bacão assistindo de rabo de olho o programa do Jô que começava. O sujeito passava freneticamente a mão na barba. O cara parece que tem piolho nessa barba, pensou Marta enquanto ficava de pé junto do balcão. Pediu uma cerveja. O cara que estava ao lado olhou para ela e disse:

– Sabe quando o que resta de uma noite é a sensação de que ela se resumiu a umas três míseras coisas?

– Quais seriam? Perguntou Marta fazendo com um sinal se poderia pegar um dos cigarros do maço que estava no balcão.

– Impaciência, nervosismo e duas doses de preguiça, disse o cara puxando um cigarro e entregando-o para Marta.

– Por que isso me parece tão familiar? Perguntou Marta enquanto acendia o cigarro e com um sorriso altamente controlado no canto da boca.

– Você poderia me explicar a sensação, que eu avalio se é algo próximo ou não, senhorita… Deixou no ar o cara, esperando que Marta completasse e passando os dedos no bigode.

– Marta.

– Muito prazer Marta, impaciente Paulo ao seu dispor, retrucou o cara enquanto servia Marta.

– Impaciente?

– Bom, desde já muito mais nervoso e com um pouquinho de preguiça, do que impaciente…

– Bom, Paulo, deixa só eu molhar o bico que eu te conto então, disse enquanto soltava um leve bocejo e sentia os nervos das mãos se contrair e relaxar ao mesmo tempo.

I Ching pela manhã

A poeira e os fiozinhos quando flutuam no ar em contraste com o despejar calmo do sol ao céu, trazem sempre aquele saudosismo estranho de que algo não fique do jeito que está, mas sim como já existiu em algum modo. A lentidão da manhã que os conduz estabelece algo ainda mais saudoso, mais distante. É como se o passar dos segundos confundisse-se com as partículas em suspensão e produzisse a própria lentidão, está que é a própria constatação da saudade.

O mundo de dentro de casa desanda em desalinho com os segundos do mundo do lado de fora. Há a ausência de si e de tudo. Só as partículas que se movem estaticamente no ar parecem ter vida, ter vez e, talvez, até voz. Dialoga-se com as partículas suspensas e brilhantes e elas falam uma língua muda, escrevendo palavras no ar, hieróglifos etéreos que se alteram a cada segundo.

Cada frase dita é uma verdade absorvida e ruminada pelos neurônios. Cada palavras perdida entre uma molécula e outra de oxigênio e gás carbônico é apenas mais uma partícula em movimento desalinhada, a percorrer um descaminho.

As verdades todas cabem dentro de partículas aleatórias, que mudam de trajetória a cada segundo. É como se o que fosse necessário saber seria apenas a irregularidade do traçado das partículas para daí, prever o futuro. Mas o que importa são as coisas que já existiram em algum modo. As que cabem realmente.

Acorda-se das partículas brilhantes e em suspensão facilmente: basta a consternação de uma melancolia qualquer que arrebata toda a possibilidade de que as coisas caibam em algo. Querer. Basta querer bem simples e sem engodos que se seja as próprias partículas. Talvez sendo apenas partículas possa-se caber melhor e de fato em algo.

Harry

Harry sempre usava os mesmos caracteres para escrever suas notas. Tinha esse apego por uma forma de letra que nada mais era que seu passado tão quisto e nunca vivido. Reminiscência do não acontecido no talvez uso de uma máquina de escrever. Quando colocava uma palavra ela saia como se fosse um documento de repartição pública na década de 1960, pura nostalgia desmedida e não concebida. Cada palavra ganhava a forma de uma dor que nunca tinha se passado e, mesmo, nunca havia sido.

Harry digitava sempre com a mesma fonte, usava sempre os mesmos símbolos e começava sempre com a mesma intenção: dizer algo especificamente a alguém. É certo que de quando em quando ele pensava em utilizar artifícios para que as palavras pudessem ser lidas por outras pessoas e que também as trouxessem algo mais que o percorrer dos olhos por sobre algumas letras à toa. Dissimulava palavras para todos enquanto transmitia sua verdade para alguém.

Harry não sentia neste fato o ato mero de ser mentiroso, afinal, escrevia simplesmente e de fato e se a alguém caberia mais que as particularidades da ligação da palavra à mente, isso não cabia a ele. Constatava esta proposição, mas não lhe competia a autoridade de se ater a ela, pois que escrevia também e somente.

Harry no fundo era um escroto, ao que sabia que o que quer que ele escrevesse seria filtrado como bem aprouvesse a quem lesse, já que todos e todas são ilhas a milhas de uma coerência num mar pleno de inteligibilidade. Sabia disso e dissimulava tantas vezes não saber. Escolha própria mesmo, daí não ser nem tanto um escroto, pois que se assumia, mas sim um louco, já que tal moralidade escapava a um aceno maior com qualquer intenção de manter-se íntegro.

Harry escrevia então para alguém. Alguém que poderia ter ficado para trás em alguma curva estranha, alguém que poderia ter se instalado sorrateiramente sobre seus devaneios, alguém que talvez nem existisse, mas que lhe marcava a presença de seu próprio ser no estado de então. Alguém com letra maiúscula: Alguém. Diferia do ninguém pelo fato mesmo da não existência não cabida e até mesmo por uma significação desmedida. Alguém que separava o objeto de sua escrita do resto do mundo e que já permitia para ele que classificasse o mundo de sua escrita em Alguém e Não-Alguém, dois pólos como no ímpeto – quase? – humano de estabelecer dualidades e dicotomias.

Harry entendia então que sua escrita baseava-se agora em alguns pressupostos: os caracteres de nostalgia, a dissimulação aos outros e outras, a – má? – intencionalidade de um escroto talvez louco e a destinação a Alguém. Já havia mais que um quê de motivação, havia a própria escrita neste então.

Harry passava para a parte mais primordial, quase que a essência de todo o fato. Harry buscava o quê dizer. Já havia prospectado toda a sua consciência na ânsia de trazer à tona o sentido e o significado de seus caracteres nostálgicos, mas perdia-se no ato mero de elucidar seu ímpeto de escrita. (A inconsciência então era domínio que nem se sonhava adentrar.) Suas letras escureciam-se no ocaso das linhas e ficavam pejadas de matéria inerte. Talvez tivesse fincado-se no mesmo lugar que a (in)definição de Alguém, na mesma curva estranha, mas talvez fosse o tanto que se dizer que o cegava a ver o além. Talvez o tanto (in)definisse os códices possíveis e não permitisse a dualidade do específico e do total, do particular e do universal.

Harry constrangia-se por não conseguir preencher o vão das letras, por ficar na intenção e na existência mera do ato de escrever. Harry queria ir além de seus atos e significar tudo para além dele mesmo, queria ser meta, ser para, ser trans.

Harry escreveu, por fim, assim mesmo: só ato, só fato – de fato –, só letras com caracteres saudosos, só intenção, só a escrita turva para Alguém. Harry escreveu e pensou que pelo menos isso lhe aliviasse a existência por alguns segundos. Conseguiu um bom tanto, desejou o imponderável e alcançou o que o ligava ao perdido do não vivido.

Harry sorriu ainda uma vez. Talvez Alguém também.

4176. Ficar e gritar

Faz assim. Fica e grita. A situação já está p

ar

a lá de tensa. Ir não vai adiant

ar .

Fic

ar

vai ser como se houvesse uma p

ar

tida p

ar

a bem próximo. Então, fica e grita. Mas grita bem alto. Grita p

ar

a que o mundo todo te alcance. Grita p

ar

a que nada mais possa fic

ar

entra-
vando o mundo. Grita até que suas cordas vocais se estilhacem e você fique sem voz, sem vez, sem nada e que fique.

Fica p

ar

a que o alumbramento do mundo possa servir aos seus interesses. Se entregue ao gosto pes

ar

oso do interesse pelo fic

ar ,

pois aqui é o reino do céu. Aqui é o mundo do reino encantado dos céus. Aqui é o céu. A gente mora dentro do céu e ele tem gosto de fogo queimando plantas no mês de junho. E ele tem gosto de fumaça. E fica. E se quiser grita.

Faz assim… Fica… Se precis

ar

grita. Mas não pega um ita no norte. Fica como ita firme cá. Fica como um belo pirá dentro do m

ar .

Se falt

ar

ar

eu vou est

ar

aqui p

ar

a lhe
ajud

ar.

Não vou te deix

ar

na π

or. (not to be)

Pode parecer estranho o que eu digo ou como eu digo. Mas diga que fica. E, se precis

ar ,

grita.
Mas não vai. Ainda.

