3980. há dentro

somos deus e demos

todos demos

nossa gratidão à luz
que se apaga

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3980. há dentro

3979.

Aqui, parado pregado
na parada da pista,
pondero as pedras
do cais imaginário
e as partes das nuvens
que caem:

quando o céu acabará,
para que caibamos?

3979.

3978.

O lado dos tiros
a impresa não fala
São dois os lados dos tiros:
o que aperta
e o que abarca

Há seleção da fala

Quando ameaça a sua
privada
proriedade
há fala
e falos, porretes, pauladas

Quando não,
nem se aplaca

A ira pra cá
já tarda

Deu match

3978.

3977.

Os fogos orgíacos
Nero sorri
O gozo não é pelo fim
é pelo momento
selfie-explosão nos céus
Putas amordaçadas
cidadãos de dem
além do bem
Jornais jornadas
roubadas de junhos
até o infinito
O que veio vindo
não vaza
escorre visgo de ar
tomando todo o fôlego
Doutrina do choque
sem tirar de dentro
Não tem mais centro
é só extremo
Estrume infértil
que alimenta egos

Tudo há de dar
incerto

3977.

3973.

A coisa se mede com um contorno desmedido, tudo trava, tudo quebra, nada arrebata, só arrebenta. O mundo da cabeça desajusta com o mundo do lado de fora do orí, o plexo solar não funciona, os chacras entupidos por gárgulas e fadas, as imagens de algo não realizado que insuflam o desejo e um alento nada cativante que teima em se coordenar mais que o necessário para tentar ser vida. O surrealismo da falta de lastro de realidade cria um imobilismo nonsense num instante fantasmático. Os polostícos paleolíticos paranormais não priorizam a vida de dentro. O que se falar? Nada além de nadas ensimesmados. É uma sexta, é um vinho, é Fátima e nada. Nada ao redor a não ser todos os velhinhos e velinhas do meu prédio assistindo a Globo. A janela do nono andar é uma coisa ancoradora. No nada. Nem lá nem cá, o aéreo dissipado mundo que fora líquido agora nem aterra nem desterra, ninguém é dono de nada. O cansaço disruptivo te enfia dentro da realidade, amanhã, sábado, dia de trabalho, folga de Deus, nem será de dádivas, só de dívidas, 0,01% para quem detém os dividendos de 99,99% de vida. As auroras já não refazem o caminho contínuo até as noites, elas prismam uma luz difusa até que percebamos que nada mais se encaixa. As noites eram mais bonitas nos meus sonhos de criança.

3973.

3972. Modernidade etérea

Quando as sirenes passam
giroflex faiscando as margens da noite,
me pergunto:
serei eu?

Quando os helicópteros
sobrevoam rompendo o ar nenhum,
me acomete:
me buscam?

Quando as botas se aproximam
ecos em marcha em volume compassado,
me estremesse:
qual próximo serei eu?

Uma culpa em vestes de medo
sem culpa alguma,
mas a intuição que
frita as têmporas
e descama o dentro:
assombra o mundo
que me habita:

a liberdade é só um conceito transparente.

3972. Modernidade etérea

3971.

A humanidade racha
mímese da própria Terra
síntese das fissuras

tudo se separa
– até rachar –
apenas seguimos
os campos mórficos terrenais

Divergências, convergências
de placas e peitos
lava em magma de erupções

Terra treme
terra racha
terra nós
rocha
até aterrar-nos

3971.

3969.

Fiz uma viagem
para além de mim
divagando obtusamente
um oceano de
identidades não mais
liquefeitas, mas rarefeitas

Não sei porque sorri,
ousei ossos para a
travessia e cumpri
metas esquisoanalíticas
– piscavam somaticamente
antes de as cumprir

Medi distâncias
do além de mim
dentro de mim
e fui perseguido
por botas e dedos
e ninguém quis afagar ou cortar
minhas bolas
nem eu ou a honradez
só a desfaçatez

Andei esses muros psicoides
com as mãos em bananeira
Rotas desencontradas
na perpendicular avessa
dos muros
– rotas que nunca vi
nem quando passava por elas

Rasguei minhas roupas
na travessia e me
atravessei para o além
de mim
de tão apartado que
andava comigo
apenas adentrei-me

Dentro era todo o além

3969.

3968.

quem é que te ensinaria
menino
como ir mais devagar?
quem diria como ser
homem sem pisar?
onde a imagem espelho olhar?

desabado os olhos carregam peso
e só o ódio lhe comove

3968.

3967.

o que tem nessas entranhas
que quando sai estranhas
e transfere a outras vísceras
todo o ardor borbulhante
do que interna em ti?

as execuções sumárias
sumarizadas nos jornais
só afirmam as sentenças
que pululam nas cabeças descabidas:
menos um, menos uma, menos um, menos uma, menos um, menos uma
menos
talvez eu sobre

as tropas se alinharam
nossas gargantas de dedos rígidos e flácidos espasmam
num fluxo aceitação

as armas distam
um frio em nossaas têmporas
tudo rio

3967.

3965.

tentar o ego o belo
que nem prego
enquanto do lado
depois do pipoco o berro

esperei demais que
viesse a paz
a luz vindo das nuvens
por detrás

e de cada poema não nascido
um b.o. a mais dado
e um julgamento proferido
na madruga

beco escuro

na nuca

3965.

3963.

do pouco que propusemos
sobrou a antítese perfeita
o malogro da intuição falha
o não se observar
o fato fausto intento
foi o que houve
as sobras do que será
o passado sempre
ocorrendo corroendo
correndo para repetir
como se a andança
versasse mais que
o próprio tempo a transcorrer
uma falta que se
compõe lentamente
manifestamente insistente
em não passar

os pregos postos
nas mãos e pés
e punhos e coroas
e cruzes eternas

campos mórficos ressignificados
as formas que nunca acabam
eternamente a ser o agora

3963.

3962.

aquilo que a gente sempre fez a vida toda
não por fuga ou tratamento
mas por necessidade
os passos que salvariam alguns reais
um cigarro ou uma breja
os passos que te aliviariam a mente
e correntes de aço ou elétricas
e o silêncio
não de quem não tem o que dizer
mas de quem não precisa
ou se cala por força de ego não robusto

agora é tudo estratégia revolucionária
mindfulness libertação

ando a pé e me calo
desde sempre
e continuo tão prisioneiro
quanto qualquer que seja

3962.

3960.

as estruturas não vão ruir
todos cá não veremos o fim
boiaremos infinitamente enquanto espécie

num vão de ir
                          e rir
                                  sem fim

3960.