4173. Autopia

Pela criptografia dos vazios e dos unos
a mensagem estanca a utopia,
o meio pelo qual vaza o devir.

Desagrega o código
e ressuscita o mensageiro
morto em combate:

Lá detrás dos oceanos,
por debaixo das profundezas,
engendra o casulo do conforto
concha polimorfa em que tudo cabe
vazia e una.
O dourado é intermediário
entre nascer e morrer
e lá se instaura o quimérico,
seu antimeridiano reluz o intermédio
em plena escuridão.
Seu brilho disfarça o negrume.
Entre poente e nascente
é dia e noite,
dentro da luz, depois da luz.
O infindável que margeia
onde estaremos,
planta betuminosa que fornece
a luz em sua carne
e cerne das cores que carneiam
a vida,
é morte.
Não há norte ou sul,
há circunferência e expansão.
 

Não se engane, o azul do céu é negro.
Nosso não lugar.

4173. Autopia

4171.

(43x² – 22747)º
era o dia da prisão
minto que está tudo bem
benzo o banzo pra ser bom
bombeio o sangue na veia ainda
dano-me a desdizer o todo
to dolorido de tanto deitar
ar me falta nessa parede
rede me enlaça virtual e físico
zico a praga pra ver se ela se move
vejo além do horizonte emoldurado
doo meus bens a quem passa fome
me meto num buraco escuro
curo as chagas que se expõem
põem claustro as ordens governamentais
tais lendas serão lembradas se eu me for
formam concreto os pensamentos que não param
ramos de arruda ajudariam na imunização
ação inerte que se espatifa entre paredes pra onde vim
vinte e três dias passados
dos que ainda virão.

4171.

4167. Do aproveitamento do mito

“Ninguém se ilumina imaginando figuras de luz.”

Dissolver as partes
asquerosas é tarefa
que redunda tempo
e luz por dentro das
entranhas.

O tempo de observar
o pútrido que secretas
em segredo como
pus a explodir pela
superfície da epiderme.

E ardente interno
ferver as seivas
doloridas que não
tem espaço de circulação
e que entopem veias
e artérias.

O tempo é de se
apoderar do mistério
da negação
iluminando as trevas
para que sejam trevas
tornadas trovas
diante do avolumado
do mundo.

Vai com medo mesmo
que ele te habita.

4167. Do aproveitamento do mito

4166. Semiótica semiológica

o sinal é o sintoma
a linguagem inscrita
na falta de ar
na seca do mar
de se adentrar

antes mesmo de ser
quase vida
o além tátil
de um componente
dado informacional

já matava

camada fina invólucro
agora
de gota em gota
transpassante

viralizava

era feito de homens
e mulheres feitas em homens
e se disseminava
e se dissipava como
dente, em vento, de leão

efêmero e destruidor

o sintoma já era
um gélido calor
na ponta dos dedos
irradiando um gelo
do porvir
polvilhando de agoras
uns amanhãs incertos

arrasador

não via destinatário
quem já posto às
raias de alvorecer ao fim
da segunda guerra mundial
ou quem nativo
das nações dos dedos
desse particular alvorecer
dos novos mil
cem
dez
e de quem entre booms
x
y
z
e o big-bang que virá
numa invertida

cômico

sardônico e sádico
já era viral
era virótico
na base do virote
de gole em gole
míseras combinações
pixelares e pulsares
lacrava-se ao inverter-se

intratável

acometia tudo que tivesse
cérebro
e se instaurava
no caminho do meio
entre o afã e o desejo
no pulso do peito
causando fadiga
e perda do tônus do tesão

paumolente

ainda não era microscópico
era também
mas imagético ao extremo
assassinava primeiro
a reputação
e pulsava anseios
de voar em linha reta
da sacada até o asfalto

mutante

2.0 e beta
teste e testa
besta e fera e besta
nunca bastava
e ao final do primeiro
ano do final enfim
o milênio do agora vai
e do agora volta
– reungido e cordeiro confinado –
matou-se a si ressuscitado
e mutou-se em vírus real

já era viral
agora
voraz vai

numa simbiose bioeletrônica

4166. Semiótica semiológica

4164.

