Há tantas coisas para serem ditas
Tantas coisas inúteis ou boas demais
Que ao toque da realidade se caem
E em cada coisa que digo, vejo
Que das boas, há sempre uma
metáfora por trás: você (um norte).
Categoria: Poesia
0687.
e mesmo que cego eu fosse
em meio a qualquer multidão
a reconheceria sem mesmo
abrir os olhos da pele
0685.
e ele tinha feito um mapa
tão grande mas tão grande
mesmo, na busca da representação
perfeita do real que quando ele viu,
tinha feito todo o mundo.
0686.
você é tão pequenininha
mas não cabe em minhas mãos
quem dera eu pudesse ser
do tamanho do mundo
para abrigar tua imensa
delicadeza contra todo o mal
que existe
0690. Desses em brancos, tão papéis
o papel em branco é tão bonito
hoje me encantei por sua alvura uniforme
(tirando a mancha de gordura no canto)
uma folha de papel em branco é
tão linda, mas tão linda,
que não tenho o mínimo pudor
em lha desvirginar
0683.
alternativo sou eu, que sou monogâmico e heterossexual.
0684. Fantasmas
em cada expectativa
o espectro da desilusão
em cada espectro
um receio
em cada receio
um grão de centeio
de cada grão
uma plantação de medo
0681.
vou despencar do mundo
com o peso da gravidade
dos fatos sobre o dorso
e mesmo se a gravidade
fosse zero, o peso ainda seria
levitar: as impossibilidades
hereditárias do pecado original
0682.
há no mundo tantos signos
e em cada significado tantos mais
que desta feita o que mais me apraz
é não ser signo algum,
ser analfasigno simplesmente
0678. Morte ao latifúndio
Do alto de seus 3.800 hectares,
ele sonha em descansar o
suor de sua herança.
0679.
Direito de propriedade?
E o direito à vida?
0680.
se eu só te dissesse a verdade
serena lua, a mentira não existiria
e o mundo só teria uma cor
0676.
e eu que sou tão inconstante
continuo como sempre:
eternamente enamorado, tranqüilo,
calmo e pronto a quebrar
uma cadeira na cabeça de alguém.
0677. “Contra” “a” “prisão” “da” “idéia”
“Se” “eu” “acreditasse” “na” “propriedade” “intelectual” “só” “escreveria” “assim”.
0675.
e antes que tu digas alguma coisa
saibas que maldita é a boca
que pensa que diz e não diz
0673.
hahahaha!!!
o que me faz rir mesmo agora é saber que dei-te a liberdade na languidez das formas de uma mulher
0674.
são dois corpos um contra o outro
um de encontro ao outro
numa equação não geométrica
mas eis que me atento:
o convexo no poder das mãos
e outras formas rompem a
aparência (nova geometria)
0672.
caminhando a esmo
é que eu vejo
o limite de um passo dado:
um caminho trilhado
e a cada novo passo
lá atrás, um passado
0670. Canto a esses existires
Existe um instante em que
as janelas da alma se abrem
descerram-se cortinas, deixam
luz entrar em todos os cantos
e pulsam não mais o segredado.
Existem momentos em que a
beleza surge no desnudar-se
arborícola de um outono
e vê-se a beleza não no ser nu
mas no momento da queda das folhas.
Existe um lapso que é como
um cafuné da vida: parece
nem existir e pessoalmente,
cá entre nós, surge no limbo
de uma caótica turbulência.
Existem esses existires.
Alegremo-nos pois.
0671. Poema em que se só uma palavra pudesse ser a poesia a bastasse para lha ser
Linda.
0669.
um sopro e revolve-se a poeira
dos sentidos, daí para o surgimento
de um tufão basta findar-se
a máscara da razão
0667.
Existe alguém que dê a resposta
a um jogo de ladrões, que arbitre
concisamente e que não se corrompa
com a humanidade circundante?
0668.
e as metáforas? onde estão?
te chamo de caos então
sem juízo axiológico
sem essência epistemológica
apenas o outro lado da ponte
a negação da teoria do cosmos
a desconstrução necessária à liberdade
você: caos
eu: humano (ponte)
0665.
o riso da flora
floresce entre o fétido
o riso na flora
vem das rizomas
e da luz que numa
reação enzimática
ri do universo
o riso da flora
floresce das fezes
da fauna e fornece
gargalhadas lá fora
e as fezes podem
ser restos da flora
e nos mangues
em meio à lama
e ao fétido
brotam risos
através da rizoflora
0666. Topofilia II
a claridade dilui-se na abóbada infinda
resquícios irmãos, réstias até mortas:
os pontos que permeiam agora
a mortalha que repousa sobre Gaia
cá nesse seu hemisfério, são os
únicos indícios naturais da luz.
artefatos e técnicas dão à luz
a empiria do tempo: são os
indícios desnaturalizados da herança
do domínio do fogo
mas cá entre nós, aqui mesmo
no antimeridiano de nossas almas,
o espetáculo da cornubação
à noite é uma beleza!
