O antiprojeto (sem referências bibliográficas)

Não é um antes do projeto, é um anti, contra, não projeto. As coisas se apresentam para nós como uma projeção do que virá e não como as são. A quantidade de projeções que fazemos nos coloca em conflito constante com o que é. Projetamos casas, sociedades, sistemas produtivos, casamentos, amizades, festas, orgias, economias, celibatos, mortes, democracias, vidas, ditaduras, após mortes, pré vidas, deuses, florestas, pessoas, ecossistemas, amores, vírus, ódios, doenças, ruas, computadores, redes, famílias, passados, futuros. Projetamos. E nos lançamos nesse mundo de projeção como se o que nos constituísse fosse o próprio projeto, o ideal, o vislumbre do cenário posterior. A vida se dá numa ponte constante entre a imperceptibilidade do agora e o anseio pelo vir a ser. Neste momento a coisa vindoura não tem forma, nem matéria, nem sensibilidade, nem existência, mas já se apodera de nós como se fosse algo presente e com tal intensidade que rouba a própria existência do agora. Eu faço o que faço agora, porque algo virá para lhe validar: o respeito, o reconhecimento, o pagamento, o gozo, o sucesso, o fracasso, o desalento, a destruição, o renascimento, a dívida. Mas o que virá, quando vem, se transforma em novo momento não vivenciado, apenas ponte para o que virá novamente a partir daquilo que veio e que, quando vivido, não se transformou em presente, mas em momentâneo passado, impreciso já, desforme, projeto do que foi, projeção. Ideia. É ela que funda esse virá constante, tudo como um escopo desejado ou não desejado mas esperado, projetado. Fiz merda, logo irei me foder. Premissa básica. Mandei bem, logo irei prosperar. Premissa ansiada. Mas tudo no passado: fiz. Pode ser colocado de outro modo: estou fazendo merda, logo irei me foder. Ou estou mandando bem, logo irei prosperar. Mas estar algo é deixar ao algo uma condição de não existência por si, em si, no agora. Faço merda e a vivo agora, enquanto merda existente, em mim, por mim. Mando bem e o vivo agora, enquanto o bem existe, em mim por mim. Equação de difícil consistência nesse quadro histórico. Por quê? Porque tudo agora é demais, a mais, sobra. Multitarefa, multipresença, hiper-conectividade, superestímulo. A composição do que fazemos e do que nos faz é de tal ordem que a identificação é quase nula. Quanto mais variáveis a equação, menor a possibilidade de resolução a um mero humano. Variáveis de toda ordem ainda se aglutinam e complexificam: materiais, biológicas, emocionais, sensoriais, históricas, ideológicas, sociais, culturais, mentais, cognitivas, espirituais. Certo que desde sempre estiveram todas imiscuídas, mas entre ter um ou dois exemplares de uma ordem de variável qualquer é diferente de ter vinte, trinta exemplares enfiados um por cima, ao lado e embaixo dos outros. Onde sobra espaço para observar cada ordem? Quiçá para observar a necessária desordem do caos que nos compõe? É tudo uma aleatoriedade imprevisível. Mas buscamos um cosmos. Não no agora, mas no que projetamos enquanto substrato de ordenação. Da inadequação aparente e sensível entre o que se compõe o agora – caótico – e o cenário idílico ou turvo do virá, emerge um lugar mais ameno do que a profusão do momento presente, uma utopia, um não lugar: o projeto: quando eu acabar isso… tão logo eu consiga aquilo… no dia em que eu fizer algo… onde tudo acabará… assim que estragar tudo… É confortável, te exime do agora, te lança para a utopia, preconcebida, imaginada, intangível, feérica, leviana, horrível, seja lá qual é o seu mote de expectativa interposto entre o imprevisível e o compreensível. É uma questão de segurança. Estamos em uma savana, cem mil anos atrás, um exemplar da espécie humana recém inaugurada sente medo – algo inerente, trabalho esmerado de milhões de anos de apuro evolutivo para a manutenção genética –, um barulho fez-se ao lado vindo do alto de uma árvore, ele treme, ela treme, um leopardo? espinha ereta a percorrer correntes elétricas de taquicardia. Um babuíno, apenas. O corpo relaxa, os músculos descontraem. Alívio. Segurança. Anos de apuração visual, olfativa e auditiva depois, acúmulo e mais acúmulo de experiências e o resultado: a segurança do controle da situação à identificação do leopardo real. Simulações em sonhos. Projeções do que poderia ter acontecido dada a experiência passada. O melhor é não sair à noite, o melhor é o fogo, um bando, um abrigo, uma lança, uma oração, uma forja, uma pistola, uma área de proteção ambiental, um satélite de monitoramento, uma transliteração espiritual, uma política pública, uma multa, uma sentença de morte: segurança, a mãe de todo o controle. O pai de toda a projeção. Eu controlo a natureza para ter segurança. E a segurança é um cenário do que pode ou não acontecer, não é medida para o agora. Não é medida no agora. Ela é uma negação positiva de uma antecipação: estou seguro porque não… Nunca é seguro porque estou ou sou. Impermanente. Tudo é. A segurança nunca será permanente, nem a paz, nem a dor, nem a felicidade, nem a perda, nem o amanhã. Nem a eternidade vindoura. A eternidade não virá, não será, ela só pode ser. E ela é. Agora. Contraditoriamente repleta e vazia. Nem começo e nem fim. Por isso, o antiprojeto. Adentrar na eternidade é antiprojetar, o medo ainda vai continuar, assombrar, assomar. Antiprojete sua vida e sua morte, como se fosse agora, porque é.
O antiprojeto (sem referências bibliográficas)

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