Eu sei que você gosta
do gosto da desgraça
E eu te dou inteira
a minha boca maldita
2202. Não há nada encoberto
Eu gosto de desvendar belezas
descobrir não
posto que a lindeza não se revela
o bonito é algo de mistério
é algo que se desvenda
a resposta ao enigma
Beleza é uma charada
É um ponto que se percebe
é aquele lugar que se atina
é mais que forma
e para além de conteúdo
Um tique visualizado
Um estalar dos saltos
Uma franja meio torta
Qualquer coisa que vai
de encontro ao padrão
até mesmo um palavrão
pode mesmo uma idéia
mas sempre é aquela
velha pergunta:
será que foi o mordomo?
2201.
Você pensa que eu não ligo
mas esquece que eu sou distraído
Quando acontece sou o último a saber
que eu fui traído
Não é desamor não
é só vacilação
Todo dia o leite
derrama no fogão
e eu nem bebo leite não
Arrumo a pia todo dia
e esqueço de limpar o chão
É só distração
distração
desatenção
Me passou até mesmo
meu aniversário
mas que otário
sempre caio no conto
do vigário
do vigarista e
do salafrário
Todo mês tomo tombo
no meu pouco salário
Mas liga não
é só distração
distração
desatenção
2200. Sem foda
Quando chego bem
na hora ta passando
a das seis
Quando penso em
me mexer já se
passaram três
No final do Nacional
eu penso em atacar
Eu me movo, chego
perto, tento na
nuca encostar
Mas aí vem a das oito
e já se passa das nove
Tento um pouco
lanço um beijo
mas ninguém se move
Um programa variado
um riso frouxo abafado
uma atração derradeira
E o único ataque agora
é o da geladeira
2199. Impaciente
Quando eu digo
que vou chegar
ela diz sorridente
que me espera
Se o trânsito
me faz um pouco
parar ela muda
a cara e se faz fera
2198.
Reformular até
mesmo as ligações
químicas, tudo.
Remodelar o corpo,
a mente, qualquer
outro novo rumo.
2197.
Por Ana
perdi uma blusa
Por Paulo
perdi a meada
Por Cecília
perdi a noção
Por Charles
perdi a vida
Por Adélia
perdi o pudor
Por Fernando
perdi a língua
Por Mário
perdi a compaixão
Por Marta
perdi-me
Por mim
perco perdido
tudo,
pois que ganho
é com a perdição
2196. Trajetória de músicas
Como um samba japonês tupiniquim
um quadro possível
o azul e o verde
irradiando e imiscuindo tudo
afaga afaga afaga afaga afaga
afoga afoga
fogo fogo
fumanchê
ojo
e tudo em volta verde e azul
é uma consciência que vagueia
é um corpo que cadencia até a exaustão
é o que se relaxar
azul e verde
mergulhando tudo
I remember Fela
tudo é pra se perder sim
tempo tudo
e verde e azul ainda
se entra no reino banto
uma ilha que reúne o mundo
mania essa mesma
mas sigo tranqüilo
sem grilo
sem glória
simplório
simples
sem
tudo
só o verde e azul,
mas,
“não, não sou eu quem vai ficar no porto chorando, não”
2195.
Tem horas
em que eu
penso em
matar o
mundo
O que me
consola é
saber que
no final,
Deus é
egocêntrico
e implacável
2194.
O céu sustenta a Terra,
a carrega,
ela gira em si revolta
contra a amplidão,
servindo escrava da
manutenção gravitacional
do Sol
A Terra planeja
em segredo com Marte
e sua fiel escudeira Lua,
dominar algures de tudo
que a mantém inteira
O primeiro passo foi
domesticar as existências
em sons e formas,
o próximo passo é
uma bomba mais
forte que a de hidrogênio
Tangará da Serra, MT.
2193.
depois falam que
sou louco
mas quando
meus compatriotas
de geração
ficam roucos
com Silvio Santos
fico tonto
tanto como
se fosse louco
Tangará da Serra, MT.
2192.
o mundo insiste
a gente persiste
e só o cisco no
olho é que existe
Tangará da Serra, MT.
2191. Pancreatite aguda
não é arrogância
é só discrepância:
o que você fala
com a boca
eu entendo com
o pâncreas
Tangará da Serra, MT.
2190. Nandinha
você tão sozinha…
quem sabe comigo
não cabe uma rima?
Tangará da Serra, MT.
2189.
Muitas vezes
– a maioria –
o bom é só
a sensação de
que se é
contemplado
e não a
contemplação
Tangará da Serra, MT.
2188. Bem vindo nada
Agora nada
deve vir
Porque só o
nada é que
é porvir
Nem polvilho
vem nem
queijo tem
Então nem
o nada deve
vir e deve
preencher tudo
por aqui
Sem pão de queijo
Até o fim da página
Tangará da Serra, MT.
2187.
