0670. Canto a esses existires

Existe um instante em que
as janelas da alma se abrem
descerram-se cortinas, deixam
luz entrar em todos os cantos
e pulsam não mais o segredado.

Existem momentos em que a
beleza surge no desnudar-se
arborícola de um outono
e vê-se a beleza não no ser nu
mas no momento da queda das folhas.

Existe um lapso que é como
um cafuné da vida: parece
nem existir e pessoalmente,
cá entre nós, surge no limbo
de uma caótica turbulência.

Existem esses existires.
Alegremo-nos pois.

0665.

o riso da flora
floresce entre o fétido
o riso na flora
vem das rizomas
e da luz que numa
reação enzimática
ri do universo
o riso da flora
floresce das fezes
da fauna e fornece
gargalhadas lá fora
e as fezes podem
ser restos da flora
e nos mangues
em meio à lama
e ao fétido
brotam risos
através da rizoflora

0666. Topofilia II

a claridade dilui-se na abóbada infinda
resquícios irmãos, réstias até mortas:
os pontos que permeiam agora
a mortalha que repousa sobre Gaia
cá nesse seu hemisfério, são os
únicos indícios naturais da luz.
artefatos e técnicas dão à luz
a empiria do tempo: são os
indícios desnaturalizados da herança
do domínio do fogo
mas cá entre nós, aqui mesmo
no antimeridiano de nossas almas,
o espetáculo da cornubação
à noite é uma beleza!

0664.

Neste então, não mais cachos há
Como eu tempos atrás
Neste então, luz outra sobre a noite anterior
Embora não tão escura noite assim
Nova face neste então,
mas por debaixo deste então
há a mesma luz linda de sempre,
a mesma luz que me iluminou
e ilumina, da cor afável do amor.

0656.

os carros esquiam por sobre o asfalto
como se desse parco atrito brotasse
a energia que move os universos
pequenos big-bangs sincronizados
para não chocar energia e energia,
para daí não brotar novo universo
criam mais energia desejando
mais nenhum universo (universismo,
para não cair no clichê do ego).

0642.

uma idéia não é minha
ela surge de mim
este corpo não é meu
este corpo que dizem ser meu
me é, os átomos só são,
meu mesmo nem o nada
o corpo surge, a idéia surge
o surgir é
meu mesmo, nem o nada
estas idéias que se agrupam,
estes códigos todos
meus não são, eles apenas são
desses axiomas concluo que
o verbo ter não existe,
não ser igual a ter,
não ter igual a ser,
não tenho, existo.
ter, é só o nada.