Descampado d’alma

A coisa não estava nem tensa nem difícil, nem amena nem tranquila, nem

nada nem além, mas ele queria saber algo um tanto sobre o que acontecia em sua vida.

Foi Júlia foi quem avisou, Marcelius é muito bom passa lá que ele fala tudo. Foi.

Chegou lá com a cara blasé de sempre aquele olhar de peixe caído observando a

quantidade infinita de enfeites que adornavam a casa de Marcelius, centrou a mirada

numa carranca enorme posta do lado do batente esquerdo da porta, lado oposto ao

vaso com a espada­de­são­jorge. Marcelius atravessou uma porta que dava para um

quartinho cheio de velas. Ele teve tempo de ver umas cabeças de bonecos dentro do

quartinho antes que a cortina de miçangas se fechasse num balanço sincopado. As

cabeças pareciam de cera se derretendo. Marcelius sentou­se à mesa, era um sujeito

corpulento, com um sem fim de tatuagens minúsculas naquele tom cinza aquoso de

cadeia em cima dos braços, uma camisa de seda vinho aberta até o umbigo, uma

barbicha de bicheiro e um sem número de colares, pulseiras e enéis, todos muito

prateados, muito dourados, muitos. Marcelius esfregou uma colônia de cheiro

extremamente doce nas mãos, na cabeça, no rosto e no peitos e ainda jogou um

punhado para trás. E então meu filho qual é a contenda, perguntou Marcelius, é amor,

trabalho, inimigo, saúde, qualquer coisa a gente trabalha. É tudo disse ele. Quero

saber tudo. Mas tudo é tanto meu rapaz. Sei que é. É que tem essa coisa que rodeia

que eu não sei bem o que é como é e pra onde vai. Menino tu tá mesmo é perdido,

vamos abrir essas cartas, acho que depois uma obrigação pra Omulu pode resolver ou

quem sabe um pedido pra Oxalá abrir os caminhos e te colocar nos eixos.

Em cima de um pano de seda vermelho que tinha um cheiro misturado de

perfumes vários, Marcelius começou a embaralhar as cartas. Quer colocar o nome de

alguém? O meu. Só o seu? Só. Menino egoísta esse, tudo bem, qual o seu nome? Paulo.

Pensa bem no que te aflige e corta o maço em três partes. Qual monte? O esquerdo. A

Casa de Deus, eita. Na sequência veio o Diabo, a Morte e o Louco. No meio Marcelius

colocou a Lua. Num tá muito bom não, viu? O que? Tudo. Sabia! Espera um pouco,

pensa assim: os desígnios de Deus são muito grandes e te colocaram nessa situação

incontrolável, você não é responsável por tudo estar assim, mas o problema foram

essas tentações do mundo mundano, os pecados, as vontades – sexo demais, heim meu

filho? – todas essas coisas que passam, acabam, findam e só dão retorno muito tempo

depois – quando for pra debaixo da terra e virar verme, não é menino? E você sempre

se perde com sexo garoto! Meu pai, como você se perde, menino fuder é bom, mas não é

tudo! Marcelius falava e fumava um Dunhill atrás do outro, ainda molhava o bico de

quando em quando com uma vinho tinto Canção, ria muito de algumas coisas que

pensava internamente e, trejeitoso, deixava as pernas relaxaram­se por debaixo da

mesa até, surpresa, tocarem as de Paulo.

Tantos caminhos, né? Tantas coisas, tudo meio aleatório – mas pro projeto do

Maioral tudo tem um encaixe, mesmo parecendo tão louco. E o desfecho, ah o desfecho,

você vai se iludir de novo. Cair nas graças do que parece ser mas não é mais uma vez,

talvez, você sempre vá buscar isso: a insensatez da ilusão. É só isso, então? É meu

garoto, eu se fosse você fazia uma oferenda pra Oxalá, pra ver se ele te guia pra

alguma coisa mais certa, menos tortuosa. E como faço isso? Ah meu filho, anota aí:

canjica branca, mel, rosas brancas e um alguidá número três de louça, me traz napróxima sexta e anota os pedidos que você quer que aconteçam. Ok, quanto devo?

Setenta pelas cartas, a oferenda vai ser mais 200. Tudo isso? Sem sacrifício não se tem

pedido atendido meu garoto.

Ele colocou os setenta num pires que estava em cima da mesa como indicara

Marcelius. Pensou que aquele ato era meio psicanalítico, não pegar no dinheiro e fazer

com que ele pensasse naquilo tudo. Quer mais uma carta de conselho meu filho? Pode

ser. A Roda da Fortuna garoto, só se lembre de uma coisa: nem tudo que reluz é ouro…

Saiu de lá com aquele tanto de coisas na cabeça: a ilusão, os pecados, as

vontades, volições, carne. Na parada de ônibus a moça com o shorts torante fazia ele

pensar mil bocados e imaginar como seria uma punheta vindoura. Tentou guardar

bem a imagem do top e dos shorts, torantes, para se lembrar mais tarde. É melhor que

fique tudo na cabeça, não é mesmo? Pensou de si para si. Depois do gozo, o

arrependimento, mas pelo menos taí, uma imagem na cabeça. Num rompante,

lembrou­se de que não tinha esse apelo todo em si ao sexo, mas, como o dito das cartas

não se contradiz, só se incorpora, saiu feito assim mesmo, coisa sexual plena.

Entrou no ônibus e ficou pensando naquilo tudo que vivia, que não era nem

tenso nem difícil, nem ameno nem tranquilo, nem nada nem além. Olhou pro horizonte

e viu aquelas nuvens que pairavam com sinais plenos de que iriam despencar borrando

de cinza a linha do céu. Deus deve estar aí, deleitando­se com seu big brother

particular. Será que os satanistas tem razão? Talvez Lúcifer tenha tido mesmo ideias

interessantes acerca da mente perversa de Deus e tenha tido apenas a inclinação de

querer iluminar as pobres criaturas humanas para o horrível teatro que havia sido

milagrosamente criado apenas para a satisfação de um nome: Deus. Se há alguém

demasiadamente humano, esse alguém é Deus, nossa imagem e semelhança. Cessou

os pensamentos um pouco, ficou torcendo para lembrar de tudo isso que pensara e

procurar alguma coisa sobre tudo isso na internet. Fechou os olhos um tanto e fixou o

olhar no horizonte da memória que se abaulava em dois montes, todos torantes.

Logo que chegou em casa Júlia ligou. E aí? E aí moça, de buenas? Tranquila, to

te interrompendo? Não, minha punheta eu bato depois. Ai seu escroto, que merda…

Merda não, o orifício é outro, bem menor, inclusive. Tá bom mestre da escatologia, só

me diz uma coisa, foi lá no Marcelius? Fui. Ah, e aí, me conta… Ah, sei lá, nada de

mais ou de menos, só aquela coisa toda mezzo teoria psicanalítica, mezzo auto­ajuda a

la Ana Maria Braga, mezzo macumbeiro. Porra, ele não falou nada legal? Porra, se

dizer que minha vida é uma grande ilusão é uma coisa legal, então, Buda já havia me

cantado essa pedra tempos antes. Mas ele só falou isso? Só. Disse que eu gosto muito

de sexo também. Não falei que ele acerta. É, mas a pergunta é, QUEM não gosta de

sexo realmente? Sei, sei… Mas ele não te falou mais nada? Ah, disse que eu tinha que

fazer uma oferenda pra Oxalá. Legal, talvez seja bom mesmo, tu tá muito esquisito. É,

legal só se for pra ele e pra Oxalá, porque eu vou ter que desembolsar 200 mangos com

a brincadeira, sem contar o mel, as flores e coisa e tal. Num é brincadeira cara, num

zoa com os orixás assim… De fato, foi mal, mas, enfim… Não sei se quero fazer isso,

não botei muita fé nesse cara com essa parada de vudus. Orixás! Voduns são outra

coisa…. Tá, tudo bem, enfim, não botei fé e, além do que, tudo o que ele me disse eu já

sabia, não me acrescentou muito. Ai meu, procura então outra pessoa, tem a Bela daborra de café… Ih, essa daí eu já fui algumas vezes, estou até agora esperando a tal da

fortuna que ela viu claramente num pinguinho de borra que ela insistia em chamar de

moeda. É, ela é meio foda mesmo, tem dia que é joia, mas tem dia que não tem clima.

Fora os cinquenta mangos que se gasta… É, ah, olha só cara, tem o Pai Niquinho de

Xangô, o sujeito é fera, já fui lá algumas vezes e foi muito bom. Hum, sei… Lembra

daquela vez que eu estava bem mal por causa do Marcos? Qual vez? A milésima

segunda ou a milhonésima quarta? Ai meu, para! Aquela vez que eu tentei fazer

aquela coisa…. Sim, aquela que você bebeu Q­Boa? Porra, essa mesma… Lembro,

lembro bem… Pois é, quem me tirou da parada braba foi ele. Bom, talvez eu possa até

ir mesmo, ele joga o que? Búzios. Hum, talvez seja a hora de me encontrar com as

minhas origens africanas. Isso, vai que você até tem que raspar a cabeça! Júlia… O

que? Eu já tenho a cabeça raspada. Não é isso, pô, tu me entendeu… Anota o telefone

aí.

Dois dias depois lá estava ele pegando o segundo ônibus para chegar ao

terreiro de Pai Niquinho. Pelo menos a coisa é no mato, não é esse cabaré pós­moderno

religioso da urbália enfurecida, pensou ele. Acho que estou começando a me sentir

tonto, será que eu vou receber algum espírito? Será que espíritos baixam em terreiros?

Será que orixás são espíritos? Porra, porque que eu não fiz aquelas aulas de história

afro­brasileira na graduação, agora não seria esse ser tão sem sapiência sobre esse

afro­universo. Mas se bem que, universidade não é o lugar de se aprender essas coisas,

a tradição deve morar na tradição, ou seja, lá no terreiro. Mas e se a tradição, uma vez

que inventada, for reinventada dentro da universidade? E lá se configurarem os novos

terreiros do século XXI, afinal, temos até igreja drive­tru, por que não um terreiro

acadêmico? Logo no meio desse devaneio ele reparou que havia passado da parada em

que deveria descer. Apressou­se, deu o sinal e desceu. Retornou o caminho calmamente

fumando um cigarro e pensando nas merdas que havia conjecturado.

Quando chegou de frente a um muro baixo e longo todo pintado de vermelho

com um portão verde pensou que havia acertado o endereço conforme a explicação

dada pelo próprio Pai Niquinho ao telefone. O portão não estava fechado com corrente,

só passado o ferrolho. Bateu palma e ouviu uns passos se aproximando. Uma senhora

veio ver quem era. Olá. Olá meu filho, o que deseja? Vim falar com Pai Niquinho.

Hum, tá certo, ele não chegou ainda mas venha entrando, venha.

Assim que entrou no terreiro teve de súbito uma tontura, a senhora reparou.

Tudo bem? Só uma tontura, tive ainda agora no ônibus também. Ah sim, é esse tempo,

tá muito quente, quer um copo d’água? Sim, eu aceito. Então venha, venha. Tenho de

terminar de varrer essa casa. A água gostosa como poucas águas conseguem, tinha

aquela temperatura exata de uma água na sombra desde de manhã cedinho e aquele

gosto bom de barro de moringa. Senta aí meu filho, logo Pai Niquinho chega.

