3282. Kianda

O sol pincelava algumas linhas pela borda nascente do dia
Recostado entre nuvens negras, esperava apenas o vento mover as coisas,
transpor o nada em raio e redemoinho, agarrar as luzes e cair pelas frestas
As nuvens macias se liquefaziam, gota por gota, nos pés de paus
Lá embaixo no chão, passeavam as nuvens negras entre folhas e cipós
entravam líquidas pela mata, caíam pétalas e frutas num olho d’água
reviravam vida e corredeira descendo a queda até espatifarem-se entre as rochas
As nuvens negras gostavam mesmo era de se admirarem no espelho da calmaria
Vinham flecha entre as águas, rasteiras e sorrateiras
até se encontrarem com elas mesmas, reflexas

Desci das nuvens e peguei o cume de um arco-íris olhando para a terra firme
a constatar que nada me erguia, que não pombas brancas,
sustentando-me ante a transformação das cores que enfaixavam o céu
Senti que as nuvens negras não me mantinham
que o vento e a chuva já me conduziam à paz de mim, ao fim do medo
Dali em diante seríamos eu e o tempo, uma árvore, até a velhice arqueada
até que uma fogueira me consumisse no que sou, a paciência para todo enfim

Desde que conchas narraram o fato, pressagiando, estava tudo traçado
só faltava haver o mar que ver, que entrar e ficar, o mar, sempre mãe
Da sorte que a ela me lancei, e por seu murmúrio me enlacei
Quando quase à beira-mar, na ponta da praia quase,
sentindo o gosto do ar salgar os dentes que se colocavam num sorriso certo,
já me preparava para o salto, para o abraço azul e macio nesse manto que envolve a dureza
era lá que me esperava o ponto final, na aurora do poente que doirava a areia
era lá no mar, porque as conchas já haviam cantado o enredo e o fim, bastava só um salto

A queda parecia vento, era feito que nem o sol se apagando no horizonte
fogueira de uma noite de junho se esvaindo na alvura de um dia vindo
a calma que toca tudo em derredor até que enfim se caiba a noite
A queda vinha, sem medo até o fim, desabava, querida e pronta
Veio toda e tropeçou num som que cortou o ar aparando meu corpo, baque forte
Foi um rodopio, um enrosco, quase cobra feita em som e cores
Me parou ali no ar, me deitou no céu e cadenciou meus olhos até a praia:
deu-se um estrondo e tudo estremeceu

Lá embaixo ela brilhava, cintura abaixo tudo luzia ouro e prata em ondas de inquietação,
desde seu colo até sua tez tudo enredava vontade e mar, perdição
Ela era feita de luzes e gente, de água e cores, humores e amores, era feita em som
Qualquer coisa me mantinha ali parado no ar, baqueado da queda e da visagem
Era qualquer coisa que se fazia nela toda, em seu canto e seu limite
Aquela melodia que saia de sua boca e aquela melodia que a compunha inteira,
era melodia o que me deixava em meio ao ar, era ela: Kianda
a que anda nas águas e enfeitiça nas praias e enamora nas pedras

Nuvens negras prostraram-se em minha cabeça, desabaram durante um mês
mas eu nem o quê, só limitava as retinas no que dispunha aquele ser
Ficava ali, envolto naquela melodia e nem tinha a feita de descer, tocá-la
Estava besta como nunca antes houve alguém e estava bem
Todo ensopado de chuva, todo mareado de sal, mas todo envolvido de som
E todo fincado no ar a olhar aquela que tinha a graça da melodia em tudo

Acho que foi de amor, que as nuvens negras me ajudaram a sair do ar
Elas me abraçaram dóceis e serenas, chuvosamente lacrimosas
me conduziram até o chão, derreteram-se em mim, adentraram minha pele
e moveram meu corpo até a que brilhava e eu todo negro, todo nuvem, todo água,
todo tudo, aquilo que se enraizava desde o tempo até o além
Desaguei no fim da noite em cima de Kianda, desabotoado o peito
desfeito em amor por tudo, amei-a até que sim, bastei-me em paz
Quando acordado, fez-se a luz, que me brilhou desavisada o inteiro do meu amor:
espalhar-se o quanto possa, pelo bem que faça, no que valha
sem queda

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