3913. boiadeiro

ainda me lembro das manhãs molhadas
prontas ao resfolego do sol em manto orvalhado
se dar ao carpir ao cergir ao bater ao cavar

o barulho do sol na pele morena vermelha índia da terra
com seus regos verdes de sangue d’água
e seus pelos verdes de copas e pastos
tudo refugo da chuva brava que se abria dentro da noite lenta

e um frio invernal brumoso de tanta umidade
lesma caracol visgo de espuma
de bicho no toco do pau queimado
agora que nem fogo pegava

ainda me lembro que era depois da seca
a manhã de café feito para martelar os pregos
da vida nos mourões das cercas a serem enfincados

gosto de nuvem cinza planando baixando por cima
do chapadão com a quentura da infusão negra
a percolar gargantas como a água a entranhar
terras e ventres e vãos e peitos
vazios de angústias e cheios do próprio conteúdo da vida

ainda me lembro desses dias que se iniciavam assim
feito espera e esperança no batidão do sol subindo
e da água espatifando que nem ela própria só consegue

o buraco no chão se enchia d’água
um boi pastava ao lado
e eu bolava um porronco numa folha de embrulho
amolava os dentes no papel queimado
para sorrir melhor ao que viria

naquele dia que ainda lembro

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3913. boiadeiro

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