4080.

quero o tua verdade
custe o ar que faltar

teu colo de plumas
como o lastro
por onde flutuo
minhas pedras

Anúncios
4080.

4072.

tapou o ar
era só isso
uma vasilha
pra tapar o ar
ela só queria
uma vasilha
pra tapar o ar

acabou comprando um sonho
um sonho maior que as pirâmides maias
que as pirâmides astecas
que as pirâmides egípcias

era um sonho dourado
além de verso
além de vida
era um sonho de grana pra caralho
grana pra porra

mas antes
antes de tudo isso
ela só queria uma vasilha
uma vasilha pra tapar o ar

4072.

4071.

tenho sonhos
tenho sonhos
tenho sonhos de aldeia
tenho sonhos de esteira
tenho sonhos de ribanceira
tenho sonhos de sesteira
tenho sonhos

tenho sonhos de aldeia
mas não sei uma parede levantar
tenho sonhos de aldeia
mas to o tempo inteiro plugado no ar

4071.

4068.

um dia de fúria contida
e no fim trafegar pelas
ruas retas e solitárias
das noites todas tristes de Taguatinga

uma vertigem pelo prédio em formação
e os cheiros de bacon, beladona
e bosta de pet pisada
no dia do n’amor roubado

acreditava na vida e nas vias
como se todo cruzamento
suprassumo das possibilidades
fosse o casulo de um potro indomado

hoje as ruas são claustro
desmesura de urros não ouvidos
e os passos de um fim de dia qualquer
nauseante de imagens e odores

não amo essa cidade
não possuo nenhuma cidade
só uma dor rural que arde

na ponta do peito

4068.

4067. sufocamento testemunhal

eu nunca esqueço as caras
mesmo na penumbra
onde todas as caras são as mesmas
e as curvas
e as entrâncias
e reentrâncias
e a lisura que se imanta em todo o contexto de pele
ainda que gasta e enrugada

acho que era a dama da discodil
ela se chamava a dama da discodil
pura energia da rua e das chamas
afirmadas numa aposentadoria que nunca virá
dia após dia
noite após noite
cansaços e descasos
casados em camas temporárias
como a carteira não assinada

a dama das escadarias da discodil
que eu nunca vi e nunca esqueci
não fala aqui
não há lugar para sua fala aqui
sou eu quem rouba a sua vida
e não pago nada
ela no sufoco
eu a usurpo

a rua como testemunha
a esquina e a escadaria também

4067. sufocamento testemunhal

4066.

há esses buracos pelo corpo
mas eles não são percalços
são artifícios aerodinâmicos
para correr mais rápido
e romper o ar

e eu corro, corro, corro
como se não houvesse parada

corro para ver se o futuro
se aproxima logo de uma vez
e se a distância do passado
se concretiza
e se o exercício da história
não se coaduna no agora mais uma vez
e se o eterno retorno não me entorna

daí eu corro demais
só pra me ver passar ao futuro
e transpor esse presente

na base do ansiolítico,
ternamente

4066.

Estampa

Quando eu cheguei à encruzilhada por onde seguem todos os quase todos caminhos dessa cidade geométrica, a primeira coisa que avistei foram os pingos de sangue que conduziam a duas poças, ainda vivas. Não era nenhum sacrífico ritual, eram as marcas da loucura da situação quando na rua, um polvilhado de sangue líquido ainda fresco, do lado dos isopores e suas donas em volúpia de quebrada, vendendo doses do soma ativador da brutalidade masculina e da bestialidade humana, ali no vértice nordeste da encruzilhada. A cada passo pelas vagas vazias e as impaciências de pé, avistava os flancos por onde se esconderiam os que não seguem o caminho e ao pé de cada coluna, uma dúzia de desamparados se amparavam em papelões ao largo do chão sujo de pó, bitucas e restolhos de uma obra infinda. Vários corpos, várias vozes murmurantes e o mesmo desalento do olhar vago, vazio, rumo ao complacente e displicente buraco negro que se entranha entre si e o ar parado e esfumaçado que não se vê ao cobrir o teto e a amplidão do céu azul que sim, ainda estaria ali, mesmo difuso pelo buraco negro do apregoado ar em movimento no estado da fissura da pedra. Era domingo. Quando peguei meu ônibus em destino ao relógio principal e nunca visto a sul e oeste do geômetro, já adentrou-lhe um dos sempre visíveis e nunca vistos, o que havia trabalhado no tráfico e que era doloroso o filho perguntar ao acordar não o que iria comer, mas se haveria comida e que não lograra trabalho dada a condição de pós-preso que lhe estampa a cara e o fígado e que a jujuba já era minha e dele o que nosso coração melhor aprouvir em gozo de dó ou compaixão. E cinco paradas depois entrou o que berra Deus pelos poros e pelas têmporas e pela garganta e efusivo grita que a morada do Senhor logo se achegará e sua ira aplacará todo o mal da Terra e que benditos aqueles os que creem e que são quatro as paçocas por um real. No esfumaçado embaçado largo do caminho empoeirado e em chuva, adentrou por meio de subterfúgio criminoso de aproveitar um desembarque e calotar o baú, aquele que fede a mijo e tem um ar de prazer e ódio demoníacos quase acolchoados ao seu odor e esse não falou nada, como sempre faz, e só estendeu a mão e foi expulso na próxima parada. E então adentrou o quarto, o mudo com seus papéis embolotados e sujos que causam asco aos que pegam o papel e que logo lê-se surdo e pobre, me ajudem com a graça de Deus e este fez sinais e sons estranhos e saiu duas paradas depois. E quem terá se apercebido da negritude da cor estampada na miséria retumbante desde os papelões esmigalhados pelos pré-caminhos da encruzilhada, até a sujidão e o empreendedorismo da miséria do busão? E quem terá visto a travesti de calça legging retorcida no chão e sem o juízo da vida normal e cristã em sua cara de expulsa da vida? E quem terá visto a face do homem sem pernas se esgueirando entre a sarjeta e a parte quase limpa do chão com sua placa de me ajudem por favor presa ao peito? E quem terá visto e não apenas corrido, os cinco moleques na pós lombra e pré fissura, olhos esbugalhados e sorriso de destruir o mundo com mãos minúsculas? E quem terá visto que ao primeiro dei cinquenta centavos, ao segundo nada, ao terceiro um real e ao quarto o que eu ainda repousava em meu bolso: setenta e cinco centavos de real? E quais foram os caminhos que conduziram todos ao refluxo das estradas, mares de navios e sangue por entre o fétido aprisionamento de suas madeiras e velas de cânhamo? Qual a trajetória desde o eito da cana e do café até aquele papelão esbagaçado? Qual o mapa que mostra o itinerário da forca dos invertidos e da fogueira das meretrizes até um legging louco a rolar pelo chão? Quais sendas conduziram as placas aos peitos desde as naus dos enjeitados rolando léguas perdidas na imensidão oceânica do fim do mundo? E onde estarão as chaves para abrir novos caminhos?
Estampa

