3973.

A coisa se mede com um contorno desmedido, tudo trava, tudo quebra, nada arrebata, só arrebenta. O mundo da cabeça desajusta com o mundo do lado de fora do orí, o plexo solar não funciona, os chacras entupidos por gárgulas e fadas, as imagens de algo não realizado que insuflam o desejo e um alento nada cativante que teima em se coordenar mais que o necessário para tentar ser vida. O surrealismo da falta de lastro de realidade cria um imobilismo nonsense num instante fantasmático. Os polostícos paleolíticos paranormais não priorizam a vida de dentro. O que se falar? Nada além de nadas ensimesmados. É uma sexta, é um vinho, é Fátima e nada. Nada ao redor a não ser todos os velhinhos e velinhas do meu prédio assistindo a Globo. A janela do nono andar é uma coisa ancoradora. No nada. Nem lá nem cá, o aéreo dissipado mundo que fora líquido agora nem aterra nem desterra, ninguém é dono de nada. O cansaço disruptivo te enfia dentro da realidade, amanhã, sábado, dia de trabalho, folga de Deus, nem será de dádivas, só de dívidas, 0,01% para quem detém os dividendos de 99,99% de vida. As auroras já não refazem o caminho contínuo até as noites, elas prismam uma luz difusa até que percebamos que nada mais se encaixa. As noites eram mais bonitas nos meus sonhos de criança.

3973.

pausa: aleatário da nova morada #1

Cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Um corte no polegar esquerdo feito por uma faca de serra quando tentava cortar o fio que amarrava o maço de manjericão que eu amassei junto a alecrim e hortelã na tentativa que meu Pai Oxalá me ajude nessa função de ficar bem. Tomei dois Ansiodoron – maracujá, aveia e valeriana, na medida exata pra tentar controlar a sua ansiedade, só que não. Dormi um sono vespertino abafado e confuso, misto da playlist que a Alessandra Leão fez no Spotfy e que escuto ainda agora, e uma profusão de sentidos se comunicando – sentimentos, pensamentos, sensações. Sentia meu corpo formigando incessantemente, intensamente, como se todas as minhas células estivessem mais ativas do que o normal. Tirei o Whatsapp do modo de não exibir notificações, para ver se eu parava de querer olhá-lo de cinco em cinco minutos na esperança de que houvesse algum retorno. Não houve. Não há.

Cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Trinta e cinco anos passados desde que vim ao mundo e ainda ajo como se fosse um adolescente de quinze, na frenética e ansiosa espera de que a realidade corresponda aos meus anseios. Mas ela não corresponde, nunca. Aluguei um apartamento de um quarto em Taguatinga Norte. Nono andar, prédio velho, cheio de velhos que moram aqui. Arrumei tudo com muito apreço e esmero, como sempre me dedico a essas questões de lar e cá estou eu. Eu e um vazio. O apartamento já está devidamente mobiliado, ainda faltam alguns elementos que desejo, como uma máquina de lavar e uma televisão, mas, meu Pai, como tudo anda caro nesses dias.

Cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Não sei muito bem o que pensar. Agora há pouco fui à casa da minha mãe, deitei-me no sofá dela e assisti um pouco de televisão, brinquei com o gato Trovão e cochilei alguns minutos enquanto lutava para parar de pegar o celular e olhar o Whatsapp, a vida de um ansioso é uma coisa perturbadoramente aflitiva. Dá um negócio abaixo do peito e acima do estômago, dá um negócio no meio da gente, no centro e irradia para todas as extremidades, o esôfago é quem sofre mais nesse vórtex ao contrário. Almocei por lá e na volta comprei uma cortina que faltava para o apartamento. No caminho me vinham versos, coisas, imagens, tudo meio agressivamente solar e desesperançoso. Ficar triste no meio do sol é algo desolador, desesperador. Ter vontade de chorar junto aos transeuntes todos tão tranquilamente correndo em prol de suas vidas, no meio da avenida Comercial Norte, no meio do sol, dá vontade de chorar. Mas não chorei, só alimentei esse nó no meio.

E cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Em 3018 será que ainda estarei assim? A recorrência me leva a crer em um não aprendizado contínuo, vida após vida, moto-perpétuo cârmico de não entendimento. Mas qual será a lição? O que esses átomos que se aglutinam em mim me dizem e que eu não consigo fazer diferente? Mesmo com o Whatsapp no modo de exibição de notificações ainda olho furtivamente o celular, na esperança de que algo houvesse falhado e que sim, houvesse comunicação. O diabo é pensar na culpa, acreditar em uma culpa que agora não tendo forma, corpo e situação, se instaura no amargo das palavras ditas. Não dizer será a resposta? O aprendizado? Talvez o desneurotizar. Mas como se aprende a não ser neurótico?

Cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Clamando aos Orixás que me deem o alento mor tão desejado de se sentir em paz, mas esse estado me é fugidio por demais. Escorrega sempre pelas minhas mãos, ou, como no caso, pela minha língua. Esse nó é escroto e demasiado, mas não consigo sair dele, ou ele não consegue sair de mim. Versos agressivos me vazam e eu não tenho coragem sequer de os transpor agora. Dá medo lidar com o medo. Ele berra por demais de quando em vez, agride, soca e faz cócegas com o corpo amarrado. É risonho esse meu estado, risível, risossonho, mas é o meu estado e sair dele é um trabalho dos diabos. Eu podia fazer mil coisas, mas o apelo por fazer nada é maior, talvez seja isso que o meu corpo esteja me falando: faz nada, por favor. Minhas costas doem. Desde o meio de 2016 venho num estado maluco de fazer, de correr, de executar. Primeiro foi o emprego, depois o fim do casamento, depois a ânsia por mudar de casa, sempre fazendo. Houve só um momento em que não fiz, em que fiquei com ela simplesmente não fazendo e acho que isso que foi bom e que me atraiu tanto. Mas daí vida vem, resoluções tem que ser tomadas, se descobrir, se encontrar, fazer terapia, desbravar matas selvagens e no fim esbarrei com um lugar louco e encoberto, não sabia sequer como agir com as palavras, tanto é que pouco escrevi esse ano. Aprisionado num rolê de se sacar. E o pior é que talvez não tenha sacado porra nenhuma, afinal, cá estou, dez de janeiro de 2018, com uma coisa densa no meio, como nos idos de 1998. Igual que nem.

pausa: aleatário da nova morada #1

pausa: Orides Fontela

Posologia: dê play

dê pausa. Da matéria, na matéria. Pare para respirar sempre. Toda pedra respira, poro a poro, pó.

O que aterroriza os passos noturnos não é a matéria disforme escuramente unida, contornos só contornos e a visão se conturbando entre o que era quando aos olhos cerrados e o agora, tudo aberto e ainda fechado, pés tortuosamente pisando o frio, mas a profundidade de onde se estava dentro antes de pisar no chão, aquela substância plasticamente adornada dentro da moleira baqueada numa “noite original cósmica que performava a alma bem antes da existência da consciência do ego”, como diria Carl, enquanto Karl lutava contra os fumos do ópio.

Não sabemos quando foi o encontro, se no tonal ou se no nagual. Se entre guerras ou sonhos, jês ou tupis. Mas foi assim, num estado de real e de além real, ainda real. As brechas são infinitas, as falhas na matriz não se computam, e tudo estava turvo e cabulosamente atolado de matéria onírica. Onironautas que somos, nos atrevemos, barcarola do São Francisco, enfrentando o mar. Não nos transpomos, mas enfrentamos a transposição:

TEMPO

O fluxo obriga
qualquer flor
a abrigar-se em si mesma
sem memória.

O fluxo onda ser
impede qualquer flor
de reinventar-se em
flor repetida.

O fluxo destrona
qualquer flor
de seu agora vivo
e a torna em sono.

O universofluxo
repele
entre as flores estes
cantosfloresvidas.

– Mas eis que a palavra
cantoflorvivência
re-nascendo perpétua
obriga o fluxo
cavalga o fluxo num milagre
de vida.

E sequer sabíamos da nossa existência. E era apenas o começo da empreita, por isso percorremos diluidamente o fluxo da vida, lendo. Eu, meu duplo e ela:

PEDRA

A pedra é transparente:
o silêncio se vê
em sua densidade.

(Clara textura e verbo
definitivo e íntegro
a pedra silencia).

O verbo é transparente:
o silêncio o contém
em pura eternidade.