Dos que vagam no meio da noite

Olhei-o disfarçadamente, de soslaio. Desavisadamente. Não queria que percebesse meu interesse. Olhei seu semblante cansado, havia ainda aquele ar de tristeza, mas não era mais o mesmo de antes, aquele ar de tristeza infantil, bobo. Agora era um ar destruidor de tristeza. Essa nova tristeza lhe entumecia a masculinidade. Outrora sua tristeza o amolecia, dando um contorno flácido à sua constituição. Agora era algo bruto. Talvez essa tristeza houvesse se aglutinado a um certo rancor ou a uma mágoa e nesse momento se ajustava em torno de uma superfície árida, sem fluidez. Seu rosto estava desértico e até a cor lembrava areia, só que sem qualquer minúsculo cristal de quartzo a reverberar alguma luz.

Ele não havia reparado que eu o olhava. Estava longe, longe, léguas. Não tanto ali, eu dele e ele de mim, mas de qualquer coisa, parecia ausente. Levava uma lata de cerveja à boca mecanicamente, intercalando um gole e um trago num cigarro. Aflitivamente descompromissado e perdido. Provavelmente não ouvia a música, a banda, o show. Parecia que a única coisa que lhe acometia era aquela tristeza. Retumbante. Agressiva e longe. Descompassava os pés com um pretenso ritmo que não ouvia.

Parei a poucos metros dele, queria e não queria olhá-lo. Fazia muitos anos. Será que eu ainda fazia parte daquela tristeza? Certamente algum tanto, ninguém passa incólume por um amor. Será que ele ainda era ele? Certamente não mais algum tanto, os anos atravessam alma e pele.

O pouco das nuvens no céu desmanchavam-se esfumaçando os tons violáceos do horizonte. Um frio outonal apavorava os meus ossos e o casaquinho verde de linha pouco me bastava. Um tremor percorreu minha espinha, talvez pelo vento, talvez porque pensei que os olhos dele me buscavam. Virei de costas e andei. Não queria beber, mas o impulso me conduziu a comprar uma cerveja.

Demorei delicadamente em cada ato: num tom alegre e de intimidade perguntei qual cerveja ela tinha, indecidi-me, pedi a de sempre, quanto é, mais barato, vai? sei, entendo. Abri a bolsinha de moedas com estampa da Índia. Ele que havia me dado. Quantos anos… Que bolsa boa. Paguei, abri minha cerveja e bebi, lentamente, quando me virei, ele não estava mais lá.

Minha mente se acalmou por não mais vê-lo, mas aquela sombra de que agora era ele que poderia estar me observando me arruinava a naturalidade. Media cado ato meu, minuciosamente, na intenção de que, se ele estivesse a me olhar, visse apenas o ondular da leveza que existe e insiste apenas em ser verdadeira. Havia um desejo secreto em mim de que ele ficasse mais triste ao contemplar a minha altivez genuína.

Mas, inadvertidamente, eu ainda o procurava nos cantos, de esguelha, percorrendo cada rosto na multidão. Não o encontrei. A poucos metros, avistei Rebeca, fui até ela e por lá fiquei, ainda catando rostos ao longe, sem vê-lo em canto algum. No fim do show peguei o carro sozinha, não dei carona pra ninguém. Numa calçada mais à frente foi que o avistei de novo, caminhando no meio da noite, sozinho, ainda com aquela novidade de tristeza. De fato eu já não o conhecia mais, podia ser qualquer pessoa agora. Certamente, era. Parei num semáforo, ele ficou quase ao meu lado. Não se virou, apenas continuou caminhando, suspirando profundamente, olhar fixo no horizonte adiante.

Alguém atrás buzinou pra mim, o semáforo ficara verde e eu não havia saído. Caí em mim e parti, ainda a tempo de vê-lo mais uma vez. Muito tempo se passara. Era apenas um desconhecido no meio do noite, indo do nada pra lugar algum.

Doce julho

Naquela época o ápice mesmo era fazer carrinho de rolimã. Silas dominava uma técnica apurada de produção. Vivia mentalizando projetos. Sempre perambulava em meio aos montes de entulhos detrás do colégio e da igreja, atrás de matéria-prima para a fabricação de seus carros, disputando espaço com vários moleques e algumas ratazanas em mamonais imensos. Um resto de velocípede era sempre valioso, pedaços de madeirites ou compensado só precisavam de uma lixada, banquetas quebradas podiam ser serradas, um pedaço de plástico podia se reverter em um bom aerofólio, tudo, enfim, podia ser utilizável de algum modo.

A época era julho, todos os moleques de férias, o céu azul muito louco, vento, pipas, cerol escondido da mãe, lâmpadas queimadas disputadas a tapa, passeios pelos bambuzais da erosão pra pegar vareta, mesada em papel de seda e linha 10, goma de polvilho pra selar.

Julho sempre representava uma redenção de algum modo: no meio do ano, enquanto todos trabalhavam, apenas os moleques dominavam as ruas. Jogo de bete em várias, golzinho com sandália, queimada e sua invariável aproximação inter-gêneros.

Vários redemoinhos iam e vinham lançando uma névoa castanha nos olhos. Sempre passava o tiozinho levando algumas vacas e bezerros pras chácaras atrás do asilo, onde, nessa mesma época reuniam-se várias crianças para roubar cana ou jaca.

Junto a julho ainda tinha aquele gosto bom das festas juninas que naquela época se realizavam apenas em junho: bombinha, traque, quentão escondido, correio elegante, cadeia do amor, sair vagando de quadra em quadra, conjunto em conjunto, atrás de uma festa junina displicente. E quando julho chegava sempre havia em quem se pensar: a doce flor de ipê da escola que só veria daqui um mês ou a rosa vermelha que quis lhe conhecer na quadra do colégio durante a grande festa junina – a da igreja.

Julhos: quentes de dia e frios de noite. Vento na medida. Batata na fogueira. As noites em volta das fogueiras eram sempre diferenciais. Os mais velhos deixavam os mais novos ficarem ali, enquanto diversos ensinamentos eram disseminados: a arte de ver prima pelada no banheiro, a dose de traçado pra espantar o frio, como zoar bem zoado um amigo, um cigarro estranho que rolava de mão em mão, um partilhar de mundo calmo num beco qualquer.

Silas amava os julhos, era apaixonado por Helen e Karen – “seria o ‘hein’ do final?”, ele se questionava –, e gostava mesmo de fazer carrinhos de rolimã. Seu melhor amigo Wesley – Nego, como preferia – estava sempre junto nas incursões que fazia aos entulhos e aos lixões. Cada viagem era uma aventura botânica (guerra de mamona), zoológica (guerra de tanajura), geológica (guerra de pedra), geográfica (polícia e ladrão, que sempre acabava em alguma dessas guerras).

Certo julho Silas e Nego resolveram fazer “o melhor carrinho”. O objetivo era levar “o melhor carrinho” para a corrida de carrinhos de rolimã, cujo trajeto se iniciava no início da quadra, ao lado da Banca do Seu Toinho e acabava na pista do colégio, totalizando quase 800 metros. A construção do carrinho foi primorosa, foram necessárias mais de seis incursões aos entulhos e lixões e ainda algumas invasões às obras do hospital em construção para conseguir toda a matéria-prima.

Depois de uma semana intensa de trabalho, “o melhor carrinho” estava pronto para testes. Nego e Silas brincaram o dia inteiro e concluíram que “o melhor carrinho” estava pronto para a competição. Na sexta-feira marcada estavam lá os dois, prontos a provar que eram os melhores projetistas de carrinhos de rolimã. Nego com uma blusa de goleiro do Botafogo, calça de moletom e uma joelheira que ele tinha achado no lixão colocada no joelho esquerdo. Ele seria a força-motriz do carrinho, ou o cara que dá o empurrão inicial. Silas usava um penico na cabeça – que encontrara no lixão e ao qual insistia haver lavado bem antes de usar – e resolvera ir sem camiseta “porque estava muito calor” no dia. Ele seria o piloto d’“o melhor carrinho”.

Havia seis carrinhos na disputa mais um patinete de rolimã – novidade na competição àquele ano. Quando foi dada a largada Nego empurrou com toda a velocidade possível seu amigo Silas dentro do carrinho, e “o melhor carrinho” logo tomou a dianteira. A direção de Silas com os pés era perfeita, desviara das britas no meio do caminho, escapara da cratera na pista do lado do colégio, já vislumbrava a vitória certa. Nos metros finais escutou um “Vai Silas!” muito forte e doce vindo do conjunto “E” da quadra. Ao olhar pra trás viu que era Karen que acenava e torcia. Naquele momento se sentiu o rei, com a vitória na corrida e o coração de Karen nas mãos. Perfeição maior só se conseguisse dar finalmente um beijo de língua naquele dia. O problema foi que a virada pra olhar Karen impossibilitou que visse a segunda cratera que havia na pista, do lado do armarinho Big Amor e que o prostrou ferozmente com a cara no asfalto, possibilitando apenas que ele visse a dupla da quadra 22 ganhar a corrida. Todo estatelado no chão, Silas pensou apenas que tudo doía pra caralho. À sua frente estava “o melhor carrinho” destruído e seu amigo Nego falando “porra, que diabo foi isso?!”.