4065. Cê lembra?

No meio do processo nos encontramos
              – pausa para as bombas
              aquilo fora apenas uma demonstração,
              Herba Life para os não alinhados
              saborearem o gosto da pimenta aérea

Eu te vi de mão no queixo
e de pernas n’água
Cê me viu me vendo,
montado num elefante

Eu cheguei mostrando as parte,
cheguei me despindo
Algumas partes em regeneração
outras puro sangue

Cê tava de poesia
Eu portava alguns poemas
e uma prosa trôpega

Mas cê me deu a mão
em meio às possibilidades
e eu vinha com a ilusão
e todas elas a salpicar meu corpo

Mas cê foi o possível que se abria
e o impossível a ganhar tônus

Nos encontramos no meio da reverberação
e vibramos tantos tons rubros
tantos sons
e essas coisas que não ocorrem cotidianamente,
tampouco inesperadamente

Cê veio filme europeu
ou cena de algo assim dialogado e imagético
Senhora de mil faces
em mil luzes e sombras miúdas
encostando as cortinas

E daí nos encontramos
dentro d’água donde o sal limpa e benze
As correntes do mar
e o magnetismo que nos encaixava
eletrificavam as pulsações do horizonte,
uma festa de espaços chumbo
e o sol de arrebentação

Coincidimos no meio das estações,
como dois sequiosos por todas as frutas
de todas as épocas
e pelo nosso sumo a escorrer
ávido e vívido entre os lençóis de cambraia
e os edredons de algodão
Vergando as possibilidades a virarem
o agora num e numa,
além dos braços mais indianos e oferecidos
e as faces tão perto, tão perto, tão perto
que ciclopes de Cortázar se faziam nos travesseiros

Corremos matas, matos, pontes, pontas
e até céus de morros verdes
em sinuosidade avoada

Caminhamos para um pouso orbital,
nossas casas que se conectam no lirismo
dos sonhos transponíveis

Nos encontramos
a cada encontro
quando nossas palas lavram
campos de flores e palavras e toques

Minha mão pousando em tua coxa,
a tua se enrolando nos pelos do meu peito

A presença contínua

4065. Cê lembra?

Da não prática

O Brasil, único país que conheço deveras, me parece possuir particularidades sui generis. Veja bem, nasci e me criei aqui e sempre percebi, vi e postulei, coisas interessantes, como até aos doze anos de idade, quando me declarava católico não praticante ou até aos dezesseis – com algumas incursões esporádicas em outras idades mais à frente – em que me portava como um vascaíno não praticante.

O fato é que a assunção – ideológica? – de tantos e tantas a serem e não praticarem, ocorre de forma contumaz em contrário de uma prática mais agressiva, mas nunca tida como a sua real constituição.

Explico: esses tempos, no colégio, tenho me deparado com um punhado de jovens aos quais e às quais só posso classificar como evangélicos e evangélicas não praticantes. Vão até o chão se preciso for, bebem Kriskoff e Pedra 90 se assim vier, mas são crentes, sempre e antes de tudo.

Tal curiosidade me levou a um momento atrás no tempo em que andava às tantas pelos mesmos locais em que um senegalês também estava – cá em terras ameríndias vivente há uns três anos. Colávamos por ambientes de samba, djamba, suor e cerveja e em certo dia descobri que ele era muçulmano.

Me surpreendi, confesso.

Talvez e certamente por preconceito, mas enfim, tomei coragem um dia e o inquiri: e como você lida com os vícios? Ao que ele me retorquiu: rapaz, depois que cá vim, deparei-me com o curioso fenômeno do católico não praticante, encantei-me, desde então inaugurei esse mote de ser islâmico não praticante!

Disso só consigo identificar uma coisa: no Brasil a não prática praticante é que ordena a crença e a fé.

Da não prática