De quando foi

Quando eu era criança, ou um pré-adolescente, ou um adolescente, ou um adulto (caso eu tivesse cometido algum crime segundo a moral geral da população nacional nos últimos dias julga), fui inculcado com uma coisa maluca na minha cabeça que dizia respeito a como eu deveria entender a religião na minha vida. Não sei por que cargas d’água e mesmo onde foi que entendi isso, aprendi que a religião era um preenchimento, era uma orientação, um horizonte dentro de mim que me abria para o mistério do divino. Por alguma sincronia do acaso muito estranha (talvez, mística), naquela época eu aprendi que etimologicamente a palavra religião tinha algo a ver com religar-se, seria tipo uma conexão com algo essencial dentro de si, algo que, na minha interpretação, sempre me levaria a um universo que não era da esfera de estar mera e fisicamente nesse mundo, nesse tempo.

Religião para mim não tinha função social, função econômica, função política, religião para mim, ao largo dos meus parcos 13 anos de então, tinha função em mim, por mim, dentro de mim. Provável que, por isso, comecei a abandonar o cristianismo católico que me havia sido trazido por tradição familiar. Recordo-me bem do momento do abandono do cristianismo católico: várias crianças (ou pré-adolescentes, ou adolescentes ou adultas e adultos) da minha quadra estavam frequentando as aulas de catecismo na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, a Igreja que ficava na entrequadra de onde morava.

Como muitas pessoas que eu conhecia estavam a fazer o catecismo, em prol de se imiscuir no mistério da primeira comunhão com o corpo e o sangue de Cristo, e havia ainda aquela garotinha a qual eu era muito apaixonado, resolvi fazer também. Frequentava as aulas todo sábado de manhã e era muito bom, sempre tinha um lanche nas casas em que seriam ministradas as aulas, a professora e o professor eram pessoas queridas, amigas e amigos ali estavam. Discutíamos a palavra de Deus, a Bíblia e outras coisas sobre a vida, sobre a moral, sobre os bons costumes.

A minha infância quase toda eu estudei em um colégio de freiras, chamado Jesus Maria José, e sempre tive aulas de ensino religioso, talvez por isso, eu fosse um destaque dentro das aulas de catecismo, sempre tinha a resposta na ponta de língua, até que um dia veio a pergunta derradeira, feita num momento em que estávamos diante do padre da igreja e não mais com nossa professora e nosso professor, ele perguntou enfaticamente: “Quem é Deus para vocês?”. Como eu já tinha respondido muitas perguntas, quase todas com as respostas certas, o padre me olhou logo após a pergunta, esperando que eu respondesse e – claro – que lhe agradasse. Daí veio a minha resposta carregada daquilo que falava que entendia por religião naqueles tempos:

“Padre, Deus é tudo.”

O padre deu um riso confuso, mas ainda terno, e entendeu o que queria entender da minha resposta, creio que ele foi numa pegada do tipo: “Padre, Deus é tudo NA MINHA VIDA”. Ele já estava pronto para inquirir outra pessoa, quando eu continuei, afinal, eu ainda não tinha falado tudo o que eu queria falar e tudo o que eu sentia acerca de Deus:

“Padre, Deus é tudo, entende? Está em todas as coisas, no universo todo. Deus é o universo. É a natureza, é tudo que tem de bom. Mas também é tudo o que tem de mau, porque Deus criou tudo, até o mal…”

O padre arregalou os olhos e me cortou decididamente, me interrompeu e disse que Deus nunca poderia ser o mau. Eu tentei interromper ele e dizer que o mal podia gerar o bem, mas ele não deixou e me passou um sermão demorado acerca de como o Diabo podia nos enganar com esse argumento e Deus só podia ser uma coisa: o bem.

Fiquei acuado e não falei mais nada durante as aulas seguintes, afinal, eu entendia e sentia tudo errado sobre Deus. As aulas foram seguindo até o dia em que eu tive de me confessar para no domingo seguinte receber a primeira comunhão. Estava meio desanimado com aquilo tudo, tinha levado um golpe muito duro. Quando fui me confessar, eu não sabia o que fazer, o que falar, durante todo esse tempo, o Demônio havia me enganado e eu não conseguia sentir que Deus só podia ser o bem. Fiquei achando que toda a minha existência era meio errada, porque sempre tinha sentido Deus daquele jeito, como não podia falar que toda a minha existência era um pecado, falei apenas que de vez em quando desrespeitava a minha mãe e meu pai. Ele me falou que era errado mesmo, e que eu deveria rezar alguma coisa, tudo muito desanimador.

No dia seguinte eu fui à primeira comunhão, todo vestido de branco, os cachinhos tinindo, um rosto calmo e provavelmente angelical (se eu fosse loiro, certamente seria angelical). Esperei apreensivamente a hora de receber o corpo e o sangue de Cristo consubstanciados naquela hóstia. Vi colegas ajoelhados após receber a hóstia aos prantos, felizes, intensos. Eu recebi o corpo de Cristo com a mão esquerda para colocá-lo com a direita em minha boca, esperei a hóstia derreter em minha língua sem o mínimo sacrilégio de mastiga-la e aguardei o mistério penetrar o meu ser.

Aguardei.

Aguardei.

E nada aconteceu.

Achei meio tétrica a situação. Praticamente todo mundo chorava, menos eu. Disfarcei um pouco, fingi que chorei e fiquei ali, vazio, dentro da igreja, acreditando que eu estava abandonado por Deus, que eu não o merecia. Foi uma das maiores decepções da minha vida.

No outro dia eu acordei e olhei para o calendário com Cristo crucificado que havia no meu quarto. Olhei um bom tanto, não conseguia mais me comunicar com ele como fazia antes. Levantei, fui fazer a lição de casa para ir à escola na parte da tarde. Fui até a biblioteca de casa e peguei um livro de “grandes personagens da história universal” que tinha lá casa em casa para responder a uma das questões, era um dever de história. Abri o livro aleatoriamente e dei de cara com um dos “grandes personagens”, era Buda. Comecei a ler aquele capítulo por acaso, as imagens eram interessantes, havia uma que mais me fez ficar intrigado, era uma imagem de Sidarta Gautama, o sábio dos Sakias, impávido, contemplativo, enquanto diversos demônios voavam ao seu redor. O texto falava sobre como Sidarta lutava internamente contra Maya, a ilusão, aquela nos lança ao desejo. Fiquei impressionado com aquilo tudo e li todo o capítulo, esqueci-me até de fazer a lição de casa.

Algo ali me preencheu o peito, me preencheu algo que eu não tinha ideia do que seria, só sabia que preenchia. Era algo meu, que vinha a partir de outro mundo, de outro universo, de outro lugar de mim.

Nunca fui atrás do budismo de verdade depois daquilo, nunca mais fui atrás do cristianismo de verdade depois daquilo, mas uma coisa em mim continua certa, viva, acesa: religião pra mim não tem função social, econômica ou política, ela tem a ver com a minha relação com o mistério, com o místico, com o absurdo de existir, talvez, até com a beleza e eu a vivo todos os dias da minha vida desde então, sem templo que seja, sem sacerdotisa ou sacerdote que baste, ouvindo tudo o que vem, mas escutando aquilo que me toca e é melodioso dentro de mim.

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