Reformular até
mesmo as ligações
químicas, tudo.
Remodelar o corpo,
a mente, qualquer
outro novo rumo.
Autor: Guilherme Carvalho
2195.
Tem horas
em que eu
penso em
matar o
mundo
O que me
consola é
saber que
no final,
Deus é
egocêntrico
e implacável
2196. Trajetória de músicas
Como um samba japonês tupiniquim
um quadro possível
o azul e o verde
irradiando e imiscuindo tudo
afaga afaga afaga afaga afaga
afoga afoga
fogo fogo
fumanchê
ojo
e tudo em volta verde e azul
é uma consciência que vagueia
é um corpo que cadencia até a exaustão
é o que se relaxar
azul e verde
mergulhando tudo
I remember Fela
tudo é pra se perder sim
tempo tudo
e verde e azul ainda
se entra no reino banto
uma ilha que reúne o mundo
mania essa mesma
mas sigo tranqüilo
sem grilo
sem glória
simplório
simples
sem
tudo
só o verde e azul,
mas,
“não, não sou eu quem vai ficar no porto chorando, não”
2194.
O céu sustenta a Terra,
a carrega,
ela gira em si revolta
contra a amplidão,
servindo escrava da
manutenção gravitacional
do Sol
A Terra planeja
em segredo com Marte
e sua fiel escudeira Lua,
dominar algures de tudo
que a mantém inteira
O primeiro passo foi
domesticar as existências
em sons e formas,
o próximo passo é
uma bomba mais
forte que a de hidrogênio
Tangará da Serra, MT.
2193.
depois falam que
sou louco
mas quando
meus compatriotas
de geração
ficam roucos
com Silvio Santos
fico tonto
tanto como
se fosse louco
Tangará da Serra, MT.
2191. Pancreatite aguda
não é arrogância
é só discrepância:
o que você fala
com a boca
eu entendo com
o pâncreas
Tangará da Serra, MT.
2192.
o mundo insiste
a gente persiste
e só o cisco no
olho é que existe
Tangará da Serra, MT.
2190. Nandinha
você tão sozinha…
quem sabe comigo
não cabe uma rima?
Tangará da Serra, MT.
2189.
Muitas vezes
– a maioria –
o bom é só
a sensação de
que se é
contemplado
e não a
contemplação
Tangará da Serra, MT.
2188. Bem vindo nada
Agora nada
deve vir
Porque só o
nada é que
é porvir
Nem polvilho
vem nem
queijo tem
Então nem
o nada deve
vir e deve
preencher tudo
por aqui
Sem pão de queijo
Até o fim da página
Tangará da Serra, MT.
2186.
o que serve aqui
pra poesia feita em
prosa?
cabe uma nuvem
rosa de textos
de dostoievski
Tangará da Serra, MT.
2187.
Como o que pulsa
latejando por aí,
embaixo da sua blusa
É essa desalma
carnuda que num
refrão parco da canção
ousou-se chamar
seu coração
Tangará da Serra, MT.
2185. Sabe?
A gente nem
sabe
em que fim
de tarde
é que a vida
vem e vaza
pelos poros
da noite
até sangue
ser pelas
veias e
supurar o
corte do
açoite
A gente nem
sabe
quando isso
basta,
se abate um
alento de
que a vida
lenta pare
e toda noite
nunca seja
tarde
A gente nem
sabe
porque o
coração,
por si só,
bate
Tangará da Serra, MT.
2183.
Nada interessante,
cada dia me convenço
que o mundo
é dos pedantes…
2184.
Tudo repete
e nem é a
mesma coisa
Que se complete
sem ser
rota doida
2180. Tá foda V
Fico assim
tão no clima
que nem
fujo da rima
daí penso assim
meio Marina
2181.
Nosso início
aquático e
estelar,
benze em
fogo, vento,
terra, rio e mar,
nosso lar lunar
2182.
Quanta besteira
tenho pra falar
vendo TV a nossa
maneira
Mas olho pro lado
e me bate uma
tristeza:
não tenho mais
a minha
companheira
2178. Tá foda III
eu só
você sozinha
isso sim
é mudança
de rotina
2179. Tá foda IV
Quero você.
Como vou dizer?
Como quem
tem sede
e não cessa.
2176. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz IX
deve ser um
lance assim
tão assado
essa de ser
cremado
2177. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz X
E quando acaba,
pra quê mesmo
a graça?
