Arrebatamento

Quando a moça branca de sardas bem desenhadas pela fronde rósea perguntou-lhe sobre a forma de chegar ao Saco do Guapereta, Gervásio, ao lado da turista perguntadora, respondeu-lhe gentilmente que era só seguir até o último ponto dessa linha que ia para a Vila do Velório e, por detrás da Igreja Matriz, chegar à trilha que culminaria no saco, mas não sem antes percorrer-lhe a mente inteiros travestidos de clarões, pedras de corisco por dentro da cabeça, pedras de Santa Bárbara feitas nos meios do anuviado da memória e ela toda fazer-se ali, tantos anos já passados, tantos sóis contornados a pretear mais a pele, e ela ainda assim ali, intacta: Ana Luíza que luzia sua lembrança em brasa, mulata fogoió dourada das areias do mar, o bico do peito roxo tonteando as pintas ferrugens no colo dos seus beijos, o avolumado dos seus quadris engalfinhado nas ancas largas e proporcionado nas panturrilhas redondas, esculpida no meio da areia do mar, ela ali mais a dourar, estirada sobre a esteira de palha, a Praia da Preta vazia que só cheia deles dois, ele teso como quem prestes a explodir num toque macio, ela ouriçada com a mão na vulva chamando, me come, vai, e o Saco do Guapereta subindo a temperatura acima da margem de segurança para uma quarta de outubro, dia de feira. Veio-lhe assim tudo isso num repente profundo e num lapso de cinco segundos, ao que a turista rosa agradeceu-lhe, muito obrigada e Gervásio subiu aos céus de dentro do ônibus, seu corpo como que nem peso houvesse, só praia e areia espalhada, espraiada pelo ar, flutuoso movimento de quentura e Ana Luíza, todos vendo pasmos em suas janelas dentro do ônibus Gervásio explodindo em mil fragmentos de ferrugens pelo ar. Naqueles fins, o arrebatamento era algo que ninguém entendia.
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Arrebatamento

4062.

Ela tinha tentáculos espiralados
que saíam da cabeça
e eram dezenove
Nunca compreendi a numerologia,
mas ali fechava um
O mundo lha dissolvia em sal,
ela vertia
Mas havia um buraco em nossa frente
e falei para pularmos
Ela recuou três passos atrás,
o buraco era escuro e muito,
fundo
Abriu as ventosas dos tentáculos
e pregou-os numas raízes de fícus
que rasgavam a calçada
Eu descarreguei meu carretel
e me empinei,
a linha se prendeu nos galhos do fícus
Ela mexia seus tentáculos
e a árvore balançava,
eu embicava no ar e o rasgava

Sempre haveria aquele buraco
em nossa frente
Ele tinha uma escuridão bonita e vermelha
da matéria de sonhos

4062.

4061. Para Mao

Toda hora você pensa que pode conseguir sua autonomia de volta
a cada respiro a mesma imagem mental vulto de pensamento
vulgo pensamento
vulgar
volta:
Conseguir as rédeas do próprio cérebro
reconduzir a dinâmica das próprias sinapses
sem pró-bióticos ou alopatia
sem ervas ou espíritos
Mas a morada dos pensamentos insones ocupa mais que a cabeça
– terei o controle! serei o puro equilíbrio!
e num instante tudo retorna ao mesmo ponto de descontrole:
cirza as cuecas, requente o almoço, prepare a aula, passe a roupa
lave a casa, lave o pinto, leve o peso, levante os halteres, lento o movimento
perfeita a conduta, não se atraia, não traia, não tente, não atente
atenção plena, planeje e executa, penteie a barba, paste o dente, pasta de berinjela
não coma a vida, não coma a morte, observe o câncer
frite apenas dois minutos de cada lado para o ponto ideal
acenda uma vela, bata a cabeça, vista branco, ventile a casa
cuidado com a pressão, tome o remédio, olhe o fígado
desopile, fume um, beba uma dose, dance, denso dedo no gatilho contra a cabeça
diásporas que não findam, inquietude de Maya, encarnação furada, deu errado
tente outra vez, password, reset, try again
ame com pureza, dê liberdade, liberte-se, leia a mídia alternativa
veja esta opinião, siga os signos, tautologia, hermetismo, Marx está certo
controle a boca dos outros, imponha respeito, mantenha o respeito
assista à live do louco, é loucura ou perversão? é burrice ou bestialidade?
são as mesmas coisas numa moeda que não vira
e de novo a condução parece simples e fatal:
Conseguir as rédeas do próprio cérebro
reconduzir a dinâmica das próprias sinapses
sem algorítimos ou alegorias
sem endorfinas ou suicídios

