4052. a chave

primeiro foi a liberdade do amor
cortei-a na base do machado
depois vieram os orgânicos
e se achegou a yoga e o crossfit
agora abandono a barba e o cigarro
com o beiço em bico
amanhã deixarei a bebida
e virá kant, meu pet cão ético
e christ-cat, meu pet kant felino
e o fim etílico

daí meu corpo destilado
pronto para estar ao lado
da direita e de deus pai
atento e forte
para a segunda

vinda

da militarização evangélica

sentido!

não pelo a, mas pelo te

mor,

te

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4052. a chave

4047.

Te amo,

como as nuvens ao encontro do lamaçal;

como o pântano esbarrando em beijo o arco-íris vindouro após o temporal;

como a chuva irradiante de clarões solitários dentro do estrondoso encontro das paragens solares que esfacelam o lodo, o limo, o lume, o brejo e o adentram em ondas fluidas de espessura e cor;

como o movediço manancial de plantas derretendo ao ácido dos alagadiços pegajosos de visgos de terra e barro e matos feitos betume incorpóreo e denso diante do céu límpido e azul de aprofundar-se nos vastos retalhos fractais que engendram engrenagens invisíveis até a escuridão do profundo sideral que é teia e movimento e espelho daqui e de além.

Te amo,

e é livre.

4047.

4046.

Para que esse estertor torto todo?
O controle te controla: trave!
Tolde e molde e tolha.
Aceite essa trolha
que tudo te prende
te ata.

Carvalho, o carnaval
é só orvalho, o aval da carne
para os nódulos das grades cinzas,
caralho!

Um cala boca loka
no grito efusivo e explosivo
da turba turva confusa.
Não há desbunde,
só controle
só consolo
como troll, freak control,
fucking trolha.

Abaixe a guarda, Carvalho,
não existe voz interna,
só o aglomerado urrante
das expectativas outras
marchando na sua cabeca,
mexendo nas suas têmporas:

sentido!

4046.

4045. tautologia do espírito entre a destruição e a ascensão

recuperar o ar e o arrepio na cabeça

entre o anseio pelas granadas e a degola das cabeças

meditar cada dia cinco minutos a mais adentrando o céu

transmutar a dor dessa terra pelo céu que nos é imposto

admirar o barco zarpando pela pele até tocar as folhas das árvores

rebocar as paredes com sangue e cimento cozidos durante os périplos dos vagabundos

arrebentar-se nos corais das bocas em palavras multicoloridas de peixes e paus

significar os estratos das camadas de gente empilhada e as hordas de terroristas puros

de perto tudo se ocasiona nos ocasos do oriente que arrebenta e cinde as camadas dos hemisférios místicos

é tudo uma constatação abaulada e desidratada que busca as nuvens

nenhuma utopia ainda

heterotopias de heroicos héteros habilis rasgam minha face

e as granadas e as cabeças rolando

e o arrepio na pele à primeira hora da manhã
ainda há de ser um encontro possível
para a vida
como permitir-se pássaros pela cabeça
diante de uma serena explosão

4045. tautologia do espírito entre a destruição e a ascensão

4043. OU

Sem cascos nos olhos
o branco do lado escuro da Lua
desentranha o arranha-céu
pulverizado em pétalas de cravos
e o galope da vista dilata as premissas
de enxofre e metano
que se sentem com as costas das mãos
e com o dentro do trabalho de outrora
o sangue cerca o eclipse solar em marte
halo de labor afetando os vales
e meu amor se estaciona num avarandado
de 1935
cá nas brenhas dos trópicos
dum intento de arrancar corações
e costas dos pombos negros das mesas redondas
de gravatas borboletas e helicópteros
que capturam a aurora da vida

Mas se em cascos d’olhos
em trote e pupilas diante do barlavento
a escuridão do solar lado lunar
e suas flexões de uma fluida chama
que antecede as órbitas dos seres
e desorganiza as águas moventes
descampa as folhas monolíticas
e puxa a seiva da raiz mais magmática
magneto que conclama o ar à vida
e a água à morte
como toda pedra abre-se ao gosto acre da flor
e toda casca silencia-se num grito de humos
numa gargalhada de terra
num silvo de solo
que me livra o amor a ser sertão
quando da chuva betuminosa se preciso
ou se precioso mandacaru de flor lilás
e teiú caxinguelê anil laranja
cuspindo o fogo a chama a brasa
de manter corações
e costas dos caburés vermelhos das rodas
de batas brancas e nuvens
que arregaçam a aurora da morte

4043. OU

4039. Significante flutuante

Cá nos pós Equadores tropicais
a trupe-tropel-tropa
troca a liberdade
pelos livros do mercado
a traz no peito o espírito libertário
da pátria amada não idolatrada,
pois para ela não cabem ídolos,
só Deus.

