um gole do seu vinho
me engole nas tuas
tramas de linho
me assusta com a proposta
me propõe qualquer coisa assim
quase uma bossa
eu caio na tua
displicente risada
alma nua
deixa eu soltar a fumaça
lasciva peruana
raça
Autor: Guilherme Carvalho
1692. Dança
Deixa o som rolar
Deixa o groove
Encaixa seu corpo
Com o que sai da caixa
Deixa cair
Sente o flow
Entra na luz do estrobo
Vê o flash
Um
Outro
Outra
Uma
Sente o peso
Sente o drama
Cai no soul
Deixa o corpo
Na pegada da batida
Macio
Os passos lentos
No compasso da música
Brasa
Tudo em
Entra na pancada
Leva a alma com a pick-up
Ouve o sample
“É impossível ser feliz sozinho”
Deixa o som rolar
Deixa o groove
1691.
Bom,
partindo do princípio de
que em princípio, início não há
começo dizendo que é
o final.
1690. Ruth
No começo foi difícil
Eu queria correr contra o tempo
Mas ela pensava que eu queria só sexo mesmo
Talvez o problema foi que eu falei em correr
E ela se voltou agressivamente argentina:
“Los chicos del Brasil son muy apresados”
Quem me salvou foi Soda Stereo
E “las películas que yo miré”
Meu portunhol mal falado
E o espanhaguês dela
Pero no final, las línguas
Estavam tan entremeadas
Que poco importava el significado delas
E si as lenguas simplesmente
1689. Daisy
Ela dizia coisas de português
E tinha aquele sotaque engraçado
Que todos do mundo lusófono têm, menos a gente
Falava como que procurando figuras de linguagem
Para abraçar esse mundo
E eu nem ria do sotaque dela
Achava lindo, cabia
E ela sempre tentava achar as palavras:
“Ai, como dizes por aqui?”
E eu acariciava seu cabelo crespo:
“Em Moçambique eu não sei, mas aqui é flerte mesmo…”
1687. Pão
Fermenta minha vida
Deixa a massa crescer
Faz mais um pouco
Olha assim de lado não
Olha de frente
A fé manda
Que talvez assim
A massa crescida pode
Crescer dentro de você
1688.
faz assim com a língua não
ela sempre diz mais que a boca
ri de você quando muda
na imaginação do piercing teso
ao meio dela mesma
não faz assim com a língua
de modo que se continuar com isso
a minha não vai se conter
1685.
As cores já não dizem nada
Ficaram paradas atravessando o ar
Eu nu sem cores
Nem cinza ao menos
As cores pararam
Sem cores
Agora, socorro
1686. Capim
Um reinado qualquer
Bastaria pra ter a lucidez
E o xeque-mate dado
Destruiu as possibilidades do rei sair
A morada dos loucos
Sei que o quatro de paus não está no jogo
Ele está dentro do bolso da minha camisa
Escondendo o reino da alegria
Ali no meio de todos você me beijou
Poderia ter sido um beijo doce
Acre que fosse
Mas o reinado não teve vez
Talvez voz
O castelo de mato seco que eu erigi
Desabou ao toque do fogo
Faltou uma carta possível para que o peão não ficasse só
E eu jogo xadrez como se fosse truco
1684. Onda
A água do mar
na areia
Espelho pra quem
se vê
A água do mar
na areia
Espalha o que
se vê
Espalha a quem
quer se ver
Recife, PE.
1681. Vou pra Portugal
Num lampejo
meu pejo foi
parar no Alentejo
Para além do mar
joguei meu medo
1682. Corpofato
Arte, fato.
Fazer-se sempre
o corpo,
a arte, o fardo.
Ser humano,
quase artesanato.
1683.
O braço teso
O músculo que dilata
O peito aberto sob o sol
A pá no seio da terra
A picareta que não erra
A enxada, o chão
A pedra que desponta
O caco, a peça,
Fragmentos que eu
Componho o passado
Em uma visão
Peneiro, a lasca surge
Um instante que urge
Alguma explicação.
1680.
Tio Irã costura a barra
Uma bainha bem feita
na máquina velha
Cada ponto um palavrão,
desses cabeludos que não
se colocam em poesias
que pintam quadros ensolarados
Um gatinho na varanda
Vovó fritando lingüiças
Pai com o jogo na tv
e seu sono sempre acordado
Alguém compra dim-dim
Debaixo do pequizeiro,
a sombra e ao lado do
Araguaia e dentro da sombra,
eu
1677.
Estrelas no céu
Estrelas cortando o céu
Nenhum desejo mais
Nenhum desejo dá
Estrelas no céu
Estrelas borrando o céu
Nenhum desejo além
Nenhum desenho vem
Estrelas no céu
Estrelas borrando o chão
Estrelas demais
Nenhum desejo mais
1678.
E só a arte
não morre
E eu guardei
todas as poesias
como classificados
de jornal.
Dadaísmo total.
1679.
No riso continuado
Havia bem dentro
A dor de um fado
1676.
Romance
de verão
de um mês,
melhor mesmo
só se fossem
três
1675.
Toda poesia
é angústia
Não creio em
palavras puro
benfazejo,
bem-querer
Toda poesia
que se presa
tem que sangrar
1673.
