3699. O Teu Canto

Retalha-me a pele, tatuado auto-relevo,
corta-me o espírito em três, mas
continue o canto.

Não me negues a nota
o ar que dança ao teu movimento,
a boca que trisca o céu
e em som se faz,
as mãos que ondulam
mares em meus ouvidos.
Ou me negue.

O mundo se arruína em degredos.
Sempre volto com a alma em frangalhos
quando me aventuro em seus labirintos
– essa infinita mudança prostrada,
mas quando o teu canto atravessa
espaços e me traz paisagens
estelares em manhãs douradas,
pulso vida aberta.

Mas não é amor, é flutuação
e claridade que estonteia
em mim teu canto, sem a face
dos grilhões debaixo da terra
a surgir flores carnívoras.
Canta, porque teu canto será para o mundo
esmaecendo a dor.

Em meio aos vales ecoantes,
o teu canto não deve nada
será canto e doçura,
estação precisa dentro do ano,
para desabrochar flores,
cair folhas, chover mares,
chorar frios e calores.
Será teu canto.

Canta o escuro,
a brisa, a bruma,
canta as cidades
os rios e as pessoas,
canta tua vida
pra mim que não te ama,
para o universo que te faz
e já te refez
indo e vindo nas mesmas forças,
feitas de cantos,
como o teu.
Destroça-me as partes,
todas e de além,
e teu canto também
se quiseres,
porque ele é teu.
 

Mas lhe peço humildemente,
continua o canto.

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3699. O Teu Canto

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