pausa: ela (parte I)

De todas as coisas, a que mais me toca é provavelmente a música. De certo que foi ela que me demoveu às palavras. Foram elas, as cantadas que me sortiram a cabeça de enternecimento. Foi a música a culpada. Ela e meu peixes na Casa 1. Algumas das memórias mais antigas que tenho estão relacionadas a ela. Lembro-me da vitrola lá em casa, os vinis escutados atentamente, os infantis com histórias de Mágicos de Oz, porquinhos, lendas, cantigas de roda, várias feitas de infância contadas e cantadas. Sempre as adorei:

Depois veio o acometimento das músicas de gente grande, tudo graças à minha mãe: Caetanos, Cantorias, Gilbertos, Gals, Marias, Quintetos, Rauls, Cazuzas, Chicos: quando a Roda-Viva começava a rodar, eu rodava e rodava e rodava na sala, até tontear, deitar e olhar o poste pela janela imaginando que quando rodava e deitava no chão, eu conseguia perceber que a Terra girava, e ela girava. Nas voltas do meu coração:

As músicas sempre estavam a me margear a cabeça, a me compor a alma, os ânimos, o meu eu. Lá pelos dez, onze anos, uma das que mais me tocava era essa do Cazuza e Angela Ro Ro:

Era denso, era forte, era estranha a sensação. Um medo do profano, um receio do que se passava no além, de quais seriam os projetos do além, era uma tristeza e uma certeza de si. Escutava várias vezes, com a cabeça enfiada dentro do buraco reservado para a caixa de som da estante de compensado. Essa faixa é furada nesse vinil que ainda hoje tenho.

Na mesma época, outra que me tocava absurdos, era essa do Raul que vinha toda melodiosa, calma, esperançosa, como algo que fosse se conhecer, se achegar, ainda que fosse de noite:

Daí eu fui ficando mais “velho”, e ao mesmo tempo começando a me dedicar às músicas da moda, ao que tocava nas FMs da vida, na Rádio Cidade. Fase em que eu ainda não era eu, ou que talvez eu tinha perdido o meu eu, para um eu coletivo que, sinceramente, dispenso. Ainda bem que durou pouco tempo. E logo fui novamente ao encontro do que me tocava de verdade. Com a ajuda de minha irmã e do meu irmão. Tudo bem que eram música um tanto agressivas, um tanto conturbadas, mas me ajudaram a perceber o que eu gostava de verdade. Encontrei nas minhas memórias essas duas, a primeira, fruto da minha irmã e a segunda, oriunda do meu irmão:

Não coloquei os trash-metals, punk-rocks, hard-cores, rap-cores, raps racha-cucas e afins que na época me tocavam muito, principalmente para descer a ladeira da Feira do Produtor de skate, porque eles não me tocam muito hoje em dia, ainda gosto de uma coisa outra, mas, enfim, foi-se uma época. A musicalidade dessas duas aí de cima, ainda me tocam, me marcam, me equacionam de alguma forma.

Mas desde aí eu comecei a ser eu um tanto mais. É claro que sempre imiscuído por essas três figuras – mãe, irmã, irmão -, mas já dotado de uma individualidade nova, própria de quem tem os seus quinze anos. Foi aí que eu comecei a me hippieorongar por conta própria, costurar “pizzas” nas minhas calças para deixá-las boca de sino e me aventurar pelo macramê, imaginando paisagens como essa:

Ansiava por lábios cor de açaí, céus azuladamente celestiais, trens e mais trens:

Atravessando brasis, regiões. Tudo era ansiado, era quisto. Ainda que do alto da minha impávida condição de menor de idade, tudo o que me restasse se resumisse a uma vitrola e um quarto, sós:

Tentando falar com alguém, sem coragem para o quê ou mesmo quem. Rabiscando palavras em cadernos e mais cadernos. Querendo algo sem saber. Sozinho, no escuro do quarto. Com algo preso na garganta, para ninguém:

E depois das explosões, só nuvens negras:

E me ilhava, só, sem ninguém. Durante muito tempo foi assim. Durante um longo, longo, tempo. O pode-crerzismo ainda persistia, mas eu, então, já com a cabeça contaminada por Carlos Castañeda, me atinei que, talvez, mergulhar em outros universos fosse a solução para sair da fossa de amar não amando. E me debandei para o misticismo nordestino de cabeça:

Durante um tempo, a psicodelia foi a minha salvação. Os universos paralelos, os seres siderais, os deuses astronautas. Era tudo o que eu podia ansiar, visto que o amor trafegava léguas de mim. Fui ruralizando um tanto, só pensando na minha casinha no campo:

O diabo é que faltava a tal da Rosinha. E quando eu menos esperava, já estava, de novo, com o amor nas têmporas e ouvidos. A sorte foi que naquele momento, enfim, apareceu um alguém do outro lado para ansiar alguma resposta. Que nunca vinha:

Isso que foi o que se sucedeu comigo até completar os meus 17 anos. Ano de 1999. Um tanto com ela, um tanto por causa dela, a música. Pra lembrar o que se passou nos 2000, tenho de fazer um esforço maior. Porque aí já tinha mp3, muitos amores, muitas dores e um sem fim de trilhas sonoras para cada momento da vida…

Anúncios
pausa: ela (parte I)

3 comentários sobre “pausa: ela (parte I)

Diga

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s