3935.

me perdoem o torto
tanto instalado nas
têmporas
mas não comungo
com o probo
tanto menos com o moro

sou do rolê é do rolo
do bonde do erro
até quem sabe

algum acerto

3935.

3933.

na melhor parte do dia
a arte de quem conspira
a pira que te inspira
o ângulo que ninguém vira
o riso que ninguém ouvira

e a parte que sequer houvera

essa parte do dia

a noite como quimera

3933.

3931.

Acende-me a alma: algo como diluir-te alcoólica,
abre-me as mãos: toda a extensão do calor frio,
e refletindo a acústica da tua bahia ir-te,
hirto em lábios moles a tua presença, morena
(que entra pelos sete mil buracos da minha derme
e não paralisa).
Junto tuas peças, colo os teus cacos, e vejo-te
geometria de rosas a pender de cachos com filtros,
costura-me bilro e macramês o peito em floresta,
e a mente ainda se dará às almofadas do teu colo
e espalhado entre as águas dos teus vãos
empunharei o sabor das tuas palavras em minha boca.

3931.

3928. do poema da meia esfera da vida

o poema da meia esfera da vida
deveria ser escrito em castelhano, já adianto
mas tenhamos nossas impressões
com as sinapses à lusitana mesmo

o poema da meia esfera da vida
nos fala dum movimento, não fala de

poderia ser tido em um quarto,
um quinto, um cêntimo
ou num sentimento
até mesmo num milésimo

o poema da meia esfera da vida
se encaixa tal e qual
em toda vida de qualquer vivente

se a esfera completa se efetivasse
junto a trinta distâncias do sol
o poema da meia esfera da vida
deveria ser lido
à sombra de quinze translações

ainda que o poema da meia esfera da vida
seja para sempre e sem direção
tendo qualquer exemplar
da tecitura humana
a paixão por lê-lo
ele é mais que um marco,
é uma passagem, um portal

o poema da meia esfera da vida
poderia marcar apenas um azimute no céu
mas poderia mesmo ser um poente
fechando o horizonte em curva
ao nascer de uma longa noite numa vida
ou quem sabe ser nascente de cachos dourados
a uma vida que até a meia esfera da vida
estivesse apenas na escuridão

o poema da meia esfera da vida
nunca foi escrito,
há uma conta magnética
que deve ser feita antes
e uma reza secreta que deve ser rezada
transliterada do egípcio ao igbo

o poema da meia esfera da vida
possui uma estrofe muito estranha
que começa com a saudação
“uma dedicatória a Juan…”
e termina com um mote e uma glosa
“perto do coração selvagem”

o poema da meia esfera da vida
não se combina e não fala da história
de uma meia esfera de uma vida
e nem do futuro em que se circundará

o poema da meia esfera da vida
possui uma trilha sonora afro-peruana
e apenas incendeia o peito de quem
percorre a meia esfera da vida

ele,
o poema da meia esfera da vida
que nunca será feito

3928. do poema da meia esfera da vida

3927.

o medo é de quem aceita
ou de quem ataca?

o medo se reparte?
há culpa no medo?
a história corre para trás?

entre a liturgia e o
enfrentamento
há quem fique com o medo

apontar o dedo
é sempre medo

alcaguete do desejo

3927.

3926.

perdi a destreza pelo medo
perdi o amor
o próprio o dela
perdi o da outra
e o de que mais viria
tudo pelo medo

perdi meus dedos
minha vida
perdi até os meus desejos

e quando cometi o erro
esculpido com maestria
não foi habilidade
bravura euforia
foi o avesso

foi medo

3926.

3925.

há o vasto perturbar
das folhas secas pelo chão
o sabor adstringente
das folhas verdes
e as formas e as cores

nosso pulso seiva sente
não amortece o impacto
mas como amor, tece
a ânsia e a estrada

ame-se como as árvores se amam
todos os dias erguidas

3925.

Meditação

O sorriso das violetas na cozinha de manhã, enquanto olhava Baltasar se levantar do sofá com sofreguidão. O corpo de Baltasar era turbulento, melhor, era turvo e lento. A marca do cassetete que lhe deram às costas mostrava o porquê. Eu estava à mesa e conseguia ver os dois movimentos, a vagarosa dor de Baltasar e a explosão inerte das violetas.