2175. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz VIII
Todos esses
desejos,
os ensejos,
primeiro
e último beijo,
os anseios,
os seios,
os segredos,
os medos,
realejos
Todo o desleixo,
o caído queixo,
os receios,
os enleios,
e os maneios,
aqueles trejeitos,
os sujeitos
o bem, bom, mau e mal feito,
todo o reino,
os pedaços de queijo,
o mergulho nos veios,
os selos,
os pêlos e os pelos,
os inteiros e os meios,
o derradeiro,
o esteio,
o que creio
e o que leio
Tudo aquilo
que veio
acaba a sete palmos,
sentido X
do eixo
2173. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz VI
e dizem que
ainda há volta
mas essas
reações químicas
não querem
nova rota
2174. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz VII
eletrodos ao
acaso que reagem
nesse corpo
um dia a pilha
acaba e nem
rola um estouro
2171. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz IV
sem alcance
preciso no
último suspiro
o alívio do
pacífico
descanso
2172. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz V
nada se abate
mesmo depois
do chute no balde
2169. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz II
Um toque que
quase consegue
captar a própria
existência numa
fração de segundos
condenada ao
espaço entre uma
partícula e outra
a não se tocar
infinitamente
Cabe tudo nesse quase
como o que é
como uma onda
e matéria
inerte mas
à velocidade da luz
A onisciência no fim
Uma língua tesa
entre o sorvete e
a impressão
do doce gelado
Um toque que
não consegue
nunca ocorrer
A ciência de um
fim sem começo
2170. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz III
Diferente do pequeno
é o definitivo gozo,
a derradeira morte como
o último jorro.
2168. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz I
Arrancar uma
folhinha já é
algo complicado
Pra sempre
uma folhinha
é inimaginável
2166. Tá foda I
Enlouquecer
é findar esse
vício de você.
Goiânia, GO.
2167. Tá foda II
pra virar
a página
basta um
dedo
ou
umas
doses
Goiânia, GO.
2164.
trabalho alienado
tratado sobre alienação
ação nacional
jornal nacional
jóias anais
asnais
2165.
sim,
não
vim
não!
se
vão!
tão,
se
não
2163. Sim, sim, a propósito das cores
Basta VER
os ônibus lotados
de manhã cedo
Basta VER
de verdade sua TV
Basta VER
o bar da moda
Basta VER
o ambiente selecionado
Basta VER
que o ao lado
É a realidade
2160. Podia II
podia a saudade
não ter tanto a ver
com essa tal de idade
2161. Piração
Deve ter algo de errado
mas contei oito vezes
e meu quarto
tem oito lados
2162. Olha bem
fica fria
respira
e não estressa
depois da
meia-noite
tudo é sexta
2159. Podia I
podia passar longe
essa do amanhã
ser para ontem
2157.
coisa esquisita
essa da noite
ser parte do dia
2158. Hai! Caí!
Que disparate!
Por que não abolir
essa lei da gravidade?
2155. Pega
a danada
pega
quando se
pensa que não
bastou um
pega
2156.
é tão mundano
essa do mundo
estar sempre acabando
2153.
acabou o
zumbido
fim do
suplício
matei o
bicho
até perceber
que ele
não estava
sozinho
bzzzzzz
2154. Troca
troco poemas
em massa
por dólares
em lata
2152. Um dia ainda paro
Fede
e tem gosto
de fumaça?
É o trago
da minha
desgraça
circulando
grana na
praça.
2151. Sem gelo e singelo
Andando com Fernando
vi pessoa passar
por um alvo aro
de luz entre os campos.
2149.
a deriva
aderi voar
a derivar
como
a deriva
dos continentes:
adorável
terra a nadar
2150. Da relação eu-mundo
Inconstante
insone
infenso
instável
instruído
inteligente
indiota
inventivo
indivíduo
incomensurável
in
introspecto
instantâneo
indestrutível
indefeso
inspetor bugiganga
inabalável
infesto
inquérito
inquieto
intocável
impronunciável
o inabitado
do interior
inteiro:
todo o fora.
2148.
As coisas não
podem ser assim
sem motivo
Nesse mundo
de imagens
mais reais
que sua pele
De idéias
com mais
materialidade
do que o aço
Não
Não nesse mundo
Não sem motivo
Notívago
Não vago
As coisas
tem que ser
motivo, mesmo
que cínico,
mesmo que tímido,
mas que se tenha
um motivo
De vazio o mundo
já está pela tampa
De sem sentido
o mundo já é
todo sentido
Tem que haver
pra que
Tem que ter
pra onde
Antes que o amanhã
descambe em
ontem
Um ontem
de 1 bilhão
de anos antes