3959.

entre o capim
navalha e o santo
– limão nunca –
apenas milhares
troncos separados
tantos
que faço chá de faca
e adormeço tonto
do que enfim
acorda em mim

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3959.

3958.

o jogo de cortázar
é atraente, mas não
precisa ser atrativo
ainda que inerte
menos ativo
menos entumescido
pode ser sem ter sido
só o metrô e o vidro
os vidros vivos armados
em minha face e aqueles
transparentes, refletidos
do mundo cá lá
o contínuo
desde sempre o contrário
paralelo – toda vez que
o olho – eu como –
garoto refletido no piso
do banheiro molhado –

não me arrisco
a vida de cá
é o preciso

3958.

3957.

a mentira das nuvens
reside na sua verdade
água dissecada etérea
no emaranhado mutável
do céu é rio –
traveste-se dessas formas
de espuma como
onda banzeiro maré

fios esticados d’água
atando o firmamento
transversal de tempo
transpassa o peito
tão momento como
se diluirá

                   a construção do amor às farsas

3957.

Baseado em fatos

Demorou apenas três dias para que eu cruzasse todas as ruas da cidade e cumprimentasse, com sorriso franco, todas as pessoas que encontrasse. O pasmo e o desconjuro eram sempre os mesmos, apenas as crianças e alguns jovens não fingiam seu espanto e demonstravam, mesmo que de quando em quando, alguma admiração. Talvez fosse pelas minhas tatuagens que cobriam desde a testa até os pés, passando pelo enegrecido à tinta do branco dos meus olhos, mas também devia ser pelos meus alargadores que escancaravam locas nos lóbulos de minhas orelhas, boca, bochechas e nariz. Talvez fosse pela minha farta gordura que despencava banhas por fora das roupas. Talvez fosse porque eu era mulher. Só sei que por onde eu passava gerava uma certa aflição.

Cá estava eu, pronta a assumir o cargo de professora de Educação Infantil do Colégio Estadual Belarmino Malaquias, pacato distrito de Menelau de Dentro, zona rural da comarca de Poricoté do Norte, província de Fronteiras Centrais, região centro-sul do amado país de Mogno, parte central da porção oriente-austral do subcontinente íbero-cabralino.

Poricoté do Norte. Me causava assombro que houvesse uma Poricoté primordial, ou mesmo, apenas, uma Poricoté do Sul. Imagino as tropas percorrendo as gerais desse mato séculos atrás, chegantes e escudeiros percorrendo florestas e brenhas na captura de escravos fugidos ou vermelhos da terra. Um vilarejo ficando por aqui, fruto de uma preguiça rosa-olímpia de botar as outras pessoas para trabalhar à força em seus lugares e do estupro sistemático de nativas. Uns diamantes e um ouro qualquer em algum momento da história, a urbe fincando raízes no meio da selva e eis a nossa atual Poricoté do Norte com toda a sua tradição e herança existindo até agora.

Apresentei-me na escola conforme indicado pelo memorando que impunha em mãos, no dia vinte e três. No início não quiseram me atender. Quando cheguei à escola, uma senhora me atendeu, vi o assombro em sua face. Era como se o diabo estivesse ali em sua frente, e o diabo era eu. Quando passou seu espanto e finalmente ela percebeu que eu era uma pessoa de verdade e que tinha um memorando nas mãos, pegou-o com um certo asco e saiu em disparada porta afora. Não sei quanto tempo passei ali, em pé, à espera de algo. A mulher voltou meio ressabiada, me olhou de cima abaixo e só conseguiu dizer, trêmula: “a diretora não está agora, volte amanhã”.

Voltei para o hotel em que havia me instalado. Lá o pasmo já havia virado diversão. “E aí, professora, já conheceu sua escola?”. Respondi com um olhar meio tristonho e só entrei para o meu quarto. Pensava em como eu tinha me proposto àquilo. Mas agora era pagar para ver. Veria. Resolvi tomar uma cerveja. Saí do quarto e perguntei pro moço da recepção onde tinha um bar com cerveja gelada. Ele disse que o melhor era o Tonhão, não era longe e lá sempre tinha uma cerveja gelada.

Cheguei no Tonhão seguindo o caminho indicado. Lá, novamente mais uma cena de choque. Tonhão me olhou de cima abaixo e perguntou se eu era hippie. Falei que era uma das novas professoras do colégio provincial. Ele riu e preguntou o que eu queria. Pedi uma Skol, ele veio com uma e um copo, antes pediu pra eu pagar adiantado. Dei uma nota de cinquenta, ele ficou com um ar mais ameno. Foi para dentro do bar e eu fiquei ali no balcão tomando minha cerveja.

