pausa: Orides Fontela

Posologia: dê play

dê pausa. Da matéria, na matéria. Pare para respirar sempre. Toda pedra respira, poro a poro, pó.

O que aterroriza os passos noturnos não é a matéria disforme escuramente unida, contornos só contornos e a visão se conturbando entre o que era quando aos olhos cerrados e o agora, tudo aberto e ainda fechado, pés tortuosamente pisando o frio, mas a profundidade de onde se estava dentro antes de pisar no chão, aquela substância plasticamente adornada dentro da moleira baqueada numa “noite original cósmica que performava a alma bem antes da existência da consciência do ego”, como diria Carl, enquanto Karl lutava contra os fumos do ópio.

Não sabemos quando foi o encontro, se no tonal ou se no nagual. Se entre guerras ou sonhos, jês ou tupis. Mas foi assim, num estado de real e de além real, ainda real. As brechas são infinitas, as falhas na matriz não se computam, e tudo estava turvo e cabulosamente atolado de matéria onírica. Onironautas que somos, nos atrevemos, barcarola do São Francisco, enfrentando o mar. Não nos transpomos, mas enfrentamos a transposição:

TEMPO

O fluxo obriga
qualquer flor
a abrigar-se em si mesma
sem memória.

O fluxo onda ser
impede qualquer flor
de reinventar-se em
flor repetida.

O fluxo destrona
qualquer flor
de seu agora vivo
e a torna em sono.

O universofluxo
repele
entre as flores estes
cantosfloresvidas.

– Mas eis que a palavra
cantoflorvivência
re-nascendo perpétua
obriga o fluxo
cavalga o fluxo num milagre
de vida.

E sequer sabíamos da nossa existência. E era apenas o começo da empreita, por isso percorremos diluidamente o fluxo da vida, lendo. Eu, meu duplo e ela:

PEDRA

A pedra é transparente:
o silêncio se vê
em sua densidade.

(Clara textura e verbo
definitivo e íntegro
a pedra silencia).

O verbo é transparente:
o silêncio o contém
em pura eternidade.

Mas precisávamos de um ponto comum, afinal, não sabíamos se estávamos em estado de alerta, de guerra, de sítio, (

STOP

Estado de sítio
estado de sido
estase.

) vegetativo ou lírico. Faltava uma definição que nos conduzisse ao termo definitivo, se infinito ou se fictício. A vida era dura nos dias que formulavam o mapa de onde se dava os termos do encontro. E o sonho, ou os pés gelados atravessando o corredor, às vezes pausavam diante da luz de um abajur – não era lilás –, 22:35, depois de escovar os dentes e tudo parecer que ainda era real e não tinha fibra de luz alguma emanando teias e conformado as coisas em espirais caoticamente controláveis. A realidade existia ainda:

TATO

Mãos tateiam
palavras
tecido
de formas.

Tato no escuro das palavras
mãos capturando o fato
texto e textura: afinal
matéria.

E era nessa hora que nosso peito inflava de gás carbônico, mezzo pimenta, mezzo lacrimogêneo, mezzo silenciamento. E nessas noites não sonhávamos, apenas amanhecíamos com cara de tormenta e pedíamos que nunca, jamais, temêssemos e que mantivéssemos os nossos ódios acesos, claros e salgados, pesando uma tonelada, cabendo em um olho, com diria Mano. E sabíamos que tudo seria

DESAFIO

Contra as flores que vivo
contra os limites
contra a aparência a atenção pura
constrói um campo sem mais jardim
que a essência.

E era um jardim cabuloso. E se fosse rio seria caudaloso. E se fosse sonho, como era, só, então realidade.

Mas eram tempos definitivamente carentes, esquecemos de dizer, e cada glória era uma aleluia e um milagre, mil lágrimas, derretidas, inadvertidamente, diamantes, apenas de dia, nunca amantes. Tudo cortava, tudo ruía, tudo rugia, tudo rangia: nossos ossos entrevados, nossa musculatura tensa e tesa e nunca um tesão tão aflito havia sido posto em prática. E nós três, sem falo, flacidamente como ácidos, berrávamos. Não havia

FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

E foi aí que entendemos que se tratava da lucidez. Não daquela, nem daquilo. O fato consumido, motor da saudade. Era o tapa na cara, a realidade. Não havia mais entregas que não as rugas na cara, os calos nas mãos, o humor ferino, a lentidão, a brincadeira, a imortalidade. E não esquecíamos de Carl: “O sonho descreve a situação íntima do sonhador, situação que o consciente não quer tomar em consideração ou cuja verdade ou realidade aceita a contragosto”. E não aceitávamos nada da realidade.

