pausa: Orides Fontela

Posologia: dê play

dê pausa. Da matéria, na matéria. Pare para respirar sempre. Toda pedra respira, poro a poro, pó.

O que aterroriza os passos noturnos não é a matéria disforme escuramente unida, contornos só contornos e a visão se conturbando entre o que era quando aos olhos cerrados e o agora, tudo aberto e ainda fechado, pés tortuosamente pisando o frio, mas a profundidade de onde se estava dentro antes de pisar no chão, aquela substância plasticamente adornada dentro da moleira baqueada numa “noite original cósmica que performava a alma bem antes da existência da consciência do ego”, como diria Carl, enquanto Karl lutava contra os fumos do ópio.

Não sabemos quando foi o encontro, se no tonal ou se no nagual. Se entre guerras ou sonhos, jês ou tupis. Mas foi assim, num estado de real e de além real, ainda real. As brechas são infinitas, as falhas na matriz não se computam, e tudo estava turvo e cabulosamente atolado de matéria onírica. Onironautas que somos, nos atrevemos, barcarola do São Francisco, enfrentando o mar. Não nos transpomos, mas enfrentamos a transposição:

TEMPO

O fluxo obriga
qualquer flor
a abrigar-se em si mesma
sem memória.

O fluxo onda ser
impede qualquer flor
de reinventar-se em
flor repetida.

O fluxo destrona
qualquer flor
de seu agora vivo
e a torna em sono.

O universofluxo
repele
entre as flores estes
cantosfloresvidas.

– Mas eis que a palavra
cantoflorvivência
re-nascendo perpétua
obriga o fluxo
cavalga o fluxo num milagre
de vida.

E sequer sabíamos da nossa existência. E era apenas o começo da empreita, por isso percorremos diluidamente o fluxo da vida, lendo. Eu, meu duplo e ela:

PEDRA

A pedra é transparente:
o silêncio se vê
em sua densidade.

(Clara textura e verbo
definitivo e íntegro
a pedra silencia).

O verbo é transparente:
o silêncio o contém
em pura eternidade.

Mas precisávamos de um ponto comum, afinal, não sabíamos se estávamos em estado de alerta, de guerra, de sítio, (

STOP

Estado de sítio
estado de sido
estase.

) vegetativo ou lírico. Faltava uma definição que nos conduzisse ao termo definitivo, se infinito ou se fictício. A vida era dura nos dias que formulavam o mapa de onde se dava os termos do encontro. E o sonho, ou os pés gelados atravessando o corredor, às vezes pausavam diante da luz de um abajur – não era lilás –, 22:35, depois de escovar os dentes e tudo parecer que ainda era real e não tinha fibra de luz alguma emanando teias e conformado as coisas em espirais caoticamente controláveis. A realidade existia ainda:

TATO

Mãos tateiam
palavras
tecido
de formas.

Tato no escuro das palavras
mãos capturando o fato
texto e textura: afinal
matéria.

E era nessa hora que nosso peito inflava de gás carbônico, mezzo pimenta, mezzo lacrimogêneo, mezzo silenciamento. E nessas noites não sonhávamos, apenas amanhecíamos com cara de tormenta e pedíamos que nunca, jamais, temêssemos e que mantivéssemos os nossos ódios acesos, claros e salgados, pesando uma tonelada, cabendo em um olho, com diria Mano. E sabíamos que tudo seria

DESAFIO

Contra as flores que vivo
contra os limites
contra a aparência a atenção pura
constrói um campo sem mais jardim
que a essência.

E era um jardim cabuloso. E se fosse rio seria caudaloso. E se fosse sonho, como era, só, então realidade.

Mas eram tempos definitivamente carentes, esquecemos de dizer, e cada glória era uma aleluia e um milagre, mil lágrimas, derretidas, inadvertidamente, diamantes, apenas de dia, nunca amantes. Tudo cortava, tudo ruía, tudo rugia, tudo rangia: nossos ossos entrevados, nossa musculatura tensa e tesa e nunca um tesão tão aflito havia sido posto em prática. E nós três, sem falo, flacidamente como ácidos, berrávamos. Não havia

FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

E foi aí que entendemos que se tratava da lucidez. Não daquela, nem daquilo. O fato consumido, motor da saudade. Era o tapa na cara, a realidade. Não havia mais entregas que não as rugas na cara, os calos nas mãos, o humor ferino, a lentidão, a brincadeira, a imortalidade. E não esquecíamos de Carl: “O sonho descreve a situação íntima do sonhador, situação que o consciente não quer tomar em consideração ou cuja verdade ou realidade aceita a contragosto”. E não aceitávamos nada da realidade.

Certo dia estávamos em plena Rodoviária, sol à pino, antes da chegada dela, éramos só eu e meu duplo. Já prevíamos, mas daí ela chegou e se encostou, novamente, como se nos transpuséssemos para a Rodoviária novamente bem ao

MEIO-DIA

Ao meio-dia a vida
é impossível.

A luz destrói os segredos:
a luz é crua contra os olhos
ácida para o espírito.

A luz é demais para ao homens.
(Porém como o sabereis
quando vieste à luz
de ti mesmo?)

Meio-dia! Meio-dia!
A vida é lúcida e impossível.

E contemplamos, tremendo, do patamar superior, a vida se impossibilitando. Nenhum entretanto. Um marmitex de dez reais no seco ou dois x-tudo com dois copos de refri. Não podíamos mais fazer muita coisa a não ser ver o vai e vem de tudo, até o estalo para o trabalho e manada, gado, rês, nos pusemos em marcha. Sabedores, saboreadoras, de cada minúsculo ponto que vai, só indo, átomos de dinossauros em dispersão, até dar no Sol novamente, senhor de si, senhora de se expandir, infinita. Meramente nossa

HERANÇA

O que o tempo descura
e que transfixa

o que o tempo transmite
e subverte

o que o tempo desmente
e mitifica.

E findo o dia, a volta ao lar, depois da lida, nos lançávamos nos vagões, nós três, intrépidas, no último carro. Era sempre como uma carruagem girando numa roda da fortuna falha, moinho de vento em doses de ventania em cima de uma torre, desmoronando, no sentido da noite que nos consumiria ainda envoltas no

NOTURNO

O silêncio sem cor nem peso
(vacuidade) sustenta
agudas sementes – júbilo –
da lucidez nunca
                            extinta.
Grandes estrelas fixas.

que tão pouco durava e que ainda se abria ao infinito: uma canjica amarela bem cozida, ciganas descendo uma escada ao nosso encontro, um grande catalizador de raios cósmicos sugando a porra toda e um avião desmoronando junto ao céu, mais uma vez. E logo o celular tocava e nos levantávamos e dormíamos acordados com os dentes brilhando e ainda um bafo quente e impiedoso: duas, três horas de sono? Cinco anos de sonhos aprisionados e a vida inteira por vir. Era por isso que a vida só valia sendo vivida sem

AFORISMOS

Matar o pássaro eterniza
o silêncio

matar a luz elimina
o limite

matar o amor instaura
a liberdade.