Toda hora parece ser a derradeira em que o que você quer
se manifestará plenamente sem nenhum adendo ou pitaco de aplicativo
ou teorema de bem-estar ou pisoteio de filha da puta de farda, bata ou túnica
maçônica ou canônica ou tônica ou biônica ou fônica ou supersônica
– passe de mágica mindfulness; depois de quinze minutos de meditação
por duas semanas consecutivas brotou ou rebrotou o meu eu pleno de seu vazio de eu
com a certeza calma e doce de que tudo perecerá como dor e tambor
saraivada de saravás que direcionam o torto ao reto e à retidão
 
 
 
Mas por onde anda a voz que revelará o que não consegue sair da cama?
– levanta e anda! ele disse –
– como se fosse fácil, filho da puta –
E cega a mente se repete sem seguir caminho algum
dia após dia
noite após noite
num ermo campo de ideias em choque deixando imóvel o corpo
sempre aderente a um rasgo de alma

4061. Para Mao

4060. Sofre de cegurança

“O Rei do universo é o supremo Anarquista criminoso”
(Slavoj Zizek)

Meteu-se ali num cofre
junto aos pisantes
aos possantes
aos diamantes
às peitas
cada qual mais de dois k

Meteu-se ali num camarote
junto à ciroc
ao engov
ao pós-pagode
ao suor da sorte
tudo mais de cinco lives

Meteu-se ali num condomínio
junto à jacuzzi
ao coach influencer
à varanda gourmet
sem nenhum mimimi

Meteu um tiro
no espelho
e adentrou ao paraíso
com sete virgens
quando morreu e o da antena transmitiu:
“mata, mata, mata!”

Viveu tudo o que seu bandido deseja,
numa potência loka

4060. Sofre de cegurança

4059. Mussambê

Solitariamente diluído
falo uma língua inaudita
fruto de uma história que
não se cruza:

flor que nasce do perigo
de empenar a esponja
quando tudo é
Peri
gozo,

onde nenhum
labirinto de lábios
suportaria pelekus
labrys
oxês,

e o ritmo é que
cadencia os passos
e conduz as veias
sobre as contas
dispersas na tábua de Ifá.

Mesmo que seja
o caminho púrpura de Iku,
esse jogo deu Odara,

vamos.

4059. Mussambê

4058. Deseducandário I

Estava com os olhos
absortos sobre suicídios
exemplares,
no abafado enjaulado
do entremeio de fileiras
solitárias e repletas
da sala de – inércia
e panela de pressão –
aula;
duas me inquiriram:
do que tratam as páginas,
professor? – adestrador
de corpos e hormônios
entre conexões desenfreadas.

[Pasmei os segundos
procurando o que dizer,
sem tirar – ou colocar –
o vislumbre de vida
ainda repousante nos
parcos ombros de
doze translações.]

Falam sobre a vida
e o universo de a ter
e a tirar, como Ele,
disse.

Olharam-se e se riram contidas,
aliviei-me aflito,
ainda não percorreriam essas sendas.

4058. Deseducandário I

4055. Desabrigo

Deglutir e mascar
o que te condensa
e depois o que te condena,
o que te coordena
e comanda.

Uma após a outra
parte que te encontra
e entranha.

Eu me perdi de tudo
e o vislumbre que
aproxima é o amargor
de uma paisagem sem
palavras complementares.

As fantasias que colecionam
são diálogos imaginários
e pedaços de esperanças,
farpas travestidas de dedos
e desespero em verso e versa.

ME matem num descampado
e coloquem um boneco
para me substituir
e soquem sua cara todo dia
e se lembrem de mim
a cada soco
e me enterrem em areia
e coloquem faias em minha
cobertura
e defequem por cima,
ao terceiro dia
ressuscitarei no corpo
do boneco sem carma
e farei desafios como
os da baleia azul
para jovens de trinta anos.