“Tudo bem com você?” a voz doce veio de novo, “tudo” Silas respondeu. Era Karen que lhe ajudava a levantar. “Se apoia em mim que seu pé ta bem machucado”, ela disse. Saiu dali mancando e apoiado em Karen, enquanto Nego resgatava os pedaços do carrinho e dizia “a gente não ganhou a corrida véio, mas tu voou bonito, hehehe”.

Depois daquele dia as coisas mudaram um tanto. Na mesma noite, já de pé enfaixado, Silas foi até a quadra atrás do colégio encontrar Karen. Não deu seu primeiro beijo de língua, mas ficou a noite toda conversando com ela. Foi naquele julho que Silas compreendeu que havia feito uma escolha, no outro julho já não fez mais carrinho de rolimã, passou quase que todo o mês com a alma pós-festas juninas e rosas, margaridas, crisântemos, jasmins, flores de laranjeira, começaram a lhe subir cotidianamente à cabeça.

Descampado d’alma

A coisa não estava nem tensa nem difícil, nem amena nem tranquila, nem

nada nem além, mas ele queria saber algo um tanto sobre o que acontecia em sua vida.

Foi Júlia foi quem avisou, Marcelius é muito bom passa lá que ele fala tudo. Foi.

Chegou lá com a cara blasé de sempre aquele olhar de peixe caído observando a

quantidade infinita de enfeites que adornavam a casa de Marcelius, centrou a mirada

numa carranca enorme posta do lado do batente esquerdo da porta, lado oposto ao

vaso com a espada­de­são­jorge. Marcelius atravessou uma porta que dava para um

quartinho cheio de velas. Ele teve tempo de ver umas cabeças de bonecos dentro do

quartinho antes que a cortina de miçangas se fechasse num balanço sincopado. As

cabeças pareciam de cera se derretendo. Marcelius sentou­se à mesa, era um sujeito

corpulento, com um sem fim de tatuagens minúsculas naquele tom cinza aquoso de

cadeia em cima dos braços, uma camisa de seda vinho aberta até o umbigo, uma

barbicha de bicheiro e um sem número de colares, pulseiras e enéis, todos muito

prateados, muito dourados, muitos. Marcelius esfregou uma colônia de cheiro

extremamente doce nas mãos, na cabeça, no rosto e no peitos e ainda jogou um

punhado para trás. E então meu filho qual é a contenda, perguntou Marcelius, é amor,

trabalho, inimigo, saúde, qualquer coisa a gente trabalha. É tudo disse ele. Quero

saber tudo. Mas tudo é tanto meu rapaz. Sei que é. É que tem essa coisa que rodeia

que eu não sei bem o que é como é e pra onde vai. Menino tu tá mesmo é perdido,

vamos abrir essas cartas, acho que depois uma obrigação pra Omulu pode resolver ou

quem sabe um pedido pra Oxalá abrir os caminhos e te colocar nos eixos.

Em cima de um pano de seda vermelho que tinha um cheiro misturado de

perfumes vários, Marcelius começou a embaralhar as cartas. Quer colocar o nome de

alguém? O meu. Só o seu? Só. Menino egoísta esse, tudo bem, qual o seu nome? Paulo.

Pensa bem no que te aflige e corta o maço em três partes. Qual monte? O esquerdo. A

Casa de Deus, eita. Na sequência veio o Diabo, a Morte e o Louco. No meio Marcelius

colocou a Lua. Num tá muito bom não, viu? O que? Tudo. Sabia! Espera um pouco,

pensa assim: os desígnios de Deus são muito grandes e te colocaram nessa situação

incontrolável, você não é responsável por tudo estar assim, mas o problema foram

essas tentações do mundo mundano, os pecados, as vontades – sexo demais, heim meu

filho? – todas essas coisas que passam, acabam, findam e só dão retorno muito tempo

depois – quando for pra debaixo da terra e virar verme, não é menino? E você sempre

se perde com sexo garoto! Meu pai, como você se perde, menino fuder é bom, mas não é

tudo! Marcelius falava e fumava um Dunhill atrás do outro, ainda molhava o bico de

quando em quando com uma vinho tinto Canção, ria muito de algumas coisas que

pensava internamente e, trejeitoso, deixava as pernas relaxaram­se por debaixo da

mesa até, surpresa, tocarem as de Paulo.

Tantos caminhos, né? Tantas coisas, tudo meio aleatório – mas pro projeto do

Maioral tudo tem um encaixe, mesmo parecendo tão louco. E o desfecho, ah o desfecho,

você vai se iludir de novo. Cair nas graças do que parece ser mas não é mais uma vez,

talvez, você sempre vá buscar isso: a insensatez da ilusão. É só isso, então? É meu

garoto, eu se fosse você fazia uma oferenda pra Oxalá, pra ver se ele te guia pra

alguma coisa mais certa, menos tortuosa. E como faço isso? Ah meu filho, anota aí:

canjica branca, mel, rosas brancas e um alguidá número três de louça, me traz napróxima sexta e anota os pedidos que você quer que aconteçam. Ok, quanto devo?

Setenta pelas cartas, a oferenda vai ser mais 200. Tudo isso? Sem sacrifício não se tem

pedido atendido meu garoto.

Ele colocou os setenta num pires que estava em cima da mesa como indicara

Marcelius. Pensou que aquele ato era meio psicanalítico, não pegar no dinheiro e fazer

com que ele pensasse naquilo tudo. Quer mais uma carta de conselho meu filho? Pode

ser. A Roda da Fortuna garoto, só se lembre de uma coisa: nem tudo que reluz é ouro…

Saiu de lá com aquele tanto de coisas na cabeça: a ilusão, os pecados, as

vontades, volições, carne. Na parada de ônibus a moça com o shorts torante fazia ele

pensar mil bocados e imaginar como seria uma punheta vindoura. Tentou guardar

bem a imagem do top e dos shorts, torantes, para se lembrar mais tarde. É melhor que

fique tudo na cabeça, não é mesmo? Pensou de si para si. Depois do gozo, o

arrependimento, mas pelo menos taí, uma imagem na cabeça. Num rompante,

lembrou­se de que não tinha esse apelo todo em si ao sexo, mas, como o dito das cartas

não se contradiz, só se incorpora, saiu feito assim mesmo, coisa sexual plena.

Entrou no ônibus e ficou pensando naquilo tudo que vivia, que não era nem

tenso nem difícil, nem ameno nem tranquilo, nem nada nem além. Olhou pro horizonte

e viu aquelas nuvens que pairavam com sinais plenos de que iriam despencar borrando

de cinza a linha do céu. Deus deve estar aí, deleitando­se com seu big brother

particular. Será que os satanistas tem razão? Talvez Lúcifer tenha tido mesmo ideias

interessantes acerca da mente perversa de Deus e tenha tido apenas a inclinação de

querer iluminar as pobres criaturas humanas para o horrível teatro que havia sido

milagrosamente criado apenas para a satisfação de um nome: Deus. Se há alguém

demasiadamente humano, esse alguém é Deus, nossa imagem e semelhança. Cessou

os pensamentos um pouco, ficou torcendo para lembrar de tudo isso que pensara e

procurar alguma coisa sobre tudo isso na internet. Fechou os olhos um tanto e fixou o

olhar no horizonte da memória que se abaulava em dois montes, todos torantes.

Logo que chegou em casa Júlia ligou. E aí? E aí moça, de buenas? Tranquila, to

te interrompendo? Não, minha punheta eu bato depois. Ai seu escroto, que merda…

Merda não, o orifício é outro, bem menor, inclusive. Tá bom mestre da escatologia, só

me diz uma coisa, foi lá no Marcelius? Fui. Ah, e aí, me conta… Ah, sei lá, nada de

mais ou de menos, só aquela coisa toda mezzo teoria psicanalítica, mezzo auto­ajuda a

la Ana Maria Braga, mezzo macumbeiro. Porra, ele não falou nada legal? Porra, se

dizer que minha vida é uma grande ilusão é uma coisa legal, então, Buda já havia me

cantado essa pedra tempos antes. Mas ele só falou isso? Só. Disse que eu gosto muito

de sexo também. Não falei que ele acerta. É, mas a pergunta é, QUEM não gosta de

sexo realmente? Sei, sei… Mas ele não te falou mais nada? Ah, disse que eu tinha que

fazer uma oferenda pra Oxalá. Legal, talvez seja bom mesmo, tu tá muito esquisito. É,

legal só se for pra ele e pra Oxalá, porque eu vou ter que desembolsar 200 mangos com

a brincadeira, sem contar o mel, as flores e coisa e tal. Num é brincadeira cara, num

zoa com os orixás assim… De fato, foi mal, mas, enfim… Não sei se quero fazer isso,

não botei muita fé nesse cara com essa parada de vudus. Orixás! Voduns são outra

coisa…. Tá, tudo bem, enfim, não botei fé e, além do que, tudo o que ele me disse eu já

sabia, não me acrescentou muito. Ai meu, procura então outra pessoa, tem a Bela daborra de café… Ih, essa daí eu já fui algumas vezes, estou até agora esperando a tal da

fortuna que ela viu claramente num pinguinho de borra que ela insistia em chamar de

moeda. É, ela é meio foda mesmo, tem dia que é joia, mas tem dia que não tem clima.