Daí matamos foi tudo logo: o pássaro, a luz, o silêncio, o limite, o amor e até a porra da liberdade. E agora estamos aí, tendo lido pela segunda vez esse livro dela, duas uniões a menos no mundo, ou três, ou quatro, ou cinco ou quem sabe vinte e seis. E me lembro que antes de matar tudo eu até mandei pra ela, não para ela, mas para ela, uns

LEMBRETES

É importante acordar
a tempo

é importante penetrar
o tempo

é importante vigiar
o desabrochar do destino.

E foi até meio que lindo, porque foi antes da morte. E aí agora sabemos bem qual é a fronteira do sonho, do sono e da surra. Eu ando leve, meu duplo urra e ela continua morta, na sua, retumbando aqui dentro como nunca, contando-me apenas algumas

MENSAGENS

A cor
alada: borboleta
ou pétala?

Fresca asa per
passa
as mãos
abertas.

Sussurro
orelha
caramujo
antena

os cabelos
ao vento.

Tudo tão leve e fácil, que mais crível que ela própria, é a quimera, própria d

O ANTIPÁSSARO

Um pássaro
seu ninho é pedra

seu grito
metal cinza

dói no espaço
seu olho.

Um pássaro
pesa
e caça
entre lixo
e tédio.

Um pássaro
resiste aos
céus. E perdura
Apesar.

E é por isso que agora, ante a seca que se avizinha, me deixo banhar n

O AGUADEIRO

Derramar um
cântaro

um canto
deixar fluir
o novíssimo
encanto.

E ela, não ela, tampouco ela, me disse que entre os espaços dos versos dela, parecia que propositadamente havia um território todo a se ocupar. E foi aí que eu compus essa canção e o caos da época gravou.

Ela: Orides Fontela (não ela, tampouco ela).

Todos os poemas são daqui:

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pausa: Orides Fontela

pausa: Ana Martins Marques

Há momentos em que estamos mal. E isso não é necessariamente um problema. Afinal, o que é estar bem? Há uma questão de definição aí. Uma questão ontológica. Axiológica, também, sem dúvida. Há também um problema cultural aí. Histórico e cultural, do rol da domesticação dos sentidos, dos sentimentos, mesmo até dos afetos.

Volto, então, à pergunta: o que é estar bem? A nossa educação sentimental, tão pouco falada, mas tão tanto empreendida, é possivelmente a culpada para que encontremos elementos poucos para informar o que é estar bem e ao mesmo tempo, elementos todos para definir o que é estar bem. Não vou me atrever ao desgaste da atividade, que julgo improfícua, neste momento. Prefiro que pensemos naquilo que nos demove a identificar o que é estar bem para uma pessoa.

É claro que sei que alguns elementos são imprescindíveis para se estar bem, como o conforto material, não estar com fome, o conforto físico, estar saudável… enfim, é um sem-fim de coisas que poderiam nos afetar como imprescindíveis ao estar bem. Mas percebemos que, mesmo estes elementos, são relativos e contextuais. Há quem esteja muito bem sem comer nada há mais de um ano e com o braço esquerdo levantado sem repouso há pelo menos dois. Há. E estão bem.

Então, o que é estar bem? Tudo bem, devo situar o meu discurso, falarei desde este lugar “ocidental” – à revelia deste nosso sul-ocidentalismo-afro-ameríndio, mas ainda assim, ocidental, como tudo o que se globaliza. Assim posto, conduzo a argumentação, me utilizando da nossa educação sentimental cotidiana para abordar o tema.

Como nossa educação sentimental trabalha com a percepção de estar bem conosco? Ela opera em diversos sentidos, com as mais variadas facetas e os mais variados modos de se apresentar. Uma novela, um ditado, uma história, um fato, um livro, uma música, um comercial, enfim, qualquer narrativa carrega, em si, uma forma de se pautar o que é estar bem. Claro que sempre trabalhando com o contraditório: nos apontando à face o que é estar mal.

Somos massacradas diariamente com uma educação sentimental que domina nossos horizontes de escolha e diminui nossa margem de possibilidades. Educam-nos, por exemplo, que estar bem é ter um emprego, que estar mal é ser desempregado. Educam-nos, também, que estar bem é ter um amor, estar mal é não ter um amor. Educam-nos, ainda, que estar bem é ter bens, estar mal é não ter bens. Educam-nos, por pressuposto, que estar bem é ter uma vida sexual ativa, estar mal é não ter uma vida sexual ativa. Educam-nos, disso exposto, que estar bem é ter saúde, estar mal é não ter saúde. Mas estas definições podem ser vinculadas a argumentos negativos, como, por exemplo: estar bem é não usar drogas, estar mal é usar drogas. Enfim, estar bem é amplo pra caralho. Estar mal, também.

Eu por exemplo, julgo que não estou bem, logo, sinto que estou mal. São condições excludentes, aparentemente. Aparentemente, porque, às vezes, coisas inexplicáveis ocorrem, como saber-se bem e mal ao mesmo tempo, ou bem em estar mal, ou mal em estar bem, dando coesão a incoerências, é como seu próprio nome:

Impresso
como parece estranho
o mesmo nome
com que te chamam (MARQUES, 2015, p. 14)

É estranho mesmo, sentir-se mal e pensar-se bem ao mesmo tempo. É uma incompreensão textual e de sentidos. Coordenada. Interna. Dentro de si. No caso, dentro de mim. Dispor disso é difícil, estabelecer prumo do que ocorre é quase impossível. Dada a nossa educação sentimental que impede a coexistência de contraditórios – quiçá de paradoxos! –, é tarefa inglória tentar traduzir o que se passa de um modo que não leve em conta a forma única que te – me – ensinaram a traduzir os sentimentos: ou se está bem ou se está mal. Impossível uma outra Tradução, como n’

Este poema
em outra língua
seria outro poema
 
um relógio atrasado
que marca a hora certa
de algum outro lugar
 
uma criança que inventa
uma língua só para falar
com outra criança
 
uma casa de montanha
reconstruída sobre a praia
corroída pouco a pouco pela presença do mar
 
o importante é que
num determinado ponto
os poemas fiquem emparelhados
 
como em certos problemas de física
de velhos livros escolares (MARQUES, 2015, p. 22)

Nestas horas em que o corpo – alma talvez? alma também? alma além? – não consegue encontrar limite específico para traduzir o que se passa dentrures, não resta muita coisa a se fazer, a não ser sentir, pensar e tentar continuar a construir uma possibilidade que seja distinta do que a educação sentimental – panaceia – nos aponta. Nestas horas, busca-se – busco – um Esconderijo, em que se possa atrever palavras que possam dizer – mesmo caladas – o que ocorre interno:

Estas são palavras que eu não
deveria dizer
 
palavras que ninguém
deveria ouvir
 
que elas permanecessem no silêncio
de onde vêm
 
no fundo escuro da língua
cheio de doçura e ruídos
 
com o ranço informulado
dos segredos
 
por via das dúvidas escondi-as aqui
neste poema
onde ninguém as vai encontrar (MARQUES, 2015, p. 26)

