1835. Pérola que afia

Lá dos meios da Bahia
Das barreiras do Corrente
E dos cantos das Minas
Da parte seca e quente
Eis que surge esta moça
Ainda humana e gente

Quando ali vi sua lida
Querendo sair de Águas Lindas
Chamei-a para passear
Lá por detrás do Guará
E conversamos no metrô
Para Taguatinga saindo da Rodô

Ela disse que foi mal
Quando foi à Chaparral
Que não teve muita sorte
Nos fundos da M-Norte
E que gostou do samba
Que foi no centro da Ceilândia

Falou que o céu era tão azul
Nas chácaras lá do P-Sul
Disse que a vida era cara
Mesmo lá na Samambaia
E que a morte passou tal
Quando morou no Areal

Gostou muito do mocotó
Que serviam na feira do Setor-O
E que não pôde ficar não
No barraco de São Sebastião
Trabalhou no Lago Sul
Mas morava no Céu Azul

Achou que era seu carma
Quando saiu de Mestre D’Armas
Vislumbrou a solução
E ficou um ano no Varjão
Mas o aluguel ficou tão alto
Que nem pensou na Vila Planalto

Passou só a leite e pão
Quando viveu no Tonhão
Dado pela bolsa feliz
Que lhe entregava seu Roriz
E que fez seu filho passar mal
Na casa da prima da Estrutural

Na eleição juntou-se aos fracos
Seguiu José, Joaquim e Passos
Na ânsia por conseguir seu lote
E talvez no arco-íris, de ouro, um pote
Vendeu sua cidadania
Por mais uma bolsa-família

Mas depois da eleição
Ficou sem lote, sem leite e sem pão
Amargou de pé em pé
Tentando ganhar um qualquer
E pensou meter as caras
E armar uma jogada

Fez mais dois filhos
E pensou em suicídio
Mas num barraco do Valparaíso
Jogou-se num precipício
Começou uma bocada
Que tinha de tudo e quase nada

Fez uma fita bem cara
Lá pros lados de Águas Claras
Assustou a morte
Num assalto na Asa Norte
E vislumbrou seu mundo azul
Com um seqüestro no Lago Sul

Mas num esquema errado
Num condomínio fechado
Viu acabar em peste
A sua vida no Lago Oeste
E passou por coisa séria
Enjaulada na Colméia

Hoje diz que o mundo é outro
E que vai voltar lá pros barrancos
Que o quadrado não dá nada
E que antes o ermo a uma vida errada
Que antes o esquecimento
Do que o concreto de cimento

Essa foi a história que contou a moça
Que não pôde ter sido outra
Uma filha de Brasília
Do mar em derredor desta ilha
Uma moça, tão avó, mãe e filha
Uma pérola que afia

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