Não tardou muito, Pai Niquinho chegou. Era um sujeito branco de tez serena,

vestia­se com uma bata bonita de pano da costa de tons verdes bem fortes, dois colares

de contas, um branco e vermelho e outro amarelo, calças brancas e uma precatas de

couro bem adornadas. Olá. Olá. É você que veio ver os búzios? Sim. Seu nome é…

Paulo. Paulo, isso mesmo. Foi Julinha quem te passou o telefone, não? Foi sim. E como

ela está, tudo bem? Creio que sim, ela é meio daquele jeito. Sim, é mesmo, falta firmara cabeça um pouco, tá meio perdida, mas é um amor de pessoa, pense numa Oxum

doce. De fato é doce mesmo. Mas bem, espere um pouco que eu vou arrumar as coisas,

fique à vontade. E saiu para outro cômodo da casa. Enquanto isso ele resolveu dar uma

olhada no ambiente de fora, o terreno era grande com muitas plantas ao redor:

goiabeira, mangueira, jaqueira, coqueiro, um sem fim que ele não sabia o que era,

além de umas tantas plantinhas enfiadas umas ao lado das outras. Depois de uns

quinze minutos contemplando o lugar, Pai Niquinho voltou, chamou­o pra dentro e

começou os trabalhos.

Perguntou coisas aleatórias, nome completo, data de nascimento, se já tinha

jogado alguma vez, se estava nervoso, se estava com as pernas cruzadas, se tinha

alguma coisa específica que queria saber. Tudo. Mas como assim, tudo, meu filho?

Tudo é tanta coisa…. É, sei disso, mas é sobre isso que eu queria saber, tudo. Hum,

então tá, dentro de tudo o que me aparecer aqui nos búzios, eu abro TUDO o que

estiver. E começou a juntar e espalhar búzios variados em cima do que parecia uma

peneirinha toda coberta de pano. Fazia umas caras estranhas, tirava concha, botava

concha, tirava tudo, jogava de novo, sem dizer palavra alguma. No décimo minuto

mudo, Pai Niquinho, suando um pouco, olhou nos olhos de Paulo e perguntou: você

está vivo? Num susto Paulo falou sim, até onde eu saiba, estou bem vivo. Estranho,

muito estranho, tem algo muito errado aqui, ou certo, vai saber. Como o que? Bem, não

tem nada aqui. Nada? Nada. Não tem nem quem é meu orixá e essas coisas? Ninguém

é dono da sua cabeça, ninguém quer a sua cabeça. Como assim? Olha meu filho, nunca

tinha visto isso na vida, mas é isso. E isso é grave? Não sei, nunca tinha visto isso. E o

que eu devo fazer agora? Vejo só meu bem, isso pode ser uma coisa muito, mas muito

ruim, você pode ser alguém que nenhum orixá quer ou você pode ser alguém a quem os

orixás concederam a liberdade plena, compreende? Hum… Eu te diria uma coisa meu

filho, viva sua vida em paz, vá em outra casa, procure com outro zelador pra ver se não

é algo que aconteceu comigo hoje, de não ver NADA aqui. É, e olha que eu vim aqui pra

saber TUDO. Pois é meu filho, estranho isso, preciso, inclusive pesquisar mais sobre

isso. E quanto custa a consulta? Faz assim meu filho, precisa pagar não, viu? Vai em

paz. E ele foi.

Saiu de lá com uma coisa estranha no peito, era uma coisa que não estava nem

tensa nem difícil, nem amena nem tranquila, nem nada nem além, era uma coisa. Era

ele. Saiu meditando sobre aquilo tudo, primeiro seria a ilusão infinita segundo as

cartas de Marcelius, agora o vazio pleno, ninguém quer minha cabeça? Qual o

problema dela? Sempre achei que tinha uma cabeça muito feia mesmo. Mas, e se

alguém a quisesse, o que isso significaria? Provavelmente nada, e também, tudo.

Ele caminhou um tanto, parecia desgovernado, mas sabia que chegaria à

parada de ônibus. Quando lá chegou, resolveu caminhar mais um pouco até a outra

parada, caminhou na verdade umas cinco paradas, na última começou a chover e, ao

invés de se proteger da chuva, resolveu continuar caminhando. O caminhar me é,

pensava ele, pé ante pé, o caminhar me é, o caminhar me é. A chuva desabava forte,

torrencial, Oyá lançava raios fervorosos em meio ao gelado da chuva que compensava

todo o calor já tido, Tupã estrondava o mundo. Tudo cinza, nebuloso, cabuloso. Mas ele

caminhava tranquilo, em paz, só. Olhou para cima, olhou o descampado de ao redor da

pista, olhou pro acostamento enlameado abaixo de seus pés, respirou fundo e tremeu.Sentiu todo o peso da solidão, permear seus poros, se encrustar em suas células, se

assentar entre seus átomos. Eles em si já são menos cheios que vazios. Qual átomo, eu.

E ninguém na minha cabeça.

A chuva foi passando, ele todo enlameado, todo encharcado, só, caminhando.

Sabia que iria voltar a pé para casa, sabia que eram mais de quarenta quilômetros de

distância, mas a certeza da solidão e o sem limite da liberdade, lhe davam a sensação

de que ele devia ir. Só. Para algum lugar, qualquer. Provável que sua casa, certo que

por lá. Mas o que importava não era o final, onde chegar. O que importava era o

trajeto, o processo. Pé ante pé, o caminhar me é. O horizonte se mostrava tímido, por

baixo das nuvens que se dissipavam. A liberdade se introjetava plena. Ele não sabia

tudo, tampouco nada. Ele ia. Afinal, a coisa não estava nem tensa nem difícil, nem

amena nem tranquila, nem nada nem além. A coisa estava. Só.

Demonstrar

Paulo não sabia muito bem o que o movia àqueles dias. Estava bem, estava feliz e nem se sentia vazio. Não tinha sensação de que lhe faltava algo, de que lhe prescindia algo sólido ou que necessitava de um sentido. Apenas sentia. Andava um tanto atarefado com coisas do cotidiano, andava como devem andar as pessoas que correm atrás do prejuízo, que adiantam seus lados. Paulo estava vivendo.

A escolha de ter se libertado de ambicionar Eliane, de a colocar como o eterno objeto do desejo, dava-lhe ainda mais impulso de viver. Paulo respirava vida. Paulo entendia agora plenamente que Eliane era música realmente, era algo a ser sentido, sem sentido algum, só sentir. Era um deleite que se fazia em suas notas auditivas memoriais.

Nesse dia em particular Paulo começava a tentar retomar sua vida sabendo que Eliane seria somente ele agora, somente o que lhe fazia ser o que era até então. Eliane era Paulo, da forma mais simples que se pode ser. Paulo entendia isso e sabia que aspirar a ela novamente era coisa que não lhe cabia, então, quis retomar algumas coisas que andavam perdidas. Começou escrevendo uma carta:

Iara,

Como vai sua vida? Almejo em todos os sentidos plenos que esta palavra possa ter, que esteja bem, em paz e em boa companhia. Eu ando bem, aliás, ando. Parei de ficar parado. Eu sei que esses tempos andei rotas tortuosas em que não lhe coube ocupar um assento. Sei que ocupei todos os assentos e foram apenas minhas pernas esticadas e uma bolsa qualquer, nem ao menos era uma pessoa de fato ao meu lado. Ímpeto egoísta de alguém que padece de transtorno bipolar e que só consegue lidar com isso sendo consigo mesmo.

Não quero invadir a tua privacidade construída sem minha presença – que nem sei a quantas anda –, só queria apenas lhe dizer que pensei em você agora e que você coube como uma luva na imagem que eu tinha a minha frente: uma begônia em flor.

Abraços infindos tentando fazer contato,

Paulo.

Realmente Paulo não queria algo mais que dizer aquilo para Iara. Não queria que fossem palavras tentando um arrombo de paixão – esta que Paulo não sentia mais por ela –, mas somente que fosse o carinho guardado que se manifestava ao léu, que se fazia presente. Paulo sabia que Iara poderia não entender nada, que poderia até ficar com raiva, afinal, as últimas vezes com que Paulo estivera com Iara não havia sido um momento muito proveitoso, teria sido o lapso de um definir-se que, com certeza, Iara não entendera.

Paulo desenhou uma das begônias na carta, guardou no envelope e saiu de casa na intenção de entregar a carta na casa de Iara. Enquanto percorria o caminho, várias imagens passavam por Paulo, as flores numa casa qualquer, o casal que se beijava num portão, um cachorro que seguia idiotamente uma cachorra no cio, enfim, um mundo que não lhe cabia inteiramente, mas ao mesmo tempo, lhe acolhia de braços abertos. Quase o conforto de um acalanto no frio. Paulo abraçava o mundo sem sentido.

Havia ainda um resquício de qualquer sensação de erro sobre seus ombros. De que Leminski lhe cabia inteiramente: “até aprender que só o erro tem vez”. Mas nada o demovia de sua condição de felicidade. Nem esse gosto de erro na boca e nem mesmo a idéia de que ele só erraria sempre. Paulo sentia.

Enfim, Paulo chegava até a casa de Iara. Olhou a janela aberta, o jardim com a kalanchoe amarela bem florida que ele lhe dera um dia, o fícus dando uma sombra boa e quebrando a calçada. Tudo ali, no mesmo lugar. Olhou a casa um pouco mais e sentiu um frio na barriga pensando que poderia vê-la a qualquer momento. Foi até a caixa de correio e depositou a carta. Saiu tranqüilo, sem pressa, acendeu um cigarro e pensou que a melhor coisa para ele seria se Iara estivesse escutando qualquer coisa de princesa quando lesse a carta e que sentisse – não entendesse – o que demovia suas palavras e que ficasse feliz. Que lhe escorresse pela face não uma lágrima de esperança ou de rancor, mas um sentimento bom de que se é querido, de que se é importante.

A noite chegava e Paulo andava por aquela rua que ele caminhara por algum tempo, as crianças na rua, os carros bloqueando a passagem, becos com flores. Deu outro abraço no mundo e foi embora desejando que a vida fosse sempre assim. Sentia que viver ainda era.

Da profundidade do ser

“Não se revoltarão enquanto não se tornarem conscientes e não se tornarão conscientes enquanto não se rebelarem.”

George Orwell

Ribamar andava apreensivo, angustiado, perdido. Fumava três carteiras de Calvert ao dia. Por vezes tinha visões de vultos através de sua percepção lateral, não se virava para ver se eram de verdade, tinha medo de que as imagens dissipassem-se ao ar. Ele precisava acreditar que estava mentalmente perturbado, era o único consolo para sua mente. Suava frio, pensava que sua esposa deveria crer que ele estava enlouquecendo. Estava. Lembrou-se das frases do pastor: “O Diabo não quer ver ninguém bem, entrega tua alma ao nosso senhor Jesus Cristo e tudo irá se resolver. Quer seja um problema material, quer seja espiritual. Sangue de Jesus tem poder!” Maldizia as frases em sua mente, pensava que nada tinha mais uma explicação plausível.

Levantou-se da cama procurando minimizar os barulhos, Elizabete fingia não ver que seu esposo levantava. Ribamar fingia não perceber que sua esposa sabia que ele não agia racionalmente. Ribamar foi até o quarto das crianças. Olhou o Juninho, o Alceu, o Pedrinho, a Marinã e a Paloma. Pareciam dormir tranqüilos, imaginava que deveriam dormir angustiados sem saber se amanhã haveria comida antes da escola. Na escola as roupinhas remendadas e puídas, deveria causar-lhes vergonha. Vergonha do próprio pai. Vergonha de seu progenitor, vergonha dos cinqüenta por cento de Ribamar que se incrustavam em seus genes e em suas vidas. Ribamar amou-os e os odiou ao mesmo tempo.

Voltou ao seu quarto, viu quando Elizabete sua esposa, desligou rapidamente a luz do abajur. Olhou para ela, sorriu. Tirou sua roupa e deitou-se ao seu lado. Maquinalmente, como sempre fizera, penetrou-lhe o sexo. Igual a todos, fez um sexo frio, porcamente feito, um sexo medíocre, banal, mecânico. Daqueles que geram filhos que sentem vergonha de seus pais. Acendeu um Calvert e fumou pelado olhando pela janela da sala do barraco as outras casinhas de lona e de madeirite da invasão. Pensou em seu último emprego, foi nas frentes de trabalho, varria pistas movimentadas. Lembrou-se do quão miserável foram aqueles dias. Aquele trabalho acabava com a dignidade de qualquer um e piorava quando os outros respeitáveis cidadãos e cidadãs não lhe outorgavam o devido respeito. Chorou ao lembrar que agora não tinha mais nada, nem ao menos a labuta indigna que exerceu outrora.

