1692. Dança

Deixa o som rolar
Deixa o groove
Encaixa seu corpo
Com o que sai da caixa
Deixa cair
Sente o flow
Entra na luz do estrobo
Vê o flash
Um
Outro
Outra
Uma
Sente o peso
Sente o drama
Cai no soul
Deixa o corpo
Na pegada da batida
Macio
Os passos lentos
No compasso da música
Brasa
Tudo em
Entra na pancada
Leva a alma com a pick-up
Ouve o sample
“É impossível ser feliz sozinho”
Deixa o som rolar
Deixa o groove

1690. Ruth

No começo foi difícil
Eu queria correr contra o tempo
Mas ela pensava que eu queria só sexo mesmo
Talvez o problema foi que eu falei em correr
E ela se voltou agressivamente argentina:
“Los chicos del Brasil son muy apresados”
Quem me salvou foi Soda Stereo
E “las películas que yo miré”
Meu portunhol mal falado
E o espanhaguês dela
Pero no final, las línguas
Estavam tan entremeadas
Que poco importava el significado delas
E si as lenguas simplesmente

1689. Daisy

Ela dizia coisas de português
E tinha aquele sotaque engraçado
Que todos do mundo lusófono têm, menos a gente
Falava como que procurando figuras de linguagem
Para abraçar esse mundo
E eu nem ria do sotaque dela
Achava lindo, cabia
E ela sempre tentava achar as palavras:
“Ai, como dizes por aqui?”
E eu acariciava seu cabelo crespo:
“Em Moçambique eu não sei, mas aqui é flerte mesmo…”

1686. Capim

Um reinado qualquer
Bastaria pra ter a lucidez
E o xeque-mate dado
Destruiu as possibilidades do rei sair
A morada dos loucos
Sei que o quatro de paus não está no jogo
Ele está dentro do bolso da minha camisa
Escondendo o reino da alegria
Ali no meio de todos você me beijou
Poderia ter sido um beijo doce
Acre que fosse
Mas o reinado não teve vez
Talvez voz
O castelo de mato seco que eu erigi
Desabou ao toque do fogo
Faltou uma carta possível para que o peão não ficasse só
E eu jogo xadrez como se fosse truco

1683.

O braço teso
O músculo que dilata
O peito aberto sob o sol
A pá no seio da terra
A picareta que não erra
A enxada, o chão
A pedra que desponta
O caco, a peça,
Fragmentos que eu
Componho o passado
Em uma visão
Peneiro, a lasca surge
Um instante que urge
Alguma explicação.

1680.

Tio Irã costura a barra
Uma bainha bem feita
na máquina velha
Cada ponto um palavrão,
desses cabeludos que não
se colocam em poesias
que pintam quadros ensolarados
Um gatinho na varanda
Vovó fritando lingüiças
Pai com o jogo na tv
e seu sono sempre acordado
Alguém compra dim-dim
Debaixo do pequizeiro,
a sombra e ao lado do
Araguaia e dentro da sombra,
eu

1645.

Tava ali em frente
bem na minha frente
queria ficar ali onde
ela estava, não tomar
seu espaço, ocupar algum
apenas
Dividir
aquele espaço
que já é naturalmente dividido
colocar algum espaço meu
em seu espaço
Aí eu fiquei meio inerte
ansiando o movimento
que nos levasse a uma
junção qualquer
Talvez fosse a tez
que condizia com o pouco
sabido
Talvez fosse a voz
que fluía como se nunca
houvesse a distância
Quem sabe mesmo foi
a voluptuosidade da carne
que afirmou absurdamente
as palavras trocadas
E quando o encontro de
espaços houve eu não
gozei, mas gozei
ainda assim