0324. Dos motivos da solidão eterna

Primeiro ao olhar-se, contempla-se a alma
Depois uma instância branca, vazia
Com uma fragrância suave de nada
Um abraço que se treme mais ainda
E você olha a si como a madrugada
Tez escura e velozmente esbranquiçada
Um néon falho em uma fachada
A luz laranja de um poste que apaga
Uma sombra precariamente delimitada
Um suspiro, um tiro, um uivo
Uma coruja enfeitiçada
Que traz a morte no âmago de seu pio
Um acidente de carro, uma gargalhada
Um gozo enleio à dor de uma ferida de faca
Um corte na espinha de adaga
O único banco vazio ao lado num ônibus corujão

Depois, você se acostuma
E pleiteia ser indiferente a toda dor
E se descobre só
Como a luz-de-freio de uma moto a cem por hora
Como a alucinação de ver um lago de luzes
Ao horizonte quando sem óculos
Como a eternidade

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