3920.

quando a boca da mão
perde o prumo
e até o sonho se cala
é tempo de se consternar
com a merda

e de dar vazão ao pulso

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3920.

3919.

as horas seriam dadas ao calor
como se desencostar de tudo
fosse mais que necessidade
fosse apelo para denudar-se

mas contrariando as expectativas
havia uma harpa e um xilofone
sem frio ou formas mas volume tangente

o verde começava diáfano
eu queria olhar mas o calor desprendia
descolei na pressão leve
quente subi
a comoção de qualquer frio
me levaria inevitavelmente
a derreter

mas o som que vibravava
solidificava tudo
feito estátua feito fonte
mármore bem polido

pelado

3919.

3918.

você me abre para mim
e mesmo dentro eu te vejo

prisma tu minha luz
se abre em frêmito

                   refletimos
                   nos vemos

3918.

3915.

era uma dor que começava na junção
do indicador com a mão
acho que isso se chama articulação,
a parte, não a dor
ou talvez a dor também fosse
articulada

ali começava e se irradiava
de dentro da parte esquerda
da senda canhota

quando a dor pulsava era melodia
intento e instinto
de vazar ferrugem
dor de deus

antes de decepar,
o dedo, não a dor,
acariciei-a por alguns segundos
e ela passou
férrea

cortei dedo fora
o sangue ferruginoso escorreu

                  a dor era agora etérea e no todo

                              e do dedo nasceu mais um deus

3915.

3914.

foi lá na lombrada
dos malucos
das doidas
já que não era quebrada
ao passo que tudo derretia
da sorte que dali
salvador não se via
caia caos kaya
cascalha de amaciar dureza

bem lá onde perdi um dedo
e encontrei uma mão

tudo saudoso como se não houvesse hoje

só há

3914.

3913. boiadeiro

ainda me lembro das manhãs molhadas
prontas ao resfolego do sol em manto orvalhado
se dar ao carpir ao cergir ao bater ao cavar

o barulho do sol na pele morena vermelha índia da terra
com seus regos verdes de sangue d’água
e seus pelos verdes de copas e pastos
tudo refugo da chuva brava que se abria dentro da noite lenta

e um frio invernal brumoso de tanta umidade
lesma caracol visgo de espuma
de bicho no toco do pau queimado
agora que nem fogo pegava

ainda me lembro que era depois da seca
a manhã de café feito para martelar os pregos
da vida nos mourões das cercas a serem enfincados

gosto de nuvem cinza planando baixando por cima
do chapadão com a quentura da infusão negra
a percolar gargantas como a água a entranhar
terras e ventres e vãos e peitos
vazios de angústias e cheios do próprio conteúdo da vida

ainda me lembro desses dias que se iniciavam assim
feito espera e esperança no batidão do sol subindo
e da água espatifando que nem ela própria só consegue

o buraco no chão se enchia d’água
um boi pastava ao lado
e eu bolava um porronco numa folha de embrulho
amolava os dentes no papel queimado
para sorrir melhor ao que viria

naquele dia que ainda lembro

3913. boiadeiro

3910.

não se assusta
o próximo passo é a novela
não se assusta
o próximo passo é a conduta
a sua
vai sem medo
só medo
gosta desgosta
sem desgosto
há um lindo esgoto
por onde nossos barcos hão de navegar

não se assusta
nada te remove
do lamaçal
você anda
não se assusta
não repudia faz uma nota um artigo
textão alguns caracteres
um dístico meme
reclama da intolerância
declama um poema                   esse
tolera
um tolete na sua goela

não se assusta
é a democracia
que demoniza
não se assusta
amanhã seu pescoço na forca
a forma emoldurada
cem mil poemas métricos
esperançosas três linhas
sobre ela na sua garganta

não se assusta
é só um sussurro
nada grita berra
não se assusta
não se assusta
isso é um eco
fantasia póstuma
textão
amanhã assassinaram sua liberdade
hoje
tudo enclausurado

3910.

3909. eixo mono-mental

mexerica na redinha
jeep renegade
saco preto dez real
hyundai ix36 (?)
jk em seu mausoléu
num giro sinfônico
de metas e metas

maluco explodindo
os cofre pega nada
o cano na boca
renegado
o cano do escape
renegade
catalizadores de consciência ambiental
quatro por quatro
três ponto oito
quarenta e quatro
coronha na cabeça
milicos descamuflados
bunda exposta na janela
e uma preguiça intertropical

o sol esquenta a mente
em labaredas de sinais

                   infernais

3909. eixo mono-mental

3908.

há uma lição
ainda a ser compreendida
nas imagens borradas
instaladas atrás das transversais

três gerações atrás
pra mais
no lusco-fusco das
memórias não apreendidas
                   tá no corpo
                   honra & desonra
                   catarse de movimento
                   incompreensivelmente
                   voluntários à vontade
                   dos músculos dos ossos
                   dos nervos

há essa lição que são várias
despercebidas porque
desensinadas
                   ninguém aprendeu
                   não houve silêncio
                   dentro do fogo
                   dentro da’scuridão
                   vozes ritmadamente
                   guiando os movimentos
                   dos corpos a compreenderem
                   os enredos dos seus
                   motivos de fluírem
                   dentro do espaço
                   tal e qual são

essa lição é dessa terra
subsolo e sub-versa
reverso da voz temerária
atemporal da pátria
                   é teu corpo quem fala
                   células de tatarás

a desobediência se viu
desde as auroras transatlânticas
até os ocasos pacíficos
                   corporificada
a cordialidade foi forjada
obediência servil
letra por letra nas páginas
oficiais
                   enfiada

3908.

3906. folha da física

folha da física
esculpe teu percurso entre
o galho e o chão
imagens absurdas
escondidas no fim do céu
no começo das abóbodas
               o fractal               os raios que te alimentam
esculpe os contornos do vento
               no espaço               grave de ondas
esculpe o pó que desgoverna
               o arfar seco
entre as ranhuras dos
                              lábios sangrentos
nos lábios sangrentos                o teor
                                             quase a tocar
a futura folha da
física

3906. folha da física

3905.

nos enredos redes ramos ramas rumos
d’água d’ar d’areia d’alma
dançamos enredadas
enlaçados
espalhadas por entre
               ao nos entrarmos

baby
sem rédeas arreios esporas
e na rede nos raiamos
barcos beira rio
nossos remos               respiração

3905.

3904. frankenstein astral

como recompor as partes
até se ajustarem?

fast bem estar colaborativo
start up down
aberto o capital
rumo ao dharma

a receita é fácil
água morna com limão
e linhaça
três vezes por dia
uma fatia de mamão
para meditar antes do sono

desapega do dinheiro
passa no crédito
debita a transcendência

ioga aos sábados
maconha de boa qualidade
aos domingos nos parques

é só desoprimir os músculos
terapia transpersonal
personal líder coach
e massagem plúmica

argila salgada vietnamita

doe desdoa

diz doo ainda que dor

dietas macro-solares

geofagia

relacionamentos orgânicos
com múltiplas afeições
instantâneas

monogamia iridescente

uma vida sem riscos

arriscar e viajar pelo mundo
jogar tudo fora
ao som do new age

capitaliza o momento
terreiro high tech
jezuis loiro saradão vegano

um teco de pó de palma
pirlimpimpim

tudo colado
super bonder espiritual

                     frankastral

3904. frankenstein astral