Fora os cinquenta mangos que se gasta… É, ah, olha só cara, tem o Pai Niquinho de

Xangô, o sujeito é fera, já fui lá algumas vezes e foi muito bom. Hum, sei… Lembra

daquela vez que eu estava bem mal por causa do Marcos? Qual vez? A milésima

segunda ou a milhonésima quarta? Ai meu, para! Aquela vez que eu tentei fazer

aquela coisa…. Sim, aquela que você bebeu Q­Boa? Porra, essa mesma… Lembro,

lembro bem… Pois é, quem me tirou da parada braba foi ele. Bom, talvez eu possa até

ir mesmo, ele joga o que? Búzios. Hum, talvez seja a hora de me encontrar com as

minhas origens africanas. Isso, vai que você até tem que raspar a cabeça! Júlia… O

que? Eu já tenho a cabeça raspada. Não é isso, pô, tu me entendeu… Anota o telefone

aí.

Dois dias depois lá estava ele pegando o segundo ônibus para chegar ao

terreiro de Pai Niquinho. Pelo menos a coisa é no mato, não é esse cabaré pós­moderno

religioso da urbália enfurecida, pensou ele. Acho que estou começando a me sentir

tonto, será que eu vou receber algum espírito? Será que espíritos baixam em terreiros?

Será que orixás são espíritos? Porra, porque que eu não fiz aquelas aulas de história

afro­brasileira na graduação, agora não seria esse ser tão sem sapiência sobre esse

afro­universo. Mas se bem que, universidade não é o lugar de se aprender essas coisas,

a tradição deve morar na tradição, ou seja, lá no terreiro. Mas e se a tradição, uma vez

que inventada, for reinventada dentro da universidade? E lá se configurarem os novos

terreiros do século XXI, afinal, temos até igreja drive­tru, por que não um terreiro

acadêmico? Logo no meio desse devaneio ele reparou que havia passado da parada em

que deveria descer. Apressou­se, deu o sinal e desceu. Retornou o caminho calmamente

fumando um cigarro e pensando nas merdas que havia conjecturado.

Quando chegou de frente a um muro baixo e longo todo pintado de vermelho

com um portão verde pensou que havia acertado o endereço conforme a explicação

dada pelo próprio Pai Niquinho ao telefone. O portão não estava fechado com corrente,

só passado o ferrolho. Bateu palma e ouviu uns passos se aproximando. Uma senhora

veio ver quem era. Olá. Olá meu filho, o que deseja? Vim falar com Pai Niquinho.

Hum, tá certo, ele não chegou ainda mas venha entrando, venha.

Assim que entrou no terreiro teve de súbito uma tontura, a senhora reparou.

Tudo bem? Só uma tontura, tive ainda agora no ônibus também. Ah sim, é esse tempo,

tá muito quente, quer um copo d’água? Sim, eu aceito. Então venha, venha. Tenho de

terminar de varrer essa casa. A água gostosa como poucas águas conseguem, tinha

aquela temperatura exata de uma água na sombra desde de manhã cedinho e aquele

gosto bom de barro de moringa. Senta aí meu filho, logo Pai Niquinho chega.

Não tardou muito, Pai Niquinho chegou. Era um sujeito branco de tez serena,

vestia­se com uma bata bonita de pano da costa de tons verdes bem fortes, dois colares

de contas, um branco e vermelho e outro amarelo, calças brancas e uma precatas de

couro bem adornadas. Olá. Olá. É você que veio ver os búzios? Sim. Seu nome é…

Paulo. Paulo, isso mesmo. Foi Julinha quem te passou o telefone, não? Foi sim. E como

ela está, tudo bem? Creio que sim, ela é meio daquele jeito. Sim, é mesmo, falta firmara cabeça um pouco, tá meio perdida, mas é um amor de pessoa, pense numa Oxum

doce. De fato é doce mesmo. Mas bem, espere um pouco que eu vou arrumar as coisas,

fique à vontade. E saiu para outro cômodo da casa. Enquanto isso ele resolveu dar uma

olhada no ambiente de fora, o terreno era grande com muitas plantas ao redor:

goiabeira, mangueira, jaqueira, coqueiro, um sem fim que ele não sabia o que era,

além de umas tantas plantinhas enfiadas umas ao lado das outras. Depois de uns

quinze minutos contemplando o lugar, Pai Niquinho voltou, chamou­o pra dentro e

começou os trabalhos.

Perguntou coisas aleatórias, nome completo, data de nascimento, se já tinha

jogado alguma vez, se estava nervoso, se estava com as pernas cruzadas, se tinha

alguma coisa específica que queria saber. Tudo. Mas como assim, tudo, meu filho?

Tudo é tanta coisa…. É, sei disso, mas é sobre isso que eu queria saber, tudo. Hum,

então tá, dentro de tudo o que me aparecer aqui nos búzios, eu abro TUDO o que

estiver. E começou a juntar e espalhar búzios variados em cima do que parecia uma

peneirinha toda coberta de pano. Fazia umas caras estranhas, tirava concha, botava

concha, tirava tudo, jogava de novo, sem dizer palavra alguma. No décimo minuto

mudo, Pai Niquinho, suando um pouco, olhou nos olhos de Paulo e perguntou: você

está vivo? Num susto Paulo falou sim, até onde eu saiba, estou bem vivo. Estranho,

muito estranho, tem algo muito errado aqui, ou certo, vai saber. Como o que? Bem, não

tem nada aqui. Nada? Nada. Não tem nem quem é meu orixá e essas coisas? Ninguém

é dono da sua cabeça, ninguém quer a sua cabeça. Como assim? Olha meu filho, nunca

tinha visto isso na vida, mas é isso. E isso é grave? Não sei, nunca tinha visto isso. E o

que eu devo fazer agora? Vejo só meu bem, isso pode ser uma coisa muito, mas muito

ruim, você pode ser alguém que nenhum orixá quer ou você pode ser alguém a quem os

orixás concederam a liberdade plena, compreende? Hum… Eu te diria uma coisa meu

filho, viva sua vida em paz, vá em outra casa, procure com outro zelador pra ver se não

é algo que aconteceu comigo hoje, de não ver NADA aqui. É, e olha que eu vim aqui pra

saber TUDO. Pois é meu filho, estranho isso, preciso, inclusive pesquisar mais sobre

isso. E quanto custa a consulta? Faz assim meu filho, precisa pagar não, viu? Vai em

paz. E ele foi.

Saiu de lá com uma coisa estranha no peito, era uma coisa que não estava nem

tensa nem difícil, nem amena nem tranquila, nem nada nem além, era uma coisa. Era

ele. Saiu meditando sobre aquilo tudo, primeiro seria a ilusão infinita segundo as

cartas de Marcelius, agora o vazio pleno, ninguém quer minha cabeça? Qual o

problema dela? Sempre achei que tinha uma cabeça muito feia mesmo. Mas, e se

alguém a quisesse, o que isso significaria? Provavelmente nada, e também, tudo.

Ele caminhou um tanto, parecia desgovernado, mas sabia que chegaria à

parada de ônibus. Quando lá chegou, resolveu caminhar mais um pouco até a outra

parada, caminhou na verdade umas cinco paradas, na última começou a chover e, ao

invés de se proteger da chuva, resolveu continuar caminhando. O caminhar me é,

pensava ele, pé ante pé, o caminhar me é, o caminhar me é. A chuva desabava forte,

torrencial, Oyá lançava raios fervorosos em meio ao gelado da chuva que compensava

todo o calor já tido, Tupã estrondava o mundo. Tudo cinza, nebuloso, cabuloso. Mas ele

caminhava tranquilo, em paz, só. Olhou para cima, olhou o descampado de ao redor da

pista, olhou pro acostamento enlameado abaixo de seus pés, respirou fundo e tremeu.Sentiu todo o peso da solidão, permear seus poros, se encrustar em suas células, se

assentar entre seus átomos. Eles em si já são menos cheios que vazios. Qual átomo, eu.