Meu corpo pode ser
uma bomba viral,
certamente é uma
bomba semiótica,
ainda uma fonte
de disparos seminais

eu, um ciborgue
de matéria indefinida,
um amontoado binário
proteico, etéreo e material
eletrodo

minha determinação real
desmaterializa-se
em dados e vírus

eu, trago o gérmen do futuro

traço no escuro

e urro

4164.

O antiprojeto (sem referências bibliográficas)

Não é um antes do projeto, é um anti, contra, não projeto. As coisas se apresentam para nós como uma projeção do que virá e não como as são. A quantidade de projeções que fazemos nos coloca em conflito constante com o que é. Projetamos casas, sociedades, sistemas produtivos, casamentos, amizades, festas, orgias, economias, celibatos, mortes, democracias, vidas, ditaduras, após mortes, pré vidas, deuses, florestas, pessoas, ecossistemas, amores, vírus, ódios, doenças, ruas, computadores, redes, famílias, passados, futuros. Projetamos. E nos lançamos nesse mundo de projeção como se o que nos constituísse fosse o próprio projeto, o ideal, o vislumbre do cenário posterior. A vida se dá numa ponte constante entre a imperceptibilidade do agora e o anseio pelo vir a ser. Neste momento a coisa vindoura não tem forma, nem matéria, nem sensibilidade, nem existência, mas já se apodera de nós como se fosse algo presente e com tal intensidade que rouba a própria existência do agora. Eu faço o que faço agora, porque algo virá para lhe validar: o respeito, o reconhecimento, o pagamento, o gozo, o sucesso, o fracasso, o desalento, a destruição, o renascimento, a dívida. Mas o que virá, quando vem, se transforma em novo momento não vivenciado, apenas ponte para o que virá novamente a partir daquilo que veio e que, quando vivido, não se transformou em presente, mas em momentâneo passado, impreciso já, desforme, projeto do que foi, projeção. Ideia. É ela que funda esse virá constante, tudo como um escopo desejado ou não desejado mas esperado, projetado. Fiz merda, logo irei me foder. Premissa básica. Mandei bem, logo irei prosperar. Premissa ansiada. Mas tudo no passado: fiz. Pode ser colocado de outro modo: estou fazendo merda, logo irei me foder. Ou estou mandando bem, logo irei prosperar. Mas estar algo é deixar ao algo uma condição de não existência por si, em si, no agora. Faço merda e a vivo agora, enquanto merda existente, em mim, por mim. Mando bem e o vivo agora, enquanto o bem existe, em mim por mim. Equação de difícil consistência nesse quadro histórico. Por quê? Porque tudo agora é demais, a mais, sobra. Multitarefa, multipresença, hiper-conectividade, superestímulo. A composição do que fazemos e do que nos faz é de tal ordem que a identificação é quase nula. Quanto mais variáveis a equação, menor a possibilidade de resolução a um mero humano. Variáveis de toda ordem ainda se aglutinam e complexificam: materiais, biológicas, emocionais, sensoriais, históricas, ideológicas, sociais, culturais, mentais, cognitivas, espirituais. Certo que desde sempre estiveram todas imiscuídas, mas entre ter um ou dois exemplares de uma ordem de variável qualquer é diferente de ter vinte, trinta exemplares enfiados um por cima, ao lado e embaixo dos outros. Onde sobra espaço para observar cada ordem? Quiçá para observar a necessária desordem do caos que nos compõe? É tudo uma aleatoriedade imprevisível. Mas buscamos um cosmos. Não no agora, mas no que projetamos enquanto substrato de ordenação. Da inadequação aparente e sensível entre o que se compõe o agora – caótico – e o cenário idílico ou turvo do virá, emerge um lugar mais ameno do que a profusão do momento presente, uma utopia, um não lugar: o projeto: quando eu acabar isso… tão logo eu consiga aquilo… no dia em que eu fizer algo… onde tudo acabará… assim que estragar tudo… É confortável, te exime do agora, te lança para a utopia, preconcebida, imaginada, intangível, feérica, leviana, horrível, seja lá qual é o seu mote de expectativa interposto entre o imprevisível e o compreensível. É uma questão de segurança. Estamos em uma savana, cem mil anos atrás, um exemplar da espécie humana recém inaugurada sente medo – algo inerente, trabalho esmerado de milhões de anos de apuro evolutivo para a manutenção genética –, um barulho fez-se ao lado vindo do alto de uma árvore, ele treme, ela treme, um leopardo? espinha ereta a percorrer correntes elétricas de taquicardia. Um babuíno, apenas. O corpo relaxa, os músculos descontraem. Alívio. Segurança. Anos de apuração visual, olfativa e auditiva depois, acúmulo e mais acúmulo de experiências e o resultado: a segurança do controle da situação à identificação do leopardo real. Simulações em sonhos. Projeções do que poderia ter acontecido dada a experiência passada. O melhor é não sair à noite, o melhor é o fogo, um bando, um abrigo, uma lança, uma oração, uma forja, uma pistola, uma área de proteção ambiental, um satélite de monitoramento, uma transliteração espiritual, uma política pública, uma multa, uma sentença de morte: segurança, a mãe de todo o controle. O pai de toda a projeção. Eu controlo a natureza para ter segurança. E a segurança é um cenário do que pode ou não acontecer, não é medida para o agora. Não é medida no agora. Ela é uma negação positiva de uma antecipação: estou seguro porque não… Nunca é seguro porque estou ou sou. Impermanente. Tudo é. A segurança nunca será permanente, nem a paz, nem a dor, nem a felicidade, nem a perda, nem o amanhã. Nem a eternidade vindoura. A eternidade não virá, não será, ela só pode ser. E ela é. Agora. Contraditoriamente repleta e vazia. Nem começo e nem fim. Por isso, o antiprojeto. Adentrar na eternidade é antiprojetar, o medo ainda vai continuar, assombrar, assomar. Antiprojete sua vida e sua morte, como se fosse agora, porque é.
O antiprojeto (sem referências bibliográficas)