Eu-poema. Disfarçado o sentido do que não pode o conter, escondido dentro do que se precisa para; resulta ainda, outro problema, oriundo dos acasos que não cessam e que destroem toda a tentativa de massificação da educação sentimental possível. Quando estar bem e estar mal se encontram, com hora marcada:

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam (MARQUES, 2015, p. 40)

Nesses momentos de encontros inusitados, que se processam à revelia do que se espera, que deixam um gosto de anormalidade em si tão prazeroso, é que se entende que as coisas são mais esdrúxulas do que se imagina, e que ter-se em si de modo vário e deseducado sentimentalmente, é estar bem, mesmo se estando mal, como:

As casas pertencem aos vizinhos
os países, aos estrangeiros
os filhos são das mulheres
que não quiseram filhos
as viagens são daqueles
que nunca deixaram sua aldeia
como as fotografias por direito pertencem
aos que não saíram na fotografia
– é dos solitários o amor (MARQUES, 2015, p. 60)

Daí se transforma em cinza, uma mediação entre o branco e o preto. O preto sendo o ápice de estar bem e o branco sendo o cume de estar mal. E tons cinzas pincelando a sua anormalidade emocional. O foda, é que

Ainda é tarde
para saber
 
Ainda há facas
cruas demais para o corte
 
Ainda há música
no intervalo entre as canções
 
Escuta:
é música ainda
 
Ainda há cinzas
por dizer (MARQUES, 2015, p. 65)

No fim, não dá pra saber muita coisa. Isso tudo posto é apenas um apanhado de impressões de quem não gostaria de se definir decididamente entre uma coisa ou outra e que não só não gostaria como tampouco consegue, não apenas por força de intento ideológico, mas por defeito de fabricação genuíno. Redundo, então, afinal: O que eu sei?

Sei poucas coisas sei que ler
é uma coreografia
que concentrar-se é distrair-se
sei que primeiro se ama um nome sei
que o que se ama no amor é o nome do amor
sei poucas coisas esqueço rápido as coisas
que sei sei que esquecer é musical
sei que o que aprendi do mar não foi o mar
que só a morte ensina o que ela ensina
sei que é um mundo de medo de vizinhança
de sono de animais de medo
sei que as forças do convívio sobrevivem no tempo
apagando-se porém
sei que a desistência resiste
que esperar é violento
sei que a intimidade é o nome que se dá
a uma infinita distância
sei poucas coisas

Sei que esse livro mesmo me pegou assim: estando mal, estando bem. Ou estando bem, estando mal. E me deixou muito bem. Embora eu continue mal. Porque este é um livro, que em si, já é

capa123

A gente vai se parecendo a cada poema.

BIBLIOGRAFIA:

MARQUES, Ana Martins. O Livro das semelhanças. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

PS: Uma Ana Moura, só pra corroborar a coisa:

pausa: Ana Martins Marques

pausa: Adélia Prado

Os dias são amontoados de informações inigualáveis e todo mundo sabe disso – talvez, e provavelmente só talvez, em Kiribati nem todos saibam. Me questiono onde mora o tempo agora e já não consigo diferenciar tempo, informação e espaço. Tudo dá a impressão de ser apenas uma mesma coisa seguindo o fluxo da expansão do universo e sangrando nesses pequenos fixos já móveis (plexos em rede, algo como a imprecisão de sermos “nós”): a gente não vê, mas o tudo vai, inflacionário e relativo. Até supermáquinas para super acelerações de partículas tem quem faça. No final deve ser superútil, tipo descambar pra alguma nova bomba ou coisa que o valha (ah se me dessem a chance de “dar um reset”…). Tudo caótico.

Certo, o caos e a quantidade me atraíram por muito tempo, sempre flertei com eles. O caos principalmente, aquele mesmo que “precederia a anarquia” – o ácido sonho juvenil da vendeta (contra tudo especificamente). Flertei tanto com o caos que uma vez consegui até namorar ele, foi tenso. Até um monitor de computador ele jogou na minha cabeça depois que terminei o doce deleite de três meses. Tenso, muito tenso. Dias antes de findar meu romance com o caos, eu tinha comprado

talvez tenha até previsto a necessidade de menos caos, depois do caos. Adquiri o livro em uma barraquinha de livros que ficava em frente ao Quarentão, perto da Feira da Ceilândia, por uns dez pilas. Comprei com uma grande expectativa, posto que uma coletânea poderia introduzir-me a esta poeta de modo amplo – ah a quantidade de informação, a necessidade da amplitude, a precisão da velocidade… No fim, o caos fazia aniversário próximo e resolvi que ia dar o livro de presente para ele. Fiquei meio condoído de minha falta de poesia vindoura, já que teria de me desfazer do livro, tinha lido apenas uns poucos poemas iniciais e seriam pelo menos quatrocentas páginas de metáforas, metonímias, aliterações, enfim, da mais fina flor da poesia.

Refleti deveras sobre o ato. O caos mereceria? Ele tinha tentado me dar uma voadora na jugular no meio da rua dias antes, havia me perseguido até o trabalho jogando pequenas porções de ácido sulfúrico em minha cabeça, me feito correr de cueca na rodovia, me colocado em um tal estado de desmiolamento que acabei por gritar como um louco aos quatro ventos: “VAI SE MASTURBAR COM UM ALICATE, CAOS!!!!”, fez até com que eu traísse meus melhores amigos, bebendo espumante em taça de cristal em festas privês no Lago Sul… Meditei profundo: é, talvez o caos não merecesse o livro.

Resolvi dar uma chance à sorte do caos, jogando a responsabilidade para o acaso. Aleatório como sempre, abri e foi

Verossímil

Antigamente, em maio, eu virava anjo.
A mãe me punha o vestido, as asas,
me encalcava a coroa na cabeça e encomendava:
‘Canta alto, espevita as palavras bem’.
Eu levantava vôo rua acima.

E o pior, ainda era maio. Daí nem li mais nada, liguei pro caos e falei que tinha um presente para lhe dar. Marquei com ele no Parque da Barragem, tava afim de tomar um banho de rio. Depois de matarmos uma garrafa de Velho Barreiro e comer uma porção de ovo cozido, tivemos o sexo de despedida dentro do carro mesmo, lhe entreguei o presente e fiz uma dedicatória bonita. Creio que o caos saiu um pouco confuso do encontro, tudo tinha sido tão tranquilo e bom, por que não continuar? Bom, eu sei que eu não queria que monitores voassem em minha cabeça novamente. Ele me pediu para tirarmos uma foto. No outro dia estava no blog dele, posto assim

Fugi do caos como o diabo da cruz depois daquele dia, não queria mais voadoras, monitores voadores, caminhadas de cueca ou sexo dentro de carros, fui seguindo na contramão do caos. Fui caminhando com essas pedras que se apresentam no meio do caminho e foi num dia bem tranquilo, que de repente, via sincronia do acaso, encontrei novamente o livro em outro sebo. Achei muita coincidência, parecia muito o livro dado ao caos, fui olhar a dedicatória e vi uma

"Poesia com cheiro de campo minha flor"

