3908.

há uma lição
ainda a ser compreendida
nas imagens borradas
instaladas atrás das transversais

três gerações atrás
pra mais
no lusco-fusco das
memórias não apreendidas
                   tá no corpo
                   honra & desonra
                   catarse de movimento
                   incompreensivelmente
                   voluntários à vontade
                   dos músculos dos ossos
                   dos nervos

há essa lição que são várias
despercebidas porque
desensinadas
                   ninguém aprendeu
                   não houve silêncio
                   dentro do fogo
                   dentro da’scuridão
                   vozes ritmadamente
                   guiando os movimentos
                   dos corpos a compreenderem
                   os enredos dos seus
                   motivos de fluírem
                   dentro do espaço
                   tal e qual são

essa lição é dessa terra
subsolo e sub-versa
reverso da voz temerária
atemporal da pátria
                   é teu corpo quem fala
                   células de tatarás

a desobediência se viu
desde as auroras transatlânticas
até os ocasos pacíficos
                   corporificada
a cordialidade foi forjada
obediência servil
letra por letra nas páginas
oficiais
                   enfiada

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3908.

pausa: nas terras de meu pai

O porquê da poesia? Nunca saberei. Como ela vai, como ela volta, como ela fica. Quando ela fica. Ela apenas vive, com suas idas e vindas, como eu, como nós. Nunca entenderei o que me levou a ela ou como ela me encontrou. Posso recuperar as sendas da memória e encontrar resquícios de motivos, mas eles já não são a razão. O arrumado ou o emaranhado das palavras além do corriqueiro do dia me ativa, respiro-as e quando elas entram em meus pulmões, parece até que são o próprio dia a dia. Ainda que de quando em vez me falte ar, ocorrem então essas lufadas de palavras, poesias, que me abrem a cabeça e o peito e me ventam tudo por dentro. E eu me vejo ali, sentado na areia branca fina, de frente pro mar, nas terras de meu pai, como ele, senhor da paz, numa

Manhã de Pescaria
(Paulo Cesar Pinheiro)

À luz da aurora o barco zarpa
A praia ainda está vazia
As águas fazem som de harpa
A brisa inventa melodia
E sangra o céu feito uma farpa
De sol na pele azul do dia

O mar se agita de repente
Mas sem nenhuma ventania
O sol ainda não é quente
A onda é quase calmaria
E a gaivota voa rente
Atrás de boa pescaria

E foi manhã de pesca boa
Na areia já tem companhia
O peixe pula na canoa
Fica mais forte a maresia
E o pescador no vão da proa
Entoa um canto de alegria

O mar se agita de repente
Mas sem nenhuma ventania
O sol ainda não é quente
A onda é quase calmaria
E a gaivota voa rente
Atrás de boa pescaria

E foi manhã de pesca boa
Na areia já tem companhia
O peixe pula na canoa
Fica mais forte a maresia
E o pescador no vão da proa
Entoa um canto de alegria

pausa: nas terras de meu pai