Certo dia estávamos em plena Rodoviária, sol à pino, antes da chegada dela, éramos só eu e meu duplo. Já prevíamos, mas daí ela chegou e se encostou, novamente, como se nos transpuséssemos para a Rodoviária novamente bem ao

MEIO-DIA

Ao meio-dia a vida
é impossível.

A luz destrói os segredos:
a luz é crua contra os olhos
ácida para o espírito.

A luz é demais para ao homens.
(Porém como o sabereis
quando vieste à luz
de ti mesmo?)

Meio-dia! Meio-dia!
A vida é lúcida e impossível.

E contemplamos, tremendo, do patamar superior, a vida se impossibilitando. Nenhum entretanto. Um marmitex de dez reais no seco ou dois x-tudo com dois copos de refri. Não podíamos mais fazer muita coisa a não ser ver o vai e vem de tudo, até o estalo para o trabalho e manada, gado, rês, nos pusemos em marcha. Sabedores, saboreadoras, de cada minúsculo ponto que vai, só indo, átomos de dinossauros em dispersão, até dar no Sol novamente, senhor de si, senhora de se expandir, infinita. Meramente nossa

HERANÇA

O que o tempo descura
e que transfixa

o que o tempo transmite
e subverte

o que o tempo desmente
e mitifica.

E findo o dia, a volta ao lar, depois da lida, nos lançávamos nos vagões, nós três, intrépidas, no último carro. Era sempre como uma carruagem girando numa roda da fortuna falha, moinho de vento em doses de ventania em cima de uma torre, desmoronando, no sentido da noite que nos consumiria ainda envoltas no

NOTURNO

O silêncio sem cor nem peso
(vacuidade) sustenta
agudas sementes – júbilo –
da lucidez nunca
                            extinta.
Grandes estrelas fixas.

que tão pouco durava e que ainda se abria ao infinito: uma canjica amarela bem cozida, ciganas descendo uma escada ao nosso encontro, um grande catalizador de raios cósmicos sugando a porra toda e um avião desmoronando junto ao céu, mais uma vez. E logo o celular tocava e nos levantávamos e dormíamos acordados com os dentes brilhando e ainda um bafo quente e impiedoso: duas, três horas de sono? Cinco anos de sonhos aprisionados e a vida inteira por vir. Era por isso que a vida só valia sendo vivida sem

AFORISMOS

Matar o pássaro eterniza
o silêncio

matar a luz elimina
o limite

matar o amor instaura
a liberdade.

Daí matamos foi tudo logo: o pássaro, a luz, o silêncio, o limite, o amor e até a porra da liberdade. E agora estamos aí, tendo lido pela segunda vez esse livro dela, duas uniões a menos no mundo, ou três, ou quatro, ou cinco ou quem sabe vinte e seis. E me lembro que antes de matar tudo eu até mandei pra ela, não para ela, mas para ela, uns

LEMBRETES

É importante acordar
a tempo

é importante penetrar
o tempo

é importante vigiar
o desabrochar do destino.

E foi até meio que lindo, porque foi antes da morte. E aí agora sabemos bem qual é a fronteira do sonho, do sono e da surra. Eu ando leve, meu duplo urra e ela continua morta, na sua, retumbando aqui dentro como nunca, contando-me apenas algumas

MENSAGENS

A cor
alada: borboleta
ou pétala?

Fresca asa per
passa
as mãos
abertas.

Sussurro
orelha
caramujo
antena

os cabelos
ao vento.

Tudo tão leve e fácil, que mais crível que ela própria, é a quimera, própria d

O ANTIPÁSSARO

Um pássaro
seu ninho é pedra

seu grito
metal cinza

dói no espaço
seu olho.

Um pássaro
pesa
e caça
entre lixo
e tédio.

Um pássaro
resiste aos
céus. E perdura
Apesar.

E é por isso que agora, ante a seca que se avizinha, me deixo banhar n

O AGUADEIRO

Derramar um
cântaro

um canto
deixar fluir
o novíssimo
encanto.

E ela, não ela, tampouco ela, me disse que entre os espaços dos versos dela, parecia que propositadamente havia um território todo a se ocupar. E foi aí que eu compus essa canção e o caos da época gravou.

Ela: Orides Fontela (não ela, tampouco ela).

Todos os poemas são daqui:

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