4162. O Krakatoa sabe

Vai desabar lava
fogo que vai
desabar lava
pra queimar o que tem que queimar
pra queimar o que tem


vai desabar lava
e é pro nosso bem

como as lâminas de raios e séculos
aglutinados nas raias do repouso
rarefescendo o ímpeto de vida que nos irrompia
e rescendendo o medo e a ânsia de e pelo fogo

pausa e contempla

o ar se alastra como sempre nos cobriu
a seiva pulsa como sempre nos alimentou
o sangue corre como sempre respondeu
a terra corre nascendo o tempo

tudo treme inteiramente
e a flama não cessa
de dentro das entranhas o movimento nasce
e se lança para o infinito

o caos é belo e horrível
e derrete certezas
e beija a escuridão rumo ao impossível

que somente ele é

4162. O Krakatoa sabe

4161. convive 1

escorre pelos dedos e pelas brenhas dos neurônios um nada que acomete a força dos dias em se desdizer o ontem de proto felicidades que somente seria no dia que virá. agora o virá virou apenas a expectativa do amofinado anterior que a tudo conduzia cinzas das horas mortas na ânsia de que não seria em momento vindouro. agora é espera de cinzas em urnas e funerárias em admoestação contra o que perturba. a falta da turba e a visualização do espectro de sombras e destroços que impeliam o corpo à inércia pede apenas que tudo seja dito relutantemente. é um incômodo por não acabar. sentar-se à varanda. sentir a companheira não querer sua presença e ansiar a sua presença e não poder falar porque nada pode ser dito nesses dias de vigília e de vidigal. tremores e arrepios se lançam elétricos sobre a pele e sob ela alquimias transacionam mais um semblante de vazio e de vaguidão por entre as horas. espero o nada e ele já se apresenta.

4161. convive 1

4152. pânico

na zona sul, na zona norte
ao longo do caminho azul para a morte
ao largo do cru da carne exposto ao corte
tá aqui a cardia do músculo
atacando o nervo e o pulso
cair em si num repente é sorte
cair de si num vórtex
a mente qual entulho torpe
o corpo estica e o peito encolhe
e treme a base e a razão escorre

ao sinal de ataque

não entre

se solte

4152. pânico

4151. como aprender sem o youtube

primeiro é preciso saber ler
de bom alvitre escrever
mas para ler bem, tem que se ler
e para escrever, também

depois deve-se ter livros
e lê-los
e discernir metáforas
e entender as proposições lógicas
e encadeá-las:
uma coisa leva a outra, logo, pois

há que se atentar para o acúmulo:
antes do quadrado
há a reta
antes da reta, o ponto
– ainda que sem definição coerente não representacional –
e dessa feita, chega-se, alhures,
ao que gravita,
nalgum momento se chega
achega
– nesse ponto, paciência e perseverança
são adjuntos

uma abertura para o que rodeia
é preciso tanto quanto:
a pena branca que despenca da janela
o atrito da serra na madeira
o cacho do cabelo dela que deságua
a luz que incide na folha,
uma coisa que mora lá além da fachada
– tem algo ali, pressinto!

