3965. sinastria

saca a saga selvática
solidão só solidão
sorumbática
sapos saltando sobre
o sifão semiaberto
sussurrante
sótão aos solavancos
segundos simplórios serenados
solidão silenciada
seguindo sorrateira
soerguendo secas
sempre sempre significadas
susto seita sectária
solitárias suavizadas
separações sistemáticas
só a senda sinistra
ser sendo são
soluços silvos saques
sinistros

saí saindo
saí saindo

sal sobre a suave superfície
sintética
sins si sínteses
s.o.s.
só segui seus sons
singularidades simpáticas
séculos sabendo-te
sem se saber o sabor

segui seguindo
segui seguindo

segui as sincronias
sorri seu sorriso
saudei seu sol
senti seu ser soterrando
solidões
saga sedentarizada
sede saciada

                  sorvi sua sinestesia
                  servi-te seiva

3965. sinastria

3958.

toda tecnologia é mágica
assim como toda técnica é magia
e havia a planta toda dentro da flor
memória da forma
momento do conteúdo
repetição e única possibilidade
do mesmo jeito que
o aroma da beladona
na noite inebriava
a luz do poste que
ninguém ali
na praça
sabia como acontecia
nem o cheiro nem a luz
aqueles elétrons todos
sendo evocados desde
a cachoeira barrada
e ela tentou capturar o
momento que o aroma
da beladona se misturava
com a luz do poste
e o preto do céu
e ela invocaria sua ancestralidade
com aquela imagem
cinquenta caracteres sagrados
e três ícones profanos
magia concebida na
espontaneidade do instante
dentro de uma rede
jogada ao mar
vela acesa na praia

                  a memória do poste
                  no centro da praça

3958.

3957.

descargas elétricas de felicidade, como se eletrodos de endorfina se aglutinassem na espinha e se contornassem nas reentrâncias do pescoço e dos antebraços, friso despudorado dos apelos das línguas ou linguagens etéreas das mãos a quase tocar quase e toca e dispara as descargas carreadas de chapações elétricas que afetam o corpo

                  e o prazer gerando o suor eletricamente bem no meio da seca

3957.

3956.

diamante é pedra
ouro é pedra
prata é pedra
pedras são pedras
aglomerados de pó

                 do princípio
                 e do precipício

3956.

3955.

já houve quem quisesse
preservar os sons dessa cidade
como se patrimônio os
caminhões rompendo o asfalto estatelado
ou se o papo preconcebido global
tias tios nas calçadas
fosse memória
a não ser implodida pelo tempo

tudo é memória a ser implodida pelo tempo
tudo é passável e permeável
tudo é som sucumbindo ao ar
tudo é possível e passível
tudo é passado a todo segundo
tudo é posse do fim
tudo é rompimento do futuro
tudo é presentemente preconcepção
tudo é calçamento asfáltico no globo
tudo é memória
tudo é implosição-momento

                 desde antes de tudo que não era som nem silêncio e era já

                 grande-explosição

3955.

Genes is

Nasci numa manhã cinza de julho, com o frio balançando os meus longos cabelos lisos da cor de mel puro de flor da mata virgem. Nasci frio e rosa, com tranças que mediam seis metros cada uma das cinco e da cor de mel puro. Nasci com a cabeça em fogo brando numa manhã pouco rosa e cinza com o frio a balançar minhas cinco tranças de seis metros cada. Minha cabeça reduzia a três.

Nasci expelido do umbigo do meu pai. Minha mãe que me pusera lá. Capivara-cavala-marinha-do-rio. Pai-potro-das-praias. Nasci com dois metros a mais que minhas tranças e com espadas. Meu corpo se reduzia ao infinito em pé.

Meu pai perguntou-me enquanto eu dormia se queria mamar. Sonhei um vasto mar de leite de coco e um homem baixinho e carrancudo de terno, camisa e gravata pretos me pedia dinheiro para mamar nas pedras que saíam da areia e jorravam leite de coco. Cortei a cabeça dele com uma espada que tinha no bolso e o joguei no mar de leite de coco e o leite de coco ficou verde-brejo-vereda e eu vi sua cabeça falar dinheiro, dinheiro.

Acordei com fome dentro de outro sonho e minha mãe costurava minhas tranças que eram cinco e mediam seis metros cada com uma linha grossa e branca. E meu cabelo da cor de mel puro ficou branco. E minha pele que cobria o infinito em pé do meu corpo ficou branca e tudo ficou branco. E minha mãe que costurava os fios brancos no meu branco todo era azul-vidro-leitoso e transparente, espelhada. Minha mãe-peixa-gente.

Quando acordei nesse sonho já não era mais sonho, era só continuação dos dois no céu azul bem limpo que já não era mais de julho, mas de um tempo que viria ainda, como num sonho. Minha cabeça pesava quatrocentos e setenta e um milhos brancos. Minha cabeça reduzia a três. Era uma cabeça com três tranças brancas e meu corpo era branco e minhas costas cortavam pontos vermelhos como fogo em brasa de fogueiras de junho e o tempo que viria era esse, o próximo junho antes do frio que viria.

Minha mãe era minha avó e eram uma peixa-voadora que dava melado de beterraba com mel e eu comia bem devagar para não sujar meu corpo branco e no topo da minha moleira branca, círculos brancos de giz branco foram pintados por meu pai-potro-alado-do-firmamento que morava dentro de um caracol. E minha cabeça-moleira já não tinha mais tranças, era lisa e branca e circular como a lua cheia no meio da noite de junho que viria quando o sol se bastasse mais uma vez no mesmo ponto à mesma altura a iluminar minha cabeça e a lua no que viria a ser. Aquele momento em que estava.

E eu nasci de novo ali. Debaixo de um pé de boldo, os pés limpos de azul-verde do rio que cai no mar cheio de peixas e peixes que viram gente quando pulam pra fora dele pra ver o que tem no além do líquido do mundo, as costas em brasa com pingos cinco em cinco de um vermelho bem ajustados no meio da massa branca de tabatinga que meu corpo moldava.

Nasci de novo numa tarde cinza de julho com o vento frio balançando minha careca e a linha do céu pegando fogo enquanto a noite, lençol negro, cobria a terra com um alento gelado e calmo. Em paz.

Genes is

3951. singularidades simpáticas

não seriam os ramos dourados
mimese mágica
totens desabando tábuas
tábulas fábulas alquímicas
mas sim pegadas entrópicas
intertropicais clareiras
savânicas
iansânicas
sônicas
rasgos dourados de luz
em cachos rizomáticos
no inteiro do céu
no avolumado do azul mais que negro

é que há vento
no sem fim de sentidos
do firmamento
porto cósmico para aquele
em que não há centro

e há essa voz que vem de dentro
e diz
trovoa suave enquanto há
raios dourados
no azul mais que negro do céu

não silencia os raios

3951. singularidades simpáticas

3950. mãe lilith

livrai-me dos abraços abrasivos
pelo vento
livrai-me até eles
por todo o vento

livrai-me do enrosco
da quebra de sorrisos
dos objetivos
dos sonhos acordados
dos pelos das peles
dos gostos
do meu peito

livrai-me da voz
do aveludado da madrugada
da lambada da serpente
dos animais sonoros

livrai-me livrai-me
livrai-me

até livrar-me de me livrar
e por-se livre
desaprendendo
desprendendo

vento

3950. mãe lilith