Lindo foi quando
eu descobri que
ele não era ele,
mas ela, e
agora eu quero
ir lá pra vê-la
novamente:
ir ver a mar
entrar na mar
admirar a mar
1674.
O mar pode vir
também pelo ar
Iansã soprou e
trouxe Iemanjá
1672.
Sorriso
Só um riso
como um sol
Mais disso
do seu sorriso
preciso
1671.
Minha alma canta
Mingua tanta
Em suspensão tamanha
Minha alma tacanha
Quase santa
1670.
(Para Fernando Livramento)
“mas ele era
lindo e me beijou”
o assunto assim
mudou, um riso
fácil nele brotado
do que ficou
1668.
sempre da mesma
forma, numa linha
torta, escrever mais
do que cabe
numa língua
morta, falar mais
do que se sabe
com uma faca
que não corta,
sangrar pelo
que não vale
e ao adentrar
aquela porta,
esperar que não
se acabe
1669.
O gosto que fica
é desse agosto
que vem,
não veio ainda,
mas eu sei
o gosto que tem.
1666. Depois de mim
O papo é bom
a neurose é pouca
Se saca o que
sai da sua boca
e ser mais que som,
tira a roupa,
fica rouca
que qualquer nota
vai dar tom
1667. Escorpião
E Hércules
padeceu
mas não
pereceu,
será que ao
menos parecer
consigo eu?
1665.
Deitada no meu umbigo
E cadente passou a estrela
Teu não desejo tido
Só repousou os cachos comigo
Não precisava mais carne
Só ficava carinho
1664.
mais uma vez,
ansioso vão
rumo à
incógnita de uma tez
na ânsia de não
acabar o prumo
1662.
Consternada
constelação:
costela com
costela
contém a ação
Conter nada
como ter ação
1663.
mas você veio
junto ao vento
juntou tudo
esvaído no meu peito
bem no meio
dos seus seios
1605.
Tão má você
que tudo rima
até narina
com doce.
1660. O amor é um ponto médio
Não é que você
passou
Você veio,
num passeio,
pensou ficar
eu fui um
veio
d’água no
seu rosto,
passo posto
entre ir e vir,
algo no meio.
1659.
Aqui nada
que na
daqui
não.
1657. Fada
Feericamente
Firmada no etéreo
Ao longo do
hélio
1658. Lacunascape
Falta algo à paisagem
da terra-mater, talvez
algo pai,
compondo ao não teu
uma imagem.
Talvez isso
em mim,
nós dois assim:
avesso de miragem.
1656.
Qualquer coisa
cabe no instante
entre o trago e
o gole:
uma nota,
uma noite,
um açoite,
um mote,
sempre cabe tudo
entre o compasso
da mão e o
descompasso da
razão.
1655.
E ficou sutilmente isso:
todo pôr-do-sol,
o teu sorriso.
1654.
Meia-noite,
dez cervejas
será que eu ainda
caibo nessa mesa?
1652. Idealismo
Dois centavos
pelo teu pensamento,
um pelo momento,
nada para
continuar sendo.
1653.
sem cerimônia
eu sei que tem amônia
deixa de fazer cena
acende logo isso,
que em viver se morre
de toda maneira
1651.
Você disse
que não sobrou
nada nos destroços,
diz troços o
que restou
qualquer coisa
antes dos nossos
para além de
seu e meu
fica bem só lá
no eu
Mas ficou sim
algo que resta
ficou aquela preposição
presa numa fresta
pra dizer que faltou
1649. Já aula?
O movimento estático
tudo disposto assim
o contido e a semi-circunferência
a contradição
de estar entre os vivos
e os mortos
Talvez o ânimo
da lâmina no anima
a amainar
Talvez pôr as coisas
nos trilhos, litoraneamente
alma
1650. Lâmpada
ânimo da
lâmina
lânguida
no anima,
lapida
a alma
ainda calma,
lápide
mortuária
1647.
As paisagens mudam,
mais um disco-voador
instalado no planalto.
Ele brilha,
sua abóbada de concreto
chama a olhá-lo,
a gente olha e não
acha nada bonito.
1648.
Sentir
Sinto ir
Sentido
Sinto ido
Sem, mas tido.
1644.
Vou transformar
transpor o mar
pra dentro de mim
aprisionar o mar
no me peito
trancafiar o mar
no meu peito
1645.
Tava ali em frente
bem na minha frente
queria ficar ali onde
ela estava, não tomar
seu espaço, ocupar algum
apenas
Dividir
aquele espaço
que já é naturalmente dividido
colocar algum espaço meu
em seu espaço
Aí eu fiquei meio inerte
ansiando o movimento
que nos levasse a uma
junção qualquer
Talvez fosse a tez
que condizia com o pouco
sabido
Talvez fosse a voz
que fluía como se nunca
houvesse a distância
Quem sabe mesmo foi
a voluptuosidade da carne
que afirmou absurdamente
as palavras trocadas
E quando o encontro de
espaços houve eu não
gozei, mas gozei
ainda assim
1646. Tremor essencial
Devem ser distúrbios
hipercinéticos mesmo,
os sinais de que o
corpo não suporta
outra coisa que não
ele próprio, pois que
da cabeça, já
desistiu.
Aí fica assim, condoído,
em frêmito constante,
a balançar-se sem
controle algum.
Meu corpo deve estar
assim mesmo, rebelando-se
contra minha mente,
a não querer mais
corpo algum.