0663.
Você, antes do solstício já me
era luz a mais.
Um conjunto de cálculos
incalculáveis à paz.
Você, sol se desenvolvendo.
Eu, órbita irregular.
0664.
Neste então, não mais cachos há
Como eu tempos atrás
Neste então, luz outra sobre a noite anterior
Embora não tão escura noite assim
Nova face neste então,
mas por debaixo deste então
há a mesma luz linda de sempre,
a mesma luz que me iluminou
e ilumina, da cor afável do amor.
0661. O jogo dos espelhos na manhã ao ônibus
um mundo reflete-se úmido de
minhas pupilas e se reflete nas lentes
dos meus óculos, que se refletem
nos vidros do ônibus
0662.
“Noites flebeis, outonais…”
A poesia do meio dia é diferente…
é dura, ácida, áspera como se
as palavras erodissem o véu das
metáforas e só existissem palavras
cruas, nuas – pura exiztence
0658. Notas para uma poesia concreta
como transpor todos os sons
em signos e letras?
e esse barulho do motor do ônibus…
como grafá-lo?
0659.
cada signo representa
o silêncio de algo
aquilo que a coisa não
conseguiu ser só sendo
0660. Pós-modernidade
daqui uns dias chegaremos ao asco
de termos 3 pessoas para cada 5 carros
0656.
os carros esquiam por sobre o asfalto
como se desse parco atrito brotasse
a energia que move os universos
pequenos big-bangs sincronizados
para não chocar energia e energia,
para daí não brotar novo universo
criam mais energia desejando
mais nenhum universo (universismo,
para não cair no clichê do ego).
0657. Paralelismo
Não sei porque pus primeiro o
título e só agora estou escrevendo
o que quero dizer com paralelismo
não tenho a mínima idéia
creio que não queira dizer
nada, creio que a poesia está
só lá no título: paralelismo.
0655.
hoje vou ler Drummond
e esquecer de vez o que
já esqueci um dia
0653.
ver melhor seria antes de tudo
apagar sua história pessoal e
se livrar da descrição que
já lhe fizeram de tudo.
a lente da inteligibilidade
sendo corroída, ver melhor
0654.
Naquela noite eu não via a chuva
escorrer pela janela do ônibus
só a via pelo contraste
de lâmpadas acesas.
Naquela noite, a chuva era luz.
0650.
A m o r t a l h a m a t a n d o
0651.
t o l a d o a l a d o d e l a
0652.
o r a l i d a d e d e b e b e g u d a g u d a
0649.
Aqui ca bem pala v r a s
0647. Carne e carnaval
já falei tempos atrás que
a promoção da carne, seria
um carnaval eterno, sem máscaras
– ou só com a imagem simbólica
delas –, mas hoje antes de tudo
miro o embate entre criador
e criatura, carne e carnaval.
0648.
Em que observo a humanidade
no charco, numa perniciosa
luta consigo mesma, não
sinto benevolência alguma
sobre até eu mesmo.
Meu desalento é só constatar
ser esta corda esticada
e que não consigo imiscuir-me
no alarido da superação.
0645. Freudiano
Quando menino, reprimiram minha
geofagia. hoje não ponho as mãos
na terra e ao menor sinal de
doença já estou morrendo.
0646.
sou versado em teorias sobre o
mal da humanidade
mas o que agora eu queria,
era descobrir sobre esta verdade
uma outra sabedoria
que me falasse sobre amizade
que mostrasse não ser só alegoria
o avesso da primeira nobre verdade
0643.
não seria apenas uma coleção
de sentidos, soltos à revelia
desse lugar, seriam os fragmentos
de uma percepção meta-sensorial,
uma concretude sensorial,
já que o lugar não foi abolido,
e a cada aurora, é revivido.
um amor que supera formas:
metamorfose.
0644.
as pessoas vendem tudo
como se arte fosse,
em verdade vos digo:
os sentidos que percebo é
que são os artistas
0641.
maio não sei por que
cargas d’água principia
o fim de algo aqui no
Planalto. parece que o
vento quer levar tudo
consigo. o problema é
que no outro maio ele
já esta aqui novamente
0642.
uma idéia não é minha
ela surge de mim
este corpo não é meu
este corpo que dizem ser meu
me é, os átomos só são,
meu mesmo nem o nada
o corpo surge, a idéia surge
o surgir é
meu mesmo, nem o nada
estas idéias que se agrupam,
estes códigos todos
meus não são, eles apenas são
desses axiomas concluo que
o verbo ter não existe,
não ser igual a ter,
não ter igual a ser,
não tenho, existo.
ter, é só o nada.
0640.
o quadro sem tela do infinito
é pincelado pelas lânguidas
e lépidas mãos do vento
as nuvens, o sol e os eucaliptos
forjam um pouco mais minha tristeza