2964. Por uma vida mais analógica

Como lidar consigo?
Esse silêncio que te rodeia o em si
por apenas meio metro.
A gente se cerca de técnicas
para não sentir apenas a si mesmo.

Chora a análise perdida
lamuriando-se por meio de
um pequeno retângulo repleto de
petróleo e metais raros,
pluga os ouvidos a pequenos
pontos sonoros
prega os dedos em
teclas apaziguadoras:
não a alguma solidão.

Daí como se sente o cair da vida?
Como se observa ela fluir?
Lidar com uma única informação quista
pelos sentidos: o mergulhão entrando no mar.

A gente já pensa aos pedaços
e conecta uma ideia a outra
pelo impulso de um clique,
cada pensamento no espaço de uma imagem
– que poderia ser mil –
e um resumo já em 140 caracteres.

O tempo não diminuiu,
é só informação confluindo demais.
O espaço não se contraiu,
é só velocidade demais.
Os dias, as horas, os anos
são exatamente os mesmos dos nossos avós,
mas a solidão de um momento,
guardado a sete chaves dentro de si,
não é mais possível.

O voo do olho sobre a luz do sol,
segredo tido dentro do seu sentido,
agora é público.
Daqui uns dias quem saberá o que é seu?

Os paradoxos do liberalismo:
todos somos diferentes por natureza,
mas apliquemos regras iguais
mesmo a quem não tem oportunidade igual.

E o vento continua balançando as amendoeiras
e as pessoas serão mesmo ainda tristes
ou um pouco felizes a cada dose ou falta de.

E detrás da reentrância do mar,
depois da igreja secular,
uma favela pousa seus segredos digitais
na meia encosta de um morro.
Isso que é a prova material
de que nós somos transitórios e obsoletos no mundo.

Mas a solidão é impossível.

Caminhamos para sermos uma massa de multidão
“monstro sem rosto ou coração”.
Não só arranhamos os céus
como arregaçamos as terras.

É isso, a felicidade é um ponto médio
entre a volição e o brejo,
mediada por artefatos materiais e espirituais
e até mesmo drogas para o sexo.

O sono já não basta.
A bosta não alivia.
O besta é a instância mor.
(Altares, custe o que custar
ao pânico da zorra que se vê)
Os bustos são o desajeitado desejo
injetado no peito.

Ok, a solidão não é permitida
e ninguém sabe mais lidar consigo
sem ajuda profissional.

E eu consumo, como todos,
com o sumo do mundo.
É isso aí, como o mundo, comum
e com, sumo.

Rio de Janeiro, RJ.

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