Poeta?
Eu não…
sou apenas um cronista metafórico
de sentimentos, sensações, fatos e imagens.
Categoria: Poesia
0836.
Achar nesse momento
esse tom do céu
em palavras.
É aí que eu vejo a
realidade do impossível
0837.
Um beijo, um ato
algo findo e outro
começado. Principiado
já no fim, findado
em seu início
o poder do estalar
de lábios…
0838. Todos precisam de um vício destrutivo
Acordou bem
no horário
disposto
fez seu alongamento
correu trinta e cinco minutos
comeu seu desjejum
tomou seu banho
escovou seus dentes
chegou em ponto no trabalho
ligou pra namorada
disse que a amava
(e a amava)
marcou no almoço
saiu na hora
almoçou com sua linda
voltou no horário
trabalhou com eficiência
cometeu um lapso ao
final do dia: saiu 10 minutos
adiantado: tinha de pegar
sua fofa para ir ao cinema
assistiram num shopping
deixou-a em casa
foi-se para a sua
ligou quando chegou:
“te amo”
(e a amava realmente)
tirou suas roupas
guardou-as no cesto
arrumou as da manhã seguinte
tomou um copo de leite
escovou seus dentes
dormiu
não há de se maldizer nada
mas e a vida, para onde foi?
0834.
Há esse fogo, e uma
vontade de jogar
o celular nele que
parece incontrolável.
Mas no fim das
contas, hei de me
controlar e dar
boas risadas disso
tudo…
Alto Paraíso, GO.
0835.
Olhar para os lados sem ter motivo
Virar um estado de contemplação
Querer nada mais que o nada
Amar tudo, todos e ninguém
Ser triste sem medo
Ser feliz quando há tempo
Ouvir blues às 3:00 da manhã
Sonhar com sua ex-namorada
Admirar a beleza daquele rapaz
Passar o dia sem comer
Comer tudo o que ver pela frente
Encher a cara com qualquer um
Acender um cigarro após seis anos
Voltar sozinho pra casa
Dormir com qualquer um
Ter dinheiro no bolso
Perder um pouco de si
Ficar consigo e se bastar
Mesmo que seja outra prisão
0833.
Eu grito agora o
que nem sei se escrevo,
é algo que sai entre
o risco ao papel e
a certeza de que algo
há de ser dito, e digo.
Embora a um olhar
atento nem pareça
ser qualquer coisa.
Talvez sejam essas
notas tão rápidas
que inibem o que
quer dizer minha
alma, mas o choro
ao som comove
meus sentidos a
serem mais que
palavras estas aqui:
dou-te a liberdade.
Alto Paraíso, GO.
0831. A lentidão
O que surge é só o que
se tem: uma légua de
nada às costas , outro
tanto de nada ao lado
e mais um punhado de
nada aos pés.
Isso tudo não representa
nada, a não ser essa
lentidão.
Alto Paraíso, GO.
0832. Dividir o nada
Prefiro o vazio ao lado
do que a sensação
medíocre do ciúme.
Alto Paraíso, GO.
0829.
Essa agora, antes,
só pra ver como
se faz depois
Queria ter visto
tua cara após
o poema, deve
ter ficado com
ares de quem o
pega, tira o
presente o põe
na primeira
gaveta que vier
pela frente, e
isso era pra ser
o antes, mas acaba
sendo o que
imagino depois.
0830. Tango nº 1
O passo não acompanha
o que se passa nas mãos
virtuosas do descompasso.
Piazzola é só mais um
em meio ao que não sabe
nem o que fazer com a
viola em punhos.
Trágico, como o tango
ele faz assim…
Alto Paraíso, GO.
0827. Compositions
Amei-te com ares de amor
penetrei-te uma condição
tão pura e bela, invadindo
tua opção.
Fui tua escolha e teu paraíso,
fui tua perdição.
E hoje sou só conjugações
de verbos no passado:
minha decisão.
0828.
Contigo, fui até homem,
paguei conta e até te
chamei de minha nega
Só te peço que não negues,
pois se não desanda
tudo e eu enterneço
0824. Corolário
é nessas horas em que o
sol já morre e renasce
no outro hemisfério
que brota a profunda
contemplação de que o
amor não começa ou
acaba assim, de repente,
ele é esse que de
diversos modos se faz (e desfaz)
0825.
A paz ia
e
apazigua
0826. In theory…
The same way all day
and I don’t no your
name. I think that
your name is the
same that the sky.
0821. Seu
sol
céu
soul
som
são
sílabas
suas
0822.
Um desabafo de um assalariado
Um furto de um suco aguado
Uma história, um pedido segredado
0823. 1º movimento: a morte
surfava por entre os carros
deslizava no encontro da borracha
com o asfalto. fazia um barulho
imenso, devido ao rolamento
falho. pigarreava os excessos
da noite finda.
o corpo cansado, a canela
esfolada do último tombo.
pensava em nada,
vivia um grande nada
e por isso era feliz. no dia
em que cresceu e tirou a
barba e penteou os cabelos,
passou a viver sua morte:
significou sua vida e
acabou-se a poesia.
