4167. Do aproveitamento do mito

“Ninguém se ilumina imaginando figuras de luz.”

Dissolver as partes
asquerosas é tarefa
que redunda tempo
e luz por dentro das
entranhas.

O tempo de observar
o pútrido que secretas
em segredo como
pus a explodir pela
superfície da epiderme.

E ardente interno
ferver as seivas
doloridas que não
tem espaço de circulação
e que entopem veias
e artérias.

O tempo é de se
apoderar do mistério
da negação
iluminando as trevas
para que sejam trevas
tornadas trovas
diante do avolumado
do mundo.

Vai com medo mesmo
que ele te habita.

4167. Do aproveitamento do mito

4166. Semiótica semiológica

o sinal é o sintoma
a linguagem inscrita
na falta de ar
na seca do mar
de se adentrar

antes mesmo de ser
quase vida
o além tátil
de um componente
dado informacional

já matava

camada fina invólucro
agora
de gota em gota
transpassante

viralizava

era feito de homens
e mulheres feitas em homens
e se disseminava
e se dissipava como
dente, em vento, de leão

efêmero e destruidor

o sintoma já era
um gélido calor
na ponta dos dedos
irradiando um gelo
do porvir
polvilhando de agoras
uns amanhãs incertos

arrasador

não via destinatário
quem já posto às
raias de alvorecer ao fim
da segunda guerra mundial
ou quem nativo
das nações dos dedos
desse particular alvorecer
dos novos mil
cem
dez
e de quem entre booms
x
y
z
e o big-bang que virá
numa invertida

cômico

sardônico e sádico
já era viral
era virótico
na base do virote
de gole em gole
míseras combinações
pixelares e pulsares
lacrava-se ao inverter-se

intratável

acometia tudo que tivesse
cérebro
e se instaurava
no caminho do meio
entre o afã e o desejo
no pulso do peito
causando fadiga
e perda do tônus do tesão

paumolente

ainda não era microscópico
era também
mas imagético ao extremo
assassinava primeiro
a reputação
e pulsava anseios
de voar em linha reta
da sacada até o asfalto

mutante

2.0 e beta
teste e testa
besta e fera e besta
nunca bastava
e ao final do primeiro
ano do final enfim
o milênio do agora vai
e do agora volta
– reungido e cordeiro confinado –
matou-se a si ressuscitado
e mutou-se em vírus real

já era viral
agora
voraz vai

numa simbiose bioeletrônica

4166. Semiótica semiológica

4164.

Meu corpo pode ser
uma bomba viral,
certamente é uma
bomba semiótica,
ainda uma fonte
de disparos seminais

eu, um ciborgue
de matéria indefinida,
um amontoado binário
proteico, etéreo e material
eletrodo

minha determinação real
desmaterializa-se
em dados e vírus

eu, trago o gérmen do futuro

traço no escuro

e urro

4164.

O antiprojeto (sem referências bibliográficas)

