pausa: Ana C.

Os ventos da idade vinham calmos, mesmo que transtornados, e anunciavam as limitações e a intensidade desejada. Já transcorridos alguns meses de quando larguei o futuro até então mais redondo encontrado para minha vida: tudo seria simples e bom, os moleques correriam pelo quintal ou azucrinariam todo o apartamento, dois financiamentos – um pro carro e um pro imóvel – devidamente aprovados pela Caixa dado os concursos já passados, um amor leve e redondinho abençoado por algum sacerdote. Joguei tudo pro alto naquele então. Definir o motivo é coisa complexa, que se incrusta no interior de anseios tortos e certos pela angústia e pela indefinição.

Só sei que larguei todo aquele e tudo aquilo que poderia advir. Mas logo na pancada, na sequência do então, o amor já me socou na esquina. Amor ciborgue, abençoado por eletrodos e acordes certeiros feitos em guitarras e pandeiros. Amor doce e azedo que me deixou mais poesia, que me mergulhou no emaranhado dos tecidos de palavras que encobrem a banalidade da vida. Livramor libertário e libertino cheio de metáforas, que me conduziu a amar o possível e todas as suas possibilidades.

No meio daquele momento de livramor e coisa e tal, no após lampejo daquele que fora um passado mais-que-perfeito, entre uma construção poética-internética coletiva e outra, foi que me apareceu Ana Cristina Cesar. Quem me introduziu de fato àquela poeta, me fora um amor crítico literário virtual-quase-presente.

Senhorita D. dizia (chamemo-la assim) que Ana Cristina Cesar (alcunhemo-la por Ana C. somente), era a poeta que mais lhe entendia em todo a vastidão e que fora seu objeto de estudos na graduação e seria na pós, ou podeira na pós e seria na graduação, não lembro agora a ordem das coisas. Naquele então eu ainda não havia lido em profundo Ana C., apenas havia passado os olhos por sobre alguns versos, espaçadamente, diletantemente, casualmente. Havia pouco espaço para ser preenchido por quem quer não fosse Paulo Leminski ou Mário Quintana, mas sei que Ana C. não me atinava de todo. Foi nesse contexto que me chegou:

E chegou chegando como mulher que não tem meias-palavras (só meia-bruxa e meia-fera) e te pega no solavanco:

Samba-canção

Tantos poemas que perdi
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…

“Ah, filha da puta”. Foi bem assim que pensei. “Se continuar desse jeito, me apaixono, à revelia de seu suicídio… Ou por dentro de todo o choque e charme de seu suicídio… Se continuar assim, serei seu verso exercício post mortem, a fagulha do seu indício…” arrematei o juízo enquanto bebia um copo de café às altas do dia vindouro, sentando em frente ao monitor com o comunicador instantâneo ligado mostrando que estava em linha. Alguns duzentos quilômetros além, Senhorita D. me guiava:

Senhorita D. diz:
e aí? como anda nossa Ana? rsrs
Chinaski diz:
então…
Chinaski diz:
to, tipo, criando coragem pra continuar…
Senhorita D. diz:
pq?
Chinaski:
bem, pq tenho medo de me apaixonar rápido demais…
Senhorita D. diz
;-)
Senhorita D. diz:
vai na página 59
Chinaski:
peraí…
Senhorita D. diz:
se livra da verdade, se apaixona logo de uma vez…
Senhorita D. diz:
se quiser facilitar, posso pousar a mão no teu peito… ;-*

Aí então eu fui, já sabedor de que algo iria acontecer que me marcaria para sempre:

Minha boca também
está seca
deste ar seco do planalto
bebemos litros d’água
Brasília está tombada
iluminada
como o mundo real
pouso a mão no teu peito
mapa de navegação
desta varanda
hoje sou eu que
estou te livrando
da verdade

Ok, não sou nenhum amante profissional de Brasília, mas tenha cá com ela meus encantos e tenho cá com ela minha relação topofílica específica. Gosto do determinismo ambiental e geográfico que ela me proporciona. Gosto dessa seca e dessa chuva, desse concreto, dessa lonjura, desse céu desmedido e desse tanto de pau torto e barro vermelho, tudo isso sempre me foi matéria-prima poética para lapidar, mas minha relação com ela vai além de sua geografia…

Quando eu vejo alguém escrever algo sobe Brasília, que seja melhor do que ser superquadra na cama do Nicolas Behr, ou luzes das cidades satélites que o Oswaldo Montenegro e o Dom Bosco enxergam – não citarei Renato Russo, me recuso a isso, de merda já bastam as acimas citadas –, já me comovo um tanto. E essa Brasília de Ana C. era muito mais a minha Brasília. Não apenas uma conjunção espacial planejada para a urbe poesificada na plástica aparência além da existência, mas o lugar em que me acometeram algumas vezes esse pouso da mão no meu peito: cidade viva. E o lugar em que ela havia livrado alguém da verdade. Simplesmente lindo – coisa que não uso tal adjetivo à toa, fique desde já sabendo, uso-o, pois, com a devida intenção de transpor a experiência estética sublime diante de algo que mereça se “perder o tempo” em contemplar.

Lá pelas tantas do dia já quase sendo, com a pequena cara vermelha do sol se apresentando para o horizonte, vi que Senhorita D. já não mais estava em linha pelo comunicador instantâneo, mas continuei a ficar aos pés de Ana C.:

Livro bom me leva a querer escrever nele.

