3684. Etnografia de um possível casal

Ela e ele mantêm uma
certa distância
Nunca muito longe
Nunca se tocando
Sempre um quase

Por ser ele e ela
inferi ser um casal
mas pode nem sê-lo

Uma amizade certamente
Um amor lento se
recompondo, as bodas
de um fim, sol de fel
da separação
Companheirismo apenas

Andam vagarosamente
pela praia, da pedra
à foz, todo dia
Falam pouco, muito pouco
monossílabos olhares
mares de já se saberem

Ela olha com cuidado indiferente
a pele vermelha dele,
a forma como puxa os pelos
da longa barba, num auto carinho
repleto de falta,
o jeito como se alonga
espreguiçando e o modo
como alimenta o cão adotado na Cueira

Ele olha ela com saudade
de si mesmo e dela,
vê a areia que se prende
à sua pele preta,
a maneira discreta e centrada
com que move longamente
os braços para gesticular,
o traço da boca molhada
a falar “formidável” com
todas as sílabas

Se levantam e caminham até Moreré
enquanto o mar lhes acompanha,
lavando os seus pés
na mesma cadência lenta
de seus passos

Conversam na língua das ondas,
de quando em quando,
no dialeto do vento
soprando breve os coqueirais

E o cão lhes acompanha cabisbaixo

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