Não é um antes do projeto, é um anti, contra, não projeto. As coisas se apresentam para nós como uma projeção do que virá e não como as são. A quantidade de projeções que fazemos nos coloca em conflito constante com o que é. Projetamos casas, sociedades, sistemas produtivos, casamentos, amizades, festas, orgias, economias, celibatos, mortes, democracias, vidas, ditaduras, após mortes, pré vidas, deuses, florestas, pessoas, ecossistemas, amores, vírus, ódios, doenças, ruas, computadores, redes, famílias, passados, futuros. Projetamos. E nos lançamos nesse mundo de projeção como se o que nos constituísse fosse o próprio projeto, o ideal, o vislumbre do cenário posterior. A vida se dá numa ponte constante entre a imperceptibilidade do agora e o anseio pelo vir a ser. Neste momento a coisa vindoura não tem forma, nem matéria, nem sensibilidade, nem existência, mas já se apodera de nós como se fosse algo presente e com tal intensidade que rouba a própria existência do agora. Eu faço o que faço agora, porque algo virá para lhe validar: o respeito, o reconhecimento, o pagamento, o gozo, o sucesso, o fracasso, o desalento, a destruição, o renascimento, a dívida. Mas o que virá, quando vem, se transforma em novo momento não vivenciado, apenas ponte para o que virá novamente a partir daquilo que veio e que, quando vivido, não se transformou em presente, mas em momentâneo passado, impreciso já, desforme, projeto do que foi, projeção. Ideia. É ela que funda esse virá constante, tudo como um escopo desejado ou não desejado mas esperado, projetado. Fiz merda, logo irei me foder. Premissa básica. Mandei bem, logo irei prosperar. Premissa ansiada. Mas tudo no passado: fiz. Pode ser colocado de outro modo: estou fazendo merda, logo irei me foder. Ou estou mandando bem, logo irei prosperar. Mas estar algo é deixar ao algo uma condição de não existência por si, em si, no agora. Faço merda e a vivo agora, enquanto merda existente, em mim, por mim. Mando bem e o vivo agora, enquanto o bem existe, em mim por mim. Equação de difícil consistência nesse quadro histórico. Por quê? Porque tudo agora é demais, a mais, sobra. Multitarefa, multipresença, hiper-conectividade, superestímulo. A composição do que fazemos e do que nos faz é de tal ordem que a identificação é quase nula. Quanto mais variáveis a equação, menor a possibilidade de resolução a um mero humano. Variáveis de toda ordem ainda se aglutinam e complexificam: materiais, biológicas, emocionais, sensoriais, históricas, ideológicas, sociais, culturais, mentais, cognitivas, espirituais. Certo que desde sempre estiveram todas imiscuídas, mas entre ter um ou dois exemplares de uma ordem de variável qualquer é diferente de ter vinte, trinta exemplares enfiados um por cima, ao lado e embaixo dos outros. Onde sobra espaço para observar cada ordem? Quiçá para observar a necessária desordem do caos que nos compõe? É tudo uma aleatoriedade imprevisível. Mas buscamos um cosmos. Não no agora, mas no que projetamos enquanto substrato de ordenação. Da inadequação aparente e sensível entre o que se compõe o agora – caótico – e o cenário idílico ou turvo do virá, emerge um lugar mais ameno do que a profusão do momento presente, uma utopia, um não lugar: o projeto: quando eu acabar isso… tão logo eu consiga aquilo… no dia em que eu fizer algo… onde tudo acabará… assim que estragar tudo… É confortável, te exime do agora, te lança para a utopia, preconcebida, imaginada, intangível, feérica, leviana, horrível, seja lá qual é o seu mote de expectativa interposto entre o imprevisível e o compreensível. É uma questão de segurança. Estamos em uma savana, cem mil anos atrás, um exemplar da espécie humana recém inaugurada sente medo – algo inerente, trabalho esmerado de milhões de anos de apuro evolutivo para a manutenção genética –, um barulho fez-se ao lado vindo do alto de uma árvore, ele treme, ela treme, um leopardo? espinha ereta a percorrer correntes elétricas de taquicardia. Um babuíno, apenas. O corpo relaxa, os músculos descontraem. Alívio. Segurança. Anos de apuração visual, olfativa e auditiva depois, acúmulo e mais acúmulo de experiências e o resultado: a segurança do controle da situação à identificação do leopardo real. Simulações em sonhos. Projeções do que poderia ter acontecido dada a experiência passada. O melhor é não sair à noite, o melhor é o fogo, um bando, um abrigo, uma lança, uma oração, uma forja, uma pistola, uma área de proteção ambiental, um satélite de monitoramento, uma transliteração espiritual, uma política pública, uma multa, uma sentença de morte: segurança, a mãe de todo o controle. O pai de toda a projeção. Eu controlo a natureza para ter segurança. E a segurança é um cenário do que pode ou não acontecer, não é medida para o agora. Não é medida no agora. Ela é uma negação positiva de uma antecipação: estou seguro porque não… Nunca é seguro porque estou ou sou. Impermanente. Tudo é. A segurança nunca será permanente, nem a paz, nem a dor, nem a felicidade, nem a perda, nem o amanhã. Nem a eternidade vindoura. A eternidade não virá, não será, ela só pode ser. E ela é. Agora. Contraditoriamente repleta e vazia. Nem começo e nem fim. Por isso, o antiprojeto. Adentrar na eternidade é antiprojetar, o medo ainda vai continuar, assombrar, assomar. Antiprojete sua vida e sua morte, como se fosse agora, porque é.
O antiprojeto (sem referências bibliográficas)

4162. O Krakatoa sabe

Vai desabar lava
fogo que vai
desabar lava
pra queimar o que tem que queimar
pra queimar o que tem


vai desabar lava
e é pro nosso bem

como as lâminas de raios e séculos
aglutinados nas raias do repouso
rarefescendo o ímpeto de vida que nos irrompia
e rescendendo o medo e a ânsia de e pelo fogo

pausa e contempla

o ar se alastra como sempre nos cobriu
a seiva pulsa como sempre nos alimentou
o sangue corre como sempre respondeu
a terra corre nascendo o tempo

tudo treme inteiramente
e a flama não cessa
de dentro das entranhas o movimento nasce
e se lança para o infinito

o caos é belo e horrível
e derrete certezas
e beija a escuridão rumo ao impossível

que somente ele é

4162. O Krakatoa sabe