Há que se deixar a dor
e o odor falar, flanar, estampar
a cara e a carne.

Ondas de valor débil
e aspecto hostil
a qualquer cidadão de bem.

A sobrancelha tensa,
a testa franzida
e a fronde como um bife
batido a marreta.

Regurgitar, como gado.

Ser a ovelha, o novilho
e o cordeiro para o abate
e o arremate no leilão,
arrebatados os corações destituídos
da lição menos efêmera de todas:

a vida é um desabrigo.

4055. Desabrigo

4053. sem oferendas

aparelhos ativados
sensores ativos
monitores ligados
câmeras focadas
microfones capturando em três, dois, um

palavras ditas na penumbra
ganham luz sob o verde e o azul
armados verbos das palavras
douradas no amarelo
te dizem no espelho:
teu segredo é falso
tua imagem é falsa
tua mente apagou, sem backup

modulações eletroestáticas
mágica pura e telepatia

todo patuá banhado de metais nobres
em oferta, sem oferendas

4053. sem oferendas

4052. a chave

primeiro foi a liberdade do amor
cortei-a na base do machado
depois vieram os orgânicos
e se achegou a yoga e o crossfit
agora abandono a barba e o cigarro
com o beiço em bico
amanhã deixarei a bebida
e virá kant, meu pet cão ético
e christ-cat, meu pet kant felino
e o fim etílico

daí meu corpo destilado
pronto para estar ao lado
da direita e de deus pai
atento e forte
para a segunda

vinda

da militarização evangélica

sentido!

não pelo a, mas pelo te

mor,

te

4052. a chave

4047.

Te amo,

como as nuvens ao encontro do lamaçal;

como o pântano esbarrando em beijo o arco-íris vindouro após o temporal;

como a chuva irradiante de clarões solitários dentro do estrondoso encontro das paragens solares que esfacelam o lodo, o limo, o lume, o brejo e o adentram em ondas fluidas de espessura e cor;

como o movediço manancial de plantas derretendo ao ácido dos alagadiços pegajosos de visgos de terra e barro e matos feitos betume incorpóreo e denso diante do céu límpido e azul de aprofundar-se nos vastos retalhos fractais que engendram engrenagens invisíveis até a escuridão do profundo sideral que é teia e movimento e espelho daqui e de além.

Te amo,

e é livre.

4047.

4046.

Para que esse estertor torto todo?
O controle te controla: trave!
Tolde e molde e tolha.
Aceite essa trolha
que tudo te prende
te ata.

Carvalho, o carnaval
é só orvalho, o aval da carne
para os nódulos das grades cinzas,
caralho!

Um cala boca loka
no grito efusivo e explosivo
da turba turva confusa.
Não há desbunde,
só controle
só consolo
como troll, freak control,
fucking trolha.

Abaixe a guarda, Carvalho,
não existe voz interna,
só o aglomerado urrante
das expectativas outras
marchando na sua cabeca,
mexendo nas suas têmporas:

sentido!

4046.

4045. tautologia do espírito entre a destruição e a ascensão

recuperar o ar e o arrepio na cabeça

entre o anseio pelas granadas e a degola das cabeças

meditar cada dia cinco minutos a mais adentrando o céu

transmutar a dor dessa terra pelo céu que nos é imposto

admirar o barco zarpando pela pele até tocar as folhas das árvores

rebocar as paredes com sangue e cimento cozidos durante os périplos dos vagabundos

arrebentar-se nos corais das bocas em palavras multicoloridas de peixes e paus

significar os estratos das camadas de gente empilhada e as hordas de terroristas puros

de perto tudo se ocasiona nos ocasos do oriente que arrebenta e cinde as camadas dos hemisférios místicos

é tudo uma constatação abaulada e desidratada que busca as nuvens

nenhuma utopia ainda

heterotopias de heroicos héteros habilis rasgam minha face

e as granadas e as cabeças rolando

e o arrepio na pele à primeira hora da manhã
ainda há de ser um encontro possível
para a vida
como permitir-se pássaros pela cabeça
diante de uma serena explosão

4045. tautologia do espírito entre a destruição e a ascensão