De fato não era a minha dedicatória, era de um “A.” para uma “flor”, assim, bem bonitinho. Enterneci na mesma hora e julguei possível o amor ainda. Acomodei-me nas antípodas do caos, planando lentamente até o banquinho do sebo pausando os olhos em

Um sonho

Eu tive um sonho esta noite que não quero esquecer
por isso o escrevo tal qual se deu:
era que me arrumava pra uma festa onde eu ia falar.
O meu cabelo limpo refletia vermelhos,
o meu vestido era num tom de azul, cheio de panos, lindo,
o meu corpo era jovem, as minhas pernas gostavam
do contato da seda. Falava-se, ria-se, preparava-se.
Todo movimento era de espera e aguardos, sendo
que depois de vestida, vesti por cima um casaco
e colhi do próprio sonho, pois de parte alguma
eu a vira brotar, uma sempre-viva amarela,
que me encantou por seu miolo azul, um azul
de céu limpo sem as reverberações, de um azul
sem o z, que o z nesta palavra tisna.
Não digo azul, digo bleu, a idéia exata
de sua seca maciez. Pus a flor no casaco
que só para isto existiu, assim como o sonho inteiro.
Eu sonhei uma cor.
Agora, sei.

Lindas letras pretas que no branco do papel marcavam paz como lépidos lápis colorindo um borrão calmo de alma pós-caos. Segui o corão poético, assomado pelos contornos que poderiam se abater em mim e me fazer ver metáfora plena: eu lançado a alguém que nunca soube minha presença que estava

A meio pau

Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
– coisas que não dou a qualquer pessoa –
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que que há durão, mal de chagas te comeu?
Não, ele disse: é desprezo de amor.

Com aquela minha distância tão intravenosa, dei a paga em reais justos pelo livro e saí a rodar coletivamente em busca de minha casa. Cada verso que lia, me acomodava em paz e mediação, coisas que haviam se fiado ao custo das apostas, de pagar pra ver: o caos, as voadoras, as coisas voantes… Quando desci do coletivo logo vi

A casa

É um chalé com alpendre,
forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de natal com neve.
Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de lâmpada atravessando o vidro,
um noivo que ronda a casa
– esta que parece sombria –
e uma noiva lá dentro que sou eu.
É uma casa de esquina, indestrutível.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo,
as torneiras jorram,
eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
Não fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma idéia de exílio e túnel.

Quanto mais eu lia Adélia, mais me invadia aquela sensação de que sim, o encontro já deveria ter ocorrido há eras. Talvez até, já tivesse se dado, só não tinha me atinado. Dentro de tanta informação, como lidar com o que realmente importa e te transporta para um porto mar aberto à beleza? Afinal, quando se apanha esse corpo da tarde, triste que dá dó, mas cheio de uma esperança brejeira, de uma calma consoladora, é que você percebe que só precisava disso na barra de algum

Dia

As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
– ia dizer imoral –
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.

Aquele maio, quando vi que não precisava do caos, e compreendi que diverso mesmo é esse

Objeto de amor

De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.

resolvi que não adiantaria esquentar-me com os revezes, com as quantidades e a direção dos fluxos – mesmo que amorosos: eles me arrebatariam a qualquer momento. O imponderável e o inominável se cruzariam sempre e diuturnamente na minha cabeça. Mas, se diante da vastidão do que te apresentam, o amor se infiltra personificado e ainda cria nascente no solo da alma, como creditar que a variação é a máxima do que se precisa? Adélia me abriu a proposta que, mesmo no amor máximo, menos pode ser mais, calma e densamente como em um

Pranto para comover Jonathan

Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.

 

Ah, só ia me esquecendo de um detalhe, nunca, mas nunca mesmo, pare para ouvir o que Adélia tem a dizer sobre a moral e os bons costumes… Sério.

PS: Adélia sempre foi mais que matéria poética, sempre me foi inspiração:

1293. Adélia I / 1294. Adélia II / 1295. Adélia III / 1296. Adélia IV / 1900. Sem título

pausa: Adélia Prado

pausa: Paula Taitelbaum

Tem coisas que são mais que murros na cara, são quase chute nos ovos. Ok, péssima metáfora, ainda mais para alguém que, como eu, não é partidário de experiências masoquistas, esse papo de uma dorzinha aqui, o limiar do prazer, sei não, nunca consegui entender. Ou nunca consegui sentir o tal prazer na dor. Então tá, mudo a história: tem coisas que são mais que lambida nos ovos, são quase um gozo inteiro.

Eu estava no aeroporto (calma, infelizmente não consegui nada com alguma aeromoça dentro do quiosque da Infraero), o avião atrasaria sabia-se lá quanto tempo, papo pro ar, sem nenhum emepetreizinho pra dar uma estia, viagem pá e bola, nenhum livro também. Trouxa. Isso nunca se deve fazer, mesmo que não se vá ler nada durante os dois dias e meio em Vitória – o que se tem pra fazer mesmo em Vitória? – deve-se sempre levar um livro a tira colo, nem que seja só pra tirar uma chinfra com a mina: segura o seu Ao Farol, enquanto relaxa na cadeira do aeroporto com aquela cara de “isso, eu trabalho, viajo de lá pra cá, mas ainda assim, dou um tempo e leio Virgínia Woolf no avião”, enquanto olha pra ela por cima dos óculos… Clichê do clichê total. Mas, tudo bem, às vezes cola.

Aí eu resolvo dar uma olhada na revistaria. Afinal, aeroporto não tem banca, tem revistaria ou, na maioria dos casos, livraria. Enfim, entrei nesses mercadões de papel impresso estabelecidos nos portos aéreos e comecei a procurar algo pra ler: Carta Capital? Puts, sem chance, sem análises macroeconômicas keynesianas por alguns dias. Piauí? No way! CQC em papel não é minha praia… Caros Amigos? Hum, claro que não. Veja? Opa, to brincando! Le Monde? Aff, texto demais, sem saco total hoje. Quase comprei uma palavra-cruzada, o problema é que você não pode tirar uma onda com as meninas com uma palavra-cruzada, mesmo que seja o Super-Desafio Cobrão…

Continuei a tarefa de me distrair. Aquilo de olhar revistas estava ajudando a passar o tempo. Fui até a coleção L&PM Pocket e passei o olho: Receitas Vegetarianas, Pablo Neruda, Eduardo Galeano, Eça de Queiroz, Agatha Christie, enfim, gosto da L&PM, eles tem um critério randômico interessante para suas publicações, ao lado do A Paz Perpétua do Kant, e abaixo de Aline 2: TPM – tensão pré-monstrual do Iturrusgarai estava lá, isso:

Decididamente gostei do título e da capa, e a contracapa também era de um singeleza ímpar, apenas notava: “Desaconselhável para puritanos e menores de 18 anos”. Na orelha do livro uma grata surpresa:

Taitelbaum, Paula
poeta de renome
tem pau até no nome.