Mas precisávamos de um ponto comum, afinal, não sabíamos se estávamos em estado de alerta, de guerra, de sítio, (

STOP

Estado de sítio
estado de sido
estase.

) vegetativo ou lírico. Faltava uma definição que nos conduzisse ao termo definitivo, se infinito ou se fictício. A vida era dura nos dias que formulavam o mapa de onde se dava os termos do encontro. E o sonho, ou os pés gelados atravessando o corredor, às vezes pausavam diante da luz de um abajur – não era lilás –, 22:35, depois de escovar os dentes e tudo parecer que ainda era real e não tinha fibra de luz alguma emanando teias e conformado as coisas em espirais caoticamente controláveis. A realidade existia ainda:

TATO

Mãos tateiam
palavras
tecido
de formas.

Tato no escuro das palavras
mãos capturando o fato
texto e textura: afinal
matéria.

E era nessa hora que nosso peito inflava de gás carbônico, mezzo pimenta, mezzo lacrimogêneo, mezzo silenciamento. E nessas noites não sonhávamos, apenas amanhecíamos com cara de tormenta e pedíamos que nunca, jamais, temêssemos e que mantivéssemos os nossos ódios acesos, claros e salgados, pesando uma tonelada, cabendo em um olho, com diria Mano. E sabíamos que tudo seria

DESAFIO

Contra as flores que vivo
contra os limites
contra a aparência a atenção pura
constrói um campo sem mais jardim
que a essência.

E era um jardim cabuloso. E se fosse rio seria caudaloso. E se fosse sonho, como era, só, então realidade.

Mas eram tempos definitivamente carentes, esquecemos de dizer, e cada glória era uma aleluia e um milagre, mil lágrimas, derretidas, inadvertidamente, diamantes, apenas de dia, nunca amantes. Tudo cortava, tudo ruía, tudo rugia, tudo rangia: nossos ossos entrevados, nossa musculatura tensa e tesa e nunca um tesão tão aflito havia sido posto em prática. E nós três, sem falo, flacidamente como ácidos, berrávamos. Não havia

FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

E foi aí que entendemos que se tratava da lucidez. Não daquela, nem daquilo. O fato consumido, motor da saudade. Era o tapa na cara, a realidade. Não havia mais entregas que não as rugas na cara, os calos nas mãos, o humor ferino, a lentidão, a brincadeira, a imortalidade. E não esquecíamos de Carl: “O sonho descreve a situação íntima do sonhador, situação que o consciente não quer tomar em consideração ou cuja verdade ou realidade aceita a contragosto”. E não aceitávamos nada da realidade.

Certo dia estávamos em plena Rodoviária, sol à pino, antes da chegada dela, éramos só eu e meu duplo. Já prevíamos, mas daí ela chegou e se encostou, novamente, como se nos transpuséssemos para a Rodoviária novamente bem ao

MEIO-DIA

Ao meio-dia a vida
é impossível.

A luz destrói os segredos:
a luz é crua contra os olhos
ácida para o espírito.

A luz é demais para ao homens.
(Porém como o sabereis
quando vieste à luz
de ti mesmo?)

Meio-dia! Meio-dia!
A vida é lúcida e impossível.

E contemplamos, tremendo, do patamar superior, a vida se impossibilitando. Nenhum entretanto. Um marmitex de dez reais no seco ou dois x-tudo com dois copos de refri. Não podíamos mais fazer muita coisa a não ser ver o vai e vem de tudo, até o estalo para o trabalho e manada, gado, rês, nos pusemos em marcha. Sabedores, saboreadoras, de cada minúsculo ponto que vai, só indo, átomos de dinossauros em dispersão, até dar no Sol novamente, senhor de si, senhora de se expandir, infinita. Meramente nossa

HERANÇA

O que o tempo descura
e que transfixa

o que o tempo transmite
e subverte

o que o tempo desmente
e mitifica.