Outro movimento pescou minha atenção, Relâmpago, o gato, me encarou só com um olho escondendo-se detrás da parede. Queria brincar, certamente. Só levei a caneca de café à boca, tampando meus olhos, para que Relâmpago não os buscasse mais e entendesse a mensagem.

Minhas pernas doíam, não sei por quanto tempo eu correra, em vários momentos eu sequer sabia para onde eu corria, só corria, em meio ao gás e ao estampido dos cascos dos cavalos estrangulando o chão.

Minhas costas estão doendo muito, disse Baltasar me fitando com uma cara de dor real. Senta, toma um café, se pá a gente cola num hospital pra ver isso daí, vai que quebrou algo.

Ele se sentou, mal conseguiu encostar na cadeira. Devia estar doendo pra caralho. Eu olhei para as violetas, elas realmente estavam lindas refletindo seus tons pelo alucinado da luz daquela manhã, que seria uma das mais belas já vistas: tudo ali na medida certa de luz e precisão, até o quadrante da janela arrebentava a barra do cosmético e se alicerçava esteticamente como amplidão a ser alcançada. Que manhã.

Tem açúcar? Baltasar só gostava de café com açúcar. Você sabe que tem e sabe onde está. Porra, pra que a grosseria, já não basta essa dor? Você sabe que não é grosseria, é apenas acordar, ainda mais com essa beleza toda em volta, não sei pra quê isso, nessas horas que duvido mesmo de Deus.

Baltasar me olhou com sarcasmo, ele era ateu convicto. Pegou o açúcar, colocou no café duas colheres bem cheias, com certeza o seu índice de glicose devia ser altíssimo. Contemplei-o com curiosidade por algum tempo, ele era feio, mas mesmo assim, naquele manhã, parecia que ele ornava ainda mais o ao redor.

Posso fumar um cigarro?

Fulminei-o com um olhar, ele correu torto à sua pochete, tirou um cigarro de filtro amarelo qualquer e o acendeu. Foi até a janela e ficou fumando enquanto bebia o que eu só conseguia imaginar ser uma caramelo travestido de café.

Vou meditar quinze minutinhos no quarto e já saímos, firmeza? Essa manhã está foda. Acho que dá pra organizar a mente um tanto.

Baltasar só aquiesceu com a cabeça. Entrei no quarto e fechei a porta, sentei-me em lótus diante da janela. Que imensidão, quanto horizonte, quanta luz! Maravilhei-me uns instantes antes de apagar a mente. Antes de estar ali e só ali. Relâmpago roçou as minhas costas. Levantei-me tentando controlar alguma irritação e tirei o gato do quarto. Baltasar pegou-o do lado de fora e começou a coçar-lhe a barriga. Voltei para dentro. Dentro.

A concentração estava difícil, muita coisa na cabeça, Baltasar e o cigarro lá fora, o mundo ruindo mais lá fora ainda, meus olhos ardendo por conta do gás, queimavam irritantemente, minhas pernas doendo. O que faríamos hoje? E amanhã? E depois? A revolução? Que revolução? Voltei novamente para dentro e corri a apagar, diluir, calmamente, sem força, o que arfava. Não era difícil, não precisava lutar, era só deixar as coisas se dissiparem. Algum barulho intenso houve lá fora, estranhei e não me atemorizei, voltei para aqui, agora. Presente.

Não sei quanto tempo fiquei ali, mas quando despertei, estava bem, sentindo-me com disposição. Abri a porta, saí do quarto e respirei fundo, feliz.

E então, Baltasar, partiu ver de qual é na suas costas?

Baltasar não respondeu. Olhei para os lados e nada. Andei para a sala e vi a porta aberta. No corredor do lado de fora, um rastro de sangue no chão até o elevador e Relâmpago cheirando curiosamente aquilo. A tia estranha do apartamento da frente me olhou por detrás da porta entreaberta. Quando notou meus olhos cruzando com os dela bateu a porta assustada. Não entendi nada.

