4000. A cá lentar

Recuperar a solidão,
sentir as escamas da
deusa roçar.

Perceber a forma do
firmamento por dentro
da pele dele.

Ver a derme aerada,
branda, nuvem, espuma,
pluma de pomba branca.

Ter dimensão das próprias costas,
a firmeza, o cansaço,
a justiça umidamente em brasa.

Centelha divina
de gotícula de chuva fina
e torrente caudalosa de fogo em brasa.

Estar só para que não.

Sair das telas,
fazer de telas as lentes
dos óculos para a composição divina,
beyond HD.

Projeto de dentro para fora
o mundo que me invade de fora para dentro.
Meus olhos como enigma do divino.

Minhas moléculas que espraiam.

Adentrar,
Orun traz
a cá lentar
o Ayiê.

4000. A cá lentar

3998. era de aquário

meu problema não é descer depois,
é descer antes
o dedo no botão
a mão na corda
quem me tombará?
em qual curva meus pés
perderão o assoalho?
em qual baque do freio
no feriado forçado?
o corpo de cristo
nem consegue mais ascender
o fogo, a chama, falha
não há combustível
sequer fagulha
e tudo à beira da combustão

a análise
os fractais, as fissuras, as filas, o fórceps, a foice, a fábrica, os feixes, a fábrica, as facas, as farsas, o fake, o face, as faces, o fácil, as fórmulas, a filantropia, a ferrugem, o folião, o free market place, a fuligem, o fim, a folga, o fole, a fatura, o fôlego, o futuro, as formigas, a família, a fechadura, a ferradura, a fé, o ficar o
que fica, o que finca
a foz
onde acaba, deságua
que não desencarna,
desalma

meu problema não é descer depois,
é descer antes
a estrutura é inacabada, obra por fazer
células, corpo
a placa é de inauguração
e eu não me perdôo
e é uma dor intermitente
a upa fechada
opa, fachada
ofídico veneno de rato
na lata

são camadas e mais camadas
terra em cima de terra,
em cima de rocha
debaixo de lava,
dilema da futura pedra,
corpo da faca projetada na mente a fogo,
fato que enxada e pá
a cavar as camadas e mais camadas
de sangue, suor e lárimas
(e sorrisos e almas tristes,
centenárias, milenares, imemoriais,
perdidas repetições em lendas longíquas
intercontinentais
consumidas em nossas cabeças)
camadas dilaceradas, estratos,
classes, filos e ordens
progressão incomunicável do futuro
pelas vias do passado

o que me silencia é
a voz de todas
retumbo, eco, explosão
a dilatação do infinito
que me entranha
meu carvão, petróleo e gás
minhas plantas que
sobrevivem o sol de bilhões passados
a cada queima,
agora e sempre e até seu fim
minhas plantas que me falam a linguagem
incompreensível dos elétrons e dos polos

a divisão da humanidade
as boas e as más companhias
que decidirão o julgamento do passado
na próxima parada
que não é a que desço,
pois já desci antes,
já apertei o botão,
já puxei a corda,
já me ajoelhei e clamei ao deus shell,
lubrax para os sumérios,
que me leve, me livre, nos livre
sentença e distração
para o processo das galáxias,

um sorriso falso e tudo
se acalma, o bombom
que paga a faculdade
e tudo certo
a janela da alma trincada,
o coração apertado,
partido, mil desejos,
cem mil culpas,
nada basta,
tudo besta, bosta
o dedo rola, passa,
próximo, próxima,
aproxima que o engodo é bento
é banto e basco
bárbaro

meu problema não é descer depois,
é descer antes
como nada mais suspira,
só arfa
afã do arpão na própria glote

te chamaria mar
se fosse líquida e o houvesse
soterra
soterrado por cada vez mais

                                 ar

3998. era de aquário

3997. Impossível

se eu pudesse ter duzentas vidas
para sentir o que sinto
e viver tudo o que me abarca
se eu tivesse trezentas chances
para construir o que me cresce
se eu tivesse quatrocentos peitos
para ousar todas as flores
se eu virasse quinhentos seres
para dignificar todas as possibilidades

se eu pudesse ser o que me habita
não seria o punhado que nas mãos
vira areia solta, grãos, fragmentos

seria o imponderável
onipotente como deus
que dá a graça de ser só isso
que anseia o espelho do espelho
além além além
do que é possível

3997. Impossível

IA

No começo do ano passado eu tive um surto, em diversos sentidos e significados da minha vida. Recomposição de tudo. No meio disso, por causa e para além disso, dizendo disso e do resto todo, estando no mundo e o vendo ir, tive e síncope de um livro de poesias. Veio vindo de uma vez, vazando por todas as partes. Vi que tudo ia e resolvi dar vazão a esse veio de versos tortos. O resultado foi este IA.

Ia, de Guilherme Carvalho.

