pausa: Ana Martins Marques

Há momentos em que estamos mal. E isso não é necessariamente um problema. Afinal, o que é estar bem? Há uma questão de definição aí. Uma questão ontológica. Axiológica, também, sem dúvida. Há também um problema cultural aí. Histórico e cultural, do rol da domesticação dos sentidos, dos sentimentos, mesmo até dos afetos.

Volto, então, à pergunta: o que é estar bem? A nossa educação sentimental, tão pouco falada, mas tão tanto empreendida, é possivelmente a culpada para que encontremos elementos poucos para informar o que é estar bem e ao mesmo tempo, elementos todos para definir o que é estar bem. Não vou me atrever ao desgaste da atividade, que julgo improfícua, neste momento. Prefiro que pensemos naquilo que nos demove a identificar o que é estar bem para uma pessoa.

É claro que sei que alguns elementos são imprescindíveis para se estar bem, como o conforto material, não estar com fome, o conforto físico, estar saudável… enfim, é um sem-fim de coisas que poderiam nos afetar como imprescindíveis ao estar bem. Mas percebemos que, mesmo estes elementos, são relativos e contextuais. Há quem esteja muito bem sem comer nada há mais de um ano e com o braço esquerdo levantado sem repouso há pelo menos dois. Há. E estão bem.

Então, o que é estar bem? Tudo bem, devo situar o meu discurso, falarei desde este lugar “ocidental” – à revelia deste nosso sul-ocidentalismo-afro-ameríndio, mas ainda assim, ocidental, como tudo o que se globaliza. Assim posto, conduzo a argumentação, me utilizando da nossa educação sentimental cotidiana para abordar o tema.

Como nossa educação sentimental trabalha com a percepção de estar bem conosco? Ela opera em diversos sentidos, com as mais variadas facetas e os mais variados modos de se apresentar. Uma novela, um ditado, uma história, um fato, um livro, uma música, um comercial, enfim, qualquer narrativa carrega, em si, uma forma de se pautar o que é estar bem. Claro que sempre trabalhando com o contraditório: nos apontando à face o que é estar mal.

Somos massacradas diariamente com uma educação sentimental que domina nossos horizontes de escolha e diminui nossa margem de possibilidades. Educam-nos, por exemplo, que estar bem é ter um emprego, que estar mal é ser desempregado. Educam-nos, também, que estar bem é ter um amor, estar mal é não ter um amor. Educam-nos, ainda, que estar bem é ter bens, estar mal é não ter bens. Educam-nos, por pressuposto, que estar bem é ter uma vida sexual ativa, estar mal é não ter uma vida sexual ativa. Educam-nos, disso exposto, que estar bem é ter saúde, estar mal é não ter saúde. Mas estas definições podem ser vinculadas a argumentos negativos, como, por exemplo: estar bem é não usar drogas, estar mal é usar drogas. Enfim, estar bem é amplo pra caralho. Estar mal, também.

Eu por exemplo, julgo que não estou bem, logo, sinto que estou mal. São condições excludentes, aparentemente. Aparentemente, porque, às vezes, coisas inexplicáveis ocorrem, como saber-se bem e mal ao mesmo tempo, ou bem em estar mal, ou mal em estar bem, dando coesão a incoerências, é como seu próprio nome:

Impresso
como parece estranho
o mesmo nome
com que te chamam (MARQUES, 2015, p. 14)

É estranho mesmo, sentir-se mal e pensar-se bem ao mesmo tempo. É uma incompreensão textual e de sentidos. Coordenada. Interna. Dentro de si. No caso, dentro de mim. Dispor disso é difícil, estabelecer prumo do que ocorre é quase impossível. Dada a nossa educação sentimental que impede a coexistência de contraditórios – quiçá de paradoxos! –, é tarefa inglória tentar traduzir o que se passa de um modo que não leve em conta a forma única que te – me – ensinaram a traduzir os sentimentos: ou se está bem ou se está mal. Impossível uma outra Tradução, como n’

Este poema
em outra língua
seria outro poema
 
um relógio atrasado
que marca a hora certa
de algum outro lugar
 
uma criança que inventa
uma língua só para falar
com outra criança
 
uma casa de montanha
reconstruída sobre a praia
corroída pouco a pouco pela presença do mar
 
o importante é que
num determinado ponto
os poemas fiquem emparelhados
 
como em certos problemas de física
de velhos livros escolares (MARQUES, 2015, p. 22)