EXTERIOR. DIA. Trocando minha pura indiscrição pela tua
história bem datada. Meus arroubos pela conjuntura.
MAR, AZUL, CAVERNAS, CAMPOS e TROVÕES. Me encosto
contra a mureta do bondinho e choro. Pego um táxi que
atravessa vários túneis da cidade. Canto o motorista. Driblo a
minha fé. Os jornais não convocam para a guerra. Torça, filho,
torça mesmo de longe, na distância de quem ama e se sabe um
traidor. Tome bitter no velho pub da esquina, mas pensando em
mim entre um flash e outro de felicidade. Te amo estranha,
esquiva, com outras cenas mixadas ao sabor do teu amor.

Esse me era especialmente injetável nas veias, tipo overdose de possibilidades: “ok, eu deixo mesmo meu ar coquete pelo seu kantianismo, pouso até o que me explode recostada em meu choro, mas ainda eu – desde sempre nascida e decidida –, faço o que quero e o que posso e que você fique aí esperando pela paz perpétua no estribilho de uma metralhadora longínqua; seu sangue e sua carcaça ainda me armaduram e você me ama e eu amo tudo o que me veio depois desde que amo você, ainda que colagens de paisagens no peito”. Corri a continuar mais, agora já, de joelhos, aos pés dela:

Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos
                                                                        vazios.

Primeiro o soco verborrágico, depois o koan hiper introspectivo. O suprassumo da subjetividade. E a quem, como eu naquele então, doido por sentir além da conta, sentindo tudo o que podia se sentir a cada dia, sendo quase pura sensação, queria apenas encontrar sujeitos que iguais sentissem, existi e residi um quarto de dia naquele um verso quase dois: “volto, para que o vazio se faça inteiro e preciso, lágrima cristalizada num quarto de segundo; basta apenas menos, e eu olharia o que é, para saber que já foi”. Terminei o livro ainda pela manhã e depois poesias me existiram durante um mês inteiro.

É interessante notar que esse é um dos poucos livros “roubados” que estão comigo. Não é meu esse livro, ele é da Senhorita D., pessoa que se encaixaria muito bem nesse poema constante do objeto do “furto”:

Atrás dos olhos das meninas sérias

Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão,
por injunções muito mais sérias, lustrar pecados
que jamais repousam?

O livro me foi emprestado apenas. No entremeio dum dos percursos feitos entre duzentos quilômetros pra lá, duzentos quilômetros para cá. O mais interessante foi a “troca” não planejada havida pelo livro: a sorte o trocou por um agasalho que ficou com a Senhorita D. Naquele tempo, esse agasalho me acompanhava sempre e eu tinha por ele um carinho imenso. Ele era bem parecido com a minha cara, talvez fosse já a minha cara. Era uma das “roupas de uma nova vida” que eu havia adquirido para me manter mais coeso depois da largada que eu havia promovido (lembra-se dela? a do início desse papo todo…). Hoje em dia imagino por onde ele anda, se nas mãos de alguém que precisa dele mais do que eu, ou se agasalhando o peito tocado pela mão de Senhorita D. de um literato ou crítico literário qualquer, mas gostaria que ele estivesse assim:

Noite calma, Jim afina o violão, Caio espera a cantoria, Paulo com "o" agasalho e cara de tacho e Cecília é puro encanto...
No fim da noite tudo é permitido: Paulo já deu "o" agasalho para Charles – e mesmo as calças –, Franz tenta lembrar aquela do Adoniran, Ana toma uma e tenta puxar o samba da memória e Vinícius fica ali meio paradão esperando a galera voltar com mais uísque...

Naquele momento eu estava aberto às sensações. Sentia tudo vindo a mim como um grande continuum de sincronias do acaso predestinadas. Senhorita D. chegou-me num rompante de poesia vivida e compartilhada, trouxe-me a possibilidade do encontro com Ana C., deu-me sua parcela de gosto no mundo e foi-se embora com meu agasalho, deixando-me seu livro – provável que ela levou mais coisas ainda: um gosto ruim na boca, um carrinho-de-mão, pelo menos, repleto de desilusão e um certo rancor pela espécie masculina. Mas isso tudo é conjectura, fico posto com o que posso mensurar: minha própria existência, que hoje, certamente, seria bem diferente se não tivesse topado com Ana C. em meu caminho.

Bom, já me excedi em demasia e a loucura me acompanha. No fim, o livro é mesmo muito lindo.

Senhorita D., caso ainda queira o livro, é só falar que eu devolvo, não sou, definitivamente, um ladrão de livros. E ah, realmente muito obrigado por te me colocado este livro e Ana C. na minha vida. Como ela mesma diz nele:

Este livro

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É
prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade
que você seduz, charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

PS: Tem muita coisa da Ana C. na rede, é só dar uma pescada aqui.

10 comentários em “pausa: Ana C.

  1. acho que esse é seu post mais confesso que já li aqui, mais do que qualquer outro verso já escrito. não tanto pela objetividade do dizer em sim, mas mais pelo peito aberto e livre, e tão frágil nas entrelinhas. um texto cheio de cicatrizes expostas e portas abertas para outras tantas. de amor às cicatrizes. Ana C. é realmente linda. e entendo completamente a verborragia poética causada em ti pelo impacto do livro. gosto, particularmente, do Caio F. falando sobre ela.

    tantas coisas mais me acometem lendo isso, memórias que são muito mais sentidas do que contadas, e que estão também, invariavelmente, contaminadas pelo tempo. esse que faz a saudade parecer maior e mais irremediável também.

    tudo parece tão distante, quase irreal. truques mentais tão sensitivos.

  2. Gostei da nova fase do blog =)
    muito legais essas novas descobertas
    Ana C., Kuri, Ledusha
    continue compartilhando!
    bjoo

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