3761. Dona Minervina e Seu Major

Era uma blusinha verde de linha
com uma trama cinza bordada
por cima do vestido de riscos verticais
já gasto pelo tempo
que ela sempre usava

Seu cabelo crespo e prateado
bem puxado para trás
dois grampos segurando os
fios revoltos na parte da frente
formavam uma trança única e fina
que agasalhava as costas
arqueadas pela idade

Sua pele negra macia e rugosa
tinha uma elasticidade carinhosa
que me abarcava com ternura
E ela sempre me dava melado de beterraba

Ela tinha olhos de alegria
E eu já sabia desde sempre

E seu Major
nunca antes militar na vida
sentado em sua cadeira vermelha
de fios de plástico
a barriga dura e grande
espocando-lhe as calças
uma barba por fazer
pelos duros e brancos despontando
a pele manchada ríspida e vermelha
com seus olhos tímidos por detrás
das grossas lentes dos óculos marrons,
via o tempo acontecer em sua frente
como vendo o Araguaia se espraiar
de novo em sua frente
e a mata densa e as castanheiras

Ele tinha olhos de mata e rio
E só hoje eu sei

Eu ficava ali
entre ela e ele
acontecendo no tempo
nas manhãs de sábado
na manha
mexendo na caixa de ferramentas dele
mexendo nas plantas dela
e esperando minha mãe me buscar

E tenho olhos de saudade

Eu já sabia
E hoje eu sei

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