Bebi sua noite
embebido de você
Bebi teu ser
e dormindo a
vi no aquário do
meu sonho
liquefeita, surreal
e linda.
Autor: Guilherme Carvalho
1243. Tema para Izis IV
Mergulho
sem receios
– não sei
nadar –
Me lanço
falta qualquer
medo
– não sei
voar –
Te alcanço
em teu esteio
– viver
te amar
1239.
Scraps de papel
e próximos
são melhor do
que qualquer saudade.
1240.
Calar tua dor
com meu sorriso
Sedar tua angústia
com meu suspiro
Trazer o meu
afago pleno
bem em você,
tudo contido.
1241.
Supunha teu
beijo.
Ao toque
compus o
gosto e o
desejo.
1237.
Ao acordar
vejo que o
temor era
verdade:
ela nem estava
sobre meu peito.
1238.
Hoje eu sou
um eu tão fácil
que nem sei
como dizer
sou só esse
eu que sai
leve e verdadeiro
quando com você.
1235. Questões utilitaristas
Ela me usa
como meio
ou como fim?
Eu tento
transcender isso.
Não a uso,
vivo meu
carinho.
1236. Até sorrir
Como inventar
um alento?
Será que até
as nove eu agüento?
1233.
O pedido do
beijo foi o
desejo de todo
norte.
1234. Fátima
Nem preciso aprisionar-te
num vazo cheio de crisântemos
companheiros
A tua beleza se dá no balanço
de tuas pétalas onde o vento
puder te tocar melhor
Quero-te assim:
flor-de-ir-embora
1231. Disritmia
Tenho várias
inexplicações
no meu peito.
Talvez eu tenha
vários peitos
incontroláveis.
De dor,
ardor e até
torpor.
Um dia eu tendo
o compasso deles.
1232. Desire
Afogar-me
em teus seios
e desenhar
meus contornos
em cima
dos seus
1230. O orvalho
O que falho:
o que valho.
1227.
Uma questão de
pele, com certeza.
A lisa, leve e
alva seda
que a minha
áspera e cinza
insiste em lembrar
agora.
1228.
O cigarro me
deu a liberdade
dos espaços
abertos.
Que se confinem
os não fumantes
entre quatro
paredes
respirando o
ar viciado
de suas
humanidades.
1229.
A vida é
só um ato
falho.
1225.
Essa água
que invade
o quarto pela
fresta da janela
trás a lágrima
que invade o
mundo pela
fresta da
minha alma.
1226.
Noite plena
poucas palavras
pela manhã
só meu sorriso
se assentando
1222. Ser sol
Caído estava
por entre árvores
tortas.
Morria tépido
encontrando o
limite das águas,
a luz difusa
de um não renascer.
Morria único e
imortal
num arfar
leve e sutil
ao mundo não
visto.
Existia apenas
e não era só
o sol, era-me
também.
1223. Falta a proposta
Três copos cheios
Duas faltas cheias
Uma dor vazia
O meu olhar
vago: a solução
posta na conclusão
menos óbvia, a
solidão do carinho
múltiplo e vaziamente
preenchido.
1224.
O flerte
a condição
o afago nas bolas
O inerte
a contradição
o passar das horas
1221.
Nem esse seu nome
estranho há de
condoer meu estado
alegre de tristeza
nesta minha ignorância.
1219.
Algo me acometeu
pela manhã
foi a mensagem
da existência
que me trouxe
um beijo da
poeira sobre meus
ossos.
Existo e isso pode
ser o melhor de
tudo.
1220.
Sou só saudade
do que ainda
não se foi.
1217.
Ataca e aflige
é uma batalha
que se dá
assim, entre o
eu e o no
em mim
Palavras disparadas
cravam-se em
meu peito
1218.
Amolei minha alma,
entra agora tudo
fácil e regozijar-se
de qualquer artifício
da natureza e
vários artefatos
sociais.
Espelho-a a um
deus vário que
ama toda sua criação.
1214.
sentir o teu
corpo sem
frustração
e gozar sem
não sentir
aí sim, sorrir
1215.
Eu existo
mesmo, tão
humano quanto
qualquer um
e ao caralho
quem não
gostar disso!
1216.
Agora sim eu
te tiro de
mim bem fácil,
basta olhar
o céu que não
me abriga e
a terra que não
me sustenta.
1212.
Eu sabia
o que dizia
antes da
inexistência
constatada,
mas eu
queria mesmo
era saber.
1213.
Chato sou eu
que nunca me
embriago.
1210.
Poderia iluminar
algo com a luz
que cai de meus
olhos,
mas de posse eu
nem entendo,
porque nem eu
mesmo nunca estou
me tendo.
Minha luz nada tem.
1211.
Escreve
e apaga
Escreve
e apaga
Mas só na
fixação
freudiana
há a
satisfação
de não sentir
nada que não
a casa e o
tapete
1208.
Carne em tiras
finas minha sina
Pouco importa
minha dor
Minha carnificina.
1209. Kunderiana
Transforme peso
em leveza:
imortalidade,
riso e brincadeira.
1206.
Em meio a solidariedade
nasceu minha palavra
em seu mundo
Os irmãos e os amantes
tornaram-se fecundos
E ao ventre outro
cansa-se um temor absurdo
Trocamos poemas
invisíveis e noturnos
1207.
A plenitude da
decisão no ato
mero de escrever
Preencha essas
palavras de mim
e de você
E pouco me condói
o fato de que
elas as vão ler
e te saber.
1203. Resquícios
Uma poesia só
em cada papel é bela
Mas sou geógrafo
Quero a estética
ambientalmente
correta.
1204.
Angélica, não quero
ter Izis, só
quero viver o
que acontecer.
1205. E onde?
Doem os ânimos
uns aflitos
pelas cores do
amor
outros angustiados
com novos Muros
de Berlim
alguns mais ansiosos
por conta do
inevitável
Todos masoquistas
por antecipação
1202.
Verde e amarelo.
Se não fosse o
líbero dessa bandeira
diria sem
pudor o belo.
1201.
sair de mim
e me encontrar
sair de si
e me encontrar
mandar-me às
favas
pra eu te amar
1200.
Minimizar o
sentido
Até que se
sinta tudo.
1198. Pardal
Parece plausível
que existam
essas solidões
todas:
há essa que só
se preenche
com um deus,
há o vão ao
dividir um banco,
há o guarda-chuva
torto descendo,
há o origami que
não salva mas
voa,
há os olhos detrás
das lentes,
há o canto de
subir a rampa,
há a tensão da
calculadora,
há eu e uma
lapiseira frenética.
1199.
Palavras para o
vazio, para a
dor, para o além,
para o ali,
pára tudo e
sorrir.
1196.
ser melhor
semelhante
sêmen antes,
sem amém.
só amor.
1197.
Uma lixeira
a cada dois
passos e a
humanidade
sempre ao lado
(par-e-passo).
1194.
All is full of
sadness.
1195.
Insignificância
em si o signo
em si a ânsia
de ser aos outros
o sentido.