Pensou muito nas últimas horas, pensou, pensou e pensou. Não chegou a conclusão alguma. O sol amanhecia bem devagar lá no leste, de onde viera para esta terra maldita, que só lhe proporcionava desgosto. Indignou-se. Abriu a porta e saiu à rua. Estava pelado, nem se deu conta disso. Olhou para si e riu, um riso que veio do fundo de sua alma e que demonstrava que ele não se importava com mais nada. Algumas irmãs da igreja que em outros tempos ele freqüentou, estavam na rua, vinham de uma vigília da corrente de libertação das almas. Viram Ribamar e assustaram-se, correram para dentro da igreja. Ribamar passou pela frente da igreja, parou, olhou-as e riu.

Continuou seu caminho, não sabia para onde. Andou muito tempo pelo cerrado, cruzou a linha do trem e continuou andando. Chegou no Eixo Monumental, entrou naquela avenida larga que mais parecia um aeroporto e continuou andando em meio a alguns carros, que não tinham viajado no feriadão. Todos buzinavam, gritavam, xingavam, riam, tentavam atropelá-lo. E ele imerso num nada gigantesco, simplesmente não lhes dava tino. Andava nirvanicamente, prostrado em nada. Chegava perto de Brasília, seguia firme em sua caminhada. Até o momento nenhum policial tinha vindo tomar satisfação e prender-lhe por atentado ao pudor. Continuava andando.

Nas proximidades da Torre ouviu-se uma sirene, Ribamar nem notou. Prosseguiu seu caminho rumo ao Nada. O camburão parou de frente a Ribamar. Saltaram três PM’s com risos em suas faces e ódios em suas vozes:

– E aí peladão? – indagou um PM que aparentava ser o chefe dos outros, tinha um ar de cafetão e fedia a metros de distância – Fugiu do hospício? Olha malucão, vamo facilitá as coisa que a gente não vai precisá usá a força. Levanta as mão e fica quietinho.

Ribamar não parecia escutar nada, estava prostrado de frente aos PM’s com uma enorme cara de nada. Alguns turistas da Torre desceram para ver o que acontecia. Rodearam a cena. Ribamar fitou-os calmamente. Outro PM interveio:

– Vamo mantê distância, porque o peladão é perigoso. Deu uma risadinha, todos ao redor também riram. Ribamar avançou um passo. Os PM’s assustaram-se e engatilharam as armas. Ribamar deu mais um passo. O PM que estava de frente a Ribamar estava nervoso, mirou na cabeça de Ribamar e bradou:

– Fica quietinho seu doido varrido, se não eu vô ter que usar de força bruta.

O PM suava, a situação ficava tensa. Ribamar deu mais um passo, virou-se para um turista, pegou seu pinto e balançou. Os PM’s irritaram-se e avançaram sobre Ribamar, este esquivou-se com uma agilidade que nunca tivera e parou ao lado de uma turista. Segurou-a pelo braço. Um PM falou:

– Olha aqui peladão, a situação tava fácil, mais agora tu complicô. Solta a moça!

Ribamar riu bem alto, um riso que veio de suas entranhas. Um riso com cara de molecagem. Ele soltou o braço da moça. Num estalo, recobrou a consciência. Come se fosse Adão ao comer a maçã oferecida por Eva, viu-se nu e envergonhou-se. Finalmente escutou os PM’s:

– Mãos pra trás e fica quietinho que num vai te acontecê nada!

Ribamar não se lembrava como tinha chegado ali, estava confuso tentando coordenar suas idéias, colocou as mãos para trás. Alguns turistas tiravam fotos. O flesh de uma máquina o cegou momentaneamente, ele ficou meio zonzo, tirou suas mãos das costas e neste fatídico momento, Ribamar solta um peido estrondoso, daqueles que seu pai solta depois de uma bela feijoada. Nesse instante um dos PM’s, num movimento de impulso dispara a arma e a bala acerta em cheio o meio da testa da turista que Ribamar havia segurado o braço. A turista cai sem dar um grito sequer, o sangue escorre pelo asfalto, o cheiro de pólvora espalha pelo ar, o clima de dúvida contagia a todos, Ribamar cai de quatro no chão, o PM que atirou grita aos quatro ventos:

– FILHO DA PUTA! E cai ao chão chorando.

Ribamar ainda não compreendia nada. De quatro e nu no chão, uma multidão ao seu redor, um cadáver atrás, um PM chorando em sua frente e uma dor fina em seu intestino. O silêncio toma conta da cena. Todos olham atônitos para Ribamar. Um silêncio mortuário que se ouvia a quilômetros. Ribamar via o ódio nos olhos de todos. O silêncio penetra Ribamar e de repente como se fosse um lapso no espaço e no tempo, Ribamar solta outro peido estrondoso e aflito, um peido saído do fundo de sua alma, um peido que era a resposta de sua alma ao que ela achava do mundo, um peido barulhento e fétido, que se fez ouvir a quilômetros de distância.

Ao escutar tal estrondosa flatulência de Ribamar, o PM que atirara enfurece-se como nunca havia se enfurecido na vida. Num impulso maior do que tudo ele levanta e descarrega o resto das balas sobre o corpo esquálido e nu de Ribamar. O PM vai até o corpo ensangüentado e nu e começa a lhe chutar todas as partes. Ninguém faz nada. Ninguém compreende nada.

E assim acaba esta história. No final das contas, não serve para nada e não demonstra a profundidade do ser. Termina assim, Ribamar nu, morto com sete balas em seu corpo, o sangue escorrendo pelo asfalto. Uma moça a poucos metros de distância, também morta, com uma bala em sua testa, o sangue escorrendo pelo asfalto. Enfim, vidas que eu criei e tirei de repente. Ribamar deixa sua família ao Deus dará, sem nenhuma fonte de renda e a turista, deixa seu curso de medicina em São Paulo sem conclusão, um namorado e uma família a chorar sua perda, que na verdade será apenas algum gasto a menos.

Quanto ao PM, ele vive sua vida com outros tantos que prendeu. Hoje fica nu e de quatro todos os dias em uma sela ínfima com mais trinta e cinco detentos. Peida muito. Os outros turistas e PM’s e aqueles que assistiram as reconstituições pela TV, vivem suas vidas medíocres e de quando em vez relembram o assunto que espirou o prazo de interesse em cinco dias. Peidam muito. Vivem suas vidas medíocres à espera de suas mortes, que fatalmente virão. E, por fim, todos irão encontrar Ribamar e a turista, mais cedo ou mais tarde. Pois a profundidade do ser acaba (ou inicia?) quando o poço da vida chega ao seu fundo e este fundo pode ser o limiar de uma morte estúpida.

Constatações

Era uma garota diferente. Não se atinha a certas afetações de uma possível generalização da condição feminina. Não possuía o mínimo sexto sentido, não tinha tensão pré-menstrual e o pior (ou melhor, talvez), havia passado toda a sua infância normalmente: boneca, casinha, papai e mamãe, unidunitê… Não faltava graça nela, de fato, era até jeitosa, tinha o seu quê de beleza e de feiúra, tinha enfim, sua humanidade.

Apreciava a companhia de pombos (e isso é uma coisa rara). Todos os dias sentava-se nos bancos perto da fonte de um shopping, em plena perpendicularidade solar e olhava os pombos banharem-se na fonte. Invejava-os um bom tanto e almejava a condição de suas liberdades.

Nunca pensara em ter filhos, mas sempre que via os pombos, imaginava o “quão bom deveria ser imiscuir meus genes com o deles”. Não era um intento zoofílico ou qualquer outra perversão congênere, era apenas uma constatação, como todos os seus sentimentos, afinal, não sentia: constatava coisas em seu corpo.

Os pombos na fonte eram uma de suas constatações particulares de seu dia. Não era mensurável em bom ou mau, apenas verificável. Uma perda dos segundos que era imperceptível. Não como o resto de seu dia, conquanto a viagem de ônibus de volta à sua casa fosse uma impercepção constatável um tanto próxima.

Sempre pensava em trazer pedaços de pão para jogar aos pombos e vê-los euforicamente digladiando-se do mesmo modo que faziam quando lhes jogavam as sobras das marmitas, mas nunca se lembrava. Todos os dias de pombos eram a mesma coisa: só o devir da imagem da luta colomba se fazia e o fato sempre fato não se produzia.

Certa vez sentara um moço estranho no banco ao seu lado e se aproximou: “te vejo todo dia aqui, você gosta de pombos?”. Ela nada respondera, somente constatara para si: “gostar… é eu devo gostar de pombos” e se levantou bruscamente sem dizer palavra, deixando ao moço atônito somente a impressão de algo estranho.

Nesse dia ficou confusa. Até sua segunda maior constatação do dia não foi a mesma. Mal viu a paisagem pela janela do ônibus. Estava com a idéia “gostar” em sua cabeça, ou mesmo em seu corpo, mas não entendia: “onde deve começar isso?”. Tentou lembrar o rosto do moço que perguntara acerca dos pombos, mas não conseguia se recordar. Só conseguia ver pombos no rosto dele. Nesta noite em seu sonho viu algo bem nítido e colorido (sempre sonhava tons de cinza): pombos.

No outro dia, em seu horário de almoço, preferiu não ir ver os pombos, foi passear pelos labirintos do shopping. Constatou que se perdera cinco vezes. Quando viu luz fora, saiu e de cara encontrou os pombos. Olhou-os com ar diferente e decidiu: “não gosto de pombos”. Passou perto da fonte sem olhar pombo algum e, desde então, nunca mais pensou neles.

CONFISSÕES À SURDINA

Era uma noite medíocre aquela. Noite dessas que não possuem cara de noite, como se fosse meio-dia de um feriado caído numa segunda-feira, mas em pleno constatar das oito horas da noite. O telefone havia tocado, era para mim:

– OK, mas eu não posso ir, também é aniversário de minha irmã hoje, tenho que abraçar a bichinha, ela ta precisando…

Ao outro lado da linha a pessoa parecia meio forçada a me convidar para aquela festinha, era uma amiga de minha ex-namorada que me perguntava se eu não queria ir à festinha que estava acontecendo lá na casa dela. Despistei, joguei essa conversa da minha irmã e disse que depois ligava para ela desejando-lhe feliz aniversário. Depois liguei:

– Parabéns mulher! Tudo de bom nessa vida pra você, muita luz… Eu vou indo e você? Que bom… pois é… sério? Nossa, que bom… ainda bem né? Pois é moça, to morrendo de sono, depois a gente se fala mais, to precisando dormir… você sabe né, a vida é dura… amanhã a lida continua. Então um beijo. Tchau.

Missão cumprida. Não que aquilo fosse uma árdua tarefa ou então desprovida de prazer. Gosto dela, gosto muito, aliás. Não um amor de amante, mas um amor suave no fundo do coração, desses saudosismos que queremos que fiquem lá no passado mesmo, onde foram perfeitos e onde existem realmente, para pensarmos que a vida deve ser ainda boa. Um séqüito esperançante.

Peguei novamente o telefone, aproveitei e liguei o som. Uma Fátima Guedes só pra relaxar. Liguei para minha atual namorada:

– Ela saiu? Ah… ta bom. Não, não… É… Pois então obrigado. Boa noite pra você também. Tchau.

Por que será que as namoradas sempre estão na casa de uma “amiga” quando mais precisamos delas? Uma noite pouca como aquela e eu só. Reparem bem que as aspas no ‘amiga’ não se referem a nenhuma cornitude plena e já conhecida, mas sim a um ímpeto machadiano de querer sempre ser Dom Casmurro – mas afinal, Capitu pulou ou não pulou o muro? –, digo isso por que sempre há essa dúvida errante que nos envolve aos lençóis e às cobertas, nessas noites poucas e claras.