Subversão da inteligência artificial num verbo substantivado para demonstrar o que minha constituição percebia que ocorria no mundo, e que ainda ocorre. Não é um livro de amor, não fala de amor, o pensa pouco. É um livro de política, de crítica da cultura, de historiografia geográfica póstuma, de antropologia filosófica besta, feito com algum amor ainda pelo mundo, que flerta com a esperança, através da desesperança plena. Amor tal e qual o que anda no mundo cotidianamente: o que ia por aí.

A sincronia ocorreu plena neste ano, uma Editora da Paraíba, chamada Editora Escaleras, topou a empreitada de publicar meu IA. O resultado é este livro, minha primeira publicação impressa. Feito com muito cuidado, profissionalismo e qualidade pela Editora.

O lançamento será logo mais, avisarei pelos caminhos das redes quando ocorrerá. Quem quiser adquirir desde já o livro, entre em contato nos comentários ou pelo e-mail: gcarvalho.silva@gmail.com.

Axé.

IA

3994.

Meu pensamento sussurrou três emoções
senti que não entendi nenhuma
meditei três dias seguidos
sobre o que não sentira

raciocinei nada
somei sentidos
desabri a procura
desutilizado

Quem morre primeiro
a cabeça ou o coração?

3994.

3993. Journey to dawn

Aquele que inicia
acima como abaixo
– fagulha cintila
centelha binária
dentro da expansão
que implode

O brilho da explosão
nos emoldura
antes do universo
o próprio contraespelho

O silêncio da matéria
reverbera na luz
que só emoldura a beleza
pela beleza do negro

A cada manhã o sol
tapa a imensidão da escuridão
com sua luz
e a mentira do azul
– o brilho e o anil que cegam

Toda noite o sol apaga
a sua razão
para o infinito não visto
enquanto cabeças dormem

O sol mente e trai
– atrai
todos os dias
esconde suas irmãs heliocentricamente
ego

  

Apagar o sol dentro
dois instantes
três
até reencontrar todas as estrelas
aqui embaixo

3993. Journey to dawn

3992. Canto de Akesan

O estado das coisas,
anunciação
Foi a diáspora empreendida
fora de qualquer êxodo

Todo êxodo, agora

A gestação inabitada
no ventre
– o futuro
Milhares de células
segregadoras

Desterro de manada
Deserto de tronos em torno,
disparada
Sete palmos
Sete céus
Sete taças
Sete léguas sempre à frente,
jornada

O horizonte circular
– todo ponto retorna a ele mesmo

Esfera

A imensidão vocifera a luz do início
– ponte entre lá e cá
ponto de ouro para a mudança da prata

O que virá é só
o que vai
é só o que volta

3992. Canto de Akesan

3987.

busão febril
cá dentro
cada baque no
buraco do asfalto
um tiro no
tímpano redundando
em todo o encéfalo

agonizar sem
nenhum ferimento

a ansiedade da virada
sem ter onde apoiar

cada buraco do asfalto
um precipício
hospício
em que nos jogamos

coletivos

3987.

3986.

não por agora,
disse

a máquina da ansiedade
ligada
o motor mercurial de marte alucinado
antecipa o passado
reticências insistentes
passa o futuro

eu não sei o que se passa
só o que passa presente
como em mil novecentos e oitenta e um
ana c e paulo paes,
mora?

saí das redes, não sei o que se passa
se instalou lá onde não estou
eu disse oi para o éter
fiquei com o momento presente
traços cinzas das cinzas sem respostas
não como em mil novesentes e oiatenta e ruim

liberdade, construção caduca ideacional
não sei mais o que se passa
a teletela do desejo como dois animais
não há mais segredos
não há mais degredos
há medo e mote e glosa
nada se mete
nada responde

fiquei no vácuo das redes
afirmado para o quê
contradizendo o quê
te vi de relance
depois sumiu
não tinha mais redes
nem sei mais o que cê pensa

nem sei mais,
mora?
como em 1981

3986.

3985.

eu te quis, como se diz, com todo o ardor
você olhou o buraco do meu assoalho
falou “põe um tapetinho, fica mara”
e me ardeu por meses a fio
eu vi o brilho nos olhos em todos os olhos
o brio
a flama
a flâmula
a chama
encharcada

havia um horizonte azimute estelar
jorro de estrelas pelas beiras
cópula constelar helicoidal no entremeio da galáxia
havia uma doçura dourada persa
camafeu de marian protetura

os séquitos entrelaçados
esbanjavam o alarido hálito árido
compensando a chuva desabrida

lírios bojudos ressuscitavam
o que nada suscitava; a música do ar

e eu te quis, como se diz, como a planta suga
o néctar do sol
fotossintético e fotoanalítico
fótons teus, tons de cor de cachos de cabeça

um pouco mais dos andares da lua
um tanto menos que o percurso do sol

até que o desabrido do começo do céu
da minha cabeça vomitou o urro do breu
e uma brecha para fora de tudo se vomitou em mim
epítome do desaprendido eterno da vida

eu te

3985.