A biografia poética era de Claudia Tajes, de quem, graças à L&PM, eu havia adquirido o delicioso Dez (quase) amores, um livro de contos sobre uma mulher que tenta amar e acaba apanhada pela rude realidade desse nosso universo masculino obscuro… Mas tudo bem, isso é papo pra outra hora, o objeto de estudos delimitado aqui é outro, o recorte epistemológico é em Taitelbaum, Paula, que abre seu pocket assim:

Eu abro as pernas
para perpetuar
a tênue
ternura
do infinito
da Fênix
e seu rito.

De cara ela já se abre toda, mais ainda assim, um tanto receosa: tentar e se dar. Renascer a cada novo rito de de novo abrir as pernas exige, pelo menos, alguma ternura, pois que, senão, a faca em nossas cabeças seria fácil. Mas aí, logo na sequência, página seguinte mesmo, ela desata qualquer perspectiva de se conter:

Eu abro as pernas
para enrijecer
o grelo
descontrolar
o grito
gotejar
a gruta
e me perder
no atrito.

Ufa. Na cara essa. Ok, na cabeça, direto, sem preliminares, no máximo dois beijinhos de “prazer em te conhecer” e crau, já era. Li mais alguma coisa e fiquei pensando num adjetivo, naquele momento nada me veio a mente. Taí, agora veio. Taitelbaum, Paula, tem uma poesia friccionável:

Meu lugar preferido
é perto do seu ouvido
nas dobras da sua orelha
onde minha língua passeia
sem sair do lugar
é lá que enfio bem fundo
o verbo mais imundo
que consigo encontrar.

Dá pra esfregá-la em várias partes do corpo:

Ele traduz meu silêncio
reescrevendo com saliva
minhas saliências
no instante do refluxo
no reflexo das quatro pupilas
os pensamentos
são como palavras
ele pode me ler.

Tem quem tenha problemas com o pornográfico, como se o sexo representado para o deslumbramento – na maioria das vezes – solitário, fosse algo apenas intermediário, sem mérito, mas em grande medida, eu penso o contrário:

Na vulva vibra a larva
que logo será borboleta
sairá de seu casulo
vai virar uma boceta.

Há também os moralismos, que hoje se alfinetam em várias ordens possíveis e imagináveis, e ainda se flagelam com espinhos no cacete. Tem gente bem nova – e o pior, bem próxima – que até parece, se vê como a próxima vinda de Cristo, os arautos da moral e dos bons costumes, aqueles que vão trazer a novíssima boa nova. E recriminam o baixo, o impuro, o vil, como se falar palavra de baixo calão fosse melhor que os pensamentos demoníacos que os percolam dia a dia. Prefiro quem bota pra fora a palavra, sublima toda essa porra e diz em alto e bom som, eu trepo e gosto dessa zorra:

Tô cansada
de foda
cronometrada
queria horas
e mais horas
de cravada
depois dormir
em concha
encaixada
com a xota
cheia
e toda
inchada.

A poesia da Paula é paulada na moleira contra mitos. Às vezes o machismo cultural introjetado fala mais alto e eu até penso que essa poesia toda é meio miragem, coisa que não existe, tipo “mulher escrevendo isso?”, mas aí eu dou uma mordida no meu machismo e relaxo, que que tem uma mulher falar que gosta de dar o rabo?

Quando teu dedo
passa perto do meu cu
eu me sinto um pouco tu
tudo turmalina.
Quando teu dedo entra
atrás e através
eu arrepio o dedo do pé
pena perpétua essa minha.
Quando nossas pernas
formam um nó de nós
viramos corpos celestes
não te veste me traveste.
Quanto tua língua busca
o meu maremoto
eu morro subitamente
peixe preso na rede.

Tá, tem mesmo quem falará que ela é que é machista. Se enquadrando em estereótipos sexistas e realizando a fantasia de homens que querem as mulheres vadias, principalmente quanto ao sexo, desses mesmos caras que querem, na verdade, as minas castas para casar. Mas qual o quê, século XXI, porque a gente não deixa as pessoas gostarem do que gostam, principalmente quando o quesito é foder? (Ok, argumentos sobre pedofilia não estão sendo computados, beleza?).

Desenhe círculos
sobre meu clitóris
infinitos pontos finais
um pra cada um
dos meus ais.

Gosto de poesia puta. Gosto de sexo nas palavras. Cheiro de tesão em cada verso. Foi bom pra mim encontrar essa mina na prateleira da revistaria, orgasmo sem pudor. Talvez, foi bom pra ela, se esse lance de publicar livros der alguma grana, ela pode ter pagado um jantar que a levou para uma cama dividida com a minha ajuda…

Bom, sem problemas, que atire a primeira pedra quem nunca gozou:

De seus lábios surgem plumas
que me transformam em plasma
viro puro pleonasmo
pluma plasma pleno
orgasmo.

PS: Sítio dela mesma não encontrei, mas percebi – via Google – que tem muita coisa dela no blog da L&PM (como aqui e aqui). Aqui temos o perfil de autora dela na editora.

pausa: Paula Taitelbaum

pausa: Ana C.

Os ventos da idade vinham calmos, mesmo que transtornados, e anunciavam as limitações e a intensidade desejada. Já transcorridos alguns meses de quando larguei o futuro até então mais redondo encontrado para minha vida: tudo seria simples e bom, os moleques correriam pelo quintal ou azucrinariam todo o apartamento, dois financiamentos – um pro carro e um pro imóvel – devidamente aprovados pela Caixa dado os concursos já passados, um amor leve e redondinho abençoado por algum sacerdote. Joguei tudo pro alto naquele então. Definir o motivo é coisa complexa, que se incrusta no interior de anseios tortos e certos pela angústia e pela indefinição.

Só sei que larguei todo aquele e tudo aquilo que poderia advir. Mas logo na pancada, na sequência do então, o amor já me socou na esquina. Amor ciborgue, abençoado por eletrodos e acordes certeiros feitos em guitarras e pandeiros. Amor doce e azedo que me deixou mais poesia, que me mergulhou no emaranhado dos tecidos de palavras que encobrem a banalidade da vida. Livramor libertário e libertino cheio de metáforas, que me conduziu a amar o possível e todas as suas possibilidades.

No meio daquele momento de livramor e coisa e tal, no após lampejo daquele que fora um passado mais-que-perfeito, entre uma construção poética-internética coletiva e outra, foi que me apareceu Ana Cristina Cesar. Quem me introduziu de fato àquela poeta, me fora um amor crítico literário virtual-quase-presente.