Passei o olho no meu caderno de anotações, pensei: “acho que um anti-marxismo não pega bem agora, deixa os academismos para mais tarde”. Cantarolei um pedaço da música: “mais dóceis e livres como eu…”. Senti essa tal de liberdade querendo ser sentida, levantei-me da cadeira e decidi, se Manoel Bandeira deixar, eu saio de casa agora:

“Amor?… – chama, e, depois, fumaça:

O fumo vem, a chama passa…”.

Tomei banho, me troquei e saí, Chico no som do carro e nenhum rumo a se seguir. Parei no DI. O DI era uma praça, que em outras épocas havia sido um grande point da boêmia pós-moderna das satélites de Brasília, hoje era um local decadente pela presença desenfreada desses neo-metal skatistas – um mix de movimento hip-hop de playboy, homossexualismo desabrochando, resquícios de postura punk, maconheirismo puro e simples e outras tantas referências, como manda o figurino de um movimento pós-moderno –, o quadro de degredo da praça se completava com a presença massiva de maloqueiros-passadores-aviões a trabalhar e de playboys taguatinguenses freqüentadores dos bares que se instalaram na região.

Saí do carro e sentei num bar que, segundo minha memória, havia sido um local de cachaçadas memoráveis e de poesia flutuante no ar, além de rolar uma boa música – boa no repertório, uma vez que o cantor era uma desgraça, se não falha minha memória. Sentei e pedi uma vodka com duas pedras de gelo e duas fatias de limão, comecei a degustá-la e a observar o ambiente. Como um bom geógrafo olhei primeiro o lugar: vi que o espaço havia se alterado bastante desde a última vez , as cores, as luzes, o banheiro… era definitivamente outro lugar, já não era mais o mesmo. Observei o cartaz de uma festa rave que ia ocorrer logo, abaixo, um folder da inauguração de um lound, pensei: “é… este lugar não é o mesmo”.

Como um antropólogo-filósofo esmiucei as essências humanas ali contidas: muitas figurinhas carimbadas no meio alternativo mais hard, alguns homos à procura de um flerte, algumas ex-skatistas recordando suas proezas passadas, também à procura de um flerte, uns metaleiros errepegistas à procura de flerte, dois casais saudosistas em crise – deveriam querer estar em estado de flerte – e eu.

Como um ecólogo iniciei um longo trabalho de averiguar as relações que ali se estabeleciam: um olha uma, uma olha o ar, outra olha um e um a olhar um outro: verdadeiro balaio de gato pós-moderno. Um levanta e vai ao bar reclamar, um volta e olha uma ao passar. Uma levanta e vai ao toalete se arrumar, uma vai também para fofocar. Um se julga super-homem (quase nietzschiano) em voz alta para se sobrepor ao som e fazer com que um outro se ligasse. Um outro me olha e eu desvio o olhar para minha vodka – não queria escutar aluguel de ninguém àquela noite.

As horas voam e as vodkas vêm – ou vêem, dependendo do ponto de vista –, as pessoas iam se acabando, esvaindo-se sem eu constatar: o bar já ia fechar. Olhei ao lado havia uma moça quase caindo da cadeira e a dona do bar cutucando-a com a conta. Chamei a dona:

– Isso cobre a minha conta e a dela?

– Cobre sim senhor.

– Então acerta tudo…

Levantei fui até a moça e a cutuquei, em resposta ela grunhiu um pouco. Cutuquei mais. Ela nem se mexeu. A dona do bar chega então com o troco e me pede para ajudar a retirar minha “amiga”, pois precisava fechar o bar. Abracei a moça e a levei para um banco da praça. Vi que a única coisa a se fazer era enfiar o dedo em sua goela e fazê-la vomitar, foi o que fiz. Nunca havia visto tanto vômito em minha vida, parecia uma cachoeira, a coitadinha a cada golfada ficava mais amarela e logo vi que não era só cachaça o que ela havia consumido (ali devia ter uns dois caldos de mocotó e mais um de feijão pelo menos).

Esperei um pouco, sentei ao seu lado e a fiquei observando. Ela era até bonita. De repente ela caiu no meu ombro e continuou dormindo. Comecei a ficar com sono, até que pesquei um pouco.

Acordei com ela em meu colo. Ela não era muito bonita. Era muito branca, a melhor coisa que possuía eram suas formas meio arredondadas. Os cabelos eram muito bonitos, negros, bem escorridos e muito grandes. Ela se vestia toda de negro e tinha uma maquiagem borrada – também negra – nos olhos, além de resquícios de um batom – também negro – em seus lábios. Era um contraste muito grande a alvura de sua pele e o negrume de suas indumentárias.

Passei os dedos em seus cabelos e comecei a afaga-los. Ela se mexia um pouco. O dia estava amanhecendo e o movimento da praça já havia se findado. Pombos começavam a fartar-se das sobras dos pães de cachorro-quente dispostos no chão. Olhei a garota mais um pouco, comecei a acha-la bonita.

Ela começou a se mexer muito, parecia que sonhava com algo muito agitado, de repente ela caiu no chão. Assustei-me e vi que ela havia acordado, vi que estava completamente zonza. Olhou pra mim e disse:

– Puta que pariu! Que dor de cabeça do caralho!

Chovia. Chove.

Água quente. Era tudo o que Eliane queria. O martírio gélido do corpo molhado de chuva e lama não era algo que ela buscasse, preferia, sim, outras quenturas em se falando de água. Pelo menos naquele então. Queria a água de seu chuveiro queimando sua pele e adormecendo seu corpo. Ou então, água saindo de seus poros e escorrendo lânguida por um corpo outro, do seu já em dormência. Queria mesmo os líquidos efusivos de sua intimidade viscosamente impregnando o ambiente em brasa, saindo de seu corpo dormente e incrustando-se em outro corpo. Como alternativa não havia, foi-se ao seu banheiro.

A noite estava como toda noite chuvosa: plena. Noite em que dormita a vida e tudo parece estar acompanhado de um solo de guitarra crua. Plenamente noite e não dia vivido às altas horas da madrugada.

Seu corpo nu tremia. Era um frio que se espalhava e a abraçava. Envolvia, quase em braços, seu corpo e lhe arrepiava toda a pele, ouriçando ainda mais seu estado de espírito e desejando que os outros dois quereres que lhe percorriam a mente fossem mais do que feitos, fossem plenos.

O banheiro em seu pálido semblante entrava em contradição com a proposição do que lhe cobria: azulejos. Não eram azuis. Eram brancos. Uma impressão hospitalar que a repugnava lhe pedia para a apagar a luz, foi o que ela fez. O rádio ligado em uma FM qualquer conduzia aquela música triste, desesperançosa, antítese do verde, ou algo verde musgo iluminado pela Lua. Era um Tom que lhe dizia coisas Demais, um blues angélico que queria decair a noite plena inteira sobre suas costas. Ela queria calor.

A água do chuveiro caía devagar sobre seu corpo. Parecia que a simples trajetória entre o chuveiro e seu corpo era uma eternidade para a água que ansiava por manter a noite plena sobre Eliane. Ela relutava em crer que esse ímpeto de noite plena fosse se consumir realmente, continuava seu banho.

Lentamente, seu corpo relaxava.

Corpo. Palavra bonita, pensava Eliane. Corpo combinava com seu corpo. Seu corpo parecia realmente um corpo. Incorporava-se na palavra e esta ganhava corporeidade em seu corpo. Suas estrias, suas gorduras, suas celulites. Tudo corpo, tudo ela. Sentir o corpo com seu corpo, parecia algo plausível. O breu instalado no banheiro envolvia seu corpo, e este ganhava mais materialidade.

Água. Sentir. Corpo. Quente. Noite. Som. Querer.

Um corpo bastaria a si?

Lentamente, seu corpo percorria seu corpo. Tramas e entranhas. Seu querer era ser corpo. Sentir seu corpo o sendo. Sua mão, sendo seu corpo também, volvia e envolvia sua pele. Sua mão era pele também. A água quente dava mais ciência de si. Uma perna fora da água e a sensação de existir, a água caindo sobre os cabelos e a impressão de ser. A mão tocando o corpo em água quente e aquecendo mais a existência. Existir pode ser prazer também e que Buda se cale.

Eliane, em seu nirvana corpóreo, tinha a dimensão de que ser corpo era tudo o que ela precisava. A lentidão dava lugar ao frêmito e existir parecia depender de sua mão. De seu corpo.

Tudo envolvia: o calor da água, o vapor por todo o banheiro, a escuridão, o som, a plenitude da noite, seu próprio corpo. Tudo ardia.

Lá fora chovia, chove. A noite continuava plena e dormitando todos e todas em suas casas. Só Eliane existia em seu corpo.

Bambayuque

Era com aquela música que ela odiava que Paulo chorava por Maria. O cigarro seco no canto da boca seca pela seca do cerrado, misturava nos olhos de Paulo as lágrimas cristalizadas com a nicotina e o ar parado. Um aboio lamurioso cantado com sofreguidão percolava o ar junto à fumaça. Tudo seco. Paulo, uma seca só e o cerrado pegando fogo.

Uma lua ali, nem meia-inteira, apenas começo de sorriso, plena de vermelha pela fumaça das fogueiras da seca, no meio do cinza do céu de noites de agosto. E Maria longe léguas, com a propriedade da memória, perdida de Paulo para o sempre de agora, que é a eternidade que mais incomoda, esse sempre do presente.

Quando Maria se foi, no momento exato da despedida, foi-se embora com um beijo e um abraço. Beijo que não pôde ser colado e abraço que não pôde ser apertado. Nesse momento Maria perdeu seu “i”, que rimava com quem ria, e virou Mara somente.

Distanciando-se, indo para qualquer lugar em que Paulo não estivesse lá, com seu sempre presente corpo, Mara levou o que cabia dentro do seu peito e deixou para Paulo, além do peso dele mesmo só em companhia e corpo para o fardo de seu sempre, um de seus “as” e virou Mar.

Mar então sumiu de vez pelas fretas do mundo. Dando o ar da graça a todos que de Mar quisessem as águas. E Paulo em sua seca sempre, tateava com o resquício de mar incrustado em seus olhos, no meio da penumbra da noite cinza, sem saber que Mar perdia seu “r” e se evadia da liquifeição para ser desde então, Ma somente.

Depois disso feito, foi-se a dança da paixão deles, para o sempre do presente agora.

A noite, a cor e o poder

(ou “Você sabe com quem está falando?”)

Três e vinte e cinco da madrugada. Dalton acorda assustado com o choro de seu filho de apenas seis meses de idade. Eloísa, sua esposa, diz que a possibilidade de que o choro seja por efeito de uma dor de ouvido é grande – faz frio – e o eficaz remédio que sua mãe lhe dera já havia se findado. Dalton não questiona o sexto sentido de sua esposa e, mesmo cansado de sua última escala de serviço, sai em busca da solução para o choro de seu filho e para o seu sono.

A farmácia era próxima de sua casa, apenas um quarteirão à frente. Dalton sai em seus trajes de cama: bermuda furada, camiseta gasta pelo tempo (as melhores para o sono), meias de lã e chinelo de couro. Seu rosto cansado, com ares de poucas horas de descanso, estava triste naquela madrugada.

Dalton andava mecanicamente pela calçada quando o som de uma sirene se faz próximo. Dalton lembra de seu trabalho: “Que saco, até aqui a labuta me persegue…”, suspirando sua apertada última escala de serviço.

O camburão da polícia pára ao seu lado e um dos policiais grita a Dalton:

– Parado aí negão – Dalton era negro… –, mão na cabeça!

O policial inquisidor sai do carro e anda na direção de Dalton, que ainda grogue de seu sono incompleto, pensando em remédio, trabalho, esposa, cansaço e choro continua em busca da solução para o seu sono como um moto perpétuo inconsciente, sem notar que o policial falava consigo. Havia um ar de sonho em sua mente. Dalton continuava andando.

