2107.

O mundo tem essa voz, esse som que te rememora o projeto traçado quando ainda com doze anos, logo após a primeira comunhão. Pouco depois do batismo cristão quisto e não sentido. Queria ter sentido Deus naquele momento, mas não consegui. Molhei as têmporas, comi seu corpo consubstanciado em trigo, ajoelhei-me e tentei. Juro que tentei. Foi ali, naquele momento de desengano, naquele ínterim de decepção que o mundo passou a ter essa voz e que lançou ao ar esse anseio pela liberdade de poder nada sentir e conseguir ainda sentir tudo em lapsos automáticos de dor e torpor.
Sempre cansado, esse sou eu. Sempre fatigado. É um fastio que leva os pés à busca do exílio. A expectativa eterna de um quadro composta pela meia luz fraca de um abajur, o gosto da certeza de que não se fez o possível, um cigarro aceso e um cinzeiro cheio de guimbas, aquela dose de uísque sem culpa, duas pedras de gelo, um apartamento alto numa cidade em turbilhão plenamente numa noite de quarta-feira que invade a varanda e compete incisivamente com a meia-luz do abajur. Ali no quadro, que mais é filme do que quadro, eu. Perdido entre tudo, mas sabido ainda. Com meus mais de vinte e poucos anos, vários amores às costas e a certeza de os ter perdido entre uma olhada e outra para o lado. Sabedor de que tudo foi vivido e deixado onde se faz sentido: dentro de mim, em mim, eu mesmo.
“Não sou eu quem vai ficar no porto chorando”. Inteiramente cônscio da missão cumprida. Só. Como mesmo no ventre se está. Como mesmo quem carrega o ventre cheio é. Finalmente sem paranóias. Finalmente sem a preocupação de quem vou afetar. Finalmente só afetando a mim. Com essa voz dando o tom. Decepcionado com a falta de Deus. Sem forças para buscá-lo. Mas vivo.

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