Da loucura

Sempre gostei de caminhar, muito, mesmo. Desde moleque, adorava fazer caminhadas com minha mãe, ao longo da avenida, escutando as suas lamúrias, queixas, projetos e pequenas alegrias, algumas lembranças, memórias de sua terra, de seu tempo de garota. Ela caminhava por hábito de saúde, para conseguir emagrecer, para melhorar a circulação das pernas sempre cansadas devido ao ficar em pé, aulas e mais aulas infinitas. Adorava caminhar também com meu pai, seu silêncio reflexivo, sempre imerso em um mundo seu, nas suas noias, seus problemas, seus quiproquós criados por questões sexuais para quem nunca falava – só para si. Era um caminhar contemplativo e depressivo ao mesmo tempo. Sempre com alguma finalidade: comprar algo, pesquisar o preço de algo, ir a algum lugar, tudo bem rápido e mecânico. Mas ainda assim, gostava dessa caminhada.

Ainda hoje caminho, muito. Para fazer de um tudo. Mas a melhor caminhada é essa dos fins de semana, em que misturo as duas andanças feitas por minha mãe e meu pai: a revigorante da saúde e a objetiva de afazeres para o lar.

Gosto de caminhar aqui no meu bairro, são vistas que reconheço desde a infância, à revelia de todas as transformações da paisagem que possam ter se efetivado nessa porção do espaço. Nesse meu andar, vejo ainda pessoas do tempo de menino, o Edu da barbearia, o Joaquim da vendinha, a Lia da igreja, o João da agropecuária, a Conceição do salão. Mas existe uma figura que sempre avisto, e o desde quando se perde na memória num longe muito. Andando hoje, eu a vi.

Ela se chama Dona Testa. Quando da infância havia um conflito sobre o correto nomear dessa pessoa: Testa, Terta, Téta, Treta. Ninguém sabia ao certo, ou cada qual achava que seu modo era o certo. Eu pertencia a quem tomava por partido que era Dona Testa, desde sempre, óbvio. Dona Testa sempre fora uma velhinha na minha cabeça, tiazona negra, magra, bem magrinha, miúda até não poder. Cabelos brancos desde que me entendo por gente, sempre com uma roupa desgastada, puída; saia e camiseta surrada. Andava sempre com o braço direito meio que segurando o esquerdo e de tempos em tempos tinha uma espécie de tipoia apoiando o lado canhoto.

Dona Testa não falava muito, mas quando se a ouvia resmungando, falava coisas que para nós eram desconexas, palavras soltas, coisas aleatórias, parecia não haver contexto algum. Sempre ficava à caça de bitucas e quimbas de cigarros pelo chão, mas não os fumava, apenas os procurava e saia com eles nas mãos. Não sei se os comia ou se apenas limpava o chão, mas fazia isso sempre.

A molecada tinha algum medo dela, não muito, pois ela mesma não fazia nada, quase nunca revidava as inserções agressivas das crianças, sempre parecia passar incólume, dentro de si mesma, num mundo que ninguém ali sabia do que se tratava.

Dona Testa não era a única “doida” da vizinhança – título que dávamos a diversas figuras que ali moravam –, havia também o Zé Doido, ou Zé da Lua, como por vezes era tido. O Zé era uma figura sui generis, um sujeito amorenado, com os olhos puxadinhos, sempre com um quase cavanhaque, uma cara redonda e gordinho. Parecia meio chinês, mas hoje, pensando bem, ele tinha muito mais cara de mexicano do que de oriental. A doideira dele se manifestava de outo modo, era estática. Ele ficava sempre parado, uma das pernas levantada, equilibrando-se apenas em uma, com os braços estendidos e tesos para os lados à altura dos ombros. De quando em quando, trocava de perna, em busca de novo equilíbrio e algum descanso. Batia corriqueiramente palmas e falava coisas muito estranhas, não para dentro como Dona Testa, mas para fora. Falava sobre a lua, sobre algo que viria e parecia sempre meio que captando energias do sol e, quando de noites de lua cheia, dela.