Nesse momento todos os policiais já se encontravam fora do camburão e o inquisidor primeiro, em sua raiva (fora ferido seu ego de autoridade), saca de sua arma e berra a Dalton:

– Ô negão, cê tá surdo porra?!! Mandei parar!!!

Dalton pára, se vira e começa a tomar conhecimento da situação, começa a despertar lentamente (seu ego de autoridade fora ferido – Dalton era tenente da polícia).

– É comigo? Questiona Dalton aos policiais.

– Tem outro negão chapado por aqui? Responde o inquisidor primeiro com aquele ar de questionamento e agressão típico dos policiais que fazem a ronda noturna.

– Você!! Ataca Dalton – o inquisidor também era negro…

– VOCÊ?!! – pergunta outro policial indo de encontro a Dalton – cadê o respeito negão, cê tá viajando né?!!

Dalton compreende o que acontece: a noite, sua cor e sua aparência não condizem com seu poder. Ele não é ninguém, ele é um cidadão com todos os direitos e deveres comuns a todos os de bem, mas ele sabe que não está com sua carteira de militar em mãos, apenas um talão de cheques e um cartão de banco, ele conhece bem o preconceito de seus companheiros de serviço – ele também é assim –, ele sabe que precisa se impor, mostrar que é alguém, que eles não sabem com quem estão falando.

– Vocês sabem com quem estão falando?! Pergunta Dalton com lágrimas de raiva aos olhos (ele sabe agora o que se passa na cabeça de quem ele aborda em uma batida).

– EU JÁ ESTRESSEI COM ISSO DE VOCÊ!!!! Grita um dos policiais e avança com um tapa na face de Dalton (seu ego de autoridade se rompe em mil pedaços) e este chora como há muito tempo não chorava (só não comparável à morte do Ayrton ou à final de 98).

– Ah negão deixa disso, cê deve tá muito loco… Zomba o inquisidor primeiro que nesse mesmo momento leva um soco de Dalton.

Aqui, as coisas se complicam para Dalton. Ele é xingado (como nem na infância), ele é chutado (como aquela bola que ele tanto estimara), ele apanha (como nem sua mãe o batera), ele chora e grita (como se fosse seu filho com dor de ouvido). Seu ego já não ousa se pronunciar, calou-se diante de tanta humilhação.

Os policiais colocam Dalton no camburão. Ele sangra, ele chora, ele se cala, já não há mais nada o que se fazer agora. Mas ele sabe que o poder ainda jaz em suas mãos, mesmo não tendo conseguido utilizá-lo quando necessário. Mesmo que seu sangue se misture a suas lágrimas nesse instante, ele tem plena consciência de que a vingança é um prato que se degusta frio. Ele é alguém, esses que lhe bateram, lhe xingaram, lhe humilharam não sabem com quem estão falando. Não tem a mínima noção.

Dalton sabe que ele pode mudar todas as regras que lhe foram impostas nesses últimos instantes. E à primeira oportunidade ele vai virar o jogo…

Seu ego renasce de seu sangue e de suas lágrimas.

A mais pura verdade

Foi numa noite leve, em que a peleja de rimas assistida já se findara, que me ocorreu uma coisa absurda, fato nada estranho, posto que às sextas-feiras coisas absurdas acontecem aos borbotões. Lembro-me vagamente de algumas coisas que antecederam o fato absurdo: além da peleja, recordo-me dos amigos – Giosconni e Martin –, de algum papo sobre o éter, sobre Marx e talvez, até mesmo, sobre separação. Lembro-me bem de uma donzela ébria que sorriu fagueira para minha pessoa na fila do banheiro e que logo se foi a dançar com uma garota – que não recordo a feição. Atina-se em minha memória que, passado pouco tempo, a donzela ébria veio recolher-se à nossa mesa, assim o fez para fugir da garota que lhe concedera uma dança e que, nos recônditos menos visíveis do expor-se ao mundo, queria a ela como eu a queria também: ébria, lépida e fagueira sob uma cama, champanhe no umbigo, vendas nos olhos e lingerie de renda vermelha. A donzela ébria, pouco afeita a carícias femininas acabou por buscar auxílio em nossa mesa e nós, como bons cavalheiros que somos, a recebemos com todas as honras, gracejos e benfazejos possíveis.

– O que queres beber? Lhe perguntei.

– Aceito um absinto. Ela respondeu certeira.

– Absinto?! Perguntou Giosconni.

– Eita porra! Enfatizou Martin.

– Não contrariemos a moça – eu disse –, não vês que ela está traumatizada? Acabou de ser assediada por uma outra dama. Precisa de algo forte para beber e acalmar os nervos. Garçom! Traga uma garrafa de absinto aqui para a mesa!

Rapidamente o garçom nos deixou uma garrafa do inebriante e verde lubrificante social e ainda com alguns apetrechos a mais para dar um toque de finesse a nossa mesa. Bebíamos como se deve beber, fumávamos como se deve fumar e conhecíamos a moça como se deve conhecer uma moça. Tudo fluía naturalmente e sem nada de absurdo. A moça nos falava que havia vivido durante oito anos acorrentada ao pé de uma cama num porão de uma chácara lá pras bandas do Incra 8. O autor de tal crime contra a humanidade, havia sido seu próprio marido, que, enciumado por possuir dama tão linda como esposa, não admitia sequer que seu odor fosse sentido por outro que não ele.

Escutávamos sua história embasbacados. Como poderia existir sujeito tão cruel?! Contou-nos que para manter sua boa forma, o sujeito havia montado toda uma aparelhagem de academia no porão e que a obrigava a fazer quatro horas por dia de malhação – fato ao qual eu intervi dizendo que somente este, seria das maiores perversidades que se pode fazer contra alguém. Disse-nos ainda que para manter seu corpo bronzeado, seu marido havia instalado lá uma máquina de bronzeamento artificial.

– Um maníaco! Disse Giosconni.

– Psicopata dos infernos! Retrucou Martin.

– Que nem Deus tenha pena desse miserável! Afirmei severo.

Queríamos saber como havia terminado aquela terrível história, como, afinal, ela havia conseguido se libertar de seu cativeiro de oito anos. Ela enfim nos contou tudo, disse que numa bela manhã ao acordar viu que seu algoz dormia profundamente e conseguiu observar a chave de sua corrente caída do bolso do paletó jogado no chão. Ela cuidadosamente levantou-se, procurou não arrastar suas correntes pelo chão, pegou a chave, tirou a corrente de sua perna, subiu até a casa pegou três facas de cortar pão, voltou até o porão e as cravou uma após a outra nas costas daquele cretino. Fugiu então para nunca mais rever aquele porão maldito e agora estava aí, querendo curtir a vida.

– Brindemos, pois! Sugeri erguendo uma dose de absinto.

– À vida! Disse Martin.

– Ao fim das correntes! Exclamou Giosconni.

– Morte aos psicopatas! Disse ela entornando de uma vez uma boa dose do bom e velho lubrificante social.

Iolanda, seu nome. Pobre Iolanda. Acorrentada durante oito anos num porão do Incra 8. Condoí-me por ela. Senti muito pesar por sua vida sofrida, mas ao mesmo tempo senti-me muito feliz por sua volta por cima.

Lá pelas tantas, vi que ela já estava mal um bocado. Não conseguia erguer a cara da mesa e balbuciava qualquer coisa sobre uma amiga. Perguntei para ela se não queria dormir um pouco em meu carro, afinal, seria mais confortável. Ela olhou-me com o ar ébrio e encantador de sempre e aquiesceu com a cabeça. Levamo-la para o carro e o coloquei mais perto de nossa mesa de modo que a pudéssemos observar. Continuamos nossa troça e nossa bebericagem. Foi neste preciso momento que Martin nos alertou:

– Ali diante, vejo uma deusa. Falou pausadamente enquanto tentava se atinar com a realidade em sua frente.

– Creio que anjos dominaram a terra. Ponderou Giosconni já de caneta em punho pronto a escrever apontamentos metafóricos sobre a beldade que se fazia presente.

– Queria muito fazer sexo. Completei.

Martin escreveu o seu apontamento e solicitou ao garçom que o entregasse até sua deusa. Bilhete entregue, riso fácil percorrendo a outra mesa, Martin sumindo atrás da laranjeira com sua deusa, ficamos eu e Giosconni ali bebericando um tanto mais. Giosconni falava qualquer coisa sobre a saudade de seu regaço tão quisto e distando quilômetros e sobre vontade e desejo e, eu já sob o efeito entorpecente do absinto, comecei a escutar pouco e observar a outra dama que até então acompanhara a deusa de Martin. Era uma moça simples, mas de feição marcante, morena da pele lisa, vestido florido solto, pernas torneadas, sorriso breve e tímido e cabelos lisos como de uma Iara. Imaginei-a numa praia: vestido branco, sem nada por baixo, lua cheia, ela entrando no mar e voltando tímida para mim: “a partir de agora, amo você”.

– Dom Giosconni, perdão pela falta, mas não te acompanho faz algum tempo, tenho de ir ali falar com uma sereia. Disse eu já me levantando e indo até a moça.

– Boa noite. Eu disse triscando-lhe suave os ombros nus.

– Melhor agora. Ela respondeu. Pensei que nunca fosse vir a meu encontro. Falou-me segurando minha mão e se levantando. Vamos sair daqui?

– Pra qualquer lugar… Disse enfático.

E partimos naquele mesmo instante. Levei-a até o carro sem ter a mínima idéia de onde ir, só queria mesmo possuí-la de qualquer forma. Quando entramos no carro ela beijou-me suavemente e eu correspondi inteiramente. Dei a partida e comecei a dirigir a esmo pensando que ela não merecia um hotel vagabundo qualquer. Quando passávamos perto de um matagal, ela não se conteve, segurou firme em mim e disse:

– Vira o carro e entra aí nessa estradinha que eu não posso mais esperar.

Não pensei duas vezes e entrei matagal adentro cantando pneu. Foi nessa hora que eu escutei um gemido vindo do banco de trás do carro. Freei o carro bruscamente e alguém caiu no assoalho. Lembrei-me que Iolanda dormia no banco de trás. Iara – ou a moça linda de vestido florido e ombros nus, a qual eu ainda não sabia o nome – perguntou-me quem era a moça. Disse-lhe imediatamente que era uma sobrevivente de um cativeiro terrível, que havia passado oito anos acorrentada num porão de uma chácara no Incra 8.

– Pobrezinha, disse Iara indo ao banco de trás, com um ar de profunda compaixão.

Levantou-a do chão, colocou-a em seu colo e começou a fazer cafuné em seus cabelos cacheados. Achei linda a cena. Liguei o carro novamente e continuei a empreitada em meio ao matagal. Quando chegamos em um pequeno descampado parei o carro. Tirei um vinho tinto do porta-malas – como se sabe, todos devem andar sempre com um bom tinto no porta-malas para ocasiões propícias – abri-o e me servi de uma boa golada. Quando dei por mim as duas saíram do carro, vieram em meu rumo e me abraçaram. Num piscar de olhos, estávamos nós já nus e nos beijando. Vi quando as duas se beijaram também. Não tive coragem de dizer para Iolanda que ela tinha fugido de uma mulher horas atrás, talvez ela gostasse também de mulher e só não havia se atinado com a que a tirara para dançar. Mas o que importa é que fizemos sexo os três ali mesmo, em meio ao descampado, debaixo da lua, selvagens, como bons herdeiros do pecado original. Mãos, pernas, seios, bundas, membro, encaixes, desencaixes, malabarismos e outras peripécias mais, como tem que ser.

Passado o fogo inicial, deitados estávamos eu e Iolanda sobre o colchão de ar de casal – posto que sempre se deve andar com um colchão de ar de casal no porta-malas para ocasiões necessárias –, fumando um cigarro e bebendo alguns goles do restante vinho, quando vimos Iara andando levemente em nossa frente. Ela dançava uma música que não se ouvia e o pior, dançava bem. Foi bem no momento em que ela fazia uma pirueta no ar que vimos uma coisa absurda: de repente asas saíram de suas costas e ela ganhou os ares. Fez umas duas ou três cambalhotas no ar, deu um rasante sobre nós, parou por cinco ou seis segundos em nossa frente e se despediu, sumiu em meio à amplidão da noite estrelada.

