1640.

Quando de menino
eu via aquele garoto
no espelho d’água
do banheiro.
Era um mundo opaco
de um azulejar quase
branco e de um teto
infinito no meio do chão
a morada daquele que eu
contemplava.
Naquele que eu via
tentava ver aquele que
me via, um estranhamento
da visão dele na minha
própria visão.
Naquele mundo de águas
e azulejos e tetos
sem fim eu via a figura
nua de olhos miúdos
cabelos pretos a escorrer
pela cara, a miudeza
daquelas partes
de abaixo do umbigo,
as canelas finas e os
braços esguios,
que via um rapaz
que via um rapaz
que se via no
estranhamento
de não ser em si mesmo
apenas
mas sim qualquer coisa
entre um olhar e outro.

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