E ninguém na minha cabeça.

A chuva foi passando, ele todo enlameado, todo encharcado, só, caminhando.

Sabia que iria voltar a pé para casa, sabia que eram mais de quarenta quilômetros de

distância, mas a certeza da solidão e o sem limite da liberdade, lhe davam a sensação

de que ele devia ir. Só. Para algum lugar, qualquer. Provável que sua casa, certo que

por lá. Mas o que importava não era o final, onde chegar. O que importava era o

trajeto, o processo. Pé ante pé, o caminhar me é. O horizonte se mostrava tímido, por

baixo das nuvens que se dissipavam. A liberdade se introjetava plena. Ele não sabia

tudo, tampouco nada. Ele ia. Afinal, a coisa não estava nem tensa nem difícil, nem

amena nem tranquila, nem nada nem além. A coisa estava. Só.

Demonstrar

Paulo não sabia muito bem o que o movia àqueles dias. Estava bem, estava feliz e nem se sentia vazio. Não tinha sensação de que lhe faltava algo, de que lhe prescindia algo sólido ou que necessitava de um sentido. Apenas sentia. Andava um tanto atarefado com coisas do cotidiano, andava como devem andar as pessoas que correm atrás do prejuízo, que adiantam seus lados. Paulo estava vivendo.

A escolha de ter se libertado de ambicionar Eliane, de a colocar como o eterno objeto do desejo, dava-lhe ainda mais impulso de viver. Paulo respirava vida. Paulo entendia agora plenamente que Eliane era música realmente, era algo a ser sentido, sem sentido algum, só sentir. Era um deleite que se fazia em suas notas auditivas memoriais.

Nesse dia em particular Paulo começava a tentar retomar sua vida sabendo que Eliane seria somente ele agora, somente o que lhe fazia ser o que era até então. Eliane era Paulo, da forma mais simples que se pode ser. Paulo entendia isso e sabia que aspirar a ela novamente era coisa que não lhe cabia, então, quis retomar algumas coisas que andavam perdidas. Começou escrevendo uma carta:

Iara,

Como vai sua vida? Almejo em todos os sentidos plenos que esta palavra possa ter, que esteja bem, em paz e em boa companhia. Eu ando bem, aliás, ando. Parei de ficar parado. Eu sei que esses tempos andei rotas tortuosas em que não lhe coube ocupar um assento. Sei que ocupei todos os assentos e foram apenas minhas pernas esticadas e uma bolsa qualquer, nem ao menos era uma pessoa de fato ao meu lado. Ímpeto egoísta de alguém que padece de transtorno bipolar e que só consegue lidar com isso sendo consigo mesmo.

Não quero invadir a tua privacidade construída sem minha presença – que nem sei a quantas anda –, só queria apenas lhe dizer que pensei em você agora e que você coube como uma luva na imagem que eu tinha a minha frente: uma begônia em flor.

Abraços infindos tentando fazer contato,

Paulo.

Realmente Paulo não queria algo mais que dizer aquilo para Iara. Não queria que fossem palavras tentando um arrombo de paixão – esta que Paulo não sentia mais por ela –, mas somente que fosse o carinho guardado que se manifestava ao léu, que se fazia presente. Paulo sabia que Iara poderia não entender nada, que poderia até ficar com raiva, afinal, as últimas vezes com que Paulo estivera com Iara não havia sido um momento muito proveitoso, teria sido o lapso de um definir-se que, com certeza, Iara não entendera.

Paulo desenhou uma das begônias na carta, guardou no envelope e saiu de casa na intenção de entregar a carta na casa de Iara. Enquanto percorria o caminho, várias imagens passavam por Paulo, as flores numa casa qualquer, o casal que se beijava num portão, um cachorro que seguia idiotamente uma cachorra no cio, enfim, um mundo que não lhe cabia inteiramente, mas ao mesmo tempo, lhe acolhia de braços abertos. Quase o conforto de um acalanto no frio. Paulo abraçava o mundo sem sentido.

Havia ainda um resquício de qualquer sensação de erro sobre seus ombros. De que Leminski lhe cabia inteiramente: “até aprender que só o erro tem vez”. Mas nada o demovia de sua condição de felicidade. Nem esse gosto de erro na boca e nem mesmo a idéia de que ele só erraria sempre. Paulo sentia.

Enfim, Paulo chegava até a casa de Iara. Olhou a janela aberta, o jardim com a kalanchoe amarela bem florida que ele lhe dera um dia, o fícus dando uma sombra boa e quebrando a calçada. Tudo ali, no mesmo lugar. Olhou a casa um pouco mais e sentiu um frio na barriga pensando que poderia vê-la a qualquer momento. Foi até a caixa de correio e depositou a carta. Saiu tranqüilo, sem pressa, acendeu um cigarro e pensou que a melhor coisa para ele seria se Iara estivesse escutando qualquer coisa de princesa quando lesse a carta e que sentisse – não entendesse – o que demovia suas palavras e que ficasse feliz. Que lhe escorresse pela face não uma lágrima de esperança ou de rancor, mas um sentimento bom de que se é querido, de que se é importante.

A noite chegava e Paulo andava por aquela rua que ele caminhara por algum tempo, as crianças na rua, os carros bloqueando a passagem, becos com flores. Deu outro abraço no mundo e foi embora desejando que a vida fosse sempre assim. Sentia que viver ainda era.

Da profundidade do ser

“Não se revoltarão enquanto não se tornarem conscientes e não se tornarão conscientes enquanto não se rebelarem.”

George Orwell

Ribamar andava apreensivo, angustiado, perdido. Fumava três carteiras de Calvert ao dia. Por vezes tinha visões de vultos através de sua percepção lateral, não se virava para ver se eram de verdade, tinha medo de que as imagens dissipassem-se ao ar. Ele precisava acreditar que estava mentalmente perturbado, era o único consolo para sua mente. Suava frio, pensava que sua esposa deveria crer que ele estava enlouquecendo. Estava. Lembrou-se das frases do pastor: “O Diabo não quer ver ninguém bem, entrega tua alma ao nosso senhor Jesus Cristo e tudo irá se resolver. Quer seja um problema material, quer seja espiritual. Sangue de Jesus tem poder!” Maldizia as frases em sua mente, pensava que nada tinha mais uma explicação plausível.

Levantou-se da cama procurando minimizar os barulhos, Elizabete fingia não ver que seu esposo levantava. Ribamar fingia não perceber que sua esposa sabia que ele não agia racionalmente. Ribamar foi até o quarto das crianças. Olhou o Juninho, o Alceu, o Pedrinho, a Marinã e a Paloma. Pareciam dormir tranqüilos, imaginava que deveriam dormir angustiados sem saber se amanhã haveria comida antes da escola. Na escola as roupinhas remendadas e puídas, deveria causar-lhes vergonha. Vergonha do próprio pai. Vergonha de seu progenitor, vergonha dos cinqüenta por cento de Ribamar que se incrustavam em seus genes e em suas vidas. Ribamar amou-os e os odiou ao mesmo tempo.

Voltou ao seu quarto, viu quando Elizabete sua esposa, desligou rapidamente a luz do abajur. Olhou para ela, sorriu. Tirou sua roupa e deitou-se ao seu lado. Maquinalmente, como sempre fizera, penetrou-lhe o sexo. Igual a todos, fez um sexo frio, porcamente feito, um sexo medíocre, banal, mecânico. Daqueles que geram filhos que sentem vergonha de seus pais. Acendeu um Calvert e fumou pelado olhando pela janela da sala do barraco as outras casinhas de lona e de madeirite da invasão. Pensou em seu último emprego, foi nas frentes de trabalho, varria pistas movimentadas. Lembrou-se do quão miserável foram aqueles dias. Aquele trabalho acabava com a dignidade de qualquer um e piorava quando os outros respeitáveis cidadãos e cidadãs não lhe outorgavam o devido respeito. Chorou ao lembrar que agora não tinha mais nada, nem ao menos a labuta indigna que exerceu outrora.

Pensou muito nas últimas horas, pensou, pensou e pensou. Não chegou a conclusão alguma. O sol amanhecia bem devagar lá no leste, de onde viera para esta terra maldita, que só lhe proporcionava desgosto. Indignou-se. Abriu a porta e saiu à rua. Estava pelado, nem se deu conta disso. Olhou para si e riu, um riso que veio do fundo de sua alma e que demonstrava que ele não se importava com mais nada. Algumas irmãs da igreja que em outros tempos ele freqüentou, estavam na rua, vinham de uma vigília da corrente de libertação das almas. Viram Ribamar e assustaram-se, correram para dentro da igreja. Ribamar passou pela frente da igreja, parou, olhou-as e riu.

