3941.

todo dia eu te deixo ir
e nesse eu te sinto mais ao meu lado
todo dia se deixa partir
e sempre nesse é o agora
onde pulsa o amor

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3941.

3937.

guardei teu nome para
depois de amanhã
quem sabe um dia
seus passos se silenciem
pelo corredor e eu
possa dormir mais
que três horas numa
noite e seu pulso
não se sinta nem
aqui nem no quarto sem
nenhuma decoração
ou decore um mural
com frases para se
decorar no topo dos
sentidos: “a lua sussurra
o eco do silêncio”
“qual o barulho da terra
girando?” “de que lado
de dentro vive o sol?”
“quantos vazios se
orientam pelo
coração do universo?”
“a morte existe no
azimute de marte”
“vênus desfibrilou a
garganta de júpiter”
“viveremos lençóis”
“violentar o nada é
auto-expiação”
guardei teu medo
para depois de amanhã
e o vivi hoje
aroma de dama da
noite na segunda
aurora
não esperei,

3937.

3936.

cármica rodoviária
fluidez asfáltica
parasitária
carne exposta vísceras
e veias abertas
fratura óssea
a rodoviária
num dia morto
a vida urra
na rodoviária
uma dor a cada tapa
semântica do medo
dois dedos de jurubeba
perdida
alguém está perdido
pedidos
faca amolada
o ônibus vaza
a fila some
a lokura aflige
e não tomba
tromba os parceria

os loki

3936.

3935.

as filas se formam
não sei onde olho
onde moro
moro nas filas
que se formam
nas faces que formam
as filas
que me formam
moro
onde olho
não sei
onde moro
nas filas que folham
nas folhas que
não sei onde
moro
nas formas que
não sei
moro
as firmas que
não foram
as folhas que
não olho
molho
onde moro
não sei

3935.

3932.

o egoísmo dela
o que eu queria ser
sua indiferença
minha flecha

tudo o que lhe depositei
da paixão que havia em mim:

                   espelho estilhaçado
                   só vi o fino pó
                   voltando a ser areia
                   fragmento carreado
                   em meio a água e sal

amei-a
meia
a projeção dos meus medos

3932.

3930.

supunha que seria comovente
mas como todo ser semovente
pouco contemplável muito complacente
viveu até o fim aprisionando as lágrimas
por dentro era barragem não rio corrente
por debaixo um tanto pântano
por de fora passando rente
brejo de lama perene

talvez fosse a nascente

3930.

3929. admirador de fissuras

essa é a história do admirador de fissuras. buracos. rasgos. vãos. daqueles seres que futucam ferida. arrancam casquinhas. passam a unha. até fissura abrir. um sujeito desses nasceu em qualquer dia e viveu qualquer vida. mas o que lhe conferiu a diferença é apenas e tão somente o ato mágico de observar as fissuras. admirá-las. as frestas também lhe encantam. qualquer veio por onde se aviste uma parte. um pedaço. um enlace. não o todo. a forma. silhueta. quando imerso na totalidade de dentro da fissura tudo o incomoda. causa pasmo. aflição. o quase é mais poético. mais humano. mais saboroso. mas o admirador de fissuras morreu um dia. apenas e tão somente. nada mais. até o fim. observando fissuras.

3929. admirador de fissuras

3928.

esse há de ser um poema bonito
uma implosão concreto esfacelado
poeira fumaça blocos
estado de alerta
estado de alerta

isolamento da área
perigo de alta combustão
chamas labaredas e a vontade

soterrada

porque tudo é triste no meio do eito dos dias de chuva
tudo é belo

a calma é só um ponto médio

entre o tudo desabar e o desabado

lindo

3928.

3927. masô

a ilusão saboreia o sucesso
o juiz brinda o avanço
todos parecem comemorar
a destruição a dilaceração

amanhã há de chicotear-se
a dor da pele transfigurando-se vida
essa que a parte de dentro lhe surrupiou

e tudo é dentro

vida

quista

3927. masô

3926.

ela olhava com atenção sua angústia
uma angústia lapuda
uma lapa de angústia
uma lapada
gostaria de lhe aplicar eletrochoques
até a agulha do discernimento
se enfiar na medula óssea do não querer

um budismo carnívoro assomava o corpo dele
ela olhava
alicates nas unhas pensava nas bolas
adestrar e admoestar-lhe as estruturas
nirvana em fúria

sua mente babava

3926.

3925. a cultura me fodeu

escolho a falta. o mundo transita em ser mais um merda. é o trânsito do fim de novembro. a lua entrando lá. transa. imaginária transa. afogar-se num mar de bucetas. num mar de cus. num mar de paus. a falta. eterna falta. escolhe-se o medo. afogar-se apenas. talvez sejam os traslados. trans. atravessar a fronteira do avesso para chegar de novo a si. a culpa já se instala. quantos sonhos? a custa de que? o amor quando chega desalinha o karma. os chakras. os xakras. sem chá. rodopio de estações. ela já faz falta. poucas horas. a pira há de ser longa. postais sem selo. cartas anônimas para mim mesmo. mais um merda no mundo transitando. é o inferno astral avesso. o paraíso terrenal instalado. um mar de gozos ilusórios. um olho que não para. o choque do futuro visto nas imagens da segunda infância. a cultura me fodeu.

3925. a cultura me fodeu

3924.

nada se ouve
a pia a escova a moto
nada se houve
minha respiração a pira a escora o morto
nada se ouve
o mar a milhas ainda agora seu sorriso
nada se houve
como esse fato de agora não se estar bem
nada se ouve
se eu choro é o paralelo dos mundos
nada se houve
você agora aqui onde há

3924.

3923.

de manhã olhava o dia
como se fosse possível ostentar
a vida a ser erguida junto ao coração
envolto em sangue mas com o aroma vivo da exasperação

de noite olhava o umbigo
como se a esofagite fosse sair pelo buraco da barriga
e desaguar caudalosamente ventre afora
desmerecendo o odor de morte que apodrecia as entranhas em consternação

3923.

3922.

sombras
a mente escura
cem mil decibéis de negrume
sobras
a alma negra
mil graus centígrados de trevas
cercas
o espírito claro
o gosto da luz pelas papilas

arame farpado
ferro grilhões
farpas na língua e nos tímpanos e nos poros

arde ensurdece sangra
toda luz gera trevas
e se movem dentro delas
olhos em tato pelos vãos da claridade

o segredo da sua seiva e saliva
o que você não supôs e suprimiu
sombras
sobras

teu rastro mais secreto

3922.