Nestas horas em que o corpo – alma talvez? alma também? alma além? – não consegue encontrar limite específico para traduzir o que se passa dentrures, não resta muita coisa a se fazer, a não ser sentir, pensar e tentar continuar a construir uma possibilidade que seja distinta do que a educação sentimental – panaceia – nos aponta. Nestas horas, busca-se – busco – um Esconderijo, em que se possa atrever palavras que possam dizer – mesmo caladas – o que ocorre interno:

Estas são palavras que eu não
deveria dizer
 
palavras que ninguém
deveria ouvir
 
que elas permanecessem no silêncio
de onde vêm
 
no fundo escuro da língua
cheio de doçura e ruídos
 
com o ranço informulado
dos segredos
 
por via das dúvidas escondi-as aqui
neste poema
onde ninguém as vai encontrar (MARQUES, 2015, p. 26)

Eu-poema. Disfarçado o sentido do que não pode o conter, escondido dentro do que se precisa para; resulta ainda, outro problema, oriundo dos acasos que não cessam e que destroem toda a tentativa de massificação da educação sentimental possível. Quando estar bem e estar mal se encontram, com hora marcada:

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam (MARQUES, 2015, p. 40)

Nesses momentos de encontros inusitados, que se processam à revelia do que se espera, que deixam um gosto de anormalidade em si tão prazeroso, é que se entende que as coisas são mais esdrúxulas do que se imagina, e que ter-se em si de modo vário e deseducado sentimentalmente, é estar bem, mesmo se estando mal, como:

As casas pertencem aos vizinhos
os países, aos estrangeiros
os filhos são das mulheres
que não quiseram filhos
as viagens são daqueles
que nunca deixaram sua aldeia
como as fotografias por direito pertencem
aos que não saíram na fotografia
– é dos solitários o amor (MARQUES, 2015, p. 60)

Daí se transforma em cinza, uma mediação entre o branco e o preto. O preto sendo o ápice de estar bem e o branco sendo o cume de estar mal. E tons cinzas pincelando a sua anormalidade emocional. O foda, é que

Ainda é tarde
para saber
 
Ainda há facas
cruas demais para o corte
 
Ainda há música
no intervalo entre as canções
 
Escuta:
é música ainda
 
Ainda há cinzas
por dizer (MARQUES, 2015, p. 65)

No fim, não dá pra saber muita coisa. Isso tudo posto é apenas um apanhado de impressões de quem não gostaria de se definir decididamente entre uma coisa ou outra e que não só não gostaria como tampouco consegue, não apenas por força de intento ideológico, mas por defeito de fabricação genuíno. Redundo, então, afinal: O que eu sei?

Sei poucas coisas sei que ler
é uma coreografia
que concentrar-se é distrair-se
sei que primeiro se ama um nome sei
que o que se ama no amor é o nome do amor
sei poucas coisas esqueço rápido as coisas
que sei sei que esquecer é musical
sei que o que aprendi do mar não foi o mar
que só a morte ensina o que ela ensina
sei que é um mundo de medo de vizinhança
de sono de animais de medo
sei que as forças do convívio sobrevivem no tempo
apagando-se porém
sei que a desistência resiste
que esperar é violento
sei que a intimidade é o nome que se dá
a uma infinita distância
sei poucas coisas

Sei que esse livro mesmo me pegou assim: estando mal, estando bem. Ou estando bem, estando mal. E me deixou muito bem. Embora eu continue mal. Porque este é um livro, que em si, já é

capa123

A gente vai se parecendo a cada poema.

BIBLIOGRAFIA:

MARQUES, Ana Martins. O Livro das semelhanças. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

PS: Uma Ana Moura, só pra corroborar a coisa:

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pausa: Ana Martins Marques

6 comentários sobre “pausa: Ana Martins Marques

  1. Excludentes só na aparência mesmo. Numa analogia sem vergonha com o Nassar poderíamos dizer que em todo estar bem há uma semente de estar mal, assim como em todo estar mal existe uma poderosa semente de estar bem. Mas há a palavra. E o foda é que nessa metafísica toda de estar assim ou assado, ela precede tudo. Mesmo quando não vem/sai. Daí que no teu estado mal/bem bem/mal olha só quem te pegou… Bom, fato é que ela expande toda verossimilhança. E esta provavelmente carrega boa parcela de culpa nessa coisa toda. Gosto da sua escrita Guilherme.

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  2. Será que nós, seres afetos às palavras, possivelmente mais do que alguns outros, carregamos esse fardo da inadequação sentimental? Ou não, é apenas uma constatação boba? De todo modo, tua escrita me promove uma identificação absurda, tal qual ocorreu com a Ana Martins Marques. Gosto das tuas vistas dos pontos.

    Curtido por 1 pessoa

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