4138. Amanhã

E se eu estivesse só,
o que eu faria?

Deixaria para um eterno amanhã o que fazer?

Correria para o sofá numa ansiedade regada
a youtube e falta de pegada?

Insistiria na toada da insignificância
própria e desalentaria minha alma sucumbindo
até não conseguir concentração até mesmo para um filme
com a cabeça dividida entre mil diálogos imaginários?

Ou cederia a ir para uma punheta afobada
um programa da tv à cabo, um sonho de padaria
e uma esfirra de calabresa, até a azia dilaceradora
do corpo paralisadamente movente de tremores
e pensaria: amanhã, amanhã tudo muda,
correrei
tocarei violão
farei barras e paralelas
serei solteiro e ético
comerei vegetais
iniciarei a revolução
me desobrigarei da perfeição
meditarei
entrarei em contato com velhos amigos
e terei conversas significativas e profundas
treparei despretensiosamente e com responsabilidade
amarei
e serei lembrado como o não lembrado para sempre.

Amanhã, que vive nesse eterno agora a me rondar.

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