Senhorita D. dizia (chamemo-la assim) que Ana Cristina Cesar (alcunhemo-la por Ana C. somente), era a poeta que mais lhe entendia em todo a vastidão e que fora seu objeto de estudos na graduação e seria na pós, ou podeira na pós e seria na graduação, não lembro agora a ordem das coisas. Naquele então eu ainda não havia lido em profundo Ana C., apenas havia passado os olhos por sobre alguns versos, espaçadamente, diletantemente, casualmente. Havia pouco espaço para ser preenchido por quem quer não fosse Paulo Leminski ou Mário Quintana, mas sei que Ana C. não me atinava de todo. Foi nesse contexto que me chegou:

E chegou chegando como mulher que não tem meias-palavras (só meia-bruxa e meia-fera) e te pega no solavanco:

Samba-canção

Tantos poemas que perdi
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…

“Ah, filha da puta”. Foi bem assim que pensei. “Se continuar desse jeito, me apaixono, à revelia de seu suicídio… Ou por dentro de todo o choque e charme de seu suicídio… Se continuar assim, serei seu verso exercício post mortem, a fagulha do seu indício…” arrematei o juízo enquanto bebia um copo de café às altas do dia vindouro, sentando em frente ao monitor com o comunicador instantâneo ligado mostrando que estava em linha. Alguns duzentos quilômetros além, Senhorita D. me guiava:

Senhorita D. diz:
e aí? como anda nossa Ana? rsrs
Chinaski diz:
então…
Chinaski diz:
to, tipo, criando coragem pra continuar…
Senhorita D. diz:
pq?
Chinaski:
bem, pq tenho medo de me apaixonar rápido demais…
Senhorita D. diz
;-)
Senhorita D. diz:
vai na página 59
Chinaski:
peraí…
Senhorita D. diz:
se livra da verdade, se apaixona logo de uma vez…
Senhorita D. diz:
se quiser facilitar, posso pousar a mão no teu peito… ;-*

Aí então eu fui, já sabedor de que algo iria acontecer que me marcaria para sempre:

Minha boca também
está seca
deste ar seco do planalto
bebemos litros d’água
Brasília está tombada
iluminada
como o mundo real
pouso a mão no teu peito
mapa de navegação
desta varanda
hoje sou eu que
estou te livrando
da verdade

Ok, não sou nenhum amante profissional de Brasília, mas tenha cá com ela meus encantos e tenho cá com ela minha relação topofílica específica. Gosto do determinismo ambiental e geográfico que ela me proporciona. Gosto dessa seca e dessa chuva, desse concreto, dessa lonjura, desse céu desmedido e desse tanto de pau torto e barro vermelho, tudo isso sempre me foi matéria-prima poética para lapidar, mas minha relação com ela vai além de sua geografia…

Quando eu vejo alguém escrever algo sobe Brasília, que seja melhor do que ser superquadra na cama do Nicolas Behr, ou luzes das cidades satélites que o Oswaldo Montenegro e o Dom Bosco enxergam – não citarei Renato Russo, me recuso a isso, de merda já bastam as acimas citadas –, já me comovo um tanto. E essa Brasília de Ana C. era muito mais a minha Brasília. Não apenas uma conjunção espacial planejada para a urbe poesificada na plástica aparência além da existência, mas o lugar em que me acometeram algumas vezes esse pouso da mão no meu peito: cidade viva. E o lugar em que ela havia livrado alguém da verdade. Simplesmente lindo – coisa que não uso tal adjetivo à toa, fique desde já sabendo, uso-o, pois, com a devida intenção de transpor a experiência estética sublime diante de algo que mereça se “perder o tempo” em contemplar.

Lá pelas tantas do dia já quase sendo, com a pequena cara vermelha do sol se apresentando para o horizonte, vi que Senhorita D. já não mais estava em linha pelo comunicador instantâneo, mas continuei a ficar aos pés de Ana C.:

Livro bom me leva a querer escrever nele.

EXTERIOR. DIA. Trocando minha pura indiscrição pela tua
história bem datada. Meus arroubos pela conjuntura.
MAR, AZUL, CAVERNAS, CAMPOS e TROVÕES. Me encosto
contra a mureta do bondinho e choro. Pego um táxi que
atravessa vários túneis da cidade. Canto o motorista. Driblo a
minha fé. Os jornais não convocam para a guerra. Torça, filho,
torça mesmo de longe, na distância de quem ama e se sabe um
traidor. Tome bitter no velho pub da esquina, mas pensando em
mim entre um flash e outro de felicidade. Te amo estranha,
esquiva, com outras cenas mixadas ao sabor do teu amor.

Esse me era especialmente injetável nas veias, tipo overdose de possibilidades: “ok, eu deixo mesmo meu ar coquete pelo seu kantianismo, pouso até o que me explode recostada em meu choro, mas ainda eu – desde sempre nascida e decidida –, faço o que quero e o que posso e que você fique aí esperando pela paz perpétua no estribilho de uma metralhadora longínqua; seu sangue e sua carcaça ainda me armaduram e você me ama e eu amo tudo o que me veio depois desde que amo você, ainda que colagens de paisagens no peito”. Corri a continuar mais, agora já, de joelhos, aos pés dela:

Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos
                                                                        vazios.

Primeiro o soco verborrágico, depois o koan hiper introspectivo. O suprassumo da subjetividade. E a quem, como eu naquele então, doido por sentir além da conta, sentindo tudo o que podia se sentir a cada dia, sendo quase pura sensação, queria apenas encontrar sujeitos que iguais sentissem, existi e residi um quarto de dia naquele um verso quase dois: “volto, para que o vazio se faça inteiro e preciso, lágrima cristalizada num quarto de segundo; basta apenas menos, e eu olharia o que é, para saber que já foi”. Terminei o livro ainda pela manhã e depois poesias me existiram durante um mês inteiro.

É interessante notar que esse é um dos poucos livros “roubados” que estão comigo. Não é meu esse livro, ele é da Senhorita D., pessoa que se encaixaria muito bem nesse poema constante do objeto do “furto”:

Atrás dos olhos das meninas sérias

Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão,
por injunções muito mais sérias, lustrar pecados
que jamais repousam?

O livro me foi emprestado apenas. No entremeio dum dos percursos feitos entre duzentos quilômetros pra lá, duzentos quilômetros para cá. O mais interessante foi a “troca” não planejada havida pelo livro: a sorte o trocou por um agasalho que ficou com a Senhorita D. Naquele tempo, esse agasalho me acompanhava sempre e eu tinha por ele um carinho imenso. Ele era bem parecido com a minha cara, talvez fosse já a minha cara. Era uma das “roupas de uma nova vida” que eu havia adquirido para me manter mais coeso depois da largada que eu havia promovido (lembra-se dela? a do início desse papo todo…). Hoje em dia imagino por onde ele anda, se nas mãos de alguém que precisa dele mais do que eu, ou se agasalhando o peito tocado pela mão de Senhorita D. de um literato ou crítico literário qualquer, mas gostaria que ele estivesse assim:

Noite calma, Jim afina o violão, Caio espera a cantoria, Paulo com "o" agasalho e cara de tacho e Cecília é puro encanto...
No fim da noite tudo é permitido: Paulo já deu "o" agasalho para Charles – e mesmo as calças –, Franz tenta lembrar aquela do Adoniran, Ana toma uma e tenta puxar o samba da memória e Vinícius fica ali meio paradão esperando a galera voltar com mais uísque...