daí se investiga e sopesa
e pesa e mede
e se atina
e retoma a lição dada
e se encaixa,
momentaneamente mesmo,
que nada tá dado ou decidido,
tá na beira da definição
e da indefinição, tudo

daí se saberá algo
transitório que seja e belo ou feio,
até a próxima surpresa
que não surgiu de um feed

mas tem que ser com o que te encanta
e dentro de si, canta
em algum canto, ainda que escondido
recôndito dito só a si,
seu

aprendido e solto
como tudo o que se nos apresenta
e esconde

4151. como aprender sem o youtube

4150. do que a gameleira falou amanhã

a sapopema da samaúma
engordou quem nem boi gordo
depois da desumanidade
e os bichos que já eram só visage
se espraiaram em corpo morando até
no meio dos estrave de concreto
até bicho novo se avolumou
de dentro das eras
um após o outro
de desdita em desdita
sabedor dessa herança de forma
e impiedosamente rompentes
de qualquer ordem encefálica maior

tudo no pulso e na desordem
que se auto-organiza

4150. do que a gameleira falou amanhã

4149. Homilia viral

a quem a grade protege?
a quem a parede separa?
quem tá dentro?
quem tá fora?

quem mais encarcera,
como resposta para seus prantos
e afago para suas porradas,
é quem não quer se meter
com o seu próprio umbigo,
prefere-o livre, leve e solto
para agrilhoar milhões em massa

a quem a grade protege?
a quem a parede separa?
quem tá dentro?
quem tá fora?

o amontoado de gente
corpo em cima de corpo
criminosos e facínoras
é de se bater palmas
anos depois das panelas
e seguir a toada do apresentador
“é pau nesses bandidos,
cancela esse cpf,
enjaula! que animal tem que estar preso”

e agora, a visão de si na cadeia
preso com sua família
a sagrada família
a santa família
a benção mais nobre
é o saco de aguentar a fala
do esposo, a sorte da esposa,
o choro do biel
a boneca cor de rosa linda e loura da maria eduarda
e o perpétuo d’até que a morte os separe
em vida
e dentro de um retângulo de duzentas
e setenta e nove prestações restantes
com gente em cima
em baixo
num lado
no outro
na diagonal de baixo e lado
na diagonal de lado e baixo
na diagonal de cima e lado
na diagonal de lado e cima
e o pet moro herói brasileiro
mordendo seu pé pra sair e dar uma cagada

respira fundo
e se afunda
lá fora
e volta
e abre seu retângulo mágico
de onze prestações restantes
e descobre a verdade de que isso não dizem por aí
e recita a receita do filósofo que rejeita os astros
e reifica quem te oprime como massa de manobra
e retuíta o banana diminuto
e se desespera com o perigo vermelho nascente
e vai para o banheiro se masturbar em paz
com um vídeo de teenager
e reza antes de comer com a sagrada, a santa, a abençoada
família
e antes lava as mãos não por medo do vírus
mas pelo gozo pegajoso que escorre pelos dedos

menos liberdade para mais segurança,
não era isso?

a quem a grade protege?
a quem a parede separa?
quem tá dentro?
quem tá fora?

4149. Homilia viral

4148. Condicionamento proposicional

E se…
minha mente comanda
por todos os lados.
É uma hipótese aventada
toada insone que não
dialoga com Hypnos
(ou só debate)
e que treta com Morfeu.

E se…
ela vem de novo
como se fosse algo
urgente e emergente,
dalgum canto emerge:
às vezes da superfície
– qualquer fio de pele
já sabe o percurso.
Às vezes vem de um clausuro
que nem me adivinhava
– masmorra-me.
Claustro do que me defina
(um h e tudo resoluto).

E se…
vem mais uma vez,
talvez porque falar de si
deva ser o melhor,
mas sem falar dela
para não ser invasivo
– e como se fala
dalgo que é duplo
e dúbio?