Fiquei embasbacado. O que havia sido aquilo? Eu estava completamente atônito, sem conseguir proferir palavra que fosse, quando vi Iolanda se levantando e começando a vestir sua roupa. Olhei para ela e fiz uma cara do tipo “você não vai querer conversar sobre isso?”. Ela me olhou calmamente enquanto vestia sua calcinha e disse:

– Nem era das melhores, já estive com anjos que tinham uma pegada melhor.

Não comentei nada. Devo ter feito uma cara pior ainda. Ela continuou:

– Sabe o que mais me deixa puta?

– Não, falei.

– Depois dizem que anjos não têm sexo… Eles estão é muito avançadinhos esses tempos. Acredita que um dia desses fiquei com um que era masoquista? Vê se pode…

Não entendi bulhufas do que estava rolando, só reparei que eu estava realmente atrasado no que se refere às questões sexuais pós-modernas. Tive apenas uma sacação: “ah foi por isso que ela a pegou também, no final, não era mulher, era um anjo… e eu que pensei que fosse uma sereia… que mané que eu fui…”.

Entramos no carro e ela me disse para deixá-la lá mesmo no bar onde nos encontramos, ainda tinha esperanças de encontrar a tal amiga. Fomos em silêncio. No meio do caminho liguei o rádio, tocava Miles Davis, ela aumentou bastante o som. Quando chegamos, ela desceu, foi até a minha janela e me deu um puta beijo na boca. Disse que não ia me dar seu número de telefone, pois que a gente devia se encontrar por acaso mesmo. Concordei com a cabeça, olhei para o bar e vi que nenhum dos meus dois amigos estava ainda lá. Lembrei que não tinha deixado um puto para a conta e a gente tinha bebido pelo menos uma garrafa de absinto, pensei comigo: “ah, da próxima vez pago uma água mineral, quem sabe até com gás…”. Dei a partida, aumentei o som e fui para casa flutuando no asfalto.

A ilusão

Há toda essa necessidade de se fazer ouvir, de ser mais do que somente essas letras parcas endereçadas a mim mesmo e tomadas como palavras definitivas. Há uma vastidão no mundo e deste conheço menos do que o ínfimo. Fato é que ninguém deva conhecer muito mais, mas o que pesa é todo este ímpeto de querer abraçar o mundo e não conseguir, de sentir ser até essa sensação algo de pouca valia, como sendo apenas e somente um sentimento pequeno-burguês à toa.

E aí eu sinto vontade de dar backspeace em todo este parágrafo anterior e se não o fiz agora foi somente pelo fato de querer explanar sobre algo que desconheço e estar tão aflito que não tenho coragem de tomar atitudes drásticas. Aí então percebo que se alguém, que não eu, lê este, se torna fato o primeiro período deste parágrafo que produzo agora, mas se por acaso de minhas composições neurofisiológicas alguém, ou eu mesmo, não lê este texto da forma como está aqui, prova-se que tive coragem de apagar o já escrito e o que estou a escrever não possui mais lógica alguma. Mas o caso é que até então está tudo aqui: o primeiro parágrafo, o primeiro período do segundo parágrafo e todo o resto deste último, logo, o ato de ler isto se transforma em uma afirmação – em descontinuidade temporal – de um estado de espírito, de uma contemplação da alma, de um ato mecânico e de uma ida sem volta em meio a letras e idéias que se passam em algum lugar e algum momento em minha pessoa.

Uma questão se põe assim agora: em consonância com o que eu escrevo agora e ao mesmo tempo em que “leio” a informação grafada, há um vão, uma descontinuidade entre o que penso e o que coloco em palavras, imaginem então o que não há entre o que estou escrevendo agora e o que alguém, ou eu mesmo, está lendo agora. Há sempre um vazio entre a escrita e a leitura e ninguém ou nada é capaz de contemplar tal lapso espaço-temporal. O meu agora – realmente agora – é se não outro totalmente diferente de seu agora, ou meu agora – o de fato agora. E aí nunca haverá realmente um agora que se possa conduzir entre escritor e leitor e aí a escrita serve de pouca coisa e novamente penso na tecla backspace.

Mas, novamente não se preocupem, se alguém lê isto “agora”, é fato que continuei e que o backspace foi somente um pensamento – sem desqualificá-lo por inteiro.

Vários vãos entre a impressão e o papel, a tela do monitor e os caracteres, os dedos e as teclas do teclado, os impulsos e os dedos, os pensamentos e os neurônios, os neurônios e a alma. Nada é inteligível então. A lógica é só ilusão.

A garota que queria morrer

“Creio firmemente na fusão desses dois estados aparentemente contraditórios, sonho e realidade, numa espécie de realidade absoluta, numa super-realidade.”

Breton

Ela vivia de rock’n’roll, era movida por rock’n’roll. Sentada em sua cama olhava para a parede coberta de imagens, pôsteres de antigos bastardos (cabeças de motor). Viajava em nuvens púrpuras, pulando de pára-quedas junto a um guitarrista alucinado. Graças a Lucy que, com seus diamantes está no céu, agora também via submarinos amarelos. Encontrava-se à quatro mil trezentos e vinte horas em boas vibrações, mas não adiantava nada, queria morrer. Pensava em várias maneiras de seguir adiante, pensou em vodca com suco de laranja e enroladinhos de presunto. Lembrou-se de Joy, rapidamente colocou The Idiot no toca-discos enquanto assistia uma gravação tosca em VHS de Werner Herzorg. Tremeu, não se pendurou, não achou local para a corda. Nem tinha corda e, ainda mais, para que imitar os outros? Acendeu um incenso. Tentou meditar, tentou se lembrar de palavras que lhe desse conforto. Só pensava numa revista em quadrinhos: Morte – o grande caminho da vida.

Sin CityAcidade dos pecados – sua visão do mundo. Desejou ser como o ‘V’ e mudar a sociedade sozinha. Viver numa anarquia. “O caos precede a anarquia”. Sua mente estava um caos. Caos de informações, de emoções, de angústias… Curtia agora um dirigível de chumbo, não havia Cura nenhuma nesse momento. Pensou em si, no que seria ela. Era boca suja como Johnny Rotten, era mulher como Janis Joplin. Como uma garota de Bauru, achava Cazuza um anjo. Se cansou da auto-análise e leu Castañeda disfarçado de Moebius. Em sua frente a bandeira vermelha de Che balançava. Ideais, lutas, dialética, veias abertas de uma América Latina, a história era um conjunto de transformações da massa, seria ela uma utópica? Não, nunca se deu bem com os ideais burgueses. Pedras rolavam em sua cabeça. Satisfação! Analisou sua descendência negra. Nunca a negou! Pantera negra quis ser um dia, não vivera na época certa, conseguira somente ser uma inimiga pública. Não era uma refugiada mas brincava de jazz ácido. Não era uma máquina de sexo, mas queria paz, união e diversão.

Estudara em uma escola de escândalo, onde às vezes se escondia com ratos em um porão. Em meio a plebe rude revoltada nas ruas, via abortos elétricos pelo chão, afinal vivia numa capital. Capital inicial, início de algo. Nunca soube o quê. Sonha com uma sociedade alternativa, com chicos, marias, gilbertos, gals, caetanos, elises, miltons, zés, joãos, tudo aos Montes. Cantando tropicálias, xotes, bossas, reggaes, tudo… Tudo girava em sua psique. Deus, diabo, sol; diabo, deus, sal. Se sentia uma pagadora de promessas e ao mesmo tempo uma bela da tarde. A fraternidade era vermelha, a igualdade era branca, a liberdade era azul e o amor era rosa, cheio de bolinhas pretas e triângulos alaranjados. Sentia muito Ódio, queria morangos, chocolates e tomates verdes fritos, para comê-los com Felini, às oito e meia, num café Bagdá. Em sua mente passou um tempo de violência e lembrou-se de novo de sua morte tão desejada. Não queria uma morte trágica como a de Bob. Não queria morte com arma como a de Peter. Não queria morte com remédios como a de Marilyn. Sentir mais dor? Sempre vivera numa paranóia constante que não lhe deixara viver, por que mais sofrer? Tudo é dor.

Hemp começava a se espalhar pelo ar. Seus olhos começaram a ficar em brasa, fumaçando fumaça. Gostaria de ser uma Lee, mas no máximo era uma Silva. Lembrou-se da rádio rock’n’roll, donzelas de aço, buracos púrpuras, sapos rosas, panteras, correntes alternadas e continuas, sepulturas, missas negras, caçadores… Pensava muito. Pensou em Cartola: “sorrir, eu pretendo levar a vida/foi chorando que eu vi a mocidade perdida”, por isso não chorou, as rosas não choram. Sincronismo do acaso… por que nem o acaso chegara a ela? Trocou de disco. Colocou John Lee Hocker e começou a pensar de forma blues, melancolicamente, de certa forma, pensou soul a la Aretha.

Mortes, doenças, fome, misérias, guerras, políticos, pobreza, desigualdade, ricos, pessoas bonitas, corrupção, hipocrisia, dinheiro, arrogância, tortura, polícia, bandidos, prostituição, mídia, trabalho escravo, marketing, quebra de países, queda de bolsas, fusões empresariais, capitais especulativos, capitalismo selvagem e selvático, desonestidade, ira, ganância, cobiça, gula, volúpia, não pronunciarás o nome de Deus em vão, não matarás… ela come carne! Não entendia mais nada. GLOBALIZAÇÃO!!! Esta era a palavra da moda. Buda os ilumine. Papai, mamãe, titia, cachorro, gato e galinha. Família, algo sem lógica. Vida, algo sem lógica. Morte futuro de todos. Ela suava frio e quente ao mesmo tempo. Suava morno.

Viu que era uma música ao longe, um capitão da areia. Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois… quinze! Quinze? Lógico, sentia fome agora. Alma rebelde e profeta. Pensou ser Desdêmona, mas só conseguia ser Messalina. Gostava de ambos os sexos, não fazia distinção, o que lhe atraia não era o físico e sim o tudo. Como seria sua lápide mortuária? “FOI POETIZA – SONHOU – E AMOU A VIDA” como Azevedo. Arte pela arte? Aquilo que pretendia fazer seria sua mais bela obra. Entraria para a história. Não queria se matar, queria morrer. Sentiu que a chamavam. Era Jim. Atravessou as portas da percepção. “This is the end, my only friend, the end”. Deitou-se em sua cama, olhou pela última vez em seu caleidoscópio, bebeu o último gole de vinho, perdoou sua vida Judas, fechou os olhos e simplesmente parou de viver.

Adágio para ela

Há meia hora de espera em cada minuto. Chega aos tímpanos o movimento do ar vibrando notas velhas, gastas, usadas ao infinito, infinitamente plausíveis a esse momento, de um choro antigo que, carinhoso, afaga os cachos da espera. Cada compasso é medido em cinco segundos e a música se maneia em uma presença absurda. A máxima constatação da presença. Duas horas de música em apenas quatro minutos. Ainda assim ela virá. Certeza.

Dobrando a esquina o nariz já se atina em compreender o mistério do ar envolvente que exala de cada poro de seu corpo. Ela vem perfume em flor. Ela vem flor. Vestida de primavera, tomara-que-caia, tons verdes rosas. Ela e seu vestido são uma só. Já se sabe disso desde antes de duas horas atrás. Cada leve movimento seu e de seu contíguo verde-rosa vão par-e-passo com o ar, com a vibração em ondas do ar, como se aqui mesmo houvesse mar. Como se vento e mar fosse. Um maremorso ela é.

