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Lado de cá, Definitivo Federal, 12 de novembro de 2015.

Mano,

Com carinho lhe saúdo. Venho através desta lhe dizer, que feita a passagem para o outro lado, aquele em que nós dois já estivemos – certo que você por mais tempo do que eu –, que esse outro lado também tem sua valia. As coisas se alinhavam sempre em casas confusas, a costura certa, alinhada, é coisa de outra época, uma época em que tudo era definitivo, do nascimento à morte. Todas as coisas eram certas. Havia – certo que havia – quem desafiasse os fios da vida e costurasse seus próprios retalhos ao bel prazer, mas pouquíssimas figuras eram estas, esteja certo. Porque, afinal, o que é certo é o certo, e o certo vem da maioria.

Mas deixemos de delongas, voltemos ao mote da missiva, a sua estada no outro lado. Dizia que há ainda valia no outro lado, este de cá, em que eu adentrei há tempos e que poucas vezes o deixei, tem seu encanto: as novelas, os filmes e as canções nos conduziram a vê-lo enquanto o suprassumo da realização de alguém, o exato meio termo entre o nascimento e a vida: a companhia posta enquanto encanto, magia e arroubo de corpos e almas. Definitivo.

Há que se ponderar que esse lado foi, no decorrer da história, diluído em outras formas possíveis, ao passo de que, nós dois, por exemplo, entramos e saímos dele diversas vezes. Mas ainda assim é, decretadamente, o mais correto, belo, feliz e racional lado para se estar.

(Te peço que se acalme, ainda falarei acerca do quanto o outro lado pode ser melhor do que parece, mas preciso tecer mais alguns comentários acerca deste lado que abandonou e desde onde me encontro).

Ambos sabemos o quão ilusória pode ser a assertiva posta acima, o lado de cá, por você abandonado, é cheio de interpenetrações que a sujeitos descentrados como você e eu, parece que vão nos esburacar deixando pouco espaço para algo inteiriço que nos faça minimamente presentes enquanto seres presentemente inteiros. O lado de cá promove o despertencimento, esfacela o nosso eu em nome de um outro eu dúbio, formado por você e outro alguém, ansiando uma complementariedade irreal, formando uma expectativa insana e, ao mesmo tempo, promovendo alguns dos melhores momentos da sua vida. Diluir-se é bom, é vida. Não se ter é ruim, é morte. Tudo bem que há quem julgue a morte um bom mote, o fim almejado – definitivo e certo. O problema é que existem seres como nós, que têm ímpeto de vida. Mesmo que esbravejemos contra a própria, esperando a morte solenemente de quando em quando.

O lado de cá promove calma, controla impulsos – de quando em vez corta os pulsos, quase um pulo do vigésimo andar. O lado de cá contorna imprevistos, assegura as coisas, firma o chão. Lembremos, pois, ainda, que o lado de cá, é fruto da paixão. (Normalmente, claro. Houve tempos – certo que ainda os haja – em que era fruto de arranjos e artimanhas, prisões acertadas por juízes e padres). O lado de cá dá isso, enfim, a certeza de que a gente se escorou no definitivo. É isso, está tudo definido.

Mas e o lado onde você está? Este que você adentrou, meu truta, asseguro, que o bagulho pode ser maluco deste lado. Falo, óbvio, com ares de pouco conhecedor deste outro lado, talvez até idealizando-o um bom tanto, fantasiando. Mas assim o vejo: espaço afetivo em que a mediação é apenas consigo, interna, intrépida. As escolhas se tornam um desbotado opaco, mas são feitas em um lócus manejável, científica e espiritualmente passíveis de serem conduzidas por seus próprios meandros. Se esses canais serão caudais turbulentos, se serão lagos serenos, se terá margem, porto, cais, se será mar aberto, peito escancarado, rio subterrâneo em casulo cavernícola, nunca se sabe, mas se sabe – ah sim, isso se sabe! – é de sua inteireza particular.

O lado daí é assim, morno. Mas fluido em sua possibilidade de meditação e menor mediação, fluido em seus éteres, seu descompasso aerado, não aderido nem atritado. O outro lado pode ser bom, pode ser mau, mas ó grande lance, mano velho, é que (n)ele (se) pode.

Fico aqui do meu lado, definitivo, esperando a vida que possa para este seu. A vida que queira, meu caro mano. Na medida certa de altos e baixos, de infernos e céus, de epígrafes e posfácios, da feitura que seja para o básico de um viver na manha com sabedoria. Fico aqui, mano, meu, até que você venha, de novo, para o meu lado. Enquanto não, responda-me o quão logo puder, senão é treta aqui na cuca.

Abraço-te.

Do seu,

Carvalho da Selva.

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