1923. Corrosivamente

Causticamente amando o mundo
porque a cada angústia
o mundo brilha
e em cada pétala nascida
me brota um riso.

O acaso me compadece
e a sorte me causa asco.
Disso feito, restam as aléias
e o desterro para que a vida
pulse junto a lágrimas de dor e gozo.

Corrosivo e amante,
pois canto o erro e a melancolia
que gorjeiam a solidão
e que pousam taciturnos
sobre o âmago da felicidade.

Ao que vejo as novelas
e ainda me arrisco nos livros
sinto o sal da terra
em todo ato
e o joio é mais importante que o trigo
E nas tardes de julho
o vento frio me diz que a vida
ainda pode.
E aí eu posso.

E da falta de posse
num lapso de se esquecer
eu ouso ser esperançoso,
ainda que o medo do futuro
irrompa a porta da sala
a toda hora.

Ácido e lânguido sinto,
não por pena de conduta,
tímida ou temerária,
que bom ou ruim
a dor dói
e o riso afaga.

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