Baltasar, que porra é essa, balbuciei, enquanto todo o meu corpo tremia.

Meditação

Dos que vagam no meio da noite

Olhei-o disfarçadamente, de soslaio. Desavisadamente. Não queria que percebesse meu interesse. Olhei seu semblante cansado, havia ainda aquele ar de tristeza, mas não era mais o mesmo de antes, aquele ar de tristeza infantil, bobo. Agora era um ar destruidor de tristeza. Essa nova tristeza lhe entumecia a masculinidade. Outrora sua tristeza o amolecia, dando um contorno flácido à sua constituição. Agora era algo bruto. Talvez essa tristeza houvesse se aglutinado a um certo rancor ou a uma mágoa e nesse momento se ajustava em torno de uma superfície árida, sem fluidez. Seu rosto estava desértico e até a cor lembrava areia, só que sem qualquer minúsculo cristal de quartzo a reverberar alguma luz.

Ele não havia reparado que eu o olhava. Estava longe, longe, léguas. Não tanto ali, eu dele e ele de mim, mas de qualquer coisa, parecia ausente. Levava uma lata de cerveja à boca mecanicamente, intercalando um gole e um trago num cigarro. Aflitivamente descompromissado e perdido. Provavelmente não ouvia a música, a banda, o show. Parecia que a única coisa que lhe acometia era aquela tristeza. Retumbante. Agressiva e longe. Descompassava os pés com um pretenso ritmo que não ouvia.

Parei a poucos metros dele, queria e não queria olhá-lo. Fazia muitos anos. Será que eu ainda fazia parte daquela tristeza? Certamente algum tanto, ninguém passa incólume por um amor. Será que ele ainda era ele? Certamente não mais algum tanto, os anos atravessam alma e pele.

O pouco das nuvens no céu desmanchavam-se esfumaçando os tons violáceos do horizonte. Um frio outonal apavorava os meus ossos e o casaquinho verde de linha pouco me bastava. Um tremor percorreu minha espinha, talvez pelo vento, talvez porque pensei que os olhos dele me buscavam. Virei de costas e andei. Não queria beber, mas o impulso me conduziu a comprar uma cerveja.

Demorei delicadamente em cada ato: num tom alegre e de intimidade perguntei qual cerveja ela tinha, indecidi-me, pedi a de sempre, quanto é, mais barato, vai? sei, entendo. Abri a bolsinha de moedas com estampa da Índia. Ele que havia me dado. Quantos anos… Que bolsa boa. Paguei, abri minha cerveja e bebi, lentamente, quando me virei, ele não estava mais lá.

Minha mente se acalmou por não mais vê-lo, mas aquela sombra de que agora era ele que poderia estar me observando me arruinava a naturalidade. Media cado ato meu, minuciosamente, na intenção de que, se ele estivesse a me olhar, visse apenas o ondular da leveza que existe e insiste apenas em ser verdadeira. Havia um desejo secreto em mim de que ele ficasse mais triste ao contemplar a minha altivez genuína.

Mas, inadvertidamente, eu ainda o procurava nos cantos, de esguelha, percorrendo cada rosto na multidão. Não o encontrei. A poucos metros, avistei Rebeca, fui até ela e por lá fiquei, ainda catando rostos ao longe, sem vê-lo em canto algum. No fim do show peguei o carro sozinha, não dei carona pra ninguém. Numa calçada mais à frente foi que o avistei de novo, caminhando no meio da noite, sozinho, ainda com aquela novidade de tristeza. De fato eu já não o conhecia mais, podia ser qualquer pessoa agora. Certamente, era. Parei num semáforo, ele ficou quase ao meu lado. Não se virou, apenas continuou caminhando, suspirando profundamente, olhar fixo no horizonte adiante.

Alguém atrás buzinou pra mim, o semáforo ficara verde e eu não havia saído. Caí em mim e parti, ainda a tempo de vê-lo mais uma vez. Muito tempo se passara. Era apenas um desconhecido no meio do noite, indo do nada pra lugar algum.

Dos que vagam no meio da noite