0820. Quisesse
O barulho é conhecido
grafá-lo é quase impossível
seria algo próximo a tsiihh
ou até mesmo tssiihhsss,
faz-se após a ação da mão (pâuphh)
ou até mesmo só dos dedos (nkclohhh)
aí depois vem o mglu-mglu-mglu-mglu
e o arhhhh
no calor, então… nada melhor
0819. Um dia…
Um dia a paz de um fim de semana
há de ser tanta, terna e eterna.
Há de ser do gosto do pôr-do-sol,
da quentura de um abraço no frio
e do jeito que o coração manda,
como se tivéssemos sempre aquela
primavera nos pés.
0817. O porquê
Como psicografia
sento: palavra sai
Como psicanálise
escrevo: alma vai
Como psicopatologia
invento: o eu se esvai
0818. Pós-chapada
Andávamos sobre a natureza
e você com a primavera nos pés
dizia coisas sutis sobre a vida
eu, como sempre, falava sem
compromisso sobre mim e
pensando que falava sobre a vida
Dormimos juntos e foi bom
Estava frio e foi bom
Bebi um tanto e foi bom
Fui eu e foi melhor ainda
0815. O 2º último poema para Lyvian Cristina
Neste que fica sendo seu
dou-te um beijo letrado
grafado nestas que se põem
assim, uma após a outra
e que relembram esse
que é seu: um após outro.
Gira a Terra e este fica
sendo seu, e por esse
dou-te estas, sem sentido,
ou todo o sentido, apenas
letras, umas após as outras,
mas já suas.
0816. Ah se eu não fosse agnóstico…
O ônibus como sempre
A mesma fila à frente
O distúrbio da buzina
O descompasso da vida
A fala infinda ao lado
O sono justo e suado
A trepidação da via
O sonho da alternativa
E no meio do engarrafamento
o sol se pondo ao poente
num vermelho de tudo,
em meio a um azul já negro
e bem no meio desse sol
um ipê florindo, despontando
seu amarelo, contrastando
com a vida… parei, respirei
e ouvi meu coração:
as coisas ainda cabem no mundo
0813. Para Eliz
As palavras tem poder de corte
Tocam a pele e promovem o sangue
Palavras vistas, mais do que as
ouvidas, são mais afiadas ainda…
Cuidado, pois, com que seus
dedos produzem, ou até mesmo,
pensando direito e bem, cuidado não…
0814. O 1º último poema para Lyvian Cristina
Tenho brincos nos bolsos para te dar
mas há um medo que desanda em se dar
que me dou o descompasso de ter medo
de te dar os brincos que tenho nos bolsos
0811. Minha vida sem mim
Amanheceu neblina
de tudo hoje em mim
só sombras sem fim
neste eu qual rima
Amanheci muzak
hoje em Brasília
o horizonte sumiu
e sumi também eu
0812.
I forgot my name.
Because the name
it’s never the same,
like the rain:
water comes down
and end.
0810.
poesia?
é a cabeça da caceta
eu só sou
(a idéia vem da cabeça)
0807.
alma vaga vem vindo
vôo alto, animal aéreo
alma vindo vem, vaga
0808.
perder os pés
pô-los pelas
mãos, ser pés
0809.
era um vento que
ensaiava ser vento
e era só vento mesmo
0804.
o gosto do mar
é da cor dele
e reflete ondas
0805.
o gosto do ar
é da cor dele
e movimento
0806.
o coração carrega
a cor da ação cá
regando as veias
0802.
cheio de ar n’alma
parece que nada há
cheira a alma e ar
0803.
o gosto do céu
é da cor dele
que reflete ondas
0801. Informações sobre a vida (freudiano)
Menina que faz menino, não é mais menina.
Menino que faz menino, não é mais menino.
Menina que faz com menino, não é mais menina.
Menino que faz com menina, não é mais menino.
Menina que faz qual menino, não é mais menina.
Menino que faz qual menina, não é mais menino.
Menina que faz com menina, não é mais menina.
Menino que faz com menino, não é mais menino.
Menina que faz como menino, é quase menino.
Menino que faz como menina, é quase menina.
Menina que faz com menina e menino, é quase menina.
Menino que faz com menino e menina, é quase menino.
0800. Jazz in the bus
That empty face
say things so easy
The beautiful black
smile in this face
is more like a half moon
in the mirror of
the bus window.
Now, I believe: that
empty face is the
most pure life.
0797.
Minha amada, cai o mundo sobre o céu
refletindo meu peito.
Não sei seu nome, não sei sua sorte
não sei.
