pausa: Adélia Prado

Os dias são amontoados de informações inigualáveis e todo mundo sabe disso – talvez, e provavelmente só talvez, em Kiribati nem todos saibam. Me questiono onde mora o tempo agora e já não consigo diferenciar tempo, informação e espaço. Tudo dá a impressão de ser apenas uma mesma coisa seguindo o fluxo da expansão do universo e sangrando nesses pequenos fixos já móveis (plexos em rede, algo como a imprecisão de sermos “nós”): a gente não vê, mas o tudo vai, inflacionário e relativo. Até supermáquinas para super acelerações de partículas tem quem faça. No final deve ser superútil, tipo descambar pra alguma nova bomba ou coisa que o valha (ah se me dessem a chance de “dar um reset”…). Tudo caótico.

Certo, o caos e a quantidade me atraíram por muito tempo, sempre flertei com eles. O caos principalmente, aquele mesmo que “precederia a anarquia” – o ácido sonho juvenil da vendeta (contra tudo especificamente). Flertei tanto com o caos que uma vez consegui até namorar ele, foi tenso. Até um monitor de computador ele jogou na minha cabeça depois que terminei o doce deleite de três meses. Tenso, muito tenso. Dias antes de findar meu romance com o caos, eu tinha comprado

talvez tenha até previsto a necessidade de menos caos, depois do caos. Adquiri o livro em uma barraquinha de livros que ficava em frente ao Quarentão, perto da Feira da Ceilândia, por uns dez pilas. Comprei com uma grande expectativa, posto que uma coletânea poderia introduzir-me a esta poeta de modo amplo – ah a quantidade de informação, a necessidade da amplitude, a precisão da velocidade… No fim, o caos fazia aniversário próximo e resolvi que ia dar o livro de presente para ele. Fiquei meio condoído de minha falta de poesia vindoura, já que teria de me desfazer do livro, tinha lido apenas uns poucos poemas iniciais e seriam pelo menos quatrocentas páginas de metáforas, metonímias, aliterações, enfim, da mais fina flor da poesia.

Refleti deveras sobre o ato. O caos mereceria? Ele tinha tentado me dar uma voadora na jugular no meio da rua dias antes, havia me perseguido até o trabalho jogando pequenas porções de ácido sulfúrico em minha cabeça, me feito correr de cueca na rodovia, me colocado em um tal estado de desmiolamento que acabei por gritar como um louco aos quatro ventos: “VAI SE MASTURBAR COM UM ALICATE, CAOS!!!!”, fez até com que eu traísse meus melhores amigos, bebendo espumante em taça de cristal em festas privês no Lago Sul… Meditei profundo: é, talvez o caos não merecesse o livro.

Resolvi dar uma chance à sorte do caos, jogando a responsabilidade para o acaso. Aleatório como sempre, abri e foi

Verossímil

Antigamente, em maio, eu virava anjo.
A mãe me punha o vestido, as asas,
me encalcava a coroa na cabeça e encomendava:
‘Canta alto, espevita as palavras bem’.
Eu levantava vôo rua acima.

E o pior, ainda era maio. Daí nem li mais nada, liguei pro caos e falei que tinha um presente para lhe dar. Marquei com ele no Parque da Barragem, tava afim de tomar um banho de rio. Depois de matarmos uma garrafa de Velho Barreiro e comer uma porção de ovo cozido, tivemos o sexo de despedida dentro do carro mesmo, lhe entreguei o presente e fiz uma dedicatória bonita. Creio que o caos saiu um pouco confuso do encontro, tudo tinha sido tão tranquilo e bom, por que não continuar? Bom, eu sei que eu não queria que monitores voassem em minha cabeça novamente. Ele me pediu para tirarmos uma foto. No outro dia estava no blog dele, posto assim

Fugi do caos como o diabo da cruz depois daquele dia, não queria mais voadoras, monitores voadores, caminhadas de cueca ou sexo dentro de carros, fui seguindo na contramão do caos. Fui caminhando com essas pedras que se apresentam no meio do caminho e foi num dia bem tranquilo, que de repente, via sincronia do acaso, encontrei novamente o livro em outro sebo. Achei muita coincidência, parecia muito o livro dado ao caos, fui olhar a dedicatória e vi uma

