3001. Recorro ao descarrego pra retornar

Antigamente, bastava um rasgo de céu
e meu peito já se ampliava até o infinito
Um fresta de sol ou um pingo na testa
e tudo se carreava em descarga elétrica
lavando e levando o que havia por descarregar

Naquele tempo em que eu tinha ainda
o pouco de vida necessário para encantar

Foram naqueles dias em que o habitual
era a poesia no espelho a encarar

Quando todo ontem era viva marca do agora
e o todo inteiro do anseio do que virá

Antigamente, era preciso apenas uma carta
vinda de mala, mula, longe quilômetros
Para arrepiar a espinha e tornar a vida
coisa que valia, como se regar plantas
fosse o suficiente para cuidar

Tempo em que abrir um livro fazia sentido
e as histórias pautadas na páginas eram um ornar

Momento em que o sentido não era mero
desencantamento, poeira de quasar

Lonjura de tempo onde a mística do sol grosso
era só pra encosto e não pra remodelar

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