0742. Obviedade XV

tirei hoje meus óculos
exceto ao sono e ao banho
(e de quando em vez nem neles)
pouco me recordo de os tê-lo
retirado da frente de minhas retinas

ah, qual surpresa descobri
quando os tirei hoje
quão maravilhado me vi!

há tempos não via o que vi,
vi tudo sobre outro diálogo
com os meus miolos
foi assim que vi que não era luzes
mas sim mandalas luminosas
destacando-se de um quadro

vi que não eram mais indivíduos
ou pessoas, eram todos iguais
uma massa amorfa de corpos
móveis à revelia da beleza ou
da feiúra

vi que não eram mais
nuvens, mas sim tons de
cinza rasgando o céu

vi que não eram mais automóveis
e sim caixas sonoras com duas
mandalas na frente e atrás

vi que não havia mais paisagem,
mas cores, luzes e formas numa
continuidade aparente

vi um mundo mais inteligível à
minha alma do que à minha
construção cultual do mundo

hoje meus amigos e amigas,
como fui feliz!
sem formas, sem informações,
sem conceitos
só um contínuo
só o infinito

e confesso amigos e amigas que tenho medo agora
de prosseguir o caminho com essa dura
realidade vítrea em minha face
que descortina o mundo em definições

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