1000. Apologia ao suicídio II

“Sempre só e a vida vai seguindo assim…”

Caminho pelas ruas planas e retas de Ceilândia
sem rumo, caminho por caminhar,
pleno de conflitos e planos
quase metódico, senão paradoxal.

Quando dá essa vontade de morrer, caminho
à esmo, qualquer rua, qualquer lugar
vendo conflitos e verdades
quase profético, senão poético.

E os carros à milímetros do meu fim
quando percorro o córtex asfáltico
da cidade.

E são tantas verdades em cada carro
e os pingos da chuva precipitando-se
em meu rosto e um blues em
meu peito e o mar querendo
precipitar sobre meus lábios.

Caminho querendo que tal movimento
seja o princípio do fim do vazio
na barriga, que se gesta há
mais de nove anos.
Uma gravidez eterna.
Eternamente grávido do nada.

No pigarro, as histórias efêmeras
de uma noite ingloriosa.

Manter-se íntegro.
Desintegrar-se.
E o engodo da sorte de
um raio na cabeça
nunca ocorre.

Manter-se íntegro.

Integralmente entregue
à letargia plena de
fazer um passo após
outro passo.

Íntegro.

Caminho pelas ruas de Ceilândia
num domingo quase chuvoso
e sinto que o mar precipita-se
em meus lábios e o sorvo
incólume entre carros,
verdades, planos e o
conflito de querer continuar
íntegro.

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