E aspiram à sublimação
igualitária na ânsia
diferencial de que todos
voltem para o aperto de seus armários.

Mar de indivíduos únicos à deriva
é uma massa inerme e armada,
inerte tsunami
– “A ONDA” –
que não transpassará a costa, o litoral,
apenas o submergirá
em grades e frames,
desejosa prisão.

E no final desse poema
não esqueça de dar o seu like
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4039. Significante flutuante

4038.

um mundo de sinais
os dedos de pólvora
cavalo louco sem papas
os mano preto aos bardos
pipoca é dois real
ela loira no palanque
o sol salgando o couro
as paradas repletas
de peles pintadas
querendo a morte
dos pele pintadas

sinais e mais sinais
dos ermos dos tempos
que a terra percorreu
até aqui, os sinais

4038.

4036.

Eu,

enquanto dor
           morrerei
conquanto corpo
           morrerei
como árvore
           morrerei
entanto marca
           morrerei
portanto futuro
           morrerei
enfim camada
           morrerei
todavia liberdade
           morrerei
senão movimento
           morrerei
porquanto além
           morrerei
entretanto pássaro
           morrerei
consoante tricerátops
           morrerei
tão trôpego
           morrerei
embora deus
           morrerei
porque macaco
           morrerei

eu.

4036.

pausa: leituras 2018

Foram 18 livros lidos em 2018, informações sobre é só perguntar:

1) XY sobre a identidade masculina (Elisabeth Badinter)
2) Habibi (Craig Thompson)
3) Ou o poema contínuo (Herberto Helder)
4) Ao encontro da sombra (Connie Zweig org.)
5) Relato de um náufrago (Gabriel García Márquez)
6) A astrologia no mundo (Peter Marshall)
7) Agonia de Eros (Byung-Chul Han)
8) Outros jeitos de usar a boca (Rupi Kaur)
9) A vida secreta das plantas (Peter Tompkins & Christopher Bird)
10) Awô – O mistério dos orixás (Gisèle Omindarewá Cossard)
11) O túnel (Ernesto Sabato)
12) Normas práticas para interpretação do mapa astral (Stephen Arroyo)
13) O ódio como política (Esther Solano Gallego org.)
14) O que é ideologia (Marilena Chauí)
15) Manual de astrologia (Rene Fleury)
16) O buda do subúrbio (Hanif Kureishi)
17) 1993 (Charles Trocate)
18) O fabuloso quadrinho brasileiro de 2015 (Rafael Coutinho & Clarice Reichstul orgs.)

pausa: leituras 2018

4035.

vivíamos entre as massas
e se olhássemos o horizonte
lá estava a linha
entre o chumbo e o sangue
que produziria o por do sol
mais tóxico que já existiu

honradas as gerações
que viram as chagas e os cancros
e agora ensinam que o horizonte
tem de ser sempre cinza
para se cumprir a palavra

desonraremos todas as histórias
que nos coloquem em fumos
o avanço das auroras
diante do sol
que sempre será vermelho

4035.

4034. todo amanhã é hoje

aproveitamos a brisa quente desses dias
nos encontremos, choremos
suemos o que pudermos
o difuso do horizonte desprovido ainda
é uma imagem embaçada

nos amemos enquanto amor há
como ar
o respiremos por dentro
e piremos
enquanto há

depois de amanhã há de haver
ainda algo
meio não existente 
mas tomemos esse gole
sorvemos essa cerveja

nos amemos
amemos
a mais agora
não a menos

a luta há de ser bruta
e nossas foices cegas serão parcas
mas serão foices
alguma força e ceifaremos
todos os campos brutos

amanhã
enquanto hoje
ainda amamos

4034. todo amanhã é hoje