pausa: aleatário da nova morada #1

Cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Um corte no polegar esquerdo feito por uma faca de serra quando tentava cortar o fio que amarrava o maço de manjericão que eu amassei junto a alecrim e hortelã na tentativa que meu Pai Oxalá me ajude nessa função de ficar bem. Tomei dois Ansiodoron – maracujá, aveia e valeriana, na medida exata pra tentar controlar a sua ansiedade, só que não. Dormi um sono vespertino abafado e confuso, misto da playlist que a Alessandra Leão fez no Spotfy e que escuto ainda agora, e uma profusão de sentidos se comunicando – sentimentos, pensamentos, sensações. Sentia meu corpo formigando incessantemente, intensamente, como se todas as minhas células estivessem mais ativas do que o normal. Tirei o Whatsapp do modo de não exibir notificações, para ver se eu parava de querer olhá-lo de cinco em cinco minutos na esperança de que houvesse algum retorno. Não houve. Não há.

Cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Trinta e cinco anos passados desde que vim ao mundo e ainda ajo como se fosse um adolescente de quinze, na frenética e ansiosa espera de que a realidade corresponda aos meus anseios. Mas ela não corresponde, nunca. Aluguei um apartamento de um quarto em Taguatinga Norte. Nono andar, prédio velho, cheio de velhos que moram aqui. Arrumei tudo com muito apreço e esmero, como sempre me dedico a essas questões de lar e cá estou eu. Eu e um vazio. O apartamento já está devidamente mobiliado, ainda faltam alguns elementos que desejo, como uma máquina de lavar e uma televisão, mas, meu Pai, como tudo anda caro nesses dias.

Cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Não sei muito bem o que pensar. Agora há pouco fui à casa da minha mãe, deitei-me no sofá dela e assisti um pouco de televisão, brinquei com o gato Trovão e cochilei alguns minutos enquanto lutava para parar de pegar o celular e olhar o Whatsapp, a vida de um ansioso é uma coisa perturbadoramente aflitiva. Dá um negócio abaixo do peito e acima do estômago, dá um negócio no meio da gente, no centro e irradia para todas as extremidades, o esôfago é quem sofre mais nesse vórtex ao contrário. Almocei por lá e na volta comprei uma cortina que faltava para o apartamento. No caminho me vinham versos, coisas, imagens, tudo meio agressivamente solar e desesperançoso. Ficar triste no meio do sol é algo desolador, desesperador. Ter vontade de chorar junto aos transeuntes todos tão tranquilamente correndo em prol de suas vidas, no meio da avenida Comercial Norte, no meio do sol, dá vontade de chorar. Mas não chorei, só alimentei esse nó no meio.

E cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Em 3018 será que ainda estarei assim? A recorrência me leva a crer em um não aprendizado contínuo, vida após vida, moto-perpétuo cârmico de não entendimento. Mas qual será a lição? O que esses átomos que se aglutinam em mim me dizem e que eu não consigo fazer diferente? Mesmo com o Whatsapp no modo de exibição de notificações ainda olho furtivamente o celular, na esperança de que algo houvesse falhado e que sim, houvesse comunicação. O diabo é pensar na culpa, acreditar em uma culpa que agora não tendo forma, corpo e situação, se instaura no amargo das palavras ditas. Não dizer será a resposta? O aprendizado? Talvez o desneurotizar. Mas como se aprende a não ser neurótico?

Cá estou eu, dez de janeiro de 2018. Clamando aos Orixás que me deem o alento mor tão desejado de se sentir em paz, mas esse estado me é fugidio por demais. Escorrega sempre pelas minhas mãos, ou, como no caso, pela minha língua. Esse nó é escroto e demasiado, mas não consigo sair dele, ou ele não consegue sair de mim. Versos agressivos me vazam e eu não tenho coragem sequer de os transpor agora. Dá medo lidar com o medo. Ele berra por demais de quando em vez, agride, soca e faz cócegas com o corpo amarrado. É risonho esse meu estado, risível, risossonho, mas é o meu estado e sair dele é um trabalho dos diabos. Eu podia fazer mil coisas, mas o apelo por fazer nada é maior, talvez seja isso que o meu corpo esteja me falando: faz nada, por favor. Minhas costas doem. Desde o meio de 2016 venho num estado maluco de fazer, de correr, de executar. Primeiro foi o emprego, depois o fim do casamento, depois a ânsia por mudar de casa, sempre fazendo. Houve só um momento em que não fiz, em que fiquei com ela simplesmente não fazendo e acho que isso que foi bom e que me atraiu tanto. Mas daí vida vem, resoluções tem que ser tomadas, se descobrir, se encontrar, fazer terapia, desbravar matas selvagens e no fim esbarrei com um lugar louco e encoberto, não sabia sequer como agir com as palavras, tanto é que pouco escrevi esse ano. Aprisionado num rolê de se sacar. E o pior é que talvez não tenha sacado porra nenhuma, afinal, cá estou, dez de janeiro de 2018, com uma coisa densa no meio, como nos idos de 1998. Igual que nem.

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