Agora já se vê de longe sua presença. Close em suas panturrilhas arredondadas e duras. Close em sua nuca. Chega ao apogeu o segundo movimento da sinfonia. As batidas são mais lentas, o compasso é mais demorado, a bateria chia como se ovos fossem fritados em uma frigideira num dia ensolarado de domingo pela manhã cedinho. Close em seu olhar. Seu olhar demora pelo menos cinco dias. Cada piscada é a fotografia do infinito. Ela retira a franja da testa, movimento único de mãos, corpo e cabelo. Ela. É. Toda. Uma.

Sua silhueta se move cadente. Candeia como se estrela fosse. Estrela que é. Pelo menos dez planetas giram agora ao seu redor e mais algumas centenas de cometas e mais alguns milhares de meteoros e mais um infinito ao seu redor. Como se céu fosse. Como céu que é.

Nada profana seu corpo. Nenhum adereço. Nenhum retoque. Nenhuma profanação. Tudo como sua intervenção em sua natureza disse que deveria ser. Tudo como deveria ser. Tudo como a é.

Já era prevista a sua chegada. Dez minutos atrás, em fato, duas horas e seis minutos atrás, o bar calou. Tudo serenou. As pessoas ficaram em estado de ar, de mar, de movimento de brisa. Quando ela chegou, o bar parou. O som não pôde parar, teve que se contorcer para fazer valer a sua presença com a presença dela, teve que se retorceu e se virou do avesso até que o piano conseguiu marcar compasso, levando pérolas aos poucos, ao mar.

Reles mortais tentaram uma aproximação, mas quando próximos ela virou um vulcão em lava que cobria tudo, preferindo a solidão. Sentada em frente ao balcão, copo de Martini na mão, ela acendeu um cigarro como se não houvesse solução e nem mesmo problema, e nem mesmo questão, quiçá resumo houvesse, mas ficou só a constatação de que ela fumava um cigarro e, ainda assim, tinha em flor o hálito.

Quando a banda parou alguns instantes, logo o bar se apressou em colocar alguma trilha sonora outra. Close no silêncio promovido pelo encontro do copo de Martini com a sua boca. Menino bonito, menino bonito. Ela repetia lentamente enquanto sua expirava a fumaça do cigarro. Menino bonito, menino bonito. Ela repetia com o olhar perdido no horizonte que começava e acabava com as grades da loja em frente. Ela ficava. Ela estava ali. Uma mulher teve um ataque cardíaco e um homem um ataque histérico quando entraram no bar e se depararam com ela.

Naquela noite, o bar ficou aberto e as pessoas em estado de alumbramento durante dez dias. Desatentos pensaram que foram oito horas.

Dizem que as santas exalam perfume de flores depois de mortas. Ela está viva.

Como Assim AVC?: uma história sobre recomeçar / Lísia Daniella

A experiência de quase-morte e os desdobramentos de uma vida enclausurada no próprio corpo são os panos de fundo da história real de uma jovem de 30 anos que sobreviveu a dois acidentes vasculares cerebrais, condenando-a ao prognóstico da tetraplegia e da síndrome do encarceramento. A jovem, aparentemente saudável, fora dos possíveis fatores de risco para a ocorrência de um AVC e vivendo o auge do seu trintênio, morreu para renascer e ser jogada à prisão sem grades de si mesma. Incapaz de falar e movimentar qualquer membro do corpo, mas plenamente consciente, recolheu os cacos que sobraram da sua vida e, com a ajuda fundamental da família e dos amigos, se libertou do cárcere, rasgando o roteiro do papel dramático e inservível que os médicos lhe entregaram para construir o próprio roteiro de superação da sua tragédia particular. A vida pulsando dentro de si foi o primeiro degrau da escada mental que ela utilizou para sair do buraco de incertezas em que se viu após o coma. Você descobrirá de que forma os demais degraus foram construídos, a partir de um verdadeiro tour pelas situações mais agonizantes que uma pessoa totalmente incapaz experimentou. Esta história é dela, mas é também de todos que, de alguma forma, sobreviveram e aprenderam o que é a vida após uma tragédia particular, seja você vítima, parente, amigo, profissional da área da saúde ou apenas um curioso por histórias de sobrevivência e recomeços. Você vai explorar o desconhecido e imprevisível mundo da reabilitação física e emocional, pelo relato pessoal de quem sobreviveu e recomeçou uma nova vida. Esta é uma história que fala de fé, mas também de desânimo; que fala dos anjos e demônios que surgiram durante a sua trajetória, mas também do que eles lhe ensinaram; que fala dos dias sem cor e sem gosto, mas dos dias mais coloridos e saborosos que é possível vivenciar; que fala sobre quem acreditou ter perdido tudo, mas na verdade só encontrou o que realmente precisava para recomeçar. Ela recomeçou e você também descobrirá que pode recomeçar, seja lá o que tenha lhe feito paralisar. Está pronto?

Drogas para adultos / Carl Hart

‘Drogas para adultos’: uma perspectiva sem preconceitos

Carl Hart

18 de junho de 2021

O ‘Nexo’ publica trecho de livro em que o autor – com base na ciência e em experiências pessoais – argumenta a favor dos benefícios do uso recreativo de entorpecentes e explora os efeitos da criminalização desta prática

Em 10 de dezembro de 1986, James Baldwin foi o orador principal no almoço do National Press Club. Apenas 44 dias antes, entrara em vigor a Lei Antidrogas. Baldwin aproveitou a oportunidade para criticar a nova legislação, referindo-se a ela como “uma lei ruim”. Ele previu que ela exacerbaria a discriminação racial e “só seria usada contra os pobres”. Além disso, instou especificamente os políticos negros a pressionarem pela legalização das drogas em nome de seus eleitores. Dezesseis dos vinte membros do Black Caucus do Congresso votaram a favor da nova lei.

Naquela época, eu servia na Força Aérea dos Estados Unidos e estava estacionado na Royal Air Force Fairford, em Gloucestershire, Inglaterra. Fazia parte da unidade policial responsável pela segurança da base. Eu nem sempre havia sido policial, nem queria ser. Mas, em 14 de abril de 1986, nosso país bombardeou a Líbia, em retaliação a atos de terrorismo patrocinados pelos líbios contra soldados e cidadãos americanos. Os aviões KC-135 que forneciam reabastecimento aéreo para os bombardeiros saíam da nossa base, então estávamos em alerta máximo para contra-ataques.

Como parte das medidas aprimoradas de segurança básica, fui selecionado, para meu desgosto, para reforçar a polícia de segurança. Na minha nova função, patrulhava a base com um rifle M16, às vezes por dezesseis horas seguidas. Eu odiava esse trabalho. Mas fazia o que me mandavam porque havia jurado obedecer aos meus superiores, bem como apoiar e defender a Constituição contra todos os inimigos dos Estados Unidos, externos e internos. Eu não me considerava particularmente patriota. Estava apenas fazendo o que era certo, do mesmo jeito que era certo não matar outro ser humano, não mentir e não usar drogas. Era certo e simples.

As observações de Baldwin, na minha opinião, estavam erradas. Fiquei num silêncio descrente, ouvindo com atenção enquanto ele apresentava seus argumentos. Sua sugestão de que a polícia aproveitaria a oportunidade — proporcionada pelo novo estatuto — de prender seletivamente os negros era difícil de aceitar. “Se as pessoas não usarem ou venderem drogas”, pensei comigo mesmo, “elas não serão presas.” Naquela altura da minha vida, embora tivesse sido parado pela polícia mais de uma vez por nenhuma outra razão além da cor da minha pele, eu ainda era ingênuo demais para entender plenamente que certas comunidades eram superpoliciadas e submetidas a um tratamento injusto pela polícia.

Os comentários ponderados e não condenatórios de Baldwin sobre drogas e legalização eram diferentes da narrativa pública dominante. O fato de ele não condenar as drogas parecia estranho. Suas opiniões eram desconcertantes. Elas certamente não eram formadas pelos incontáveis anúncios de utilidade pública que traziam poderosas advertências antidrogas feitas por celebridades. “Fumar crack é como colocar uma arma na boca e apertar o gatilho”, dizia um desses anúncios, cuja mensagem assustadora deixou uma impressão indelével em mim. Eu temia que as recomendações de Baldwin levassem a mais drogas e caos em bairros com poucos recursos, como aquele de onde eu vinha.

As opiniões de Baldwin sobre as drogas pareciam irresponsáveis. Fiquei perplexo e decepcionado. Ele era um dos poucos pensadores que eu realmente venerava. Seus escritos tinham me ajudado a ver que os americanos brancos, enquanto grupo, não eram meus inimigos, ainda que, de vez em quando, alguns me frustrassem pra caralho. As palavras de Baldwin expressavam essa relação com nossos irmãos e irmãs brancos de forma eloquente: “Nunca consegui odiar os brancos, embora Deus saiba que muitas vezes desejei matar mais de um ou dois”.

Sei agora que Baldwin estava certo sobre as drogas, assim como estava certo sobre tantas outras questões importantes. A aplicação da Lei do Crack levou, de fato, a uma discriminação racial desenfreada em prisões, acusações e condenações. Os efeitos dessa prática repugnante continuam a reverberar até hoje. Eu levaria mais de uma década para tomar consciência dessa injustiça, apesar de vários de meus próprios amigos e parentes terem sido presos e cumprido pena por violar essas leis.

Essa percepção me fez repensar meus pontos de vista sobre as drogas e sua regulamentação. Tenho vergonha de admitir isso agora, mas houve um tempo em que acreditei sinceramente que as drogas destruíam certas comunidades negras. Isso apesar de, no mesmo período, ter comparecido a um sem-número de eventos sociais organizados por colegas brancos, geralmente em comunidades brancas, nos quais quase sempre eram servidas substâncias psicoativas — tanto legais quanto ilegais — como lubrificantes sociais. A disponibilidade de drogas era abundante. No entanto, elas não destruíram essas pessoas brancas ou suas comunidades. As pessoas a quem me refiro são algumas das mais responsáveis e respeitáveis que conheço. São cientistas, políticos, educadores, ativistas, empresários, artistas, personalidades da mídia e muito mais. Elas são seus filhos, seus irmãos, seus pais, seus avós. São você… e eu. E são usuários de drogas, embora na maior parte usuários enrustidos.

Carl Hart é professor nos departamentos de psicologia e psiquiatria na Universidade Columbia e pesquisador do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York. Seu livro anterior “Um preço muito alto”, publicado no Brasil pela Zahar, recebeu o PEN/E.O. Wilson Literary Science Writing Award.

https://www.nexojornal.com.br/estante/trechos/2021/06/18/%E2%80%98Drogas-para-adultos%E2%80%99-uma-perspectiva-sem-preconceitos

O alimento dos deuses / Terence McKenna


1. Deveria ser criado um imposto federal de 200% sobre o tabaco e o álcool. Todos os subsídios governamentais para a produção do tabaco deveriam ser cortados. Os alertas nas embalagens deveriam ser reforçados. Devia ser cobrado imposto federal de 20% sobre o açúcar e seus substitutos, e todo o apoio para a produção do açúcar deve ser interrompido. Os pacotes de açúcar também devem conter avisos, e o açúcar deve ser um tópico obrigatório nas matérias sobre nutrição nos currículos escolares.
2. Todas as formas de cannabis devem ser legalizadas e deve ser cobrado um imposto federal de 200% nos produtos derivados da cannabis. A informação quanto ao conteúdo de THC no produto e as conclusões atuais relativas ao seu impacto sobre a saúde devem estar impressos na embalagem.
3. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial devem parar de fazer empréstimos aos países que produzam drogas pesadas. Somente a inspeção internacional e o certificado de que o país está cumprindo a determinação poderá restaurar a possibilidade de receber empréstimos.
4. Deve haver um controle estrito sobre a fabricação e a posse de armas de fogo. É a disponibilidade irrestrita de armas de fogo que tomou o crime violento e o abuso de drogas problemas tão relacionados.5. A legalidade da natureza deve ser reconhecida, de modo que seja legal a posse e o cultivo de todas as plantas.
6. A terapia psicodélica deve ser legalizada e a cobertura dos seguros de saúde deve incluí-la.
7. A regulamentação da moeda e da atividade bancária deve ser reforçada. Atualmente a ligação dos bancos com os cartéis criminosos permite a lavagem de dinheiro criminoso em grande escala.
8. Há uma necessidade imediata de apoio maciço à pesquisa científica relativa a todos os aspectos do uso e do abuso de substâncias, e um compromisso igualmente maciço com a educação pública.
9. Um ano após a implementação dos quesitos acima, todas as drogas ainda ilegais nos/ Estados Unidos devem ser descriminalizadas. o intermediário é eliminado, o governo pode vender drogas 200% acima do preço de custo, e esse dinheiro pode ser colocado num fundo especial para pagar os custos sociais, médicos e educacionais do programa de legalização. O dinheiro resultante dos impostos sobre álcool, tabaco, açúcar e cannabis também pode ser colocado neste fundo.
10. Também a partir desse período de um ano devem ser anistiados todos os infratores em casos relativos a drogas, caso não tenham envolvimentos com armas de fogo ou assalto criminoso.