Continuou seu caminho, não sabia para onde. Andou muito tempo pelo cerrado, cruzou a linha do trem e continuou andando. Chegou no Eixo Monumental, entrou naquela avenida larga que mais parecia um aeroporto e continuou andando em meio a alguns carros, que não tinham viajado no feriadão. Todos buzinavam, gritavam, xingavam, riam, tentavam atropelá-lo. E ele imerso num nada gigantesco, simplesmente não lhes dava tino. Andava nirvanicamente, prostrado em nada. Chegava perto de Brasília, seguia firme em sua caminhada. Até o momento nenhum policial tinha vindo tomar satisfação e prender-lhe por atentado ao pudor. Continuava andando.

Nas proximidades da Torre ouviu-se uma sirene, Ribamar nem notou. Prosseguiu seu caminho rumo ao Nada. O camburão parou de frente a Ribamar. Saltaram três PM’s com risos em suas faces e ódios em suas vozes:

– E aí peladão? – indagou um PM que aparentava ser o chefe dos outros, tinha um ar de cafetão e fedia a metros de distância – Fugiu do hospício? Olha malucão, vamo facilitá as coisa que a gente não vai precisá usá a força. Levanta as mão e fica quietinho.

Ribamar não parecia escutar nada, estava prostrado de frente aos PM’s com uma enorme cara de nada. Alguns turistas da Torre desceram para ver o que acontecia. Rodearam a cena. Ribamar fitou-os calmamente. Outro PM interveio:

– Vamo mantê distância, porque o peladão é perigoso. Deu uma risadinha, todos ao redor também riram. Ribamar avançou um passo. Os PM’s assustaram-se e engatilharam as armas. Ribamar deu mais um passo. O PM que estava de frente a Ribamar estava nervoso, mirou na cabeça de Ribamar e bradou:

– Fica quietinho seu doido varrido, se não eu vô ter que usar de força bruta.

O PM suava, a situação ficava tensa. Ribamar deu mais um passo, virou-se para um turista, pegou seu pinto e balançou. Os PM’s irritaram-se e avançaram sobre Ribamar, este esquivou-se com uma agilidade que nunca tivera e parou ao lado de uma turista. Segurou-a pelo braço. Um PM falou:

– Olha aqui peladão, a situação tava fácil, mais agora tu complicô. Solta a moça!

Ribamar riu bem alto, um riso que veio de suas entranhas. Um riso com cara de molecagem. Ele soltou o braço da moça. Num estalo, recobrou a consciência. Come se fosse Adão ao comer a maçã oferecida por Eva, viu-se nu e envergonhou-se. Finalmente escutou os PM’s:

– Mãos pra trás e fica quietinho que num vai te acontecê nada!

Ribamar não se lembrava como tinha chegado ali, estava confuso tentando coordenar suas idéias, colocou as mãos para trás. Alguns turistas tiravam fotos. O flesh de uma máquina o cegou momentaneamente, ele ficou meio zonzo, tirou suas mãos das costas e neste fatídico momento, Ribamar solta um peido estrondoso, daqueles que seu pai solta depois de uma bela feijoada. Nesse instante um dos PM’s, num movimento de impulso dispara a arma e a bala acerta em cheio o meio da testa da turista que Ribamar havia segurado o braço. A turista cai sem dar um grito sequer, o sangue escorre pelo asfalto, o cheiro de pólvora espalha pelo ar, o clima de dúvida contagia a todos, Ribamar cai de quatro no chão, o PM que atirou grita aos quatro ventos:

– FILHO DA PUTA! E cai ao chão chorando.

Ribamar ainda não compreendia nada. De quatro e nu no chão, uma multidão ao seu redor, um cadáver atrás, um PM chorando em sua frente e uma dor fina em seu intestino. O silêncio toma conta da cena. Todos olham atônitos para Ribamar. Um silêncio mortuário que se ouvia a quilômetros. Ribamar via o ódio nos olhos de todos. O silêncio penetra Ribamar e de repente como se fosse um lapso no espaço e no tempo, Ribamar solta outro peido estrondoso e aflito, um peido saído do fundo de sua alma, um peido que era a resposta de sua alma ao que ela achava do mundo, um peido barulhento e fétido, que se fez ouvir a quilômetros de distância.

Ao escutar tal estrondosa flatulência de Ribamar, o PM que atirara enfurece-se como nunca havia se enfurecido na vida. Num impulso maior do que tudo ele levanta e descarrega o resto das balas sobre o corpo esquálido e nu de Ribamar. O PM vai até o corpo ensangüentado e nu e começa a lhe chutar todas as partes. Ninguém faz nada. Ninguém compreende nada.

E assim acaba esta história. No final das contas, não serve para nada e não demonstra a profundidade do ser. Termina assim, Ribamar nu, morto com sete balas em seu corpo, o sangue escorrendo pelo asfalto. Uma moça a poucos metros de distância, também morta, com uma bala em sua testa, o sangue escorrendo pelo asfalto. Enfim, vidas que eu criei e tirei de repente. Ribamar deixa sua família ao Deus dará, sem nenhuma fonte de renda e a turista, deixa seu curso de medicina em São Paulo sem conclusão, um namorado e uma família a chorar sua perda, que na verdade será apenas algum gasto a menos.

Quanto ao PM, ele vive sua vida com outros tantos que prendeu. Hoje fica nu e de quatro todos os dias em uma sela ínfima com mais trinta e cinco detentos. Peida muito. Os outros turistas e PM’s e aqueles que assistiram as reconstituições pela TV, vivem suas vidas medíocres e de quando em vez relembram o assunto que espirou o prazo de interesse em cinco dias. Peidam muito. Vivem suas vidas medíocres à espera de suas mortes, que fatalmente virão. E, por fim, todos irão encontrar Ribamar e a turista, mais cedo ou mais tarde. Pois a profundidade do ser acaba (ou inicia?) quando o poço da vida chega ao seu fundo e este fundo pode ser o limiar de uma morte estúpida.

Constatações

Era uma garota diferente. Não se atinha a certas afetações de uma possível generalização da condição feminina. Não possuía o mínimo sexto sentido, não tinha tensão pré-menstrual e o pior (ou melhor, talvez), havia passado toda a sua infância normalmente: boneca, casinha, papai e mamãe, unidunitê… Não faltava graça nela, de fato, era até jeitosa, tinha o seu quê de beleza e de feiúra, tinha enfim, sua humanidade.

Apreciava a companhia de pombos (e isso é uma coisa rara). Todos os dias sentava-se nos bancos perto da fonte de um shopping, em plena perpendicularidade solar e olhava os pombos banharem-se na fonte. Invejava-os um bom tanto e almejava a condição de suas liberdades.

Nunca pensara em ter filhos, mas sempre que via os pombos, imaginava o “quão bom deveria ser imiscuir meus genes com o deles”. Não era um intento zoofílico ou qualquer outra perversão congênere, era apenas uma constatação, como todos os seus sentimentos, afinal, não sentia: constatava coisas em seu corpo.

Os pombos na fonte eram uma de suas constatações particulares de seu dia. Não era mensurável em bom ou mau, apenas verificável. Uma perda dos segundos que era imperceptível. Não como o resto de seu dia, conquanto a viagem de ônibus de volta à sua casa fosse uma impercepção constatável um tanto próxima.

Sempre pensava em trazer pedaços de pão para jogar aos pombos e vê-los euforicamente digladiando-se do mesmo modo que faziam quando lhes jogavam as sobras das marmitas, mas nunca se lembrava. Todos os dias de pombos eram a mesma coisa: só o devir da imagem da luta colomba se fazia e o fato sempre fato não se produzia.

Certa vez sentara um moço estranho no banco ao seu lado e se aproximou: “te vejo todo dia aqui, você gosta de pombos?”. Ela nada respondera, somente constatara para si: “gostar… é eu devo gostar de pombos” e se levantou bruscamente sem dizer palavra, deixando ao moço atônito somente a impressão de algo estranho.

Nesse dia ficou confusa. Até sua segunda maior constatação do dia não foi a mesma. Mal viu a paisagem pela janela do ônibus. Estava com a idéia “gostar” em sua cabeça, ou mesmo em seu corpo, mas não entendia: “onde deve começar isso?”. Tentou lembrar o rosto do moço que perguntara acerca dos pombos, mas não conseguia se recordar. Só conseguia ver pombos no rosto dele. Nesta noite em seu sonho viu algo bem nítido e colorido (sempre sonhava tons de cinza): pombos.

