1022. O outro

Descobri que não sou eu:
sou o outro
Impessoal: o amor só pelas metades
Quisto à revelia:
só quando me cabe a pertinência
Sou o usado ao bel-prazer
O que fica com a falta
O que nunca faz falta
Sou o outro

As crises eu não compartilho
Compartilho pernas numa sala qualquer
lábios num colchão fino
lágrimas transbordadas no escuro do céu
palavras abafadas por uma noite em brasas
Sou o que não se pode contar
O incontido
Sou o exclusivo

Sou o segredo entre bocas miúdas
O que entra após os aplauos
Aquele que não pode ter bis
O gole de cerveja que se toma
sempre olhando para os lados
Sou o perigo do amor
Sou a fuga e o fulgor
E é bom ser o outro

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