3894.

paleta de tons eólicos
redemoinhos sacis terras pós
cores de vento impermanentes

pintar é um ato romântico
fuligem no peito câncer fumo
catalisadores que disfarçam a inspiração

pintar gera um estado de tuberculose
no plexo solar
pintar desgasta a superfície
erosão sedimento tons vermelhos
e um sol abrasador

sinusite tuberculosa
sensitividade da pintura mediúnica

pintar é um ato intransigente
impulso do pincel paleta tons de sangue
 

                   cada imagem
                           rodopia ao vento
                   cada textura

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3894.

3891.

eu agosto como tu agostas
há gosto
como em calor     coloro
como em seca     secas
e se em fumaça     fumaço

                   queimada ar mada
                   da cinza nasço

3891.

3889.

em tempos tão sombrios
não devemos deixar de pensar
nas flores e nos séculos

entrementes nada é tão definitivo
conquanto tudo transitório

vejamos a mecânica dos gases por exemplo
não podemos olvidar

                   peido é vento

3889.

3888. Aldebarã

do nascente e do céu
donde sou vou e irei

quem segue
aquele que segue
o olho do touro
o aleph a própria volta

segue as plêiades
as primeiras do horizonte

o perseguidor
o mago
o brilho laranja resquício do sol na noite escura

do nascente e do céu
donde sou vou e irei

                  papa igbo que veio do oriente
                  acende a candeia no céu
                  donde sou vou e irei

3888. Aldebarã

3885.

progressiva ultrassônica a laser
e a cabeça parecendo um acelerador de partículas

                  luzes rompendo a velocidade do som
                  sem pensamento a mil por hora

3885.

S’ ‘eus

É como se eu tivesse essas contas a resolver e seria necessário apagar, zerar, saldar, todas as contas do passado. Não por ti, para ti, mas por mim, para que pudesse ser por ti, para ti. Se fosse em outro tempo… diriam, se tivéssemos nos encontrado lá atrás… dirias, e se for de outra vida? dizíamos. O certo é que fora nessa, não noutra. A via una desse momento presente, meu agora seu – ora direis: nosso, ouvir plurais, certo tens todo o senso e razão e sensibilidade –, sim, como todo eu se forma noutro – seu – s’ mais eu, designa o plural prévio preposto, distintivo da real posse – doutra – do si que se faz noutro – noutra – – – e como me faço agora assim: transcorrimento do passado até o agora em que me encontro junto a ti e penso em zerar o passado – me zerar? – para que me espraie e com teu espelho, refaça, reágua, ressaca até vazar. Mas a coisa se constrói na ida, na via, una, essa, nossa, o resto é medo, como o passado – medo. Cada bifurcação nos conduz à nossa via, a vida. Cada encruzilhada, uma esfera, retorna a si e nos fazemos, a ti, a mim, nós. Cada encruzilhada um nó nos caminhos – e quem não irá dizer que teus raios se fizeram foi no meu céu, ou que meu branco foi só pra ornar tua luz brilhante e que o firmamento se uniu ao vento para ser, não parecer? quem? pois que andei pelos caminhos abertos para ti e abri os braços para ti e até os próprios caminhos – eu digo, eu posso – eu que já sou um eu seu, que sou – s’ mais ou, designa a alteridade incontida a se expressar na dúvida, plural, prévia, preposta – – – – para ti que me faz, como nos fazemos. E a coisa se constrói no caminhar, e como caminhamos! As pistas de antes e as léguas desde o encontro. Por isso nos fazemos e nos compomos, eula que tume. Não, não são muletas, apoios, escoras, afinal, dialogamos já deitadas, horizonte de igualdade nos termos da voz, nos apelos dos olhos, na vibração da carne, uma hora por cima, outra hora por baixo, ou de lado, ou de quatro, ou de beira, ou de mãos. E toda hora de afagos, carícias, primícias, delícias e dengos e toda sorte de cafuné, da cabeça aos pentelhos vão fazendo e compondo. E certo que devem dizer: afoito, a foz é definida: fim. E’u só diria: fodam-se! Dos meus figos, filos, filhos, foices, flores, falo ‘, eu. Mas eu sou eu e sou outros e essa porra de tantos intermédios. Mas o caso é que agora eu sou esse que daí também sai – s’ mais ai, designa a dor locacional desentranhada e transposta em gozo, disruptivo de onde para o longe daqui distintivamente plural, previamente preposto – e que por aqui também fica no sem foco do diluído da fumaça do teu fumo se embrenhando nas beiras da luz da manhã ou no amontoado da repetição da luz – da rosa – no avolumado das cortinas que desenham o dia na noite profunda. Esse eu que é passado e que olha atrás e treme e anseia zerar é o eu moral que se escanteia pelas beiras, se esquarteja em corte nobres e carne de segunda, fora o osso, o sebo e a banha – e o sangue e os miúdos para o alimento dos caminhos – e se esvai até esse eu agora, forjado nesses ‘s todos e em ti, nesse agora que me esparrama e espelha e espalha e me avessa, das sombras à luz, sentidos sonantes para ser-se em si e poder ser por mim e, também, por ti, para ti, pronto, a cada passo, carregado de passado, para sê-lo e selar-se definitivamente em construção, caminhada, sem culpas, nem constas, nem contas, nem pagas, nem nada.