Como o que pulsa
latejando por aí,
embaixo da sua blusa
É essa desalma
carnuda que num
refrão parco da canção
ousou-se chamar
seu coração
Tangará da Serra, MT.
2186.
o que serve aqui
pra poesia feita em
prosa?
cabe uma nuvem
rosa de textos
de dostoievski
Tangará da Serra, MT.
2185. Sabe?
A gente nem
sabe
em que fim
de tarde
é que a vida
vem e vaza
pelos poros
da noite
até sangue
ser pelas
veias e
supurar o
corte do
açoite
A gente nem
sabe
quando isso
basta,
se abate um
alento de
que a vida
lenta pare
e toda noite
nunca seja
tarde
A gente nem
sabe
porque o
coração,
por si só,
bate
Tangará da Serra, MT.
2184.
Tudo repete
e nem é a
mesma coisa
Que se complete
sem ser
rota doida
2183.
Nada interessante,
cada dia me convenço
que o mundo
é dos pedantes…
2182.
Quanta besteira
tenho pra falar
vendo TV a nossa
maneira
Mas olho pro lado
e me bate uma
tristeza:
não tenho mais
a minha
companheira
2181.
Nosso início
aquático e
estelar,
benze em
fogo, vento,
terra, rio e mar,
nosso lar lunar
2180. Tá foda V
Fico assim
tão no clima
que nem
fujo da rima
daí penso assim
meio Marina
2179. Tá foda IV
Quero você.
Como vou dizer?
Como quem
tem sede
e não cessa.
2178. Tá foda III
eu só
você sozinha
isso sim
é mudança
de rotina
2177. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz X
E quando acaba,
pra quê mesmo
a graça?
2176. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz IX
deve ser um
lance assim
tão assado
essa de ser
cremado
2175. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz VIII
Todos esses
desejos,
os ensejos,
primeiro
e último beijo,
os anseios,
os seios,
os segredos,
os medos,
realejos
Todo o desleixo,
o caído queixo,
os receios,
os enleios,
e os maneios,
aqueles trejeitos,
os sujeitos
o bem, bom, mau e mal feito,
todo o reino,
os pedaços de queijo,
o mergulho nos veios,
os selos,
os pêlos e os pelos,
os inteiros e os meios,
o derradeiro,
o esteio,
o que creio
e o que leio
Tudo aquilo
que veio
acaba a sete palmos,
sentido X
do eixo
2174. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz VII
eletrodos ao
acaso que reagem
nesse corpo
um dia a pilha
acaba e nem
rola um estouro
2173. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz VI
e dizem que
ainda há volta
mas essas
reações químicas
não querem
nova rota
2172. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz V
nada se abate
mesmo depois
do chute no balde
2171. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz IV
sem alcance
preciso no
último suspiro
o alívio do
pacífico
descanso
2170. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz III
Diferente do pequeno
é o definitivo gozo,
a derradeira morte como
o último jorro.
2169. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz II
Um toque que
quase consegue
captar a própria
existência numa
fração de segundos
condenada ao
espaço entre uma
partícula e outra
a não se tocar
infinitamente
Cabe tudo nesse quase
como o que é
como uma onda
e matéria
inerte mas
à velocidade da luz
A onisciência no fim
Uma língua tesa
entre o sorvete e
a impressão
do doce gelado
Um toque que
não consegue
nunca ocorrer
A ciência de um
fim sem começo
2168. Poema sobre a totalidade da eternidade em paz I
Arrancar uma
folhinha já é
algo complicado
Pra sempre
uma folhinha
é inimaginável
2167. Tá foda II
pra virar
a página
basta um
dedo
ou
umas
doses
Goiânia, GO.
2166. Tá foda I
Enlouquecer
é findar esse
vício de você.
Goiânia, GO.
2165.
sim,
não
vim
não!
se
vão!
tão,
se
não
2164.
trabalho alienado
tratado sobre alienação
ação nacional
jornal nacional
jóias anais
asnais
2163. Sim, sim, a propósito das cores
Basta VER
os ônibus lotados
de manhã cedo
Basta VER
de verdade sua TV
Basta VER
o bar da moda
Basta VER
o ambiente selecionado
Basta VER
que o ao lado
É a realidade
2162. Olha bem
fica fria
respira
e não estressa
depois da
meia-noite
tudo é sexta
2161. Piração
Deve ter algo de errado
mas contei oito vezes
e meu quarto
tem oito lados
2160. Podia II
podia a saudade
não ter tanto a ver
com essa tal de idade
2159. Podia I
podia passar longe
essa do amanhã
ser para ontem
2158. Hai! Caí!
Que disparate!
Por que não abolir
essa lei da gravidade?
2157.
coisa esquisita
essa da noite
ser parte do dia
2156.
é tão mundano
essa do mundo
estar sempre acabando
2155. Pega
a danada
pega
quando se
pensa que não
bastou um
pega
2154. Troca
troco poemas
em massa
por dólares
em lata