Um sujeito corpulento, massudo, gordo forte, entrou no bar e me olhou. Parou num susto. Olhou pra mim e perguntou: “é pegadinha?”. Não respondi nada. Fez um ar de foda-se e gritou pelo Tonhão. Pediu uma quentinha. Tonhão encheu um copo americano com uma pinga de uma garrafa pet de refrigerante. O sujeito tomou tudo de um gole e pediu mais uma. Virei pro Tonhão e pedi uma da mesma. Ele botou e dessa vez não pediu adiantado. Tomei num trago e o sujeito me olhou com cara de assombro. De repente ele virou e me perguntou: “tu é mulher?”. Fiz que sim com a cabeça. Ele não falou mais nada. Ficava só me olhando de cima abaixo sem se fazer de rogado. Não dei a mínima pro sujeito. Peguei minha cerveja e fui pra uma mesa do lado de fora do bar. Tomei três cervejas do lado de fora. Foi aí que olhei para o lado e vi uma massa de gente se aproximando. Fiquei pensando se seria uma procissão. Achei curioso. A turba vinha vindo, mas não havia nenhuma coisa que me remetesse a algo religioso. De repente a massa se aproximou do bar e parou em minha frente. Não tive tempo de pensar em muita coisa, só senti um golpe duro de madeira na minha cabeça, desmaiei imediatamente.

Depois vieram vários outros golpes. De facão, de machado, de pau, de pedra. Dilaceraram minhas partes. Me esquartejaram. Mulheres chutavam a minha cabeça. Homens brincavam com minha buceta, chutando-a de um lado para o outro. Rasgaram-me todas as partes. Fui largada, pedaço por pedaço, ao largo da rua que dava no bar. Alguns ainda tentavam atear fogo em algumas partes minhas.

Nunca entendi porquê. Morri esquartejada em Menelau de Dentro, distrito de Poricoté do Norte, província de Fronteiras Centrais, Mogno. E meu sangue ainda pode se ver em algum cascalho que se junta na beira da rua.

Baseado em fatos

3950.

a morte é uma coisa azul. não que eu tenha morrido esses tempos, mas sei. ela é azul e sem temperatura. não é morna, nem quente, nem fria. é um azul profundo, inteiro. dá pra se ver lá em todo o azul. e não é um azul, são todos. é o pleno azul.

3950.

3949.

as células
selas que não calam
prisão corpórea
que te mantém vivo
as células não param
paisagens orgânicas
organelas
microcópicas
coisas que boiam
dentro de ti
um pântano
um mar abissal
tua vida.

3949.

3948.

no mundo inteiro as mesmas palavras
na mesma ordem
no mesmo compasso
e quando eu falo sobre seres da lua
já me cospem teoremas e tédios
e minha boca fica perdida
aprisionando alegrias
dado o monotônico do mundo

minhas palavras não
são possíveis nem passadas
nem tem poder
são bardos que se liquefazem
por dentro do sangue

e nenhuma montanha
retornou minha voz
nenhum eco se fez
nem no alto nem na foz

desaguada sem sair
cada palavra lago barragem represa
em mim solavanca
tromba d’água e me afoga
cachoeira negativa
meu dentro

e essas palavras
as mesmas todas
rasgando minha pele
açoitam minha face
e o mundo gosta disso

3948.

3947.

eu não silencio as manhãs
eu as calo
cadafalso parece chão
mas é buraco.
eu dia me intrometo
nos seus sonhos
vomito a urgência
de se por de pé
limite para a noite
onde tudo foge ao controle.
eu controlo e invado
de luz todas as retinas.
eu dia quero o fogo
do céu queimando corpos
e dispensando a loucura.

3947.

3946.

houve o mar
houve a cachoeira
houve o rio e as estrelas
houve a árvore os caminhos a areia
houve a voz lendo o livro o ônibus e a baleia
houve isso que há sendo dito e ouvido
eu você e uma vida inteira

3946.

3945.

o peito pensa
é uma massa densa
que se consolida ao redor
vai da garganta
ao umbigo,
podia não se ater,
antever o início do
momento mágico
em que a massa
viraria leveza
nunca travestida de
outro ser
(o que sai de mim
é de mim, vê-se
com outros átomos)
se eu dissesse meias
verdades, falasse
com as pontas dos pés
o que diriam as células
e os cigarros?
o que diriam as mãos?
como o rio que me
atravessa peitos e
plumas meus
ouriçado entre os
entes
e como espasmos
encontro outros alicerces.
meu problema é
diagnosticar angústias
como se fossem solavancos
amaldiçoados dentro de mim.
meu Exu capta dores
e farsas e desavisado
riso franco, maligno
não me avisa:
todo o visto vem de mim,
não dali ou daí.

3945.

pausa: aleatário da nova morada #1

Cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Um corte no polegar esquerdo feito por uma faca de serra quando tentava cortar o fio que amarrava o maço de manjericão que eu amassei junto a alecrim e hortelã na tentativa que meu Pai Oxalá me ajude nessa função de ficar bem. Tomei dois Ansiodoron – maracujá, aveia e valeriana, na medida exata pra tentar controlar a sua ansiedade, só que não. Dormi um sono vespertino abafado e confuso, misto da playlist que a Alessandra Leão fez no Spotfy e que escuto ainda agora, e uma profusão de sentidos se comunicando – sentimentos, pensamentos, sensações. Sentia meu corpo formigando incessantemente, intensamente, como se todas as minhas células estivessem mais ativas do que o normal. Tirei o Whatsapp do modo de não exibir notificações, para ver se eu parava de querer olhá-lo de cinco em cinco minutos na esperança de que houvesse algum retorno. Não houve. Não há.

Cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Trinta e cinco anos passados desde que vim ao mundo e ainda ajo como se fosse um adolescente de quinze, na frenética e ansiosa espera de que a realidade corresponda aos meus anseios. Mas ela não corresponde, nunca. Aluguei um apartamento de um quarto em Taguatinga Norte. Nono andar, prédio velho, cheio de velhos que moram aqui. Arrumei tudo com muito apreço e esmero, como sempre me dedico a essas questões de lar e cá estou eu. Eu e um vazio. O apartamento já está devidamente mobiliado, ainda faltam alguns elementos que desejo, como uma máquina de lavar e uma televisão, mas, meu Pai, como tudo anda caro nesses dias.

Cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Não sei muito bem o que pensar. Agora há pouco fui à casa da minha mãe, deitei-me no sofá dela e assisti um pouco de televisão, brinquei com o gato Trovão e cochilei alguns minutos enquanto lutava para parar de pegar o celular e olhar o Whatsapp, a vida de um ansioso é uma coisa perturbadoramente aflitiva. Dá um negócio abaixo do peito e acima do estômago, dá um negócio no meio da gente, no centro e irradia para todas as extremidades, o esôfago é quem sofre mais nesse vórtex ao contrário. Almocei por lá e na volta comprei uma cortina que faltava para o apartamento. No caminho me vinham versos, coisas, imagens, tudo meio agressivamente solar e desesperançoso. Ficar triste no meio do sol é algo desolador, desesperador. Ter vontade de chorar junto aos transeuntes todos tão tranquilamente correndo em prol de suas vidas, no meio da avenida Comercial Norte, no meio do sol, dá vontade de chorar. Mas não chorei, só alimentei esse nó no meio.

E cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Em 3018 será que ainda estarei assim? A recorrência me leva a crer em um não aprendizado contínuo, vida após vida, moto-perpétuo cârmico de não entendimento. Mas qual será a lição? O que esses átomos que se aglutinam em mim me dizem e que eu não consigo fazer diferente? Mesmo com o Whatsapp no modo de exibição de notificações ainda olho furtivamente o celular, na esperança de que algo houvesse falhado e que sim, houvesse comunicação. O diabo é pensar na culpa, acreditar em uma culpa que agora não tendo forma, corpo e situação, se instaura no amargo das palavras ditas. Não dizer será a resposta? O aprendizado? Talvez o desneurotizar. Mas como se aprende a não ser neurótico?

Cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Clamando aos Orixás que me deem o alento mor tão desejado de se sentir em paz, mas esse estado me é fugidio por demais. Escorrega sempre pelas minhas mãos, ou, como no caso, pela minha língua. Esse nó é escroto e demasiado, mas não consigo sair dele, ou ele não consegue sair de mim. Versos agressivos me vazam e eu não tenho coragem sequer de os transpor agora. Dá medo lidar com o medo. Ele berra por demais de quando em vez, agride, soca e faz cócegas com o corpo amarrado. É risonho esse meu estado, risível, risossonho, mas é o meu estado e sair dele é um trabalho dos diabos. Eu podia fazer mil coisas, mas o apelo por fazer nada é maior, talvez seja isso que o meu corpo esteja me falando: faz nada, por favor. Minhas costas doem. Desde o meio de 2016 venho num estado maluco de fazer, de correr, de executar. Primeiro foi o emprego, depois o fim do casamento, depois a ânsia por mudar de casa, sempre fazendo. Houve só um momento em que não fiz, em que fiquei com ela simplesmente não fazendo e acho que isso que foi bom e que me atraiu tanto. Mas daí vida vem, resoluções tem que ser tomadas, se descobrir, se encontrar, fazer terapia, desbravar matas selvagens e no fim esbarrei com um lugar louco e encoberto, não sabia sequer como agir com as palavras, tanto é que pouco escrevi esse ano. Aprisionado num rolê de se sacar. E o pior é que talvez não tenha sacado porra nenhuma, afinal, cá estou, dez de janeiro de 2018, com uma coisa densa no meio, como nos idos de 1998. Igual que nem.

pausa: aleatário da nova morada #1

3942. acalma coração

nada mais há de se esperar a não ser o ar
o céu firme como azul
nas têmporas temperam os olhos
nuvens espraiadas
a cuca infusa n’água aerada

nada mais há que se esperar
como os elefantes negros enluados
as sombras mortas viventes
das pegadas dos elefantes
aquele uivo na esquina dos anos

se for embora sem esperar
nada mais há que se esperar a não ser o ar de se espraiar
até tocar os uivos e os elefantes
que se espraiam dentro
da lua que se espraia dentro de si
diluído como o azul

morada de lobos e sombras
essa espera que no tengo mas

3942. acalma coração