E findo o dia, a volta ao lar, depois da lida, nos lançávamos nos vagões, nós três, intrépidas, no último carro. Era sempre como uma carruagem girando numa roda da fortuna falha, moinho de vento em doses de ventania em cima de uma torre, desmoronando, no sentido da noite que nos consumiria ainda envoltas no

NOTURNO

O silêncio sem cor nem peso
(vacuidade) sustenta
agudas sementes – júbilo –
da lucidez nunca
                            extinta.
Grandes estrelas fixas.

que tão pouco durava e que ainda se abria ao infinito: uma canjica amarela bem cozida, ciganas descendo uma escada ao nosso encontro, um grande catalizador de raios cósmicos sugando a porra toda e um avião desmoronando junto ao céu, mais uma vez. E logo o celular tocava e nos levantávamos e dormíamos acordados com os dentes brilhando e ainda um bafo quente e impiedoso: duas, três horas de sono? Cinco anos de sonhos aprisionados e a vida inteira por vir. Era por isso que a vida só valia sendo vivida sem

AFORISMOS

Matar o pássaro eterniza
o silêncio

matar a luz elimina
o limite

matar o amor instaura
a liberdade.

Daí matamos foi tudo logo: o pássaro, a luz, o silêncio, o limite, o amor e até a porra da liberdade. E agora estamos aí, tendo lido pela segunda vez esse livro dela, duas uniões a menos no mundo, ou três, ou quatro, ou cinco ou quem sabe vinte e seis. E me lembro que antes de matar tudo eu até mandei pra ela, não para ela, mas para ela, uns

LEMBRETES

É importante acordar
a tempo

é importante penetrar
o tempo

é importante vigiar
o desabrochar do destino.

E foi até meio que lindo, porque foi antes da morte. E aí agora sabemos bem qual é a fronteira do sonho, do sono e da surra. Eu ando leve, meu duplo urra e ela continua morta, na sua, retumbando aqui dentro como nunca, contando-me apenas algumas

MENSAGENS

A cor
alada: borboleta
ou pétala?

Fresca asa per
passa
as mãos
abertas.

Sussurro
orelha
caramujo
antena

os cabelos
ao vento.

Tudo tão leve e fácil, que mais crível que ela própria, é a quimera, própria d

O ANTIPÁSSARO

Um pássaro
seu ninho é pedra

seu grito
metal cinza

dói no espaço
seu olho.

Um pássaro
pesa
e caça
entre lixo
e tédio.

Um pássaro
resiste aos
céus. E perdura
Apesar.

E é por isso que agora, ante a seca que se avizinha, me deixo banhar n

O AGUADEIRO

Derramar um
cântaro

um canto
deixar fluir
o novíssimo
encanto.

E ela, não ela, tampouco ela, me disse que entre os espaços dos versos dela, parecia que propositadamente havia um território todo a se ocupar. E foi aí que eu compus essa canção e o caos da época gravou.

Ela: Orides Fontela (não ela, tampouco ela).

Todos os poemas são daqui:

09a77096-93f3-4f89-9746-775b368dd0da

pausa: Orides Fontela

partida: sem pausa

chega de luto.
chega de luta contra si.
a vida é plena e abundante.

problema?

problema é acabar com o racismo, a intolerância religiosa, o machismo, a desigualdade de gênero, as desigualdades sociais, a homofobia, a transfobia, o ódio que martela o coração que acha que sabe amar.

eu não tenho problemas.

eu tenho vida.

que como qualquer e geral, erra.

e da merda nasce flor.

partida: sem pausa

Houve, não se ouviu

Tenho vontade de falar, mas tudo deveria ter sido dito antes, naquele não momento, naquele lapso que quase existiu. E como o tempo todo foi perdido para que coisas sejam ditas, não falo. Como sempre fiz. Por não falar é que imagino a cena, era como se você estivesse ali, mas não ali, como sempre, talvez dentro da sua cabeça, dentro de si, eu só inexistindo, sem saber onde por as mãos e a aparência de ser. Eu diria algo que não teria volume para mover o ar e voltaria tudo para a minha garganta e viraria nó. Você sairia para lá e eu me moveria como se tivesse matéria, até algum lugar e não teria dito, mais uma vez.

E agora tudo não será mais dito, como não foi.

Pego a memória e falho, o nó é cultivado a tempos, não é de agora, é de antes do não momento provavelmente. Já não choro, assim como não falo. A roupa de escamas e pelos e bestas e cascos e gosmas é o que visto. E urro, grito, berro. Assustador. Essa é a minha inexistência nesse momento, até que não existirei de fato, como senti não existir em mim ou em você. Mas não falei. Meus monstros serão sua memória, até não ter mais memória e só existir não momentos. E a gente não terá sido, assim como eu.