S’ ‘eus

3883.

o problema são as cracias
as arquias
tudo crarquicias
as propostas crarquicias
as eleições crarquicias
as promessas duplamente crarquicias
os templos igrejas legiões avidamente crarquicias
o amor da internet vídeo-cassete os carro loko crackcrarquicia
o paraíso perdido crarquicia
o éden os restos da arca e a aliança e o cálice cricrarquicia
cracias arquias esses são os problemas

posto que há um problema
sim lho há

não sinto os ismos como o defeito mor
o problema
eles são humanos apenas o tanto
mesmo os que se-lhe vão ao infinito do fim
são humanos
deuses deusas o além
humanos humanas homo
são desejos e o desejo de ser não desejo
perfeição
pode se dar no fáscio do turvo medo
no nazi do temor de temer
na igualdade da desigualdade de quem se acha livre da história
ou na igualdade de quem se meteu na história e a tem por fim
mas são baba humana e gozo e sêmen e sangue
anseio alcance

não são como as cracias as arquias
as arquiteturas neutras que manifestam o poder
como se não fossem ideias desejos mas fatos
razoáveis
as mona as demo as anar as pluto as buro todas
fingindo um ar de natureza
de razão
proporção áurea
ventre-livre
proteção acolhida LEI
e quem as protege como se escondem
capas e mais capas e ideogramas labirínticos labarínticos
pórticos e portais e vestais vendadas
ascensão das castas intocáveis como se naturais
cartas marcadas tarot nefelibata do momento das nuvens de veneno
LEI da natureza intocável

as cracias
as arquias
as crarquicias
travestidas de verdade
monolíticas sobre a imensidão da vida bípede
o fim da festa mais demorado
louros glórias pódios champanha
tudo cracias tudo arquias
tua mente e teu fim
teu medo e teu coma
cracia
arquia
crarquicia

em toda estrutura dada mora o culto a um ego
atemporal diacrônico e sem cronos
despersonificado no horizonte da história
para quem a vê e crê que ela exista
muito além de cinco mil anos atrás
muito além de cem mil anos atrás

mas houve sim um momento sem cracias arquias crarquicias
houve um além antes da natureza dada
definitiva

houve o que hemos de entender

 
                                                             ainda

3883.

3882.

sublimação do éden
meu desejo se compondo
nos seus dedos

um quadro matizes de rosa
sobre um fundo azul de verde de mar
seus dedos à mostra

descomprimimos os poros
fendas de areia e sal
o sol dos seus dedos

eu revia a cor textura corpo
nunca vista       dourava
os seus dedos sabiam o ouro

meu corpo hirto amolecia
cem mil léguas submarinas de ar
conduzido por seus dedos

supunha a raiz do sol casa das cores
quentura das formas
ainda que o frio tremesse seus dedos

senti certo a terna tenra capacidade
acolhida e lançamento       solar
do paraíso dos seus dedos

                   meu corpo em coro
                   me dizia

                   na língua dos seus dedos

3882.

3881.

a poesia como ato de guerra
como arrebatamento de vontades
como a luta contra o apostilamento dos desejos
como a consubstanciação da brutalidade onírica

a firmeza da modularidade das palavras
balas
a inteireza da desestruturação racional
mísseis
a força dos encantamentos ébrios
minas

bombas granadas morteiros
a poesia da guerra das palavras
lançadas como num front
trincheiras escudos barreiras
romper os peitos os crânios

matar

a poesia que fere
a crescente do poema atômico
os atos impensados os códigos
a blindagem
senhas sanhas insanas

a poesia como ato de guerra
lâminas machados espadas estopins
estilhaçando o enquadramento do mundo
que só pulsa
pulsa pulsa pulsa mais
a covardia da guerra plena
contra quem sem armas

                 a não ser suas mãos
                 e cabeças
                 e couraças

                 coração cutelo
                 pouco ar

                 poesia

3881.

3880. sinastria

saca a saga selvática
solidão só solidão
sorumbática
sapos saltando sobre
o sifão semiaberto
sussurrante
sótão aos solavancos
segundos simplórios serenados
solidão silenciada
seguindo sorrateira
soerguendo secas
sempre sempre significadas
susto seita sectária
solitárias suavizadas
separações sistemáticas
só a senda sinistra
ser sendo são
soluços silvos saques
sinistros

saí saindo
saí saindo

sal sobre a suave superfície
sintética
sins si sínteses
s.o.s.
só segui seus sons
singularidades simpáticas
séculos sabendo-te
sem se saber o sabor

segui seguindo
segui seguindo

segui as sincronias
sorri seu sorriso
saudei seu sol
senti seu ser soterrando
solidões
saga sedentarizada
sede saciada

                  sorvi sua sinestesia
                  servi-te seiva

3880. sinastria