           E se ela quiser
           que eu fale mesmo
           dela ou que eu
           fale de mim que
           diz dela ou só
           de mim que a
           mim me diz
           sem parar e que
           se perde em
           dizer nada?

                      E se eu quiser?

E se…
mais uma vez irrompe
e rasga o traço de sono.
Tenho algo?
Digo algo?
Algo diz?

E se…
eu só acordasse
e visse que sono houve,
com sonho e o rol possível,
e que então, vida não mais há
e dúvida se fosse
e dizer desnecessariasse
e dentro, silêncio.

E se…
eu pulasse dessa janela
ao lado
sempre aberta
solitária
e fugisse da solitária
sempre aberta
do meu peito
por dentro
e me enraizasse no nada
sem querer ou vontade
– mas daí ela sobreviveria
quando eu não mais
tiver que sobre viver?

E se…
só for loucura e uma pílula baste
uma pílula de ferro e grade
que me agregue
sociavelmente possível
ou amorosamente aprazível
e irreconciliavelmente indizível
como o sagrado do
nome de Deus.

E se…
a sorte me pega
e um raio me acerta
e me teletransporto
para o meu parto
e me parto
em duas partes:
uma descartável,
monte de lixo que me habita
e outra luz,
donde raio de trovão
me despedaço desde
a nuvem ao chão.

E se…
mais uma vez
me descompassa
e carrega o corpo
trôpego
sonâmbulo em posfácio
preâmbulo de algo inerme
desescudo e descuido
dum observador desatento
do que me atenta
em segredo e me salta
(noite alta madrugada,
a mão fria, a mão gelada)

e se…

4148. Condicionamento proposicional

4145.

Diante do mar, qual gota?
Defronte à perfeição, qual beleza atende?
As escolhas nos engolem
como a lama atravanca
o gargalo dos esgotos.
Mil nuvens se adiantam
em nossa frente,

quando vemos formas,
elas escolhem trovejar
e vertemos águas,

encolhidos,

saco furado, até o vazio
ficar de pé.

4145.

4143. Afasia proposicional

Nosso corpo só fala
de modo incidental
não escuta atentamente
fala sem a gente

Tamo lá, no centro
e sem lá, por dentro
é como se nunca escutássemos
a voz dos braços
das pernas
dos poemas intestinais
que sobem e descem
alturas em sair de si,
no amontoado dos tremores
a gritarem sem culpa
o estertor de um sentimento

Mudos de corpo,
nem sequer temos um
léxico corporal mínimo,
nossas partes são mudas
e os sinais não nos falam

Só há essa imagem-ideia
nuvem-nada
imóvel e cambaleante

eterna

a compor o que dizer

4143. Afasia proposicional

4142. Do famoso fascismo-barba-de-lenhador

1) Biopolítica

Andávamos como se fôssemos quem éramos
apenas corpos caminhando rumo ao futuro
alinhados em fileiras
de coturnos lustrados e de linhas de montagem
e fechávamos as pernas educadamente
e dizíamos, por favor, agradecida, muito obrigado

sorríamos ao carrasco com um flerte masoquista
e no escuro da noite funda
nos afundávamos em uma liberdade esfumaçada
movíamos o corpo loucamente escutando The Smiths

2) Necropolítica

Começamos a nos despir das necessidades
e nos tornamos quem deveríamos ser
descortinamos os palcos e utilizamos toda a nossa potência
passo a passo e par-e-passo para além do capital
seríamos algo vivo que pode

mas com uma bala decidiam sobre nós
e com uma caneta derrubavam goiabas do pé
podres
e escolheram o dia e a hora da nossa quase vida

Morrissey falou que o nazismo era de esquerda

2) Tecnopolítica

Trocamos nossos desejos por dedos
dedos de joia, dedos deslizantes
uma sociedade de dedos, Eliana era uma visionária

abrimos nossas almas como entrada para os corpos
não precisavam nos amarrar, já tinham enfiado a botina na nossa cara
e nós ainda achávamos que era o justo, o necessário
daí para nos entregarmos foi escorregador e tobogã

o filósofo falou que eu deveria usar azul

4) Psicopolítica

Hoje o nosso fracasso é um sucesso de público e crítica
e escorregamos nossas falhas numa lição de moral
como se fosse interna
e jorramos lições e lições
e a cada hora nossos dedos deslizam em busca de uma dose
e do crente ao ateu todos nos monitoramos
nos amamos aos ódios plenos

o pan-óptico mais amado do mundo

não precisa de jaula
não precisa de grade
por entre as micro janelas dos gadgets tudo é insosso

o capitão pulou da janela de guarda-chuva como um paraquedas

todo mundo foi atrás

e ele tinha uma barba impecável com um relaxante top
e coturnos muito bem lustrados com a própria língua