No outro dia, em seu horário de almoço, preferiu não ir ver os pombos, foi passear pelos labirintos do shopping. Constatou que se perdera cinco vezes. Quando viu luz fora, saiu e de cara encontrou os pombos. Olhou-os com ar diferente e decidiu: “não gosto de pombos”. Passou perto da fonte sem olhar pombo algum e, desde então, nunca mais pensou neles.

CONFISSÕES À SURDINA

Era uma noite medíocre aquela. Noite dessas que não possuem cara de noite, como se fosse meio-dia de um feriado caído numa segunda-feira, mas em pleno constatar das oito horas da noite. O telefone havia tocado, era para mim:

– OK, mas eu não posso ir, também é aniversário de minha irmã hoje, tenho que abraçar a bichinha, ela ta precisando…

Ao outro lado da linha a pessoa parecia meio forçada a me convidar para aquela festinha, era uma amiga de minha ex-namorada que me perguntava se eu não queria ir à festinha que estava acontecendo lá na casa dela. Despistei, joguei essa conversa da minha irmã e disse que depois ligava para ela desejando-lhe feliz aniversário. Depois liguei:

– Parabéns mulher! Tudo de bom nessa vida pra você, muita luz… Eu vou indo e você? Que bom… pois é… sério? Nossa, que bom… ainda bem né? Pois é moça, to morrendo de sono, depois a gente se fala mais, to precisando dormir… você sabe né, a vida é dura… amanhã a lida continua. Então um beijo. Tchau.

Missão cumprida. Não que aquilo fosse uma árdua tarefa ou então desprovida de prazer. Gosto dela, gosto muito, aliás. Não um amor de amante, mas um amor suave no fundo do coração, desses saudosismos que queremos que fiquem lá no passado mesmo, onde foram perfeitos e onde existem realmente, para pensarmos que a vida deve ser ainda boa. Um séqüito esperançante.

Peguei novamente o telefone, aproveitei e liguei o som. Uma Fátima Guedes só pra relaxar. Liguei para minha atual namorada:

– Ela saiu? Ah… ta bom. Não, não… É… Pois então obrigado. Boa noite pra você também. Tchau.

Por que será que as namoradas sempre estão na casa de uma “amiga” quando mais precisamos delas? Uma noite pouca como aquela e eu só. Reparem bem que as aspas no ‘amiga’ não se referem a nenhuma cornitude plena e já conhecida, mas sim a um ímpeto machadiano de querer sempre ser Dom Casmurro – mas afinal, Capitu pulou ou não pulou o muro? –, digo isso por que sempre há essa dúvida errante que nos envolve aos lençóis e às cobertas, nessas noites poucas e claras.

Passei o olho no meu caderno de anotações, pensei: “acho que um anti-marxismo não pega bem agora, deixa os academismos para mais tarde”. Cantarolei um pedaço da música: “mais dóceis e livres como eu…”. Senti essa tal de liberdade querendo ser sentida, levantei-me da cadeira e decidi, se Manoel Bandeira deixar, eu saio de casa agora:

“Amor?… – chama, e, depois, fumaça:

O fumo vem, a chama passa…”.

Tomei banho, me troquei e saí, Chico no som do carro e nenhum rumo a se seguir. Parei no DI. O DI era uma praça, que em outras épocas havia sido um grande point da boêmia pós-moderna das satélites de Brasília, hoje era um local decadente pela presença desenfreada desses neo-metal skatistas – um mix de movimento hip-hop de playboy, homossexualismo desabrochando, resquícios de postura punk, maconheirismo puro e simples e outras tantas referências, como manda o figurino de um movimento pós-moderno –, o quadro de degredo da praça se completava com a presença massiva de maloqueiros-passadores-aviões a trabalhar e de playboys taguatinguenses freqüentadores dos bares que se instalaram na região.

Saí do carro e sentei num bar que, segundo minha memória, havia sido um local de cachaçadas memoráveis e de poesia flutuante no ar, além de rolar uma boa música – boa no repertório, uma vez que o cantor era uma desgraça, se não falha minha memória. Sentei e pedi uma vodka com duas pedras de gelo e duas fatias de limão, comecei a degustá-la e a observar o ambiente. Como um bom geógrafo olhei primeiro o lugar: vi que o espaço havia se alterado bastante desde a última vez , as cores, as luzes, o banheiro… era definitivamente outro lugar, já não era mais o mesmo. Observei o cartaz de uma festa rave que ia ocorrer logo, abaixo, um folder da inauguração de um lound, pensei: “é… este lugar não é o mesmo”.

Como um antropólogo-filósofo esmiucei as essências humanas ali contidas: muitas figurinhas carimbadas no meio alternativo mais hard, alguns homos à procura de um flerte, algumas ex-skatistas recordando suas proezas passadas, também à procura de um flerte, uns metaleiros errepegistas à procura de flerte, dois casais saudosistas em crise – deveriam querer estar em estado de flerte – e eu.

Como um ecólogo iniciei um longo trabalho de averiguar as relações que ali se estabeleciam: um olha uma, uma olha o ar, outra olha um e um a olhar um outro: verdadeiro balaio de gato pós-moderno. Um levanta e vai ao bar reclamar, um volta e olha uma ao passar. Uma levanta e vai ao toalete se arrumar, uma vai também para fofocar. Um se julga super-homem (quase nietzschiano) em voz alta para se sobrepor ao som e fazer com que um outro se ligasse. Um outro me olha e eu desvio o olhar para minha vodka – não queria escutar aluguel de ninguém àquela noite.

As horas voam e as vodkas vêm – ou vêem, dependendo do ponto de vista –, as pessoas iam se acabando, esvaindo-se sem eu constatar: o bar já ia fechar. Olhei ao lado havia uma moça quase caindo da cadeira e a dona do bar cutucando-a com a conta. Chamei a dona:

– Isso cobre a minha conta e a dela?

– Cobre sim senhor.

– Então acerta tudo…

Levantei fui até a moça e a cutuquei, em resposta ela grunhiu um pouco. Cutuquei mais. Ela nem se mexeu. A dona do bar chega então com o troco e me pede para ajudar a retirar minha “amiga”, pois precisava fechar o bar. Abracei a moça e a levei para um banco da praça. Vi que a única coisa a se fazer era enfiar o dedo em sua goela e fazê-la vomitar, foi o que fiz. Nunca havia visto tanto vômito em minha vida, parecia uma cachoeira, a coitadinha a cada golfada ficava mais amarela e logo vi que não era só cachaça o que ela havia consumido (ali devia ter uns dois caldos de mocotó e mais um de feijão pelo menos).

Esperei um pouco, sentei ao seu lado e a fiquei observando. Ela era até bonita. De repente ela caiu no meu ombro e continuou dormindo. Comecei a ficar com sono, até que pesquei um pouco.

Acordei com ela em meu colo. Ela não era muito bonita. Era muito branca, a melhor coisa que possuía eram suas formas meio arredondadas. Os cabelos eram muito bonitos, negros, bem escorridos e muito grandes. Ela se vestia toda de negro e tinha uma maquiagem borrada – também negra – nos olhos, além de resquícios de um batom – também negro – em seus lábios. Era um contraste muito grande a alvura de sua pele e o negrume de suas indumentárias.

Passei os dedos em seus cabelos e comecei a afaga-los. Ela se mexia um pouco. O dia estava amanhecendo e o movimento da praça já havia se findado. Pombos começavam a fartar-se das sobras dos pães de cachorro-quente dispostos no chão. Olhei a garota mais um pouco, comecei a acha-la bonita.

Ela começou a se mexer muito, parecia que sonhava com algo muito agitado, de repente ela caiu no chão. Assustei-me e vi que ela havia acordado, vi que estava completamente zonza. Olhou pra mim e disse:

– Puta que pariu! Que dor de cabeça do caralho!

Chovia. Chove.

Água quente. Era tudo o que Eliane queria. O martírio gélido do corpo molhado de chuva e lama não era algo que ela buscasse, preferia, sim, outras quenturas em se falando de água. Pelo menos naquele então. Queria a água de seu chuveiro queimando sua pele e adormecendo seu corpo. Ou então, água saindo de seus poros e escorrendo lânguida por um corpo outro, do seu já em dormência. Queria mesmo os líquidos efusivos de sua intimidade viscosamente impregnando o ambiente em brasa, saindo de seu corpo dormente e incrustando-se em outro corpo. Como alternativa não havia, foi-se ao seu banheiro.

A noite estava como toda noite chuvosa: plena. Noite em que dormita a vida e tudo parece estar acompanhado de um solo de guitarra crua. Plenamente noite e não dia vivido às altas horas da madrugada.

Seu corpo nu tremia. Era um frio que se espalhava e a abraçava. Envolvia, quase em braços, seu corpo e lhe arrepiava toda a pele, ouriçando ainda mais seu estado de espírito e desejando que os outros dois quereres que lhe percorriam a mente fossem mais do que feitos, fossem plenos.

