3747.

e se eu estranhasse essas paredes?
o largo corredor
o quadro celeste em forma de trapézio do quintal
as três marias sempre ali
essa areia de praia solta no céu
que doura a mortalha azul profundo

e se eu estranhasse você?
essa que me apresenta outra e a mesma
numa metade da maciez dos tecidos
no travesseiro companheiro
você mesma que renasce
sem cabelos

e se você renascer alhueres?

e se eu estranhar as gatas, o cachorro?
e não conseguir levar a mão
aos pelos sedentos de carinho
e se eu estranhar o menino?

e se eu estranhar as plantas?
a espada-de-ogum, a samambaia
a jiboia, a dama-da-noite
a arruda, o manjericão, o gerânio
as bromélias, o boldo e a sem-nome
essas que eu plantei, reguei e conversei

e se eu me estranhar numa manhã de quarta-feira?
olho no olho no olho do olho que me vê
mirando nauseado a calça que não me é
a camisa que não me cabe
o trabalho que não me alcança
o sapato que não me entende
as pernas que me arrancam de mim
os óculos
o cabelo
a barba

a vida

e se eu estranhá-la?

me dá a mão, me abraça?

Anúncios
3747.

Diga

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s