4142. Do famoso fascismo-barba-de-lenhador

4141. Coragem

Coragem para ter medo
e arvorar-se observador
senhor de mil galhos
cientes da sarjeta
e do desarrazoado da vida,
como muros pichados e picados,
como papel queimado
na boca em réstia,

como hóstia.

Desacorda e tira o
nó da corda que enforca.

Coragem é dormir
quando necessário.
Quando a chuva vem.

Sente o vento d’água
vindo da janela?
É um gozo.

Se deixa. Se deita.
Dorme.

4141. Coragem

4139. Névoa-nada

Entre embolar-se nos
lençóis do quase-nada
e o semblante betuminoso
dos poços d’olhos insones,
mora o quase-tudo
do eterno virá que
já plasma as têmporas.

As vozes-várias, variáveis
como vírus inclementes
apodrecendo o embornal dos sonhos.

Tudo se dita na cabeça
feita por el-es, ruim-bom,
anseia
anseia
anseia
antecipa
e decepa a cepa do
que sabe de si
e cria – na cabeça –
o mundo do eterno virá
no travesseiro da cama

três da madrugada

quase-nada.

4139. Névoa-nada

4138. Amanhã

E se eu estivesse só,
o que eu faria?

Deixaria para um eterno amanhã o que fazer?

Correria para o sofá numa ansiedade regada
a youtube e falta de pegada?

Insistiria na toada da insignificância
própria e desalentaria minha alma sucumbindo
até não conseguir concentração até mesmo para um filme
com a cabeça dividida entre mil diálogos imaginários?

Ou cederia a ir para uma punheta afobada
um programa da tv à cabo, um sonho de padaria
e uma esfirra de calabresa, até a azia dilaceradora
do corpo paralisadamente movente de tremores
e pensaria: amanhã, amanhã tudo muda,
correrei
tocarei violão
farei barras e paralelas
serei solteiro e ético
comerei vegetais
iniciarei a revolução
me desobrigarei da perfeição
meditarei
entrarei em contato com velhos amigos
e terei conversas significativas e profundas
treparei despretensiosamente e com responsabilidade
amarei
e serei lembrado como o não lembrado para sempre.

Amanhã, que vive nesse eterno agora a me rondar.

4138. Amanhã

4137. Desdos 80

A nossa pele já não tem mais aquele brilho
nossos músculos perderam a tonificação
há em cada célula um cansaço da memória
e uma sede por memória,
mas já não sabemos como ousar o corpo,
apenas o usamos

há com certeza uma fina camada de certeza
um pouco tesa
um pouco muito dura
que quer continuar pele cobrindo a alma,
porta para.

Nossos corpos já falham
ressacas de três dias
cigarros tortos e aflitos
paranoias a qualquer toque,
mas ainda somos algo que se compõe

turba ansiosa por ansiar algo
uma ansiosidade da falta
ou do todo completo
momento de ainda querer
ainda que confuso com o arame nos pés
e na ponta do peito,
farpados e condutos ao passado.

E essa dor travestida de paisagem
por onde passamos, querendo nós,
os nós que atariam uns às outras ainda
e que seriam mais que esses brilhos nos pés
e essas calças agarrando nossas batatas

perto dos quarenta

ou entre eles

tudo se torna ponte entre o que foi

e o que virá

como se fosse nós.

4137. Desdos 80

4135. Tiozão com cara de parede sem reboco

Acho que um dos
meus maiores medos
sempre foi o de virar
esses tiozão que pega
baú com cara de doido,
uma felicidade desesperada
estampada, um ar de tarado
e um boné mal balizado na
cabeça, aquele aspecto
de fracasso social
tentando ser compensado
com algum cristianismo,
uma camisa de time ou de
paróquia (hoje pode ser
da Ebenézer), um certo
ódio de si que reverbera
numa cara de areia mijada
e um bucho abaulado e
duro subindo as canelas
finas, sem papete, mas
um tênis quase caro
para compensar a falta
de carro que compensaria
o pau pequeno ou a feiura.