E nada será dito, amanhã.

Houve, não se ouviu

3799. Tempo de dor

Desculpa-me, meu pai
mas é muito difícil
entender os seu sinais

meu peito nasceu na
ignorância
e continua a desaprender
e a cada lição
compreende menos

Falo de peito, meu pai,
porque a cabeça
funciona aos solavancos
e só vai, posto que não para

O peito não,
o peito para
e costuma querer parar
todo o resto
a todo instante

apenas por mania
de buscar não existir,
como naquele saudoso
tempo em que não existia,
o tempo de antes de mim

Perdoa-me, meu pai,
sem rancor,
mas o tempo
é de dor

3799. Tempo de dor

pausa: nas terras de meu pai

O porquê da poesia? Nunca saberei. Como ela vai, como ela volta, como ela fica. Quando ela fica. Ela apenas vive, com suas idas e vindas, como eu, como nós. Nunca entenderei o que me levou a ela ou como ela me encontrou. Posso recuperar as sendas da memória e encontrar resquícios de motivos, mas eles já não são a razão. O arrumado ou o emaranhado das palavras além do corriqueiro do dia me ativa, respiro-as e quando elas entram em meus pulmões, parece até que são o próprio dia a dia. Ainda que de quando em vez me falte ar, ocorrem então essas lufadas de palavras, poesias, que me abrem a cabeça e o peito e me ventam tudo por dentro. E eu me vejo ali, sentado na areia branca fina, de frente pro mar, nas terras de meu pai, como ele, senhor da paz, numa

Manhã de Pescaria
(Paulo Cesar Pinheiro)

À luz da aurora o barco zarpa
A praia ainda está vazia
As águas fazem som de harpa
A brisa inventa melodia
E sangra o céu feito uma farpa
De sol na pele azul do dia

O mar se agita de repente
Mas sem nenhuma ventania
O sol ainda não é quente
A onda é quase calmaria
E a gaivota voa rente
Atrás de boa pescaria

E foi manhã de pesca boa
Na areia já tem companhia
O peixe pula na canoa
Fica mais forte a maresia
E o pescador no vão da proa
Entoa um canto de alegria

O mar se agita de repente
Mas sem nenhuma ventania
O sol ainda não é quente
A onda é quase calmaria
E a gaivota voa rente
Atrás de boa pescaria

E foi manhã de pesca boa
Na areia já tem companhia
O peixe pula na canoa
Fica mais forte a maresia
E o pescador no vão da proa
Entoa um canto de alegria

pausa: nas terras de meu pai

pausa: setembro

Tudo o que vive, respira. E todo o tudo, pouco tem me inspirado. A bagunça ordenada do mundo não tem ajudado. Continuo estudando os astros, na esperança de compreender o que tem ocorrido em mim e ansiando por respostas para o que vem se passando com o mundo. Dei uma pausa na ciência, que bruta e afobada, pouco me ajudava. A poesia também coloquei de lado, me tem sido superficial, parece que há uma casca grossa colada em minha epiderme que não tem deixado nada penetrar. Pode ser meu momento no mundo ou o próprio mundo, só sei que tenho escrito pouco e tudo que sai parece piegas.

Pode ser por causa de Setembro.

De todo modo,     vou ficar com o samba,     pelo menos,     só,     por enquanto.

pausa: setembro

3759. Do solo

Era o vasto
a imensidão

Um demônio separava porções
um espírito guardava limites
um tabu dava o contorno

Até o rio da água vermelha,
o conhecido

Além da pedra do irmão perdido,
o temor

Depois da curva do horizonte em mar,
a queda

Os passos apinhados da experiência
como a ancestralidade de saber a terra
conhecendo o que se compartilhava pelos pés

Ouvia-se com atenção as palavras
das superfícies
que contavam caminhos, sendas, passagens
e das cabeças, as cabaças da memória,
que falavam dos voos
dos barcos
das entranhas calcárias

E havia um respeito pactuado
donde a guerra só aflorava
dado o alinhamento dos planetas

Em alguma beira da história
isso tudo se perdeu ou foi engolido

E do medo, o poder sem limites
brotou como muralhas, limitando

E de pedras sobrepondo pedras
pátrias nasceram
acima do sangue que corria

pelo vasto
pela imensidão

3759. Do solo