Ele era do revide, se alguma criança arteira viesse puxar-lhe o boné que quase sempre usava, ele corria atrás batia e xingava a peste. Zé Doido não levava desaforo para a casa e tampouco deixava que lhe tirassem de seu contemplativo e singular tai-chi diário. Um tanto mais próximo ao Zé, eram os dois irmãos que moravam no conjunto G, um bem alto, troncudo e o outro mais baixo, gordinho. Ambos de bigode. O maior era mais agressivo, o menor um pouco mais calmo, mas mais chorão. Eram mais velhos, deviam ter seus trinta anos já, mas tinham um comportamento infantil, brincavam de bola os dois e falavam coisas de criança, com um tom de criança. Viviam sempre dentro de casa, quase nunca saiam para a rua, creio que porque eram meio agressivos com outras crianças.

Moravam em uma casa murada na frente, o que era bem raro até então. A maioria das casas tinha portão na parte da frente, com jardim e plantas. Essa coisa de muros e cerâmica é moda do final dos anos 1990, antes disso não, a moda era ter vida para além dos seres humanos e dos humanos caninos e felinos que habitam as moradas. Na mesma rua, havia o garoto com síndrome de down que morava um pouco mais à frente. Sempre risonho, sempre com vontade de brincar com a gente, mas quase sempre aprisionado em sua casa. Tinha um ar triste, mas feliz ao mesmo tempo. Penso que vivia dentro de si num mundo à parte, louco por experimentar o outro lado, sabedor de que não havia problema algum para a sua presença em qualquer outro lugar, mas que ficava ali, estigmatizado por conta de alguns genes que resolveram se diferenciar da média corriqueira das demais pessoas.

Essas pessoas eram algumas das ditas “doidas” que viviam na minha quadra, mas se percorrêssemos as quadras vizinhas era uma nova sorte de sujeitos desajustados com o que deveria ser o “normal”. É claro que se fizéssemos uma avaliação detida sobre a maior parte da molecada que colava com a gente, hoje em dia quase todas seriam diagnosticadas com algum transtorno, hiperatividade, desvio de atenção, sei lá mais o que. Tinha o Divino, completamente amalucado, que tinha por mote ir para a Barragem só para brigar com pessoas, havia o Herbert que gostava mesmo era de tacar pedra nos telhados alheios, só por ouvir o barulho da pedra nas telhas, tinha o Alan, que gostava de falar sobre masturbação para quem quer que estivesse por perto, sem filtros, além de curtir um gato novinho no espeto, tinha também o Maurício, daqueles que se tinha por dito que enlouquecera “de tanto estudar” – embora, houvesse quem falasse que ele era doido por “tomar Diazepam com pinga”, vai saber… Enfim, havia muitas loucuras distintas, eu mesmo estaria, sintomaticamente, dentro do espectro dos transtornos bipolares, sempre tido como no mínimo “esquisito”.

Caminhando hoje até o Centro, até a Casa de Yemanjá, atrás de umas contas de Oyá para minha companheira, andando para pegar um sol e processar vitamina D, passo leve para conciliar o todo do corpo com o estado da alma, respirando profundamente e escutando o novo disco da Céu, encontrei Dona Testa, em sua andança de sei lá onde para não faço ideia de até quando. Carregava sua loucura como sempre, dentro de si. Desapressei mais o passo para que pudesse acompanhá-la um pouco mais, trazendo comigo esse mundo todo de desde criança, essa proximidade com a loucura sempre dada, sempre possível.

Na altura do Tatico nos desencontramos, continuei meu trote solitário, com o caos e o cosmos aqui dentro e por todo fora. Imergi em mim nessa imensidão de céu que se tem nessa cidade, em meio ao pó do barro vermelho e solto que a memória dos meus pés nunca se esqueceu. A mente inquieta, a espinha quase reta e o coração, tranquilo. Certo de que a loucura é um estado de espírito de quem tem um mundo outro dentro de si. Caminhei.

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