Esse era o maior medo
da minha vida quando
era um leke dentro do buzão
vendo esses tiozão entrando
e passando com uma cara
de parede sem reboco,

mais medo até que do demônio.

4135. Tiozão com cara de parede sem reboco

pausa: encontre as metáforas (ou o mote e a glosa)

1) Amor sublime (Benjamin Péret)
2) Bom dia para os defuntos (Manuel Scorza)
3) Pedro Páramo (Juan Rulfo)
4) Em defesa das causas perdidas (Slavoj Zizek)
5) Your brain on porn – Internet pornography and the emerging science of addiction (Gary Wilson)
6) Suicídios exemplares (Enrique Vila-Matas)
7) The archaic revival: speculations on psychedelic mushrooms, the Amazon, virtual reality, UFOs, evolution, Shamanism, the rebirth of the goddess, and the end of history (Terrence Mckenna)
8) O grifo de Abdera (Lourenço Mutarelli)
9) Necropolítica (Achille Mbembe)
10) O que é empoderamento? (Joice Berth)
11) A noiva escura (Laura Restrepo)
12) A classe média no espelho (Jessé Souza)
13) Sociedade da transparência (Byung-Chul Han)
14) No enxame (Byung-Chul Han)
15) Poesia completa de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
16) Psicopolítica – O neoliberalismo e as novas técnicas de poder (Byung-Chul Han)
17) Sempreviva (Antonio Callado)
18) Mediunidade – Tudo o que você precisa saber (Richard Simonetti)
19) Dinâmica de bruto (Bruno Maron)
20) Astrologia do destino (Liz Greene)
21) Quadrinhos ácidos – Volume 1 (Pedro Leite)
22) Escuta (Eucanaã Ferraz)
23) Sem gentileza (Futhi Ntshingila)
24) O chinês americano (Gene Luen Yang)
25) Nijigahara holograph (Inio Asano)
26) Manual de sobrevivência dos tímidos (Bruno Maron)
27) Bagagem (Troche)
28) Uma nova ciência da vida – A hipótese da causação formativa e os problemas não resolvidos da biologia (Rupert Sheldrake)
29) Diastrofismo humano (Gilbert Hernandez)
30) Hermínia (Diego Sanchez)
31) Poemas do povo da noite (Pedro Tierra)
32) Memória de elefante (Caeto)
33) No seu pescoço (Chimamanda Ngozi Adichie)
34) Fumaças bailarinas no salão da liberdade (Anderson Souza)

Esses foras os livros que eu li em 2019, foi um ano de pouca poesia, talvez pelo peso que essa bosta de realidade política de cá e de alhures me inspire (ou desespere), talvez por uma falta de encantamento com o mundo… De todo modo, pelo menos, foi um ano em que voltei aos quadrinhos. Li poucas minas, percebo agora, mas fiz descobertas interessantes como Manuel Scorza e Enrique Vila-Matas. Observando o que li esse ano passado, descobri que dos nove livros de prosa que li, todos foram latino-americanos e africanos. Gostei. No mais, não foi nada de muito impactante (acho que Byung-Chul Han e Terrence Mckenna foram os que mais me mobilizaram), espero que 2020 seja mais aventuroso.

Ideias de todos esses livros estão estampadas nos poemas do ano passado, literalmente ou metaforicamente. Gratidão por quem escreve e me leva – ainda – a escrever e me possibilita uma nesga de inspiração nesse planeta que ruma à auto-implosão.

pausa: encontre as metáforas (ou o mote e a glosa)

4129. Aluvião

Diante dos morros dantescos
quixotescos e quiméricos
que se esparramam como
onda a despedaçar os sonhos
de areia tidos por crianças
mortas na beira da praia da baía,

tudo se desfaz e carreia
erodindo aquilo que foi sólido um dia.

E a gente se apega às corredeiras de lama
como se fossem se solidificar novamente
ou como se fossem cordas
a fiar os tecidos da vida

e nos agarramos ao volátil tsunami
de densidade barrosa
que arrasta arranha-céus feito formiga.

A gente ali, no fluxo inundante,
trocando a liberdade por uma nesga de segurança

                  – escultura de barro,

                   até a próxima tormenta.

4129. Aluvião