3433. dor, em mil novecentos e noventa e nada

eu vi aquela dor passar
sorrateira, ao lado do teatro
foi absurda a cena
mas, eu vi aquela dor

era uma dor tal qual uma de
mil novecentos e noventa e nada,
cabisbaixa, tímida e sutil
centrada na fuga, incólume
benfeita e regozijada
pela música sinfônica
tida ainda há pouco

eu vi aquela dor e
foi maluco
era como se fosse uma dor
encaracolada,
serpenteando transeuntes
ao largo da rodoviária

era como se fosse
uma dor de quando
não havia metrô,
esperando o 385,
p-sul – p-norte

eu vi aquela dor
se assentando
em um corpo parco
semi-esquálido, pouco
sentindo o peso de tudo
desabar naquela superfície
desejosa e casta
perdida, pura

eu vi aquela dor catando
metáforas, enquanto,
quem sabe, o mundo não
a notava

o dia já passava do alaranjado
quando eu vi aquela dor
e a vi com aqueles dois
olhos profundos,
envoltos num poço escuro
de poucos sonhos
mas, pelo menos,
a dor que eu ali vi,
ainda sonhava
cheirava àquela matéria
quimérica que se quer plena
que enamora almas
e que se faz morada até
nos panos postos pelo corpo

era uma dor gatuna
sorrateira, reticente
mas bem doída
e um tanto doida

eu vi aquela dor
e agora queria que
ela me habitasse,

como eu,
perdido na rodoviária
em mil novecentos e noventa e nada

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3433. dor, em mil novecentos e noventa e nada

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