2541. urgência

digo que se um rio vai ser o lócus
de palavras que se quis deixar,
me faço rio

que se existe alguma busca por alívio
que correntes podem trazer,
líquido, sou rio

que se a carga da linguagem presa à cabeça
bloqueou o uso do sensível,
como rio eu levo o que puder

carrego em minha sinuosa vacância doce de água
além do sedimento flutuante
as dores que devem ir
os humores que já gastos
o entrave entalhado na boca do céu

porque quero o bem maior
eu levo sendo rio
o que não couber para a paz
porque mesmo quero

2534.

padre nando queria distribuir o amor
a todas as que dele precisassem
e ensinar como os homens devem proceder
com as suas próprias amadas

eu não sou padre nando
apenas um aluno medíocre
buscando a amada que deseje
o procedimento que existe em ser amor
antes mesmo de ser verbo

2530. Esquecimento

tentar tirar o que existe
como deixar alegorias eufemistas
para os garbosos de si
sofrer sim o que couber
e ver diamantes saltando dos olhos
cortando retinas e sangrando
pingando pequenas pedras rígidas
embebidas pelo tom do sangue diluído

róseo rio de pedras que desmorona face abaixo
devastando tudo o que tocar
levando a tirar e matando o tentar

2527. Samba ao pé de um piano

Como uma composição feita
de pausas, silêncios, de rimas e tons
compassada no exato instante
em que o meu coração dilatou
expandiu além da medida
ocupou um espaço e se fechou
você veio permeando os vazios
que o peito rompido não deixou

Veio leve com olhar sereno
mexendo por dentro
meu peito azulou
Deixou céu feito unguento
com um sol ardendo
levando o sangue como
água de chuva que de cima tombou

2526.

“agora o meu coração toca no vazio
agora o meu coração não queima nem pavio…”

daí dizer que eu espero
mas o vazio abre espaço
para a ventania

o fogo precisa de ar
e o vento precisa apagar

nada para carburar
a não ser meu próprio coração
se auto-consumindo
num fogo-morto

2522. Jenny IX

Quando pediu a terceira
caipirinha
e se perdeu um pouco
falando em espanhol
que eu que tinha charme
e que era “muy interezanto”
eu firmei meus
olhos flutuantes
pela quarta dose de pinga
preparei todo o resto
do meu ar de latin lover
que ainda podia existir
e sorri o sorriso mais
possível que podia ter
e falei que ela é que
tinha as medidas certas
para o imprudente

Quando ela se recostou
na cadeira como uma
lagartixa meio bêbada
pernas por cima dos braços
da cadeira
eu me deixei cair sobre a mesa
e ainda tive forças
para fazer uma flor de origami
num resto do maço de cigarro
ela ficou lisonjeada
mas aí veio o garçom com
a saideira forçada,
mas deu tempo dela escrever
no meu caderno:
“Cucillez aujourd’hui les roses de la vie”
e saímos a subir ladeiras
cantando a plenos pulmões:
“Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien…”

Noite de boa essa,
sem nada além de uma boa companhia
para dividir caipirinhas…

2504.

Cada beleza é própria, é uma.
Sem fórmulas, padrões, bases, mistérios.
Cada uma com seu ponto médio.
É só destapar, não os olhos,
mas o peito e retirar os
grilhões da imagem.

Tantas belezas, todas reais, próximas,
tocáveis ao ponto mesmo do prazer.
Tanta beleza pra se ver
e o mundo insistindo no primado da feiúra.

Ouro Preto/MG