Adágio para ela

Há meia hora de espera em cada minuto. Chega aos tímpanos o movimento do ar vibrando notas velhas, gastas, usadas ao infinito, infinitamente plausíveis a esse momento, de um choro antigo que, carinhoso, afaga os cachos da espera. Cada compasso é medido em cinco segundos e a música se maneia em uma presença absurda. A máxima constatação da presença. Duas horas de música em apenas quatro minutos. Ainda assim ela virá. Certeza.

Dobrando a esquina o nariz já se atina em compreender o mistério do ar envolvente que exala de cada poro de seu corpo. Ela vem perfume em flor. Ela vem flor. Vestida de primavera, tomara-que-caia, tons verdes rosas. Ela e seu vestido são uma só. Já se sabe disso desde antes de duas horas atrás. Cada leve movimento seu e de seu contíguo verde-rosa vão par-e-passo com o ar, com a vibração em ondas do ar, como se aqui mesmo houvesse mar. Como se vento e mar fosse. Um maremorso ela é.

Agora já se vê de longe sua presença. Close em suas panturrilhas arredondadas e duras. Close em sua nuca. Chega ao apogeu o segundo movimento da sinfonia. As batidas são mais lentas, o compasso é mais demorado, a bateria chia como se ovos fossem fritados em uma frigideira num dia ensolarado de domingo pela manhã cedinho. Close em seu olhar. Seu olhar demora pelo menos cinco dias. Cada piscada é a fotografia do infinito. Ela retira a franja da testa, movimento único de mãos, corpo e cabelo. Ela. É. Toda. Uma.

Sua silhueta se move cadente. Candeia como se estrela fosse. Estrela que é. Pelo menos dez planetas giram agora ao seu redor e mais algumas centenas de cometas e mais alguns milhares de meteoros e mais um infinito ao seu redor. Como se céu fosse. Como céu que é.

Nada profana seu corpo. Nenhum adereço. Nenhum retoque. Nenhuma profanação. Tudo como sua intervenção em sua natureza disse que deveria ser. Tudo como deveria ser. Tudo como a é.

Já era prevista a sua chegada. Dez minutos atrás, em fato, duas horas e seis minutos atrás, o bar calou. Tudo serenou. As pessoas ficaram em estado de ar, de mar, de movimento de brisa. Quando ela chegou, o bar parou. O som não pôde parar, teve que se contorcer para fazer valer a sua presença com a presença dela, teve que se retorceu e se virou do avesso até que o piano conseguiu marcar compasso, levando pérolas aos poucos, ao mar.

Reles mortais tentaram uma aproximação, mas quando próximos ela virou um vulcão em lava que cobria tudo, preferindo a solidão. Sentada em frente ao balcão, copo de Martini na mão, ela acendeu um cigarro como se não houvesse solução e nem mesmo problema, e nem mesmo questão, quiçá resumo houvesse, mas ficou só a constatação de que ela fumava um cigarro e, ainda assim, tinha em flor o hálito.

Quando a banda parou alguns instantes, logo o bar se apressou em colocar alguma trilha sonora outra. Close no silêncio promovido pelo encontro do copo de Martini com a sua boca. Menino bonito, menino bonito. Ela repetia lentamente enquanto sua expirava a fumaça do cigarro. Menino bonito, menino bonito. Ela repetia com o olhar perdido no horizonte que começava e acabava com as grades da loja em frente. Ela ficava. Ela estava ali. Uma mulher teve um ataque cardíaco e um homem um ataque histérico quando entraram no bar e se depararam com ela.

Naquela noite, o bar ficou aberto e as pessoas em estado de alumbramento durante dez dias. Desatentos pensaram que foram oito horas.

Dizem que as santas exalam perfume de flores depois de mortas. Ela está viva.

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