"Poesia com cheiro de campo minha flor"

De fato não era a minha dedicatória, era de um “A.” para uma “flor”, assim, bem bonitinho. Enterneci na mesma hora e julguei possível o amor ainda. Acomodei-me nas antípodas do caos, planando lentamente até o banquinho do sebo pausando os olhos em

Um sonho

Eu tive um sonho esta noite que não quero esquecer
por isso o escrevo tal qual se deu:
era que me arrumava pra uma festa onde eu ia falar.
O meu cabelo limpo refletia vermelhos,
o meu vestido era num tom de azul, cheio de panos, lindo,
o meu corpo era jovem, as minhas pernas gostavam
do contato da seda. Falava-se, ria-se, preparava-se.
Todo movimento era de espera e aguardos, sendo
que depois de vestida, vesti por cima um casaco
e colhi do próprio sonho, pois de parte alguma
eu a vira brotar, uma sempre-viva amarela,
que me encantou por seu miolo azul, um azul
de céu limpo sem as reverberações, de um azul
sem o z, que o z nesta palavra tisna.
Não digo azul, digo bleu, a idéia exata
de sua seca maciez. Pus a flor no casaco
que só para isto existiu, assim como o sonho inteiro.
Eu sonhei uma cor.
Agora, sei.

Lindas letras pretas que no branco do papel marcavam paz como lépidos lápis colorindo um borrão calmo de alma pós-caos. Segui o corão poético, assomado pelos contornos que poderiam se abater em mim e me fazer ver metáfora plena: eu lançado a alguém que nunca soube minha presença que estava

A meio pau

Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
– coisas que não dou a qualquer pessoa –
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que que há durão, mal de chagas te comeu?
Não, ele disse: é desprezo de amor.

Com aquela minha distância tão intravenosa, dei a paga em reais justos pelo livro e saí a rodar coletivamente em busca de minha casa. Cada verso que lia, me acomodava em paz e mediação, coisas que haviam se fiado ao custo das apostas, de pagar pra ver: o caos, as voadoras, as coisas voantes… Quando desci do coletivo logo vi

A casa

É um chalé com alpendre,
forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de natal com neve.
Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de lâmpada atravessando o vidro,
um noivo que ronda a casa
– esta que parece sombria –
e uma noiva lá dentro que sou eu.
É uma casa de esquina, indestrutível.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo,
as torneiras jorram,
eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
Não fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma idéia de exílio e túnel.

Quanto mais eu lia Adélia, mais me invadia aquela sensação de que sim, o encontro já deveria ter ocorrido há eras. Talvez até, já tivesse se dado, só não tinha me atinado. Dentro de tanta informação, como lidar com o que realmente importa e te transporta para um porto mar aberto à beleza? Afinal, quando se apanha esse corpo da tarde, triste que dá dó, mas cheio de uma esperança brejeira, de uma calma consoladora, é que você percebe que só precisava disso na barra de algum

Dia

As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
– ia dizer imoral –
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.

Aquele maio, quando vi que não precisava do caos, e compreendi que diverso mesmo é esse

Objeto de amor

De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.

resolvi que não adiantaria esquentar-me com os revezes, com as quantidades e a direção dos fluxos – mesmo que amorosos: eles me arrebatariam a qualquer momento. O imponderável e o inominável se cruzariam sempre e diuturnamente na minha cabeça. Mas, se diante da vastidão do que te apresentam, o amor se infiltra personificado e ainda cria nascente no solo da alma, como creditar que a variação é a máxima do que se precisa? Adélia me abriu a proposta que, mesmo no amor máximo, menos pode ser mais, calma e densamente como em um

Pranto para comover Jonathan

Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.

 

Ah, só ia me esquecendo de um detalhe, nunca, mas nunca mesmo, pare para ouvir o que Adélia tem a dizer sobre a moral e os bons costumes… Sério.

PS: Adélia sempre foi mais que matéria poética, sempre me foi inspiração:

1293. Adélia I / 1294. Adélia II / 1295. Adélia III / 1296. Adélia IV / 1900. Sem título

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pausa: Adélia Prado

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