3736. Périplo

“Nas minhas andança dentro do cerrado
Já vi coisa do invisivi e do malassombrado”
Elomar

 
Andarilho de chinelos gastos arrastando
passos pelos quatro ângulos do quadrado
tendo o ocaso a anunciar os findos dias.

Dos pés que chicoteiam o chão e da pele
vermelha de barro ruidoso, o sangue em
pó, nuvem rasteira, se afasta de mim, lá pra trás

poeira minha, de terra minha, erguida
do cansaço longo dos meus próprios pés
vão virando redemoinhos de criança

– num tempo em que começou a dor de andar
viração de viver sem ter escolha, fumaça de saci
só cerrado e sertão se descampando.

Cada grão elevado, levado para onde pisei
distando os passos desde onde já estive
pousa num canto obtuso entre capim e raiz.

Como sei que caminhei, caminho
sempre atrasado no horizonte, no sentido
de onde o sol diuturnamente se esvai

vermelho como o chão que arrasto
nas tardes dos dias que inefavelmente existem
onde ando, antevendo o abismo da noite.

O sentido do poente, onde atrás tudo já
se apaga, cobrindo meus rastros com
o manto de chumbo de acolher estrelas

é o sentido do percurso, até que num cardinal
encruzilhado, o fio da comunicação
há de mostrar-se esfera e admoestar passos

“segue outro rumo, vira os pés austral”
Já alfabetizados nessa língua dos ventos
meus pés então se permitem não procurar o sol

e como foram as horas que andei
quando de lá de cima muito além não se vê
caminhei apenas pelo tempo, feito de barro vermelho

pós me arrodeando, paus secos meus irmãos
passos lentos, passamentos, buracos na mente
pensamentos, como se se fosse possível sê-los.

Andante, prossigo, caminhando até sobre as águas
dentro delas o sangue em pó vira lama
costela e marcha, incessante e adiante.

É que no meio da noite, quando se anda
é preciso fechar os olhos e com as palmas dos pés
ler o braile dos relevos, as formas nas pernas

há o estalido dos gravetos e o mato amassando
e o assombro das corujas pelo assomo
de minha presença, fortuita e humana

dentro do breu, um mundo de betume
e esses silêncios assustados, luzindo vagos
e lumes ao longe, zumbindo coisas em línguas mortas.

É que eu ando como a força da Terra
oscilando de cá pra lá sem saber ao certo
qual é o centro ou se o centro é em todo onde

sendo assim, indecidido como a Terra
volvem-se meus pés rumo ao nascente,
à espera talvez de que o sol se apresse em me beijar

e ainda assim, há que se passar pelas trevas
já que a hora dada é a de que durmam
seres rastejantes só que não, espreitando meus pés

mas eu sigo a vazante das estrelas rumo ao beiral
do dia, um porto de claridade atracados barcos
de vida, prontos a acordar e zarpar, meus pés insones

há morros no percurso, bem dentro do escuro
contornando córregos que tagarelam águas
em manadas, cardumes palavreiam dentro da noite

falam motes: “lava os pés, limpa a sola, lambo
rio de descansar tua caminhada”, eis que paro
ainda que o orvalho já floresça em meus pelos.

Diante do sentido tido, ido, o sol há de me encarar
borrando cárstico a anunciação das horas
o sol nunca dorme, como os meus pés

que se principiam ao sol alcance, seu
de todo modo ele há de vir, e afugentar os espíritos
que me rondam, voando baixo sobre a poeira

instalada atrás dos meus passos, anunciadoras
do que já andei, vestígios de que fui
a esperança de que desvanecer é apenas ir.

Sei que o que alcanço é a própria caminhada
moto-perpétuo de se projetar alhures
– o rumo de nunca ter pra onde nem porque.

Mas há espíritos que me contam segredos
durante a caminhada, falam palavras de cansaço
e querem me prender no molhado do chão matutino

de manhã cedinho e de tardinha,
todos os espíritos saem de suas tocas
e querem me tocar, almas, plumas de painas

penadas, até que pássaros emplumados
saem de dentro da manhã nascente e me dizem:
“lá vem o sol, siga boreal, queime a destra”

meu pés refazem o percurso e angulam-se
em noventa os graus, fechando a senda
geométrica que governa os meus caminhos.

Com o sol despontando candeeiro disposto
a roubar qualquer outra luz, aquietei-me
dentro do azul, passante quase em repouso

passaredo em solitário, coletivado na estrada
voo baixo de se ter em terra, barro e pó
irmanado ao desassossego de se ter prostrado

num mesmo sítio, minha morada é por onde
ando, meu arranjo nômade feito me desterrar
o peito diante do assombro, de ir.

Meu corpo é feito de pés e passos
arrastados dentro do cerrado e vagueiam
deixando atrás de si, um rastro de poeira.

Lá na frente foi a partida, desde quando não sei
ainda agora lá morarei pelo raso das horas
me acertando novo prumo poente, outra vez.

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3736. Périplo

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