Naquele momento eu estava aberto às sensações. Sentia tudo vindo a mim como um grande continuum de sincronias do acaso predestinadas. Senhorita D. chegou-me num rompante de poesia vivida e compartilhada, trouxe-me a possibilidade do encontro com Ana C., deu-me sua parcela de gosto no mundo e foi-se embora com meu agasalho, deixando-me seu livro – provável que ela levou mais coisas ainda: um gosto ruim na boca, um carrinho-de-mão, pelo menos, repleto de desilusão e um certo rancor pela espécie masculina. Mas isso tudo é conjectura, fico posto com o que posso mensurar: minha própria existência, que hoje, certamente, seria bem diferente se não tivesse topado com Ana C. em meu caminho.

Bom, já me excedi em demasia e a loucura me acompanha. No fim, o livro é mesmo muito lindo.

Senhorita D., caso ainda queira o livro, é só falar que eu devolvo, não sou, definitivamente, um ladrão de livros. E ah, realmente muito obrigado por te me colocado este livro e Ana C. na minha vida. Como ela mesma diz nele:

Este livro

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É
prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade
que você seduz, charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

PS: Tem muita coisa da Ana C. na rede, é só dar uma pescada aqui.

pausa: Ana C.

pausa: Kuri

Provável que o ano era 1998, momento em que me acometeu essa coisa de “buscar cultura”. TV Nacional no talo, rádio Cultura, Nacional e Senado na veia, embora internet ainda fosse apenas pra procurar coisas sobre ets, magia, religiões e pornografia, com direito a madrugada de chats. O balaio de gato era grande, entre um tombo e outro de skate e uma jogada de Heretic no pc, lia muito: Hesse, Hemingway, Lispector, Assis, Kundera, Orwell, Amado, Wolf, Rego, Queiroz, Castañeda, Andrade. Talvez, 1998 foi ano em que mais li na vida. E ainda havia tempo para as festas trash-punk-hip-hop-raulzito-um-quê-de-hippie taguatinguenses que meus irmãos me deixavam acompanhar. Fora as incursões à Chapada dos Veadeiros e todas as consequências místico-mágicas advindas com os adventos lá experimentados…

Naquela época, durante as tardes de domingo com ar depressivo que arrebentavam a barra do dia sempre, quando eu não estava na calçada olhando o tempo cair lentamente, vendo os moleques mais novos correndo pra lá e pra cá, esperando o momento em que o amor me cairia sobre a cabeça, eu estava no meu quarto escutando rádio. Gostava dos programas da Rádio Nacional e da Senado, sempre havia algo sobre música clássica, sobre jazz, sobre música brasileira antiga. Eram áfricas e ásias, portugais sonoros que nunca havia sonhado escutar. Creio que foi num programa do Arthur da Távola, quando ele me apresentava os fados de Amália Rodrigues que eu me atinei em ler poesia. Já a escrevia havia um ano pelo menos, mas não tinha o costume de ler poesia. Fui até a biblioteca de minha mãe e procurei algum livro de poesia, de bobeira, encontrei esse:

Kuri, fiquei pasmando. Será? O nome do livro era bom: “Gueto”. Arrisquei, começava assim:

Gueto

Venha beber conosco, os placidamente aflitos,
pernoitar em nossas pequenas casas sem teto,
partilhar dessa dimensão em que o sonho
e a realidade não se distinguem, não se excluem.
Venha embriagar-se conosco, os anjos tortos,
desatrelar-se, aventurar-se pelo prazer da descoberta
e brindar a loucura com a mesma reverência
com que os outros brindam a coerência
das linhas retas, das quadras, dos quadrantes.
Venha misturar-se a nós, crianças medonhas,
radicar-se nesse gueto entrincheirado
além do território das engrenagens metálicas,
provar a lucidez mágica da poesia
que, de súbito, é uma dor e uma alegria.

Foi uma paulada em minha cabeça de pré-e-te(en)so(´) poeta de 15 anos de idade. Como assim, logo de cara, no primeiro encontro, ela – a poeta e a poesia – já me chamava para beber junto? Como assim, ela falava aquela linguagem diabolicamente ervácea, em tom de tonais e naguais, de partilhar dimensões de sonho e realidade conjuntas? Minha mente já louca de podecresismos, ficou mais louca ainda, quis automaticamente “brindar a loucura com a mesma reverência com que os outros brindam a coerência” e “provar a lucidez mágica da poesia”. Continuei, pois:

Marítimo N.º 5

Não atento ao que os homens
falam de Deus.
Prefiro supor
o que ele mesmo diria
se eu fosse capaz de ouvi-lo.

Alto-mar, maio 75

Estremeci. Lá estava, posta em versos, a minha propensão ateísta, fruto de overdoses e parco entendimento de Raul Seixas (à revelia de que hoje considere-o extremamente teísta e cristão…), paixão por Cobaias de Deus” do Cazuza e Angela Rô Rô e discussões sobre a concepção de deus com o padre da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro durante as aulas de catecismo. Adorei aquele grito “creio, mas não sinto” entoado na poesia, me vi ali. Era um humanismo denunciante já de um demasiado, um quê de decaído e ao mesmo tempo com uma certeza tão forte, que me tocou de todo.

Quis ir mais fundo, decidi ler o livro de uma vez. Nunca havia lido um livro de poesia inteiro, por vontade própria, até então. Os únicos livros de poesia que havia lido eram um compêndio de Tomás Antônio Gonzaga da coleção “Nossos Clássicos” da Editora Agir e “Poesias Selecionadas” de Gregório de Matos, e tudo por conta das aulas sobre arcadismo e barroco durante as classes de literatura com a Professora Marlene.

Cola para a prova sobre arcadismo, onde se pode observar uma transcrição ipsis litteris das anotações do caderno para o livro que poderia ser usado durante a prova.
Detalhe de cola para a prova sobre barroco. Na cola se lê: “O dilema do poeta diante de tendências opostas e conflitivas”.

Continuei a leitura, eram coisas simples, belas e com um poder de concisão que eu ainda não havia percebido ser possível em se tratando de poesia – somente um ano mais tarde eu descobriria que haviam haikais no mundo… –, cada página me pegava de jeito:

Marítimo N.º 9

Se eu lhe disser a verdade,
estarei mentindo.

Alto-mar, junho 75

Uma coisa estranha explodia em mim, o dispersar veloz e impactante de uma matéria até então não sapiente da existência: dois versos, uma verdade, uma mentira, uma brincadeira silogística. Tudo ali em dois versos simples, provavelmente já ditos por qualquer outra pessoa no mundo, mas colocados ali naquele livro, naquele momento. E os lendo – os versos –, fui descobrindo a possibilidade de falar sinteticamente sobre paisagens, sobre a geografia sentimental de lugares (prenúncios de uma topofilia?):

Cidade (I)

Da janela,
um pedaço de céu,
outros apartamentos
um poste e uma renda
de muitos fios.
Nada mais –
nem mesmo a esperança
de que um pássaro
risque o espaço vazio.

Continuando, fui aprendendo a como se dar diante dos paradigmas internos e como rir de sua própria contradição:

Ironia

Às vezes eu me sinto
como se não tivesse
mais nada pra dizer…
aí me contradigo
e os rios rolam seixos
até a beira do mar.

