3831. Gazal efêmero

Os ipês com suas folhas belas
prontos a logo mais perdê-las

desnudados pelo céu azul anunciado
logo o vento de maio irá vê-las

esparramadas pelo chão vermelho
até que junho adentre em tê-las

Amarelo, violáceo, rosa ou branco
o cacho em cores ao dia candeia

os tons dos céus aos fins dos dias
repetem as flores ao procedê-las

Mas algo assim não se vivencia
só na selfie e na postagem tateia

A comida dos olhos para a alma
já não basta em si de si ser plena

é preciso o registro efêmero
como transitória é a vida ao sê-la

sem se viver do que é feita
resta o mero de uma imagem dela

E por tanto diluir o que o peito
queria concentrar até nas veias

o belo, a flor, a cor, a forma
viram algo de matéria etérea

Foi só um momento, um clique
um close, que quase pensou-se tê-la

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