0215. Um leão em mim

era uma vez um leão
que inesperadamente enamorou-se
de uma borboleta dourada
uma radiante e linda borboleta
esta, voava até ele todos as auroras
e lhe segredava,
pousada em seu nariz,
pormenores de seus idos dias.
certa vez, confessou-lhe um assassinato que cometera
contra uma mariposa companheira
e o leão ficou impressionado
mas ainda assim,
seguiam a mesma trilha até suas casas
numa doce e secreta rotina.
por se achar desiludido de outras épocas
o leão deixava tal amor de lado.
não aceitava.
estava feliz demais urrando à toa
para estragar tudo com um amor
(ainda mais, outra espécie!)
o leão prosseguia sua vida
escondendo de todos
esta paixão não consumada
que o consumia em silêncio
e todos os dias ele via a borboleta
que passa e dizia:
“como é bom ter-te como amigo caro leão,
teus olhos trazem paz”
e o leão fingia indiferença
enquanto por dentro explodia:
“oh doce borboleta,
não me fale somente em amizade,
se meu desejo é proteger-te em minhas patas
e preservar-te de todo o mal…”
coragem faltava ao nosso amigo leão
sua boca não condizia seus sentimentos
e esta urrava em agonia
(seguindo os preceitos do egocentrismo de um “rei”)
“tudo bem borboleta,
sê minha amiga,
mas não te apega,
pois sou só como o sol e esta é minha sina!”
ah leão tolo!
não vês que a borboleta foge?
uma vez que tu não correspondes
nem compreendes a alma desta mutante…
uma pena leão,
este que escreve não ser tua cabeça
para gritar-te aos ouvidos
que tua sina é a solidão,
esqueça!
te atrevas, busque teus ideais
a borboleta não te confidenciou um assassinato?
ficastes assustado leão?
logo tu, um facínora sem igual?
vá leão, balance esta juba
estufe o peito
e perca este orgulho
e vença este medo!
Mas quem sou eu para ser tua consciência,
senão um reles e momentâneo observador?
é amigo leão,
a borboleta se esvai
começa a seguir trilhas que não as tuas
só para evitar tua presença
só para extirpar a paz de teus olhos
creio que ela tem medo também,
mas com razão!
tu és o leão
ela,
apenas uma borboleta tímida e confusa
que por azar do Acaso
assassinou outrem

é amigo leão,
corra atrás de tua borboleta
antes que as rotações ocorram
e o medo se torne real indiferença

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