Me antecipando por meio dela, cheguei um tanto ao sentido daquela pureza boba e leve de Manoel de Barros e daquele saudosismo infantil de Adélia Prado, que só iriam dar com os costados em minha vida tempos depois:

No Quintal

Quando era mais criança
e me deitava no quintal
ao lado das formigas,
das poeiras e das vidas
invisíveis, o sol se estendia
sobre mim: juntos
fazíamos de conta que
viajávamos pelo céu.
Um suor lavava meu corpo,
eu ria o riso fácil da infância
e, mercê de Deus, não entendia
o horror de minha avó.

Gostei tanto daquele livro e daquela poeta, que senti um ímpeto até de transbordar a arte dos versos à qual estava me atrevendo adentrar, que comecei a rabiscar desenhos no meio de seus poemas, tentando – em vão – reconstituir com imagens no papel as imagens que via durante a poesia:

Certo que nunca fui bom no desenho. Na real, os desenhos eram primários, como bem se pode observar, mas foi bom tentar fazer algo naquele momento e ainda gosto dos garranchos até hoje…

Leio Kuri agora com uma saudade gostosa, uma distância próxima. “Gueto” é um dos únicos livros que já li algumas vezes e nunca me cansei de ler. A poesia de Kuri em “Gueto” é ácida, amena, progressiva, curta e grossa. Como disse Vinícius de Moraes: “Kuri vive no meio do ‘fogo que arde sem se ver’, sofrendo da ‘ferida que dói e não se sente’, para lembrar Camões. Seu destino – ai dela! – é o amor e a poesia. Prosternemo-nos, pois.”

Lutei pra encontrar algo a mais dela que estivesse por aí, posto na internet, mas só descolei esse link a princípio: http://www.adversos.com.br/poe_kuri.htm, em que existem algumas poesias dela e de outros poetas pertencentes a um grupo chamado AdVersos, que está na ativa desde 1968 (!). De qualquer forma, taí a dica. Quem quiser procurar Kuri, que se cure da apatia poética e bons versos!

pausa: Kuri

pausa: Ledusha

Sempre escutava na Rádio Nacional de Brasília uma música do Celso Foncesa e Ronaldo Bastos chamada “Ledusha com diamantes”. Gostava da música, achava bobinha mas, ainda assim, aprazível aos ouvidos. Não fazia ideia de que Ledusha era uma mulher (mesmo a música falando de “Ledusha e seus namorados”, afinal, não só mulheres têm namorados…) e não fazia ideia de que era uma poeta (bom, pelo menos eu acho que é a mesma Ledusha poeta de quem quero falar). Um dia perambulando num dos sebos perto da Liberdade em São Paulo, como sempre olhando o que tinha de poesia no local, depois de ter encontrado “Poesia varia” de Guilherme de Almeida, encontrei esse livro da Ledusha:

Abri o livro e dei de cara com isso:

sinhazinha em chamas

ai quem me dera uma tuberculose
uma overdose
uma carência esplêndida

Gostei, fiz aquele trejeito com a sobrancelha identificando um certo “ok, será?” e continuei:

via aérea

baby
linda tua carta
a fitinha do bonfim cor maravilha
que por azar perdi no cinema
não enforquei mais a análise
depois que comprei o jeep
vou conforme o vento
pelo rio
comi um poeta na sexta
um crítico no sábado
domingo sonrisal
parece que faz muito frio
aí em são paulo
estou bonita de cabelos novos
pelos ombros
ontem à tarde célia trouxe bombons ingleses
daqueles mentolados
e dois fininhos que matamos rápido
assim que puder mando o flaubert
e a blusa de seda para lilia

Achei linda essa coisa meio largada, com um certo tom de largadamente pensado, achei charmoso. Tipo, comer um poeta na sexta, um crítico no sábado e domingo maldizer o estômago – potencialmente devido a uma overdose de porralouquice que a consumiu, levando-a a consumir dois sujeitos num fim de semana ou mesmo ao cansaço estomacal que deglutir dois tipos como esses deve provocar em alguém: poeta ninguém merece, provocam mesmo azia (pô, azia!) e críticos, bem, são críticos, em grande medida cítricos… Mas aí, continuei:

caça à palavra

repleta, minha alma espreita atrás do estrume do mundo:
de onde vêm os versos, que face ocultam entre o amor e a morte?
às vezes os sons são os mesmos, as texturas, o tempo,
o mesmo homem a revolver-me as veias
onde se lacram as vãs repetições, que noite veste o poema?
o sol nos vasos de crisântemos, ecos de um triste país,
largos horizontes onde meu pai passeia verbos nem sempre sublimes.
tudo é memória, sirenes ligadas. a infância sempre ontem, mas aqui.
todo verso sugere uma serpente oferecida.
que na minha caça à palavra (que face ocultam o amor e a morte?)
não haja qualquer vislumbre de repouso.

Segui assim, com aquele belo final em audição interna – essa coisa de enxergar imagens ao escutar as palavras na cabeça –, enquanto alguns segundos perpassavam lentos ao redor: “que na minha caça à palavra […] não haja qualquer vislumbre de repouso”. Foi paixão àqueles últimos versos à primeira lida. Quis apenas confirmar. Aleatório, cai no fim, página 185:

confissão

sabia os carinhos mais mansos
perdi o hábito

Sorri de leve, matutei cá com meus botões de prender miolos “dura essa moça, bem dura, com um quê de candura, gostei da criatura…”. Fui acordado do nefelibatismo por minha companheira à época: “Então, já se divertiu bastante? Vamos nessa?”, “Sim, claro, vou levar esses dois…” e saímos a descer escadas enquanto eu tentava compartilhar o que desse pra tentar – isso de transpor ao outro sensações que se afirmam no aglutinado da moleira e dilatam o tempo sem qualquer menção palpável da realidade, isso de tentar compartilhar poesia…

Não sei se foi ainda sentado no banquinho de madeira do sebo ou no carro rumo à casa ou mesmo se já em casa, que me deparei com uma dedicatória posta na primeira página do livro:

"Para Guilherme e Pedro, com um beijinho da Ledusha..."

Achei graça da dedicatória, era para um Guilherme e um Pedro. “Seria um casal?”, formulei. Pensei ainda no lance do livro estar em um sebo e imaginei a separação drástica – coisa de morte física ou morte de amor – que haveria conduzido o livro até a prateleira do sebo: Guilherme pego na cama com outr@ lendo Ledusha em seu ouvido, quando Pedro chega do trabalho. Guilherme morto na sala, após consumir dois vidros de barbitúricos, com o livro da Ledusha na mão direita e uma foto do casal em Angra dos Reis na mão esquerda. Enfim, Pedro explicando para Guilherme: “Gato, essa Ledusha é uma porcaria, tudo bem que ela autografou o livro, mas vamos nos desfazer um tanto dessa trolha de poesia de quinta que você tem! Eu também preciso de espaço na estante!”…

Bom, sei que eu gostei do livro.

PS: Fuçando na rede achei isso: http://ledusha.blig.ig.com.br/. Não cheguei a ler direito ainda, mas tem uma ou outra poesia dela por lá, fora alguns insights de diário compartilhado.

pausa: Ledusha