Tenho a sorte de te haver em mim
mesmo ainda não a tendo
Tenho o mundo caído sobre meu peito
refletindo um céu sem nome,
Não há, não houve, nada cabe nesse ínterim
0798. Metamorfoses
um pouco de paz recai sobre os ombros
parece ser um mínimo de coerência
mas pode ser também o enredo triste
de uma peça sem sentido e sem noção
pode ser o começo de minha desgraça
mas pode ser o final de meu poente
pode até ser uma noite eterna em dia
e ainda assim ser o sentido que faltava
pode ser que eu me encontre no mar
mas pode ser que eu me perca neste
quase corcunda de tanta paz recosto-me
na janela aberta e me deixo cair aos poucos
parece ser um mínimo de existência
mas pode ser o que não mais há de me ser
e ao mesmo tempo há de me caber todo
pode ser o que não digo por entre as
palavras de amor e também o que se sabe
pode ser até mesmo doce e ainda mais azul
como se fosse um filme bem dirigido
mas pode ser que seja mesmo a vida
te amo, pacificamente, como se normal,
em outro rumo, em outro ambiente
em paz comigo, consigo, contigo e com tudo
contudo, pode ser até mesmo saudade,
mas que se fosse chamaria-se amor mesmo
pode ser até mesmo indiferença, mas
que é paz de toda forma, posto que é e
isso basta. Poderia até ser o que não se é
mas no mar, no ar, me perco, despenco
viro aquilo que ainda não posso definir
(continuo)
0799. Ouça
Enfim, o encontro.
Os atos todos,
meras técnicas
pedagógicas
Apenas aportes
metodológicos
E quando eu
me mostrei um
grande monstro,
foi só pra te
ensinar uma
lição apenas:
assim, caminha
a humanidade.
0796.
cada um como
se deve ser
cada um sendo
é como se
cada um sendo
se devesse ser
cada um como
se deve
0793. Olhar mar (amar)
Olhar mar
e como vem ao mar
e quando vem ao mar
e porque vem…
Passou, chegou, se foi
ficou e é
Molhou, marcou, depois
e antes e até
Num ir, num vir, sem fim
em si, se é
Devir, ser só assim
é o mar e fé
Olha o amar
e como vem a amar
e quando vem a amar
e porque vem…
Tocou, encheu de alga
e peixe e ar
Azul, é verde à luz alta
lilás e grená
Um toque, a areia, a água
o sal e o mar
Em outro, a vaga alma
querer e o amar
0794.
Você chegou devagar
na hora que mais precisava
Chegou para ficar
e ficou minha namorada
Fez posto em meu respirar
e não largo mais por nada
0795.
Eu quero é amar irrestritamente
quem passar pela minha frente
Eu quero é sentir o corpo de alguém
colado ao meus pelos e suor
Eu quero é ser livremente amado
por quem quiser me amar
Eu quero é me dar
Eu quero é me entregar para quem for
Eu quero é me doar para quem quiser
Eu quero é a imensidade do conceito
de liberdade na máxima interpretação
do termo amor
Eu quero é externar minha vida
pra quem me apraz e até pra quem não me apetece
Eu quero é a solicitude de uma vida
em minhas mãos e o seu jogar fora sem culpa
Eu quero o que não me dá prazer
e o que mais me enternece a alma
Eu quero é apaziguar meu ânimo
e deixar que os outros cuidem do seu
Eu quero é ser responsável pela conduta
do outro e depois deixá-lo ao léu
sem lenço, documento, sem vida e sem amor
Eu quero é que todos saibam que isso
tudo é a vontade do meu amor e do meu ego
0791. Em Brasília
íamos passeando por entre o céu
víamos nós como o que já havia sido
amávamos o que não nos continha
negávamos qualquer ato conhecido
andávamos entre insanos, ao léu
0792. Amores
quase se descobre o que existe
entre a intenção e o gesto
mas é algo tão lá guardado
que retirar um véu na busca
de um modo de ser é senão
uma intenção e um gesto
e também algo lá guardado
0790. A história de um beijo
“Quando adormecia na ilha de Lia,
meu Deus eu só vivia a sonhar,
que passava ao largo do barco de Rosa…”
Um sono comeu meu mundo
Foi um sonho, qual um presságio
Até uma pessoa lá morreu
Foi só por uma vida, quase nada…
Eu vi, você me via
E havia lá uns olhos de ressaca
E havia o pecado forjado em bronze
E havia mais um mar
E mais a ressaca do mar
E mais os seus olhos vendo-me
Um mundo comeu o meu sono
Foi uma realidade tal, num adágio
Até uma sinfonia lá se deu
Foi só por toda a vida, quase nada…
Eu ouvi, você me ouvia
E havia cá uma melodia de nada
E havia o amor posto não sei onde
E havia mais um ar
E mais o vazio do ar
E mais os seus ouvidos ouvindo-me