O banheiro em seu pálido semblante entrava em contradição com a proposição do que lhe cobria: azulejos. Não eram azuis. Eram brancos. Uma impressão hospitalar que a repugnava lhe pedia para a apagar a luz, foi o que ela fez. O rádio ligado em uma FM qualquer conduzia aquela música triste, desesperançosa, antítese do verde, ou algo verde musgo iluminado pela Lua. Era um Tom que lhe dizia coisas Demais, um blues angélico que queria decair a noite plena inteira sobre suas costas. Ela queria calor.

A água do chuveiro caía devagar sobre seu corpo. Parecia que a simples trajetória entre o chuveiro e seu corpo era uma eternidade para a água que ansiava por manter a noite plena sobre Eliane. Ela relutava em crer que esse ímpeto de noite plena fosse se consumir realmente, continuava seu banho.

Lentamente, seu corpo relaxava.

Corpo. Palavra bonita, pensava Eliane. Corpo combinava com seu corpo. Seu corpo parecia realmente um corpo. Incorporava-se na palavra e esta ganhava corporeidade em seu corpo. Suas estrias, suas gorduras, suas celulites. Tudo corpo, tudo ela. Sentir o corpo com seu corpo, parecia algo plausível. O breu instalado no banheiro envolvia seu corpo, e este ganhava mais materialidade.

Água. Sentir. Corpo. Quente. Noite. Som. Querer.

Um corpo bastaria a si?

Lentamente, seu corpo percorria seu corpo. Tramas e entranhas. Seu querer era ser corpo. Sentir seu corpo o sendo. Sua mão, sendo seu corpo também, volvia e envolvia sua pele. Sua mão era pele também. A água quente dava mais ciência de si. Uma perna fora da água e a sensação de existir, a água caindo sobre os cabelos e a impressão de ser. A mão tocando o corpo em água quente e aquecendo mais a existência. Existir pode ser prazer também e que Buda se cale.

Eliane, em seu nirvana corpóreo, tinha a dimensão de que ser corpo era tudo o que ela precisava. A lentidão dava lugar ao frêmito e existir parecia depender de sua mão. De seu corpo.

Tudo envolvia: o calor da água, o vapor por todo o banheiro, a escuridão, o som, a plenitude da noite, seu próprio corpo. Tudo ardia.

Lá fora chovia, chove. A noite continuava plena e dormitando todos e todas em suas casas. Só Eliane existia em seu corpo.

Bambayuque

Era com aquela música que ela odiava que Paulo chorava por Maria. O cigarro seco no canto da boca seca pela seca do cerrado, misturava nos olhos de Paulo as lágrimas cristalizadas com a nicotina e o ar parado. Um aboio lamurioso cantado com sofreguidão percolava o ar junto à fumaça. Tudo seco. Paulo, uma seca só e o cerrado pegando fogo.

Uma lua ali, nem meia-inteira, apenas começo de sorriso, plena de vermelha pela fumaça das fogueiras da seca, no meio do cinza do céu de noites de agosto. E Maria longe léguas, com a propriedade da memória, perdida de Paulo para o sempre de agora, que é a eternidade que mais incomoda, esse sempre do presente.

Quando Maria se foi, no momento exato da despedida, foi-se embora com um beijo e um abraço. Beijo que não pôde ser colado e abraço que não pôde ser apertado. Nesse momento Maria perdeu seu “i”, que rimava com quem ria, e virou Mara somente.

Distanciando-se, indo para qualquer lugar em que Paulo não estivesse lá, com seu sempre presente corpo, Mara levou o que cabia dentro do seu peito e deixou para Paulo, além do peso dele mesmo só em companhia e corpo para o fardo de seu sempre, um de seus “as” e virou Mar.

Mar então sumiu de vez pelas fretas do mundo. Dando o ar da graça a todos que de Mar quisessem as águas. E Paulo em sua seca sempre, tateava com o resquício de mar incrustado em seus olhos, no meio da penumbra da noite cinza, sem saber que Mar perdia seu “r” e se evadia da liquifeição para ser desde então, Ma somente.

Depois disso feito, foi-se a dança da paixão deles, para o sempre do presente agora.

A noite, a cor e o poder

(ou “Você sabe com quem está falando?”)

Três e vinte e cinco da madrugada. Dalton acorda assustado com o choro de seu filho de apenas seis meses de idade. Eloísa, sua esposa, diz que a possibilidade de que o choro seja por efeito de uma dor de ouvido é grande – faz frio – e o eficaz remédio que sua mãe lhe dera já havia se findado. Dalton não questiona o sexto sentido de sua esposa e, mesmo cansado de sua última escala de serviço, sai em busca da solução para o choro de seu filho e para o seu sono.

A farmácia era próxima de sua casa, apenas um quarteirão à frente. Dalton sai em seus trajes de cama: bermuda furada, camiseta gasta pelo tempo (as melhores para o sono), meias de lã e chinelo de couro. Seu rosto cansado, com ares de poucas horas de descanso, estava triste naquela madrugada.

Dalton andava mecanicamente pela calçada quando o som de uma sirene se faz próximo. Dalton lembra de seu trabalho: “Que saco, até aqui a labuta me persegue…”, suspirando sua apertada última escala de serviço.

O camburão da polícia pára ao seu lado e um dos policiais grita a Dalton:

– Parado aí negão – Dalton era negro… –, mão na cabeça!

O policial inquisidor sai do carro e anda na direção de Dalton, que ainda grogue de seu sono incompleto, pensando em remédio, trabalho, esposa, cansaço e choro continua em busca da solução para o seu sono como um moto perpétuo inconsciente, sem notar que o policial falava consigo. Havia um ar de sonho em sua mente. Dalton continuava andando.

Nesse momento todos os policiais já se encontravam fora do camburão e o inquisidor primeiro, em sua raiva (fora ferido seu ego de autoridade), saca de sua arma e berra a Dalton:

– Ô negão, cê tá surdo porra?!! Mandei parar!!!

Dalton pára, se vira e começa a tomar conhecimento da situação, começa a despertar lentamente (seu ego de autoridade fora ferido – Dalton era tenente da polícia).

– É comigo? Questiona Dalton aos policiais.

– Tem outro negão chapado por aqui? Responde o inquisidor primeiro com aquele ar de questionamento e agressão típico dos policiais que fazem a ronda noturna.

– Você!! Ataca Dalton – o inquisidor também era negro…

– VOCÊ?!! – pergunta outro policial indo de encontro a Dalton – cadê o respeito negão, cê tá viajando né?!!

Dalton compreende o que acontece: a noite, sua cor e sua aparência não condizem com seu poder. Ele não é ninguém, ele é um cidadão com todos os direitos e deveres comuns a todos os de bem, mas ele sabe que não está com sua carteira de militar em mãos, apenas um talão de cheques e um cartão de banco, ele conhece bem o preconceito de seus companheiros de serviço – ele também é assim –, ele sabe que precisa se impor, mostrar que é alguém, que eles não sabem com quem estão falando.

– Vocês sabem com quem estão falando?! Pergunta Dalton com lágrimas de raiva aos olhos (ele sabe agora o que se passa na cabeça de quem ele aborda em uma batida).

– EU JÁ ESTRESSEI COM ISSO DE VOCÊ!!!! Grita um dos policiais e avança com um tapa na face de Dalton (seu ego de autoridade se rompe em mil pedaços) e este chora como há muito tempo não chorava (só não comparável à morte do Ayrton ou à final de 98).

– Ah negão deixa disso, cê deve tá muito loco… Zomba o inquisidor primeiro que nesse mesmo momento leva um soco de Dalton.

Aqui, as coisas se complicam para Dalton. Ele é xingado (como nem na infância), ele é chutado (como aquela bola que ele tanto estimara), ele apanha (como nem sua mãe o batera), ele chora e grita (como se fosse seu filho com dor de ouvido). Seu ego já não ousa se pronunciar, calou-se diante de tanta humilhação.

Os policiais colocam Dalton no camburão. Ele sangra, ele chora, ele se cala, já não há mais nada o que se fazer agora. Mas ele sabe que o poder ainda jaz em suas mãos, mesmo não tendo conseguido utilizá-lo quando necessário. Mesmo que seu sangue se misture a suas lágrimas nesse instante, ele tem plena consciência de que a vingança é um prato que se degusta frio. Ele é alguém, esses que lhe bateram, lhe xingaram, lhe humilharam não sabem com quem estão falando. Não tem a mínima noção.

Dalton sabe que ele pode mudar todas as regras que lhe foram impostas nesses últimos instantes. E à primeira oportunidade ele vai virar o jogo…

Seu ego renasce de seu sangue e de suas lágrimas.