4176. Um dia quis eu ser poeta

(Para mudar, não pense)

Corpos sem consciência vagueiam
Fico perdido em pensamentos
Estou preso e cercado
Por onde passo sou fuzilado
A penumbra foi embora
Claridade me ofusca a alma

O que identifica é o que é meu
num ato individualista

Mentiras sobre mentiras
Todos estavam com suas máscaras
Ia andando apressado
Corria, sem olhar para os lados
Levemente, em busca de alívio
Minha vida é uma nau sem rumo
Sem vela, sem mastro, sem nada

A única coisa que existe

O homem que confundiu sua mulher com chapéu: e outras histórias clínicas / Oliver Sacks

O homem que confundiu sua mulher com chapéu: e outras histórias clínicas 

Oliver Sacks


O DISCURSO DO PRESIDENTE


Mas o que estava acontecendo? Uma gargalhada estrondosa explodiu na enfermaria dos pacientes com afasia, justamente na hora do discurso do Presidente, e todos eles estavam tão ansiosos para ouvir o Presidente falar…

Lá estava ele, o velho Sedutor, o Ator, com sua hábil retórica, seus histrionismos, seu apelo emocional — e todos os pacientes rebentando de rir. Bem, nem todos: alguns pareciam perplexos, outros, indignados, um ou dois, apreensivos, mas a maioria parecia achar graça. O Presidente estava, como sempre, induzindo — mas, ao que parecia, induzindo-os mais ao riso. O que eles poderiam estar pensando? Poderiam não estar compreendendo o Presidente? Ou talvez estivessem compreendendo bem demais?

Com frequência se dizia que aqueles pacientes — os quais, embora inteligentes, sofriam a mais grave afasia receptiva ou global, sendo por isso incapazes de compreender as palavras em si —, não obstante sua condição, entendiam quase tudo o que lhes era dito. Seus amigos, parentes e enfermeiras, que os conheciam bem, às vezes mal conseguiam acreditar que eles eram mesmo afásicos.

Isso acontecia porque, quando lhes falavam com naturalidade, eles percebiam uma parte ou quase todo o sentido. E naturalmente as pessoas falam com naturalidade.

Assim, para comprovar a afasia, o neurologista precisava fazer um esforço extraordinário para falar e comportar-se de maneira não natural, para remover todas as pistas não verbais — tom de voz, modulação, ênfase ou inflexão sugestivos — além de todas as pistas visuais (expressões, gestos, todo o repertório e postura que em grande medida são inconscientes e pessoais); era preciso suprimir tudo isso (o que podia exigir um disfarce total da pessoa e a total despersonalização da voz, chegando ao ponto de usar um sintetizador de voz computadorizado) a fim de reduzir a fala a meras palavras, uma fala inteiramente destituída do que Frege denominava “cor do tom” (Klangenfarben) ou “evocação”. Com os pacientes mais sensíveis, era apenas mediante essa fala altamente artificial, mecânica — meio parecida com a dos computadores de Jornada nas estrelas — que se podia ter certeza absoluta de sua afasia.

Por que tudo isso? Porque a fala — a fala natural — não consiste apenas em palavras, nem (como julgava Hughlings Jackson) só em “proposições”. Ela consiste na expressão vocal — em exprimirmos tudo o que queremos dizer, com todo o nosso ser — e isso, para ser entendido, exige infinitamente mais do que o mero reconhecimento das palavras. Essa era a chave para a compreensão dos afásicos, mesmo quando eles não conseguiam entender coisa alguma das palavras em si. Pois, embora as palavras, as construções verbais em si mesmas possam nada transmitir, a linguagem falada normalmente é impregnada de “tom”, envolta em uma expressividade que transcende o verbal; e é precisamente essa expressividade, tão profunda, variada, complexa, sutil, que é perfeitamente preservada na afasia, embora a compreensão das palavras seja destruída. Preservada — e muitas vezes mais do que isso: fantasticamente intensificada…

Também isso se evidencia — com frequência do modo mais surpreendente, ou cômico, ou dramático — para todos os que trabalham ou convivem estreitamente com afásicos: parentes, amigos, enfermeiras e médicos. A princípio, talvez, não vemos grandes problemas; e depois percebemos que houve uma grande mudança, quase uma inversão, em sua compreensão da fala. Alguma coisa perdeu-se, foi destruída, é verdade, mas algo surgiu em seu lugar, intensificou-se imensamente, de modo que — pelo menos nas expressões vocais imbuídas de emoção — o sentido pode ser totalmente percebido mesmo que todas as palavras se percam. Isto, em nossa espécie, o Homo loquens, parece quase uma inversão da ordem normal das coisas; uma inversão, e quem sabe também uma reversão, a algo mais primitivo e elementar. E essa talvez tenha sido a razão por que Hughlings Jackson comparou os afásicos aos cães (uma comparação que poderia indignar ambas as partes!), embora ao fazer isso ele estivesse pensando principalmente nas incapacidades linguísticas de afásicos e cães e não em sua sensibilidade notável, quase infalível ao “tom” e ao sentimento. Henry Head, mais sensível a esse respeito, usa o termo “tom do sentimento” em seu tratado sobre a afasia (1926), e ressalta que essa capacidade é preservada, e muitas vezes intensificada, nos afásicos.

É por isso que às vezes tenho a sensação — todos nós que trabalhamos de perto com os afásicos a temos — de que não se pode mentir para um afásico. Ele não pode compreender nossas palavras, e portanto não pode ser enganado por elas; mas o que ele compreende, é com uma precisão infalível: a expressão que acompanha as palavras, a total, espontânea e involuntária expressividade que nunca pode ser simulada ou falsificada, como se pode fazer tão facilmente com as palavras…

Reconhecemos isso nos cães, e com frequência os usamos com esse objetivo — para detectar falsidade, malignidade ou más intenções, para nos dizer quem é confiável, quem é íntegro, quem diz a verdade, quando nós — tão suscetíveis às palavras — não podemos confiar em nossos próprios instintos.
E, o que os cães podem fazer nesse campo, os afásicos também podem, e em um nível humano, imensamente superior. “A pessoa pode mentir com a boca, mas com o ar afetado que vem junto ela não obstante diz a verdade”, escreveu Nietzsche. Para esse ar afetado, para qualquer falsidade ou impropriedade na aparência ou postura do corpo, os afásicos têm uma sensibilidade fantástica. E quando não conseguem enxergar a pessoa — isso vale especialmente para nossos afásicos cegos — eles têm um ouvido infalível para todas as nuances vocais, para o tom, o ritmo, as cadências, a música, as mais sutis modulações, inflexões, entonações que podem dar — ou tirar — verossimilhança à voz humana.

É aí, portanto, que reside sua capacidade de compreensão — de perceber, sem palavras, o que é e o que não é autêntico. Assim, eram os ares afetados, os histrionismos, os gestos falsos e, sobretudo, os falsos tons e cadências da voz que pareciam falsos àqueles pacientes sem palavras mas imensamente sensíveis. Era àquelas incongruências e impropriedades extremamente flagrantes, até mesmo grotescas (para eles) que meus pacientes afásicos reagiam, não logrados e impossíveis de lograr pelas palavras.

Por isso riram do discurso do Presidente.

Se não se pode mentir para um afásico em razão de sua sensibilidade especial à expressão e ao “tom”, poderíamos então perguntar: o que ocorre com os pacientes — se é que existem — que são desprovidos do senso de expressão e “tom” mas preservam, inalterada, sua compreensão das palavras: os pacientes do tipo exatamente oposto? Temos alguns pacientes assim, também na ala dos afásicos, embora tecnicamente eles não tenham afasia e sim uma forma de agnosia, em especial a chamada agnosia “tonal”. Para tais pacientes, tipicamente, as qualidades expressivas da voz desaparecem — tom, timbre, sentimento, todo o caráter — enquanto as palavras (e construções gramaticais) são compreendidas perfeitamente. Essas agnosias tonais (ou “aprosódias”) estão associadas a distúrbios do lobo temporal direito do cérebro, enquanto as afasias ligam-se a distúrbios do lobo temporal esquerdo.

Entre os pacientes com agnosia tonal em nossa ala dos afásicos, que também ouviam o discurso do Presidente, estava Emily D., que tinha um glioma no lobo temporal direito. Ex-professora de inglês e poetisa de algum renome, com uma sensibilidade especial para a linguagem e grande poder de análise e expressão, Emily D. podia representar a situação oposta: como o discurso do Presidente soava para alguém com agnosia tonal. Emily D. não era mais capaz de distinguir se uma voz exprimia raiva, alegria, tristeza — coisa alguma. Como as vozes não tinham mais expressão, ela precisava olhar para o rosto das pessoas, suas posturas e movimentos ao falar, e fazia isso com uma atenção, uma intensidade que nunca apresentara antes. Mas acontece que isto também tinha limitações, pois, devido a um glaucoma maligno, ela estava perdendo rapidamente também a visão.

Ela verificou, então, que o que precisava fazer era prestar a máxima atenção à exatidão das palavras e do uso das mesmas, e insistir para que os que a cercavam fizessem o mesmo. Cada vez menos ela era capaz de entender a linguagem informal ou a gíria — a fala do tipo alusivo ou emocional — e precisava que seus interlocutores falassem em prosa — “palavras apropriadas nos lugares apropriados”. Descobriu que a prosa podia compensar, em certa medida, a ausência da percepção do tom ou do sentimento. Dessa maneira ela pôde preservar, e até mesmo intensificar, o uso da fala “expressiva” — na qual o significado era dado inteiramente pela escolha e referência adequada das palavras —, apesar de ficar cada vez mais perdida quando se tratava de fala “evocativa” (na qual o significado é dado totalmente pelo uso e sentido do tom).

Emily D. também ouviu, com uma expressão petrificada no rosto, o discurso do Presidente, acolhendo-o com uma estranha mistura de percepções intensificadas e defectivas — a mistura exatamente oposta à de nossos afásicos. O discurso não a estimulou — nenhum discurso a estimulava mais — e tudo o que era evocativo, genuíno ou falso, passou-lhe despercebido. Privada da reação emocional, teria ela (como o resto de nós) se deixado arrebatar ou engolido o que fora dito? De jeito nenhum. “Ele não é convincente”, ela comentou. “Não fala em prosa apropriada. Seu uso das palavras é inadequado. Ou ele tem deficiência cerebral ou alguma coisa a esconder.” Portanto, o discurso do Presidente não funcionou também para Emily, em razão de seu senso intensificado do uso formal da linguagem, da prosa apropriada, assim como não funcionou para nossos afásicos, que têm surdez para as palavras mas possuem sensibilidade intensificada para o tom.

Eis, portanto, o paradoxo do discurso do Presidente. Nós, normais — ajudados, sem dúvida alguma, por nosso desejo de ser enganados —, de fato nos deixamos enredar (“Populus vult decipi, ergo decipiatur”). E tão astutamente foram combinados o uso enganoso da palavra com o tom enganoso